Catenae
3 Capítulo III: Somniator
Notas iniciais
Cherish the moment
Tower the skies
Don´t let the dreamer
Fade to grey like grass
No falling for life
A gain for every loss
Time gathered me
But kept me flying*
Um tempo demasiado longo se passou sem que August ou Ryan sequer mencionassem Emma. Muito em breve, eles sabiam, a vida os obrigaria a pensar no assunto novamente e, quando o fizesse, eles não teriam mais sequer um minuto de paz por um longo período de tempo.
A qualquer momento, eles sabiam, o relógio voltaria a se mover na cidade onde todos os habitantes do antigo mundo deles se encontravam – cidade essa que haviam visitado apenas uma vez, anos antes, às escondidas. Haveria um sinal, os dois amigos estavam certos disso.
Eles não esperavam, entretanto, por aquilo.
Certa manhã, August acordou em profunda aflição. A princípio, achou que era conseqüência da quantidade de álcool que ingerira na noite anterior. Depois, entretanto, percebeu que não podia ser aquilo, pois a dor estava localizada em sua perna esquerda, não na cabeça – como era mais usual após noites como aquelas.
Sentindo alguma dificuldade, ele se sentou na cama e tirou a meia. Teve que conter o próprio desespero diante do que viu: as pontas dos dedos de seu pé haviam voltado a ser de madeira, e isso já se espalhava em direção ao seu pé.
Aquele era o sinal pelo qual esperavam? August cerrou os dentes com força enquanto uma nova onda de dor o atingia e observou todos os dedos de seu pé voltarem ao seu estado natural: de madeira. Seria aquele o seu fim? Ele morreria como um boneco de madeira sem sequer rever Emma e ter a possibilidade de ajudá-la?
Da mesma maneira súbita como a dor começou, entretanto, ela parou, e August deixou escapar um suspiro de alívio enquanto se sentava com as costas retas – não reparara que se curvara diante da dor. Por fim, com a certeza que, pelo menos por hora, sua aflição o abandonara, ele se levantou em busca do amigo.
Tendo aprendido um pouco a respeito de magia ainda criança, com seu pai, Ryan talvez pudesse explicar exatamente por que ele estava voltando a ser de madeira se eles estavam naquele mundo sem magia há vinte e oito anos, e isso nunca ocorrera. Embora ele realmente esperasse que o amigo lhe explicasse mais detalhadamente, sabia, entretanto, o que aquilo significava de fato: Emma havia chegado à cidade onde todos do mundo deles se encontravam.
August encontrou Ryan sentado na sala, lendo calmamente um livro em sua poltrona favorita. Maravilha! O mais novo sempre ficava nervoso quando era interrompido no meio de suas leituras. Naquele momento, entretanto, August sentia que não havia muita escolha e pensou que a situação podia ser ainda pior: o amigo podia estar dormindo!
Ele chamou Ryan tentando soar mais calmo do que se sentia após a dolorosa experiência de partes de seu corpo voltando a ser de madeira. Ryan ergueu os olhos do livro que estava lendo sem esconder sua irritação.
“Madeira,” disse August, antes que o amigo pudesse começar esboçar por palavras o quanto achava desagradável que o interrompessem – o que o mais velho sabia que bem podia render em um discurso de longos quinze minutos. Ele se sentou em um sofá diante do amigo e tirou a meia que cobria o seu pé esquerdo. “Começou hoje de manhã, o que acha?”
Ryan encarou o pé de August com um misto de curiosidade e preocupação e passou um bom tempo em silêncio, pensando no que estava vendo. É bom que ele me venha com alguma coisa que valha todo esse tempo pensando!
“O que você acha que pode ter sido?” Perguntou August, por fim perdendo a paciência, e Ryan se voltou para encará-lo nos olhos atentamente. “Quero dizer, isso aqui é um mundo sem magia, esse tipo de coisa não devia poder acontecer por aqui. Certo?”
Ryan encarou o amigo por alguns segundos de um modo calculista que costumava incomodar o mais velho, pois o fazia se sentir estúpido. Naquele dia, entretanto, não se preocupou com aquilo, só queria respostas.
“Bom,” disse Ryan lentamente. “O fato é que, apesar de dizerem que esse mundo não tem magia, isso não é inteiramente verdadeiro. Há pequenos resquícios em todo lugar.”
“Então, o que isso significa, afinal?” Perguntou August, com impaciência. “Se puder ser objetivo, eu agradeceria. mas quem sou eu para reclamar? Apenas o cara se transformando em um pedaço de madeira inanimado!”
Ryan deixou escapar uma risadinha nervosa e voltou a encarar o pé metade humano, metade de madeira de August.
“Isso significa que alguma coisa ou alguém acordou a magia que o mantinha humano nesse mundo,” disse Ryan, franzindo o cenho.
“A magia das fadas,” respondeu o mais velho, olhando atentamente para o amigo. “Emma voltou, fez com que o relógio começasse a caminhar e despertou a magia das fadas.”
“Não completamente, ou você seria um boneco de madeira nesse momento,” disse Ryan, com um tom preocupado. “Mas isso é o sinal pelo qual estávamos esperando, a maldição está enfraquecendo.”
“E agora?” Perguntou August, já sabendo a resposta para aquela pergunta.
“Agora,” falou Ryan lentamente. “Agora, nós empacotamos nossas coisas e rumamos para Storybrooke.”
~~//~~
Gold se sentia intrigado a respeito do efeito que duas pessoas do mundo deles com experiência no Mundo Sem Magia possuíam quando se tratava da maldição.
Embora tivesse enviado seu filho para aquele lugar antes da maldição ser lançada – e esperasse procurá-lo assim que possível –, nunca imaginara que ele o procuraria ainda em Storybrooke, portanto, nunca pensara realmente nas conseqüências daquilo.
Gold sabia que nenhum dos dois tinha o poder de quebrar a maldição por completo: aquele papel cabia unicamente a Emma, produto do amor verdadeiro de Snow White e do príncipe James. Mas a presença de seu filho certamente provocara mudanças, pois, de alguma forma, possibilitara que seu avô acordasse da maldição.
Talvez, Gwenaël tivesse algum poder sobre a maldição por ser, também, fruto do amor verdadeiro – no caso, do dele e de Belle. Embora cada amor fosse único, havia algo que os definia como amor, algo que os aproximava.
Ele não compreendia, entretanto, porque Gwenaël se encontrava ali, envolvendo-se em uma guerra que não era dele, colocando-se em uma situação que Gold dissera a ele para evitar. Regina, Gold sabia, estava intrigada a respeito daqueles dois estranhos, e o prestamista ainda se perguntava quem era o outro homem – August – e se havia alguma possibilidade dele ser o seu filho mais velho, Baelfire.
Certa manhã, uma semana e meia após o dia dos namorados, Gold rumou para se encontrar com Moe French – ele se preocupava que Regina descobrisse que a memória do florista retornara e fizesse algo contra ele para, simultaneamente, atingir Gold e se livrar de um novo empecilho. Descobriu o homem parecendo um pouco perturbado atrás do balcão de sua loja.
Gold cumprimentou Moe com um aceno de cabeça cordial, o que o outro respondeu com um distraído cumprimento. Em um tom completamente diferente, o prestamista perguntou se algo errado e o homem que um dia fora o governante de Avonlea o encarou com um olhar triste.
“Aquele garoto, Ryan,” disse Moe com a voz rouca. “Ele veio até aqui mais cedo e estava muitíssimo interessado na história de minha filha. Seja sincero, Gold, o garoto é o meu neto?”
Gold o encarou, tentando não demonstrar a dúvida que o tomava. Ele se recusara, anteriormente, a responder àquela pergunta, dizendo que não sabia quem era o jovem. A ideia era que, quanto menos o pai de Belle soubesse, mais seguro ele estaria de Regina.
Se Gwenaël estava envolvendo o avô na história, visitando-o e fazendo perguntas, entretanto, logo Regina desconfiaria. Gold pensou que em breve precisaria fazer uma visita ao filho e conversar francamente com ele a respeito do que estava acontecendo ali, e se perguntou o motivo pelo qual o outro até então não o procurara.
“Eu apenas me encontrei com o garoto uma vez, French,” disse Gold. “Portanto, ainda não conversei o bastante com ele para saber quem ele e o amigo dele são.”
Moe assentiu distraidamente, e os dois homens permaneceram em silêncio por alguns segundos, Gold torcendo que o florista aceitasse a resposta dele e deixasse o assunto de lado até que a maldição fosse quebrada. Eles já haviam conversado a respeito, e o prestamista estava quase certo que Moe não sairia perguntando por aí a respeito de Ryan, mas temia que ele se desesperasse, ansioso para conversar com o neto francamente.
“Ele tem os olhos dela, estou certo de que são idênticos aos dela.” disse Moe, por fim. “E ele se parece com você também, com aquele sorrisinho irritante que você usa em seus acordos. Quem seria ele se não o meu neto Gaël?”
“Mesmo que exista uma chance muito grande que ele seja o Gaël, não saia fazendo perguntas a ele,” disse Gold, franzindo a testa. “Foram longos vinte e oito anos sozinho, French. Mesmo que ele seja meu filho, seu neto, nós não podemos mais dizer que o conhecemos.”
Gold observou atentamente a expressão de Moe passar de intrigada e preocupada para imensamente triste. Ele sabia que suas palavras foram duras e até mesmo insensíveis, pois o florista se sentia muito mal por ter enviado o neto sozinho para aquele mundo. Mas era inevitável: ele precisava manter Moe longe de Gwenaël enquanto não soubesse mais.
“Não se preocupe, vou tentar descobrir o máximo possível,” disse Gold, a sua voz em seu tom mais suave. “Você sabe que tenho olhos e ouvidos por toda a cidade. Quando for seguro para você e para ele, informo-te.”
Moe assentiu novamente, a expressão de tristeza e preocupação idênticas à daquele dia distante em que explicara ao governante de Avonlea porque precisaria enviar Gwenaël sozinho para um mundo desconhecido. Mais seguro por sua conta em um mundo sem magia do que conosco, à mercê das vontades de Regina, ele dissera com firmeza.
Gold saiu da loja de Moe naquele dia sabendo o que precisaria ser feito: por mais temeroso que ele estivesse, era hora de entrar em contato com o seu filho mais jovem. Espero, sinceramente, que ele não me odeie por tê-lo enviado para cá.
Balançando a cabeça negativamente como quem tenta espantar pensamentos indesejados, Gold se concentrou em pensar na melhor maneira de começar aquela conversa com Gwenaël, e percebeu que aquilo talvez fosse mais difícil do que grande parte das coisas que fez em sua longa vida.
~~//~~
Ryan não estava nada satisfeito com a decisão de August a respeito de como prosseguir após o começo de sua transformação em boneco de madeira. Ele conhecia alguns dos motivos do amigo, mas ainda assim não gostava das circunstâncias que aquilo podia acarretar.
Os dois desceram do taxi no centro de Manhattan e rumaram até o prédio que era o destino deles em silêncio, Ryan esperando que o lugar estivesse vazio, embora soubesse que provavelmente o amigo o faria esperar que a pessoa que ele queria encontrar chegasse.
Eles entraram em um prédio, August muito decidido e Ryan com uma crescente irritação. O mais velho se aproximou do interfone, clicou botão ao lado do número “407” e, alguns segundos depois, uma voz conhecida os respondeu.
“August e Ryan,” disse August, enquanto sorria para o mais novo. “Nós viemos falar sobre a Emma.”
Após alguns segundos de silêncio em que a pessoa do outro lado da linha provavelmente pensava se os receberia ou não, a porta diante dos dois amigos se abriu.
“Você sabe que será muito bom para nós dois se ele for conosco,” disse August, quando Ryan hesitou em segui-lo. “Mais um aliado.”
Ryan deixou escapar um suspiro e seguiu o amigo até o elevador do prédio sem respondê-lo. August sabia muito bem o que ele pensava sobre o assunto: não o ajudaria, pois aquele homem não queria ter nada a ver com o seu objetivo.
Um homem os esperava próximo à porta do elevador quando eles alcançaram o andar correto, ele era alto e um pouco forte, embora agora, quase dez anos depois do último encontro deles, estivesse a ganhar peso e seus cabelos começando a ficar brancos. Os olhos, entretanto, eram o que mais magoavam Ryan, pois eram extraordinariamente familiares – mesmo após tantos anos.
“Neal Cassidy,” disse August com um sorriso cordial, estendendo a mão para o outro assim que saiu do elevador. “É um prazer revê-lo!”
“August,” cumprimentou o homem, apertando a mão de August e, logo em seguida, se voltando para Ryan, com o rosto muito sério. “Ryan.”
O mais novo acenou com a cabeça sem dizer sequer uma palavra ou se aproximar para apertar a mão de Neal, lembrando-se do que o outro dissera na última vez em que haviam se encontrado, tantos anos antes.
Ele os guiou até dentro do pequeno apartamento onde morava e ofereceu algo para os dois beberem enquanto se sentavam na sala, o que ambos recusaram. Ryan não pôde deixar de notar que Neal se esforçava para não encará-lo e percebeu, com certo alívio, que não era o único que estava nervoso diante do reencontro.
“Certo, digam-me o que aconteceu com Emma e como posso ajudá-los,” pediu Neal, finalmente se sentando diante dos dois.
“Ela retornou,” disse August, prontamente. “Emma achou o caminho de volta para a família dela.”
Neal passou um momento pensando a respeito do que o outro havia dito, tentando determinar se confiava naquela informação. Por fim, encarando August atentamente, perguntou como ele sabia a respeito.
Em lugar de responder, August retirou o tênis que estava usando e as meias sob o olhar embasbacado de Neal, que parecia incapaz de compreender o outro homem – e Ryan achou que a expressão dele era muito engraçada, embora tivesse contido o riso.
Por fim, August revelou o pé completamente transformado de volta em madeira, e Neal deixou escapar um suspiro resignado.
“A magia das fadas retornou a esse mundo de modo muito repentino,” falou Ryan quando Neal se voltou para encará-lo, certamente quase tão ansioso para uma explicação sobre magia quanto August estivera anteriormente – irônico ansiar por saber mais sobre magia quando tudo o que fez durante toda a vida foi desprezá-la e fugir dela. “A magia se encontra escassa, é claro, mas muito presente. Algo importante está acontecendo, e bem no momento em que Emma completou seus vinte e oito anos de idade.”
“Emma reencontrou a família dela,” disse Neal com um estranho brilho no olhar que fazia com que Ryan dolorosamente se lembrasse do pai quando ele falava sobre sua mãe.
Vou reencontrá-lo e, depois, vou achá-la também, e poderemos ser uma família novamente. E Neal nunca fará parte dela porque está muito preocupado em odiar o meu pai e a magia que está intimamente ligada a toda a nossa família.
“A maldição não foi quebrada, se é isso que você está perguntando,” respondeu o mais novo com uma suavidade na voz que não sentia de fato.
“Se ela tivesse sido quebrada, eu seria agora um boneco inanimado de madeira,” completou August com uma expressão sombria em seu rosto. “Ela está apenas mais enfraquecida. O tempo voltou a correr para todos nós.”
Neal suspirou, olhando de August para Ryan sem saber o que dizer. O mais novo tinha conhecimento do conflito que se passava dentro da cabeça dele: por um lado, podia ir com eles até Storybrooke e reencontrar Emma, por outro…
“Eu não posso acompanhá-los,” falou Neal, por fim. “Passei toda uma vida cuidando para ficar longe do meu pai e de todo esse lixo, não caminharei voluntariamente em direção a essa vida depois de tantos anos.”
August deixou escapar um suspiro, e Ryan teve que se conter para não dizer ao amigo que o avisara.
“Você poderia ser de grande ajuda para nós com Emma,” disse. “Um rosto conhecido diante de tantos desconhecidos, o rosto do homem que ela ama.”
“Eu não vejo como eu poderia ajudar. Não sei nada a respeito dessa maldição e nunca fui versado em artes mágicas. É para isso que você o tem, não é?” Respondeu prontamente Neal, apontando para Ryan sem olhá-lo. “E eu devo ser a pessoa em que Emma menos confia nesse mundo. Se ela nos vir juntos, será uma grande desvantagem para vocês.”
“O beijo de amor verdadeiro provavelmente é a chave para quebrar a maldição,” respondeu August. “Você a ama, não é?”
Neal não soube o que responder, e Ryan admirou o amigo por ter pensado naquele detalhe. Entretanto, a ignorância de August em relação a certos tipos de magia estava evidente por aquele pensamento.
“Meu pai previu a quebra da maldição, mas não poderia ter previsto isso,” disse o mais novo, encarando o amigo com seriedade. “Ele não é capaz de prever algo tão intimamente ligado ao futuro dele como a presença de Neal.
August encarou o amigo com uma surpresa que se transformou lentamente em ressentimento e, quando desviou os olhos, balançou negativamente a cabeça e se levantou do sofá onde estava sentado, sobressaltando os outros dois.
“Muito bem, vocês venceram,” disse com a voz muito fria. “Vamos embora, há muito que devemos fazer antes de partirmos para Storybrooke.”
Ryan sorriu tristemente e se levantou também, sendo seguido por Neal. O dono do apartamento acompanhou os outros dois até a porta e, com um aperto de mão, se despediu dos dois.
“Avisem-me quando essa maldição for quebrada,” disse quando August e Ryan voltaram as costas para ele a caminho do elevador.
August se virou por um segundo e, com um sorriso sincero no rosto, assentiu.
Ryan saiu do prédio se sentindo tão mal quanto no dia em que haviam tido aquele primeiro – e último – encontro, pois o seu irmão mais velho, o grande objetivo de seu pai naquele mundo, era um caso completamente perdido.
Todo o sofrimento fora inútil.
~~//~~
Gold se sentou na sala dos fundos de sua loja de penhores naquela tarde se perguntando como poderia começar uma conversa com o seu filho mais jovem, incapaz de encontrar uma resposta adequada. Ele sabia que, se Gwenaël tivesse dele tanto quanto aparentava, não se deixaria levar por assuntos menores: ele iria direto ao ponto.
Ele não conseguia entender muito bem como o garoto o encontrara. Gold havia suposto que Storybrooke estivesse escondida do restante do mundo, inacessível a qualquer um que não tivesse sido amaldiçoado – com a exceção da Salvadora, que tinha parte de sua essência ligada à maldição.
Sempre imaginara que teria que procurar anos antes de achar um vestígio de Gwenaël e, logo que suas memórias foram restauradas, começou a desenvolver ideias que pudessem atrair o garoto quando a maldição fosse quebrada. Realmente não esperava que o garoto o procurasse em Storybrooke e não sabia como se sentia a respeito, se aliviado ou preocupado.
Repentinamente, ele escutou o sininho de sua loja tocando e, perguntando-se se teria que lidar com Emma ou Regina e tentando decidir qual das duas circunstâncias seria a mais desagradável naquele momento, ele rumou para a sala dianteira onde estava localizada a loja propriamente dita.
Regina estava parada diante do balcão com um rosto que irradiava impaciência e nervosismo. A maldição estava enfraquecendo mais e mais e os planos de incriminar Mary Margaret Blanchard pelo assassinato de Kathryn Nolan haviam falhado terrivelmente quando a mulher reaparecera viva, portanto, Gold achava natural que ela estivesse sentindo ambas as emoções.
“O que deseja, senhora prefeita?” Perguntou Gold em seu tom de voz mais cordial, desejando que a mulher se apressasse e o deixasse sozinho com seus pensamentos novamente. “Interessada em algum produto?”
Regina hesitou antes de responder, procurando pelas palavras certas. Em meio à situação em que se encontrava, ela andava com dificuldade de mascarar sua identidade de Rainha Má.
“Certa vez, você me ofereceu um acordo para acabar com o problema que é Emma Swan,” disse Regina, mordendo o lábio inferior. “Naquele momento, achei que não precisaria, mas agora vejo que cometi um engano. O que você deseja em troca disso?”
Gold sorriu, esforçando-se para não deixar escapar nenhuma risadinha. Ele contornou lentamente o balcão sem tirar os olhos do rosto ansioso de Regina.
“Receio, senhora prefeita, que não exista nada que eu possa fazer contra Emma Swan nesse momento,” disse Gold, ainda sorrindo. “Ela se tornou uma figura proeminente na cidade como xerife, e sua imagem dificilmente será destruída. Não é como se ela estivesse fazendo algo errado que pudesse se descoberto e jogado a público.”
“Você sabe muito bem do que eu estou falando, Gold,” disse Regina, por entre os dentes. “Faça-a desaparecer, você é mestre nisso.”
“Da mesma maneira como você fez desaparecer Kathryn Nolan?” Disse Gold, com um sorriso. “Estou lisonjeado que tenha me escolhido para tal tarefa, Regina, mas não há nada que você tenha em seu poder que valha um serviço tão sujo e complicado. Portanto, terei que declinar, se me der licença.”
Ele acenou com a cabeça em uma pequena reverência e se virou em direção aos fundos de sua loja sem esperar pela reação de Regina. Gold manteve os ouvidos atentos, mas não escutou o sininho e, quando afastava a cortina que servia de divisória entre as duas salas de sua loja, ouviu Regina o chamando novamente.
“Na verdade, há algo em meu poder que talvez você deseje ter de volta,” disse Regina, por fim, e Gold se voltou para encarar o sorriso maligno da mulher. “Algo único, de incrível poder e muito valioso, especialmente para você.”
Gold permaneceu em silêncio, encarando a mulher com o rosto impassível. Ele sabia que ela provavelmente estava blefando para conseguir a sua atenção. Quando ela não continuou o que estava dizendo, ele disse:
“Estou ouvindo, querida.”
“Imagino que certa jovenzinha que encontrei algum tempo atrás possa ser do seu interesse,” ela disse, o sorriso crescendo enquanto Gold sentia o horror estampado em seu rosto. “Ou estou enganada?”
Gold encarou Regina, embasbacado, o terror o tomando por completo. Sabia que a prefeita tinha em seu poder algo de incontável valor para ele, e que não havia modo mais eficaz de controlá-lo.
“Você tem três dias para me dar uma resposta a respeito do nosso acordo,” disse, o tom de ameaça óbvio em sua voz.
E, com isso, saiu da loja, deixando um Gold completamente incapaz de qualquer reação enquanto o medo e a fúria o tomavam completamente.
~~//~~
August dirigia lenta e cuidadosamente através das estradas do Maine em direção a Storybrooke, ouvindo música enquanto tentava se distrair do fato que tinha uma missão a cumprir e corria contra o tempo agora.
Por vezes, durante a viagem, tentara conversar com Ryan, mas, desde o encontro com Neal, o mais novo andava com um humor muito sombrio, como se a recusa de seu irmão mais velho fosse um mau presságio para a missão diante deles.
August sabia que Ryan e Neal não se davam muito bem, mas havia esperado que os dois deixassem as animosidades de lado por um momento em prol de um bem maior. Ele se esquecera, entretanto, o quão intensos eram os sentimentos de Ryan quando ele se permitia senti-los.
O mais velhor imaginara que Ryan ficaria zangado com ele por forçar um reencontro, mas não esperara tanto. Por todos os mais de setecentos quilômetros entre Nova York, onde Neal morava, e Storybrooke, os dois amigos quase não trocaram palavras, Ryan completamente perdido em seus pensamentos e August tentando se concentrar na estrada diante dele e na música que tocava no rádio para não se perder nos seus.
Por fim, quando os dois estavam quase alcançando a fronteira da cidade de Storybrooke, August estacionou o caro próximo ao meio fio e se voltou para o amigo, que se encontrava tão perdido em seus pensamentos que sequer percebeu que o carro parara.
“Ryan,” chamou o mais velho, com ênfase o bastante para o amigo escutá-lo. “Nós estamos prestes a entrar em território inimigo, precisamos estar em paz entre nós.”
Ryan se voltou para August, seu rosto vestindo a expressão que ele aprendera com o pai, a máscara que quem o conhecia sabia ser desprovida de qualquer sentimento – e quem não o conhecia tomava como uma expressão neutra e amistosa. Eles se encararam por alguns segundos, completamente em silêncio.
“Desculpe, eu estava um pouco distraído,” disse Ryan, por fim. “Nós estamos em paz entre nós, August. Você não precisa se preocupar com isso.”
“Você passou os últimos dias quase completamente em silêncio,” constatou August, aliviado que os dois estivessem em paz, embora intrigado com o comportamento do amigo. “Se o problema não sou eu, o que é?”
Ryan se voltou para a paisagem que se encontrava do outro lado de sua janela. Eles passaram quase um minuto inteiro em silêncio e, quando August achou que ele não o responderia – perdido novamente em seus pensamentos –, o mais novo se voltou novamente.
“Você se lembra da conversa que eu tive com Neal quando nos encontramos pela primeira vez?” Perguntou Ryan, seu rosto ainda não esboçava qualquer emoção, e isso fazia com que August se sentisse um pouco nervoso. “Sobre o motivo pelo qual estávamos nesse mundo.”
“Eu me lembro,” disse August. “Quando você falou com ele a respeito de seu pai.”
Ryan assentiu, os seus olhos brilhando de um modo um pouco insano, o que fez com que August se sentisse ainda mais nervoso – se é que aquilo era possível. August se lembrava perfeitamente daquele encontro com Neal, de como Ryan contara tudo sobre a trajetória de duzentos anos do seu pai procurando por Neal – ou Baelfire, o nome que o mais novo costumava usar.
“Tudo isso, todos esses anos preparando e planejando as coisas, esses anos em que eu tenho certeza que ele fez coisas horríveis, todos os vinte e oito anos de maldição em que nós passamos sozinhos e os outros congelados no tempo e espaço. Tudo foi completamente inútil,” disse Ryan.
Embora o rosto do amigo continuasse impassível, August notou que ele fechara os punhos que repousavam sobre suas pernas com força. Ele tentou encontrar algo que pudesse falar em resposta ao amigo, mas tudo o que conseguiu pensar lhe pereceu tolo.
“Inútil porque o meu irmão mais velho é incapaz de perdoar o meu pai,” continuou Ryan, quando percebeu que August não diria nada. A raiva e o ressentimento contidos na voz do amigo eram evidentes para o mais velho, mas ele sabia que só reparara porque o conhecia muito bem. “Inútil porque Neal Cassidy não tem a capacidade de ver que duzentos anos podem mudar uma pessoa, porque ele não acredita em dar a alguém uma segunda chance.”
August encarou o mais novo, ainda pensando no que poderia dizer. Ele não gostava daquela conversa, porque sabia que o amigo era completamente leal ao pai dele e não admitiria que o mais velho falasse o que realmente pensava a respeito de Rumpelstiltskin amaldiçoar um mundo inteiro apenas para achar um filho perdido. Eles nunca falavam sobre o antigo feiticeiro que um dia fora responsável indireto por transformar os avós de August em bonecos.
A maldição, em si, era um assunto em que tocavam esporadicamente, mas apenas discutindo suas tecnicidades ou maneiras de quebrá-la. August nunca discutira os motivos de Rumpelstiltskin com Ryan, e nunca discutira o fato de que, sim, a atitude de Neal a tornara inútil.
Entretanto, ele sabia…
“Pode ter sido inútil,” disse August, sorrindo um pouco nervoso. “Mas trouxe coisas realmente boas, não é? Não foi um desperdício de tempo!”
“É mesmo?” Perguntou Ryan, incrédulo. “Como poderia não ser um desperdício de tempo.”
“Bom, nós apenas nos conhecemos e ficamos amigos por causa da maldição, e eu gosto de ser seu amigo,” disse August, e ele percebeu que surpreendera Ryan. “E, agora, você pode procurar a sua mãe, e não vai precisar vasculhar o mundo, apenas uma cidade.”
Ryan o encarou por alguns segundos, finalmente aparentando mais claramente algum sentimento: a perplexidade. Por fim, o seu rosto abriu no primeiro sorriso puramente sincero que dava desde que August começara a ser transformado novamente em um boneco de madeira.
“Tem razão,” disse. “Obrigado August.”
~~//~~
Gold estava sentado nos fundos de sua loja, quase imóvel, desde o dia anterior, quando Regina lhe contara que tinha Belle em sua posse e ameaçara destruí-la se ele não cooperasse e fizesse Emma desaparecer.
O fato é que se encontrava em um impasse. Ele precisava de Emma para quebrar a maldição, para que pudesse enfim encontrar Baelfire, mas Belle era um preço alto demais: Gold não era capaz desacrificar a mulher que ele amava verdadeiramente, a mãe de seu filho, nem mesmo para ter Baelfire de volta.
Seria possível encontrá-la antes que Regina a usasse contra ele? Gold estava certo de que aquela seria uma jogada muito arriscada, que talvez colocasse em risco a vida de Belle, mas não podia deixar de pensar naquela possibilidade. Talvez, apenas talvez, funcionasse.
Não, Regina certamente o estaria observando e descobriria rapidamente quais eram as suas intenções, podendo fazer algo irreparável com Belle. Aquela opção, embora muito tentadora, não era realmente uma possibilidade. Ele precisava de outro plano com urgência.
Gold não sabia quanto tempo havia passado quase imóvel, pensando – embora soubesse que a noite chegara e se fora –, quando o sino de sua loja tocou novamente. Emma Swan, ele sabia, embora não estivesse certo do motivo da visita. Regina, entretanto, não apareceria antes do final do prazo que estabelecera, e elas eram as duas únicas pessoas que o visitavam em sua loja sem serem previamente convidadas.
Ele pensou em fingir que não se encontrava ali, mas desistiu quase instantaneamente: Emma possuía a impetuosidade de seu pai e provavelmente invadiria os fundos de sua loja em busca dele se Gold não respondesse. Então, sentindo todo o cansaço provocado pela noite sem dormir e as muitas horas sem comer nada – e muito surpreso que Swan ainda não tivesse começado a chamar o seu nome –, o prestamista se levantou e, vagarosamente, encaminhou até a parte da frente de sua loja.
Ele encarou, entretanto, os olhos azuis da mulher em quem ele pensara durante toda a noite o acompanharam desde o momento em que ele afastou as cortinas para entrar na loja propriamente dita. Por um segundo, achou que estava vendo uma ilusão, um fantasma, mas percebeu no segundo seguinte que se encontrava, pela segunda vez, frente a frente com seu filho mais novo.
“Como posso ajudá-lo?” Perguntou Gold, tentando parecer impassível enquanto se lembrava que estivera mesmo precisando falar com Gwenaël.
Não, agora não é o momento para fazer perguntas a ele. Não quando a vida da mãe dele está em minhas mãos! Mais tarde, abordarei o assunto e descobrirei o que ele está fazendo aqui, quando foi tão aconselhado a não se envolver.
Gold encarou Gwenaël, que parecia incapaz de dar uma resposta adequada. Ele se perguntou se o rapaz sabia a respeito da conversa que tivera com Regina, mas achou muito improvável.
“Eu estive me perguntando se o senhor saberia alguma coisa a respeito de Rose French,” disse Gwenaël, o rosto corando suavemente, embora ele não tivesse desviado os olhos dos de Gold.
Ele se parecia tanto com Belle que Gold sentiu o coração apertar. Ela corria grave perigo agora, tudo estava em suas mãos. Eu vou trazê-la de volta para ele, não importa o preço, não permitirei que Regina faça nada com Belle.
“O que te faz pensar que eu saberia de alguma coisa a respeito da filha do florista, rapaz?” Perguntou Gold, tentando não aparentar as muitas emoções que estava sentindo naquele momento. “E, afinal, porque uma jovem desaparecida há tantos anos atrairia o interesse de um recém-chegado nessa cidade?”
Gwenaël balançou a cabeça negativamente, fechando os olhos. O rapaz parecia quase tão perdido em seus pensamentos e emoções quanto o próprio Gold, embora ele esperasse que estivesse escondendo aquilo melhor.
“Moe French parece ser o mais próximo que você tem de um amigo, senhor,” disse, por fim, escolhendo a pergunta mais fácil de ser respondida.
Esse rapaz nada se parecia com aquele em quem Gold esbarrara algumas semanas antes na rua. Aquela pessoa confiante e calculista não deixara transparecer nenhum sentimento e esperara até o último momento para revelar tudo o que sabia. O rapaz diante dele estava transbordando emoções que o prestamista podia ver claramente em seu rosto e seus olhos, ele não escondia nada. Gold se perguntou o motivo para tamanha mudança e, novamente, se Gwenaël saberia a respeito da ameaça que Regina lhe fizera.
Temendo que o rapaz soubesse e fizesse algo impensado, Gold decidiu que era hora de deixar os joguinhos de lado e pensar na segurança de seu filho mais novo. Ele não podia se dar ao luxo de perdê-lo também, não suportaria tamanha dor.
“Ela está sob a possessão de Regina, rapaz,” disse Gold, bruscamente, com o tom mais sério e inflexível que pôde fazer. “E você deve parar de perguntar sobre ela por aí e deixar que as coisas se resolvam sem a sua ajuda, como eu disse para fazer antes de te mandar para esse mundo.”
Gwenaël não respondeu de imediato, mas seu rosto corou violentamente e ele não voltou a encarar o pai, preferindo olhar fixamente para os próprios pés.
“V-você sabe que ela está com R-Regina e ainda não fez nada a respeito?” Perguntou o rapaz, a voz transbordando o ressentimento de alguém que se sentia traído. “Como pôde deixá-la com aquela mulher!”
“Eu só fiquei sabendo ontem, quando Regina ameaçou matá-la se eu não a ajudasse a se livrar de Emma Swan,” disse Gold. “Ela me deu três dias para pensar em uma resposta, e eu vou usá-los, sim, para descobrir um meio de resgatar a sua mãe. E você ficará fora disso, Gaël.”
Gwenaël ergueu os olhos lacrimejantes para encarar o pai, e Gold se encolheu diante do ressentimento e da raiva que viu dentro deles.
“Se ela propôs um acordo com você, estará te observando atentamente agora,” disse, sua voz seca e fria. “E vai estar distraída para pensar em me vigiar, pois não sabe que eu sou o seu filho. Por que não me deixar fazer alguma coisa? Eu posso ajudar, não sou um completo inútil.”
“Você não é inútil, Gaël, longe disso! Mas é muito perigoso, e você é importante demais para se arriscar. Eu te enviei para esse mundo para que você ficasse em segurança, para que ela não pudesse colocar as mãos em você como fez com a sua mãe,” disse Gold, sentindo que estava tremendo. “Por favor, fique longe disso, não posso perder você também.”
Antes que Gold percebesse que seu filho se movera, ele se viu no primeiro abraço que recebia em vinte e oito anos e sentiu as lágrimas de Gwenaël molhando o seu ombro. O prestamista abraçou o filho com força, esforçando-se para não se render às lágrimas também.
“Eu vou salvá-la, Gaël,” disse Gold. “Eu prometo que vou. E seremos uma família novamente.”
___________
*Aprecie o momento/Torre dos céus/Não deixe o sonhador/Desvanecer para o cinzento como a grama/Não cair para a vida/Um ganho para cada perda/Tempo reunido a mim/Mas me mantém voando (Away – Nightwish).
Fale com o autor