Catherine
4 Capítulo IV
Notas iniciais
Capítulo IV
– Então falaste com o teu pai? — Nathan perguntou, apoiando os cotovelos nas grades da varanda.
– Sim... — Respondi com uma expressão neutra.
– E como é que correu? — Ele perguntou olhando-me fixamente.
– Bastante bem... Acho que ele percebeu bem como é que eu me estava sentir. Agora vai tirar-me daquele maldito colégio e vai-me inscrever numa escola pública aqui perto. E talvez eu volte a viver com a minha mãe, se as coisas não derem certo... — Falei encarando as minhas mãos, que se encontravam pousadas nas grades da minha varanda.
– E onde é que vive a tua mãe? — Perguntou olhando-me sério.
– A uns 200 km daqui, em St. Antoine...
– Eish, isso é bem longe... — Respondeu erguendo as sobrancelhas — Eu não queria que fosses embora, mas também não queria saber que estavas a viver infeliz...
Sem que pudesse controlar, acabei por começar a sentir o meu rosto ficar quente, e as minhas bochechas a ficar vermelhas. Nunca ninguém antes me dissera algo daquele tipo, e a naturalidade com que ele o dizia, tornava tudo muito mais constrangedor. No entanto eu tinha gostado daquela sensação. Gostava de saber que havia alguém que realmente se importava comigo.
– Obrigada — Respondi, tentando esconder o rosto — Fico feliz por saber que te importas comigo.
– Sabias que ficas muito linda assim envergonhada? — Nathan ria de uma forma muito linda. Imediatamente olhei-o franzindo o cenho.
– Não tem graça nenhuma... — Respondi num tom de amuada.
– Tem sim — Ele ria descontroladamente.
Novamente Nathan fazia-me sentir coisas que eu nunca antes tinha sentido. Nunca antes ninguém me tinha dito que eu ficava bonita quando estava envergonhada, nem nunca antes alguém conseguiu deixar-me corada. Realmente ele era uma pessoa especial, e eu estava a começar a vê-lo de uma forma como nunca antes tinha visto alguém. Há uns dias atrás eu via-o como um autêntico estranho, mas agora, eu já o via mais como um amigo, um verdadeiro amigo.
– Pára! Estás a piorar a situação! — Respondi virando-me de costas.
– Pronto, pronto... Já parei... — Falou contendo o riso. Virei-me na sua direção e ele permanecia na mesma posição de antes.
– Melhor assim — Falei já menos constrangida.
– É verdade! Eu esqueci-me de te dizer... O meu irmão disse-me que estava apaixonado por ti... — Ele ria enquanto contava.
– O teu irmão? Aquele garoto que tu me apresentaste no outro dia? — Perguntei com a sobrancelha arqueada.
– Precisamente... — Respondeu.
– E ele tem quantos anos? — Perguntei ainda com a sobrancelha arqueada.
– 7.
– Oh meu deus... Ele não tem idade para isso! — Respondi chocada.
– Pois, mas tenta explicar-lhe isso a ele... Por mais que eu lhe diga, ele não quer saber. Diz que tu és a mulher da vida dele e que quer sair contigo... — Falou sorrindo.
– Sair?! — Respondi gritando.
– Isso mesmo... — Nathan caiu na gargalhada — Só de imaginar, uma criança com metro e vinte a sair com uma rapariga de 17 anos...
– Eu nunca iria aceitar! Ainda me chamavam de pedófila... Ai credo! — Falei chocada.
Ficámos durante um tempo a conversar quando me apercebi que estava a ficar tarde. Despedi-me de Nathan e entrei para o meu quarto. Tomei um duche um pouco mais longo do que o habitual e vesti uma roupa confortável. Enquanto escovava o meu longo cabelo castanho, dei por mim, a encarar o meu rosto no espelho. A analisar cada linha, cada imperfeição. As minhas sardas extremamente notórias na minha pele pálida davam um ar engraçado ao meu rosto. Sempre adorei as minhas sardas. Lembram-me da minha mãe. Ela tinha sardas também muito notórias, mas como ela era ruiva, sempre achei que combinavam muito mais com ela do que comigo.
Depois de um tempo, senti alguém bater na porta do meu quarto. Aproximei-me para ver quem era, e consegui observar o meu pai abrindo lentamente a porta.
– O jantar está pronto... — Ele falou sério.
– Já desço — Respondi olhando-o também séria.
Imediatamente, ele saiu e fechou a porta silenciosamente. Apesar de termos tido aquela conversa, o ambiente entre nós ainda estava um pouco tenso.
Rapidamente eu terminei de me preparar. Seguidamente dirigi-me até à sala de jantar. Pude ver que Emery e o meu pai estavam a discutir, mas assim que me viram pararam. Não sabia o que se tinha passado, mas algo entre eles não estava bem.
O jantar decorreu silencioso. Estava uma atmosfera bastante má entre nós. Emery e o meu pai quase nem se olhavam, e a loira oxigenada, dirigia por vezes olhares ameaçadores na minha direção. Ela odiava-me, e o que quer que seja que tinha acontecido, ainda tinha piorado mais a situação.
Depois de comer, subi até ao meu quarto. Não tinha vontade de permanecer muito tempo perto de Emery, já que ela parecia odiar-me cada vez mais. Deitei-me na minha cama e comecei a ler um livro. Desta vez era um livro de aventuras bastante interessante. Eu sempre gostei de ler qualquer tipo de livro, por isso eu adorava tudo e mais alguma coisa que se pudesse ler.
Ao fim de algum tempo comecei a sentir-me cansada. Pousei o livro na mesa de cabeceira e deixei-me cair no sono. Rapidamente adormeci.
No dia seguinte o sol brilhava intensamente, para contrariar um pouco o clima que se tinha feito sentir durante vários dias.
Desta vez eu pude vestir uma roupa normal, já que não teria que voltar mais para aquele colégio onde todos pareciam olhar-me de lado. Como eu nunca fui muito de me importar com roupas, vesti um vestido escuro e umas sapatilhas pretas. Aquela roupa acentuava ainda mais o facto de eu ser extremamente magra, mas eu não me importava.
Como eu não sabia o caminho para a escola, tive de ir de carro com o meu pai. Diferente das outras vezes, naquele dia eu não ia tão contrariada. A viagem não custou tanto a passar, e o ambiente estava um pouco mais leve.
Depois de uns 10 minutos chegamos ao nosso destino. Esta escola era bastante parecida com a que eu andava quando ainda morava com a minha mãe. Era grande e havia imensa gente tanto fora como dentro. As paredes pichadas, os armários riscados, as portas todas cheias de declarações de amor e assinaturas toscas. Tudo estava de volta ao normal. Os risos altos, as conversas bobas, os casais de namorados que se pegavam sem vergonha nenhuma. Tal como antigamente eu passava despercebida na escola. Ninguém reparava em mim. Isso era agradável. Eu estava habituada a viver assim, e era desta forma que eu queria continuar.
Ao fim de muito tempo a procurar a sala onde iria ter a primeira aula, eu finalmente a encontrei. Entrei e procurei um lugar vazio.
Como eu tinha perdido imenso tempo a mudar de escola diversas vezes eu estava completamente perdida na matéria. Iria ter de estudar bastante para poder recuperar, ou então poderia reprovar de ano.
A aula tinha passado normalmente. Exatamente da mesma forma como antigamente. Isso era realmente bom. Voltar às origens.
Depois da primeira aula, eu saí da sala e fui procurar o meu armário para guardar as minhas coisas. O corredor estava cheio de gente, e era bastante difícil caminhar por entre todas as pessoas.
Quando estava prestes a chegar perto do meu armário senti alguém puxar o meu braço. Virei-me imediatamente para saber quem era, e foi aí que vi Nathan, sorridente. Ele estava acompanhado por um grupo de rapazes com alturas muitos semelhantes. Todos eles tinham um corpo bastante trabalhado, o que dava a sensação de que eles pertenciam a alguma equipa de futebol ou algo do tipo.
– Olá Cath! — Ele falou assim que eu me virei.
– Olá Nathan... — Falei voltando a agarrar os livros que trazia nas mãos.
– Então agora andas nesta escola? — Perguntou.
– Sim... Eu não sabia é que tu também andavas... — Respondi surpreendida. Realmente era bom ter alguém conhecido na escola, assim eu não teria que passar o tempo todo sozinha como antigamente.
– É tua namorada? — Um dos rapazes que acompanhavam Nathan perguntou, apoiando o braço nos seus ombros.
– Não, mas nem penses em dar em cima dela... — Nathan respondeu com a mão esticada em sinal de ameaça.
– Pronto, está bem... — O garoto falou revirando os olhos — Sou o Lucas! Muito prazer — Ele esticou a mão na minha direção. Imediatamente Nathan dirigiu-lhe um olhar assassino.
– Ah... Igualmente... — Respondi sem saber ao certo o que lhe dizer — Bem, desculpem mas eu tenho que ir... — Falei tentando me afastar lentamente deles.
– Tudo bem... — Nathan respondeu pousando a mão no meu ombro — Até depois!
Pousei as minhas coisas no meu armário e comecei a separar o que eu iria precisar para as próximas aulas. Quando dei por mim, estava estacada em frente ao armário a pensar no que os rapazes tinham dito anteriormente. Nunca antes algum rapaz tinha demonstrado qualquer tipo de interesse em mim, mesmo que fosse apenas por brincadeira. E tudo isso devia-se a Nathan. Direta ou indiretamente ele tinha sempre algo a ver com o que acontecia de bom na minha vida. Todos os sorrisos, todas aquelas novas sensações. Tudo se devia a uma única pessoa, e ela era nada mais nada menos do que Nathan, um desconhecido que de um dia para o outro passou a ocupar um espaço enorme no meu coração vazio.
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