Catherine
3 Capítulo III
Notas iniciais
Capítulo III
Já era bastante tarde quando regressei a casa depois da discussão que tive com o meu pai. Devo ter ficado umas duas ou três horas na casa de Nathan. Acabei até por jantar lá. Quando eu já me sentia mais calma, voltei para a minha casa.
Entrei e vi tudo muito calmo. No sofá da sala de estar estava Emery, que como sempre, lia uma das suas revistas de moda. Passei por ela sem a olhar sequer.
– Realmente tu és uma criança mimada... – Ela falou sem tirar os olhos da sua revista – Devias até ter vergonha.
– Cala a boca – Respondi friamente.
– Eu estou na minha casa, falo se eu quiser. Tu é que entraste e estragaste tudo... Estava tão bem sozinha com o teu pai... – Emery falava com um olhar repleto de ódio.
– Que eu saiba TU é que estragaste tudo... Se não fosses TU eu ainda estava a viver uma vida normal. Por isso agora vê lá se me deixas em paz... – Respondi novamente num tom frio.
Saí rapidamente de perto dela, evitando que ela me pudesse responder novamente. Estava prestes a entrar no meu quarto quando vi a luz do escritório do meu pai acesa. Ponderei por muito tempo se deveria ir lá falar com ele ou não. Mas achei melhor não. As feridas ainda estavam muito abertas, e provavelmente ainda iria piorar as coisas.
Deitei-me na minha cama. Estava exausta e no dia seguinte iria ter aulas. Mas eu estava a precisar de falar com a minha mãe. Peguei no meu telemóvel e comecei a digitar o seu número.
– Olá querida! – A minha mãe respondeu num tom feliz.
– Olá mãe... – Respondi, tentando esconder o facto de estava arrasada por dentro.
– Está tudo bem? – Perguntou.
– Sim, está tudo ótimo, e aí? – Perguntei sentando-me na minha cama.
– Também. Sinto muitas saudades tuas... A casa agora está sempre muito mais arrumada e tudo... – Respondeu rindo.
– Acredito... – Respondi sorrindo.
– E as coisas com o teu pai? Vão bem? – Ela tinha tocado na ferida. Mas eu não queria que ela ficasse preocupada por nada. Se eu lhe dissesse o que tinha acabado de acontecer, ela iria correr até aqui e provavelmente iria fazer algo que mais tarde se iria arrepender.
– Mais ou menos. Mas acho que vão bem encaminhadas... – Respondi forçando um sorriso.
– Fico feliz por ouvir isso... Bem desculpa, mas tenho que desligar... Até depois! Beijinho! – A minha mãe respondeu novamente com a voz animada.
– Beijinho... – Falei desligando a chamada. Novamente deixei cair o meu corpo na cama, ficando a olhar para o teto.
Ela era uma pessoa muito forte. Embora estivesse longe da filha que tanto amava conseguia estar igual como sempre. Eu sempre quis ser assim. Ela era aquele tipo de pessoa que nunca se abalava com nada, e estava sempre feliz. A sua alegria contagiava todos ao seu redor.
Fiquei bastante tempo assim, até que adormeci. Estava realmente cansada.
No dia seguinte acordei ainda com algum sono. Mas como era dia de escola, tive de sair da cama e preparar-me para sair. Tomei um duche rápido e vesti o meu uniforme. Como já era habitual preparei-me em pouquíssimo tempo.
Tal como nos outros dias, o meu pai já estava pronto, e Emery estava a assitir televisão. Entrei silenciosamente na cozinha, peguei numa fruta e saí tentando passar despercebida.
– Catherine, já estás pronta? – O meu pai perguntou olhando-me do interior da sala.
– Sim. Eu já vou indo... – Falei abrindo a porta da saída.
– Espera. Eu levo-te à escola... – Respondeu lavantando-se do sofá.
– Não é preciso, eu posso ir sozinha.
– Eu faço questão. Além disso precisamos de falar... – Naquele momento eu lembrei-me do que Nathan tinha falado sobre falar com o meu pai. Mas eu ainda não estava preparada.
– Depois... – Respondi saindo.
Novamente, o dia passou lentamente. Aquela escola tinha a capacidade de me fazer odiá-la cada vez mais. E para piorar a situação, eu não conhecia ninguém. Ficava todos os intervalos sozinha, e raramente saía da sala, já que não sabia lidar muito bem todos os olhares que caiam sobre mim. Os professores eram todos já idosos. Falavam sempre muito calmamente e explicavam as matérias de uma forma muito mais eloquente do que os da minha antiga escola.
Naquele dia eu também não teria aulas na parte da tarde, então, após a última aula saí para regressar a casa. Desta vez eu não procurei o meu pai, e segui caminho logo a pé, até que vi o seu carro estacionado numa vaga logo na entrada da escola.
Aproximei-me do seu carro e vi que ele fazia sinal para que eu entrasse. Assim o fiz. Entrei, e ele ficou a encarar o meu rosto durante um tempo, no entanto permaneceu em silêncio.
– Precisamos de falar... – Ele disse por fim, cortando o silêncio. Estava um ambiente pesado entre nós. Eu não respondi, limitei-me a ouvir o que ele tinha para dizer – Sobre ontem...
– Desculpa – Respondi sem o olhar, interrompendo o que ele tinha para dizer. Ele ficou durante um tempo a assimilar o que eu lhe tinha dito, provavelmente ele pensava que eu estava chateada com ele, o que não deixava se ser verdade, mas não pensou que eu lhe fosse pedir desculpas.
– Isso digo eu... Desculpa... – Respondeu depois de uns minutos – Eu não devia, aliás, eu não PODIA, dizer o que disse. Só queria que tu te sentisses feliz por estares comigo, e acima de tudo queria recuperar tudo o que perdi...
– Tu fizeste tudo errado. Tiraste-me de onde eu estava bem e mandaste-me para um lugar onde eu não conheço ninguém, tudo isso em prol do que tu querias... Não pensaste sequer naquilo que eu queria nem naquilo que eu achava que era bom para mim. Como se não bastasse mandaste para esta merda deste colégio onde todos me olham de lado. E para piorar, puseste-me debaixo do mesmo teto que a tua amante... – Respondi, continuando sem o olhar.
– Eu... Não sabia... Desculpa, por favor... – Respondeu num tom arrependido – Achas que ainda vou a tempo de me redimir?
– Não sei... – Respondi num tom baixo.
Eu realmente não sabia. Tinha-se passado muito tempo, e eu tinha sofrido muito por causa das suas atitudes idiotas. Eu precisava de bem mais do que uma casa bonita e uma escola boa para o conseguir perdoar. Essencialmente eu sentia falta de um pai. Um pai a sério. Coisa que ele nunca o fora. Sempre foi uma pessoa muito distante e eu nunca consegui falar com ele abertamente. Nunca o consegui ver como um pai a sério. E depois da minha mãe me dizer que ele a traía, aí tudo desabou. Desde aí eu passei a odiá-lo. No fundo eu sabia que ele estava arrependido. Eu sabia que as minhas palavras tinham despertado qualquer coisinha que fosse no seu coração. E eu esperava muito, recuperar o tempo perdido. Eu queria voltar a ter um pai. E acima de tudo, eu queria ter novamente uma família.
Fale com o autor