Catenae
4 Capítulo IV: Lumen
Notas iniciais
You used to captivate me
By your resonating light
Now I'm bound by
The life you left behind
Your face it haunts
My once pleasant dreams
Your voice it chased away
All the sanity in me*
Que tivesse conhecimento, Maurice tivera apenas uma única filha em toda a sua vida, pois nenhuma das amantes de sua juventude tinha lhe procurado para falar de uma criança e sua esposa morrera apenas um ano após o nascimento – e ele nunca conseguiu reunir presença de espírito para se casar novamente.
Belle – sua menina – era possivelmente a pessoa que ele mais amava naquele mundo, mas já era uma mulher crescida e casada com o homem que amava, e o castelo de Maurice andara dotado de um silêncio opressor nos últimos anos. Portanto, ele não pôde deixar de sentir contentamento diante da presença do filho dela, seu neto – a despeito das circunstâncias.
Todos os dias, pela manhã, ele se juntava a Gwenaël nos aposentos dele para uma conversa amigável durante o delicioso café da manhã preparado pelos cozinheiros do castelo. O menino costumava falar, então, de sua relação com a mãe, contando histórias das pequenas aventuras que ambos viviam diariamente; ou Maurice arrancava risadas daquela criança que era predominantemente séria contando a respeito da infância de Belle.
Depois, Maurice encaminhava-se para onde o dever o estava chamando no dia – fosse a sala de reuniões, a sala do trono ou mesmo na cidade –, e seu neto se ocupava com as mais variadas atividades acompanhado por MissPotts. Nos mais de três meses que Gwenaël passara ali, eles já haviam explorado uma boa parte do castelo juntos, e Maurice descobrira que o neto realmente gostava da companhia da velha senhora.
Logo que terminava tudo o que tinha para fazer – geralmente no final da tarde –, ele retornava para a companhia do neto, com quem jantava e brincava até a hora do menino se retirar para dormir. Então, o próprio Maurice lhe contava histórias que tirava dos livros empoeirados de sua biblioteca até que os olhos do menino finalmente se fechassem.
A princípio, Gwenaël estava muito inseguro a respeito da amizade de seu avô e quase não o encarava e falava qualquer coisa. Maurice sabia que ele sentia falta dos pais e do lugar onde morara durante toda a sua curta vida, então respeitou o espaço que o menino estabelecera e esperou que ele se aproximasse sozinho.
Lentamente, na medida em que percebia que o avô não era um inimigo, Gwenaël começou a se abrir mais e os dois começaram a ficar amigos. Agora, meses depois, o menino chegava a esperá-lo fora da sala de reuniões quando Maurice estava ali para encontrá-lo.
Cerca de quatorze semanas após a chegada de Gwenaël, em certa tarde muito ensolarada, Maurice conseguiu sair de uma reunião com o seu Conselho mais cedo do que o habitual e resolveu surpreender o neto aparecendo antes do previsto.
Encontrou-o com Miss Potts tentando decifrar palavras de um livro – o que surpreendeu o governante de Avonlea. Ele sorriu observando o rosto franzido de Gwenaël em conseqüência do esforço mental, que fazia com que Maurice se lembrasse de Belle quando ele próprio havia ensinado a filha a ler, tantos anos antes.
Repentinamente, o menino ergueu os olhos e encontrou os do avô, o que o fez abrir um enorme e caloroso sorriso que aqueceu o coração de Maurice.
“Avô, você chegou mais cedo,” ele disse se erguendo de um salto e fazendo uma pequena reverência, como de costume, imitando a que os Conselheiros faziam.
Por algum tempo, Maurice dissera ao neto que ele não precisava fazer aquilo, porque ele era o seu avô, afinal de contas! Mas Gwenaël disse que a mãe dele sempre o ensinara que se curvar era um sinal de respeito, de modo que ela sempre se curvara para o filho, e ele para Belle.
Entendendo que aquela era uma brincadeira de sua filha da qual Gwenaël não queria se desapegar por enquanto, Maurice permitiu que ele mantivesse o hábito, embora sempre esperasse que o menino se curvasse antes de fazê-lo, como um indicativo de que ainda desejava fazê-lo.
Quando Maurice retribuiu a reverência do menino, Gwenaël correu até ele e o abraçou com força e carinho. Miss Potts, sentindo que os dois queriam aquele tempo para si, se desculpou, fez uma pequena reverência s saiu do aposento.
“Você já está aprendendo a ler?” Perguntou Maurice, segurando o neto em seus braços. “Eu não pedia a Miss Potts que lhe ensinasse, menino!”
“Eu sei, avô, fui eu quem pedi,” disse o menino, com um sorriso muito travesso. “Minha mãe gostava de me mostrar palavras nos livros enquanto lia para mim, e eu já sei algumas de cor há muito tempo.”
“Sempre uma verme de livros, a nossa querida Belle,” disse uma voz vinda do canto do aposento, sobressaltando Maurice e Gwenaël.
Rumpelstiltskin saiu das sombras, e Maurice se perguntou onde estava Belle, que ele prometera resgatar – embora não estivesse muito certo de que queria conhecer a resposta para aquela pergunta. Passados alguns segundos, o governante de Avonlea se voltou para o neto, que parecia inquieto e nervoso, embora não houvesse feito qualquer movimento.
“Rumpelstiltskin,” disse Maurice, por fim, encarando o outro homem. “Onde você esteve durante todos esses meses? Onde está a minha filha?”
O feiticeiro sorriu com tristeza, o que aumentou as suspeitas de Maurice de que não gostaria da resposta que estava por vir. Teria algo irreparável ocorrido com sua Belle? T-teriam a matado?
“Peço perdão, mas não fui capaz de encontrá-la. Procurei-a usando magia, as palavras e meus próprios pés, mas não pude localizá-la,” ele disse e, embora as palavras fossem direcionadas a Maurice, Rumpelstiltskin encarava o filho.
Maurice deixou escapar um suspiro. Uma parte dele estava aliviada com a resposta do feiticeiro, pois sabia que o fato dele não tê-la achado significava uma possibilidade da filha ainda estar viva. Por outro lado, ele teria achado muito mais agradável se Rumpelstiltskin tivesse lhe dito que Belle estava no castelo dele, descansando.
“Eu não teria voltado sem ela, mas me encontrei com a Blue Fairy – você deve se lembrar dela, Gaël, pois é amiga de sua mãe –, e ela me contou que sua magia está despertando,” disse o feiticeiro. “É verdade?”
Magia, essa palavra ficou ecoando dentro da cabeça de Maurice. Gwenaël também não havia falado nada a ele a respeito desse assunto. Por tudo que sabia, achava magia uma habilidade muito perigosa e ficou preocupado com o neto – embora não exatamente surpreso; afinal, Gwenaël era filho do Senhor das Trevas.
O menino encarou o pai com atenção, e Maurice pôde ver que ele se encontrava um pouco ressentido. O governante de Avonlea se perguntou o motivo para tal sentimento e a razão pela qual seu neto nunca o mencionara para ele. Gwenaël não era uma criança comum, ele percebeu, já é capaz de ter algo entre a inimizade e a amizade.
“E-eu não sabia que o que eu fazia era magia, senhor,” disse o menino, por fim, sem encarar o pai.
“E o que você faz, Gaël?” Perguntou Rumpelstiltskin, com a voz suave e amistosa em proporções que Maurice não o tinha visto usar nem mesmo com a filha.
“Às vezes, eu escuto vozes estranhas na minha cabeça, e vejo,” o menino se interrompeu por alguns segundos, tentando determinar a palavra certa. “Não sei explicar muito bem, são como luzes em volta das pessoas.”
Maurice olhou do neto para Rumpelstiltskin embasbacado. Aquilo era magia? Sim, o governante de Avonlea soube naquele momento que era, de fato, muito ignorante naquele assunto. O feiticeiro também parecia um pouco intrigado, como quem não estava certo do significado do que estava escutando.
“Você está vendo agora? Pode descrever?” Perguntou Rumpelstiltskin, dando alguns passos em direção ao filho, após um momento de reflexão.
Gwenaël balançou a cabeça negativamente, e o feiticeiro o encarou, sua curiosidade crescente. Maurice se perguntou o que ele estaria pensando em fazer com aquela informação, e se aquilo seria capaz de machucar seu neto.
“Muito bem, está claro que você tem algo dentro de si querendo despertar. Não posso continuar te deixando sem supervisão,” disse Rumpelstiltskin, por fim. “Vamos praticar juntos, filho, e descobriremos do que exatamente se trata.”
Gwenaël assentiu, parecendo resignado. Então, algo atingiu o governante de Avonlea com força.
“Você não pode levá-lo,” disse Maurice, com firmeza.
“E não vou, meu caro,” respondeu o feiticeiro prontamente, por fim olhando para Maurice. “Se você puder dispor de um lugar onde eu possa ficar, e onde possamos praticar sem sermos interrompidos.”
Maurice assentiu, tentando não deixar evidente a felicidade que estava sentindo. Ele se apegara ao neto e sentia que, se o neto partisse, seria novamente como se tivesse seu coração arrancado – como ocorrera quando Belle se fora.
“Tenho coisas a resolver antes de me fixar aqui. Começaremos amanhã,” disse Rumpelstiltskin, por fim, e desapareceu em uma nuvem de fumaça, deixando Gwenaël e Maurice novamente estupefatos.
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Quando Ryan saíra da loja de seu pai no dia anterior, ele soubera imediatamente que o momento para lágrimas havia terminado. O tempo era curto e exigia ação imediata.
Seu pai o mandara ficar longe, mas Ryan sabia que não seria capaz de fazê-lo, tendo conhecimento de que Rumpelstiltskin acabaria fazendo algo terrível para salvar sua mãe, algo que impediria o final feliz de absolutamente todas as pessoas daquela cidade.
Após tantas semanas observando Regina, ele sabia em quais lugares em que deveria começar procurando, os locais sob maior influência da prefeita. O problema era que, ainda que fosse uma lista muito reduzida, ainda eram muitos lugares para pouquíssimo tempo, alguns dos quais ele não podia ter acesso: a prefeitura, o hospital de Storybrooke, a casa de Jefferson e o prédio da biblioteca.
A solução para isso era simultaneamente simples e complexa: ele precisava de ajuda oficial.
Ryan se aproximou de August lentamente enquanto o mais velho encarava fixamente sua xícara de café no Granny’s. Ele sabia que aquele humor taciturno se dava muito porque as coisas com Emma não estavam indo muito bem, já que a loira se recusava terminantemente a ver o que estava bem diante dos olhos dela.
Ele compreendia August, pois estiver com o mesmo humor anteriormente, quando fora falar com seu pai. Ryan se lembrava perfeitamente de como decidira recorrer a Rumpelstiltskin – sem que o amigo soubesse – para que August não fosse transformado em boneco de madeira novamente.
Agora, entretanto, não era momento para pensar naquilo. Tudo mudara, e Ryan precisava deixar suas emoções de lado.
“Precisamos conversar,” disse Ryan, olhando com o canto dos olhos ao redor. “Em um lugar privativo, de preferência.”
August ergueu os olhos lentamente e encarou o amigo por alguns segundos antes de dar de ombros e assentir. Ele se levantou do banco e, deixando algumas notas sobre a mesa, acompanhou Ryan até o quarto do mais novo, na hospedaria.
“Regina tem a minha mãe,” disse Ryan. “Ela apareceu para falar com o meu pai e ameaçou matá-la se ele não a ajudasse a se livrar de Emma.”
“Espere um momento, como você sabe sobre isso? Você andou falando com o seu pai?” Perguntou August, surpreso. “Ryan, você tinha me dito que não queria se aproximar dele antes de ter a sua mãe.”
Ryan balançou a cabeça negativamente, ele não tinha tempo para explicar a August o motivo pelo qual, para começo de conversa, fora procurar o pai. Sabia que, se tocasse no assunto, ele não morreria tão cedo.
“Eu conversei apenas brevemente com ele, mas isso não tem importância nesse momento,” disse Ryan, exasperado, caminhando de um lado para o outro em seu quarto. “Eu preciso de sua ajuda para procurar a minha mãe na lista de lugares que te mostrei. Mas, mais do que isso, nós precisamos de Emma.”
“É claro que nós precisamos de Emma!” Disse August, exasperado. “Achei que essa questão já era óbvia. Todos nós precisamos de Emma, mas ela se recusa a acreditar.”
“Não desse jeito, August. Para a nossa sorte, não precisamos da Emma salvadora, nós precisamos da xerife,” disse Ryan, sem encarar o amigo. “Ela tem poder para pedir uma busca nos lugares em que a minha mãe pode estar escondida.”
August encarou Ryan com atenção, tentando determinar se o amigo estava mesmo falando sério. Colocar Emma naquilo podia parecer uma boa ideia, mas seria muito difícil explicar quem era aquela mulher, porque a estavam procurando e como eles tinham tanta certeza que ela se encontrava em Storybrooke.
“Eu preciso tentar, August. Meu pai não pode ajudá-la, pois, se fizer qualquer movimento nesse sentido, Regina saberá imediatamente e poderá matar a minha mãe,” disse Ryan. “Eu tenho certeza que posso convencer Emma a nos ajudar, mas preciso de você também.”
O mais velho assentiu, resignado, sabendo que Ryan não desistiria enquanto não tentasse.
Os dois saíram de seu quarto e rumaram para a estação de xerife, onde encontraram Emma muito entretida em uma conversa com o filho. A presença de Henry deu esperanças a Ryan, pois o garoto não apenas acreditaria neles como também os ajudaria a convencer Emma.
“Xerife,” cumprimentou Ryan, forçando uma expressão neutra em seu rosto. “Receio que tenhamos um trabalho perigoso para você.”
Emma os encarou por um momento, e Ryan se deu conta repentinamente que nunca conversara de fato com a loira, deixando sempre o trabalho para August. Aquela mulher tinha a magia do amor verdadeiro, como ele; Ryan podia sentir muito claramente. Era uma magia poderosa que estava semi-adormecida, mas em breve acordaria.
“Vocês vieram reportar um crime?” Perguntou Emma, analisando o rosto de Ryan, e ele percebeu um estranho sinal de reconhecimento e confusão nos olhos dela.
“Há muitos anos, eu venho procurado uma mulher chamada Rose French e finalmente consegui rastreá-la aqui em Storybrooke, sob a possessão da prefeita Mills,” disse Ryan, sem desviar os olhos dos de Emma. “Eu tenho uma lista de edifícios onde ela pode estar sendo escondida, mas não posso sair invadindo.”
“Uma mulher desaparecida em posse da prefeita? Como pode ter tanta certeza disso, senhor…?” Perguntou Emma.
“Greenley, xerife. Ryan Greenley. E eu ouvi a prefeita conversando com uma pessoa a respeito; infelizmente, não gravei a conversa e ela não mencionou o lugar onde escondeu Rose,” disse Ryan, começando a andar de um lado para o outro. “A prefeita, entretanto, tem poucos amigos a quem confiaria essa mulher, e é com eles que devemos procurar.”
Emma ainda parecia incrédula, mas Henry pigarreou e começou a falar a respeito de como Rose desaparecera misteriosamente anos antes e o pai dela ficara muito devastado – ele não mencionou, para o alívio de Ryan, que fora encontrada uma carta.
“Eu não sei o motivo por que ele está procurando Rose, Emma,” disse Henry, seriamente. “Mas, seja qual for, ela é uma pessoa que realmente precisa ser encontrada, certo? Então não faria mal procurar nos lugares que ele está dizendo.”
A loira encarou seu filho por alguns segundos, considerando o que ele contara. Em seguida, voltou-se para Ryan com um rosto sério e pediu que ele lhe dissesse quem ele achava que pudesse estar escondendo Rose French.
“Como eu disse, a prefeita tem poucos aliados a quem confiaria Rose,” disse Ryan, com um sorriso torto, enquanto parava de caminhar e encarava Emma. “Há o Sidney Glass, mas sei que ele foi preso recentemente. Dr. Whale também é alguém que ela tem nas mãos, e o hospital pode ter lugares que apenas ela e Whale possam acessar. Jefferson é outro…”
“Conheci Jefferson,” interrompeu Emma, subitamente. “Ele também está desaparecido, ninguém sabe onde está. Mas ele me pareceu odiar a prefeita.
“E ele odeia mais do que a maioria, mas ela tem algo que ele quer, então Jefferson está nas mãos dela,” comentou Ryan, abrindo ainda mais o sorriso. “Continuando. A biblioteca está fechada, e ninguém entra lá há algum tempo, portanto, é possível. E há, por fim, a prefeitura.”
Emma assentiu, pensativamente. Eles permaneceram em silêncio por algum tempo, as palavras de Ryan parecendo pairar no ar enquanto a loira se decidia a respeito de como prosseguir. Por fim, após quase dois minutos completos nos quais August se sentara em uma cadeira e Ryan voltara a andar, ela se voltou para Henry.
“Você deve ir para casa, Henry, isso pode ficar muito perigoso,” disse Emma, e o menino pareceu começar a discutir, mas se calou ao ver o olhar que a loira lhe lançava.
“Tudo bem, boa sorte,” disse Henry, e se voltou para Ryan com um olhar intrigado. “Espero que a encontrem.”
Apenas quando Henry saiu, Emma se voltou para Ryan e August.
“Muito bem, por onde começamos?”
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Pouco mudara na rotina de Maurice após o retorno de Rumpelstiltskin de sua jornada para tentar encontrar Belle. O homem continuava tomando café da manhã e jantando com o neto – o relacionamento dos dois ficava gradativamente mais íntimo – e raramente se encontrava com o feiticeiro.
A princípio, Maurice tentou puxar o assunto das lições de magia que Gwenaël recebia durante todas as tardes, mas o menino sempre se recusava a respondê-lo de maneira mais profunda, se limitando a dizer que iam bem e mudando rapidamente de assunto. Curiosamente, o mesmo ocorria quando o assunto era o pai de Gwenaël, e desse assunto Maurice não desistiu mesmo meses após a chegada de Rumpelstiltskin.
O foco da conversa dos dois geralmente se fixava nas lições de leitura, e posteriormente escrita, que Gwenaël estava recebendo de Miss Potts durante as manhãs e em histórias do passado, nas quais Maurice e o neto comparavam histórias – e o homem esperava que servissem para que Gwenaël mantivesse as suas memórias da mãe.
Maurice não pôde deixar de notar, entretanto, a notável mudança que gradativamente estava acontecendo no neto. O menino que sempre fora muito quieto e sério para uma criança tão pequena se tornava ainda mais, seus momentos de descontração cada vez mais raros.
Não foi uma surpresa muito grande, portanto, quando, cerca de vinte e três semanas após o retorno de Rumpelstiltskin, Maurice foi procurar o neto depois de terminados seus afazeres diários e encontrou Miss Potts sentada na cama dele, muito pálida e encarando o vazio. O homem chamou sua governanta duas vezes sem receber respostas, então se aproximou e tocou suavemente o ombro dela, sobressaltando-a.
“Onde está Gwenaël, Miss Potts?” Perguntou Maurice quando a mulher o encarou, assustada. “Onde está o meu neto? Diga-me, por favor.”
Embora muito impaciente, Maurice esperou por educação que a mulher se recuperasse antes de respondê-lo, pois sabia que o neto não podia estar em perigo eminente.
“Meu senhor, eu vim até aqui, conforme costumo fazer, para ser companhia para o pequeno mestre enquanto o senhor não chega,” disse a mulher, entre soluços. “Eu o encontrei chorando, meu senhor, e ele parecia mesmo muito alterado, então eu tentei conversar com ele, mas ele disse que eu não entenderia e desapareceu no ar.”
O primeiro pensamento de Maurice foi de que Miss Potts deveria ter saído para procurar Gwenaël em lugar de ficar chorando passivamente no quarto dele, mas não expressou suas ideias, pois sabia que a velha senhora não fizera por mal. O homem assentiu e mandou sua governanta até as cozinhas a fim de que ela tomasse um chá e tentasse se acalmar.
Quando Miss Potts saiu, ele se sentou na cama do neto – exatamente onde a mulher estivera sentada antes – e se pôs a pensar no lugar em que Gwenaël estaria naquele momento.
Maurice esperava que o menino não estivesse muito longe. Acreditava que ele teria bom senso o bastante para não sair do castelo – afinal, Gwenaël sabia que seu pai tinha muitos inimigos. Por outro lado, ele era uma criança, e era típico que crianças cometessem atos de natureza impensada quando estavam chateadas.
Aonde iria uma criança triste? Maurice se perguntava incessantemente, e a resposta infelizmente não lhe era de grande auxílio: buscar conforto com os pais.
Como o homem estava muito convicto de que Rumpelstiltskin era parte do problema que ocorrera com Gwenaël, ele considerava muito improvável que seu neto estivesse com o pai dele. Belle, por outro lado, não estava de modo algum acessível, e Maurice não queria pensar que o menino fora procurá-la por conta própria. A terceira e última opção era o próprio Maurice, por motivos óbvios descartável. Onde estaria Gwenaël?
Ele se sentou ali por longos minutos, muito inquieto, tentando determinar a resposta para aquela pergunta quando, repentinamente, uma ideia lhe veio à cabeça: talvez Gwenaël não tivesse a mãe em pessoa, mas nada o impedia de buscar conforto na memória que possuía dela, e o melhor lugar para resgatá-la era a biblioteca.
Torcendo para que estivesse certo, Maurice se levantou da cama do neto e rumou para o lugar que fora o favorito da filha no mundo por tanto tempo. Seu passo foi tão acelerado, que não levou sequer a metade do tempo que costumava demorar antes que chegasse à biblioteca.
Maurice caminhou um pouco mais lentamente para dentro do lugar e percebeu instantaneamente que acertara em sua suposição. Embora não tivesse sido capaz de ver o menino na rápida procura que realizou com os olhos, podia escutar seus pequenos soluços. O homem suspeitou que magia pudesse estar envolvida.
“Gwenaël,” chamou Maurice, entrando mais a fundo na biblioteca com os olhos e ouvidos atentos enquanto seguia o som dos soluços. “Apareça, menino. Se não me contar qual é o problema, como serei capaz de ajudá-lo?”
“Avô,” a voz chorosa de Gwenaël estava em algum lugar próximo diante dele, talvez um pouco à esquerda. “Eu estava tão furioso que vim para cá com magia, e agora não consigo mais me ver. Vou ficar invisível para sempre?”
O homem sentiu os dedinhos de seu neto puxando sua capa da maneira como o menino costumava fazer quando desejava que ele o segurasse. Quando se voltou para olhá-lo, entretanto, percebeu que de fato não podia enxergá-lo.
“Bom, vamos buscar o seu pai, então,” disse Maurice, olhando na direção em que esperava que seu neto estivesse. “Vamos procurá-lo e ele saberá desfazer esse feitiço, não se preocupe.”
“Não,” respondeu o menino, e Maurice soube pelo tom de sua voz que ele se continha para não voltar a chorar. “Não chame o meu pai, por favor. Ele não entenderia!”
Maurice deixou escapar um suspiro resignado – ele já imaginara que o neto daria aquela resposta –, puxou uma cadeira e se sentou. Alguns segundos depois, ele sentiu e escutou o neto subindo na cadeira ao lado da sua e se sentou.
“Meu pai disse que magia é emoção, então eu acho que, se eu ficar calmo, talvez fique visível de novo,” disse Gwenaël, embora sua voz não saísse nada calma. “Você pode me ajudar, avô?”
“Claro,” respondeu Maurice, prontamente. “Então, que tal você começar me dizendo por que está com raiva?”
“Eu não quero ser um feiticeiro como o meu pai, mesmo se isso faz ele ficar orgulhoso,” disse Gwenaël com a voz trêmula. “Na verdade, eu não quero meu pai orgulhoso, porque ele abandonou a minha mãe e eu e deixou-a ir embora e agora eu estou sozinho.”
Em circunstâncias normais, Maurice teria se esforçado para garantir a Gwenaël que ele não estava sozinho, pois o tinha. Aquilo, entretanto, não dizia respeito a ele ou sua relação com o menino, era sobre como seu neto via Rumpelstiltskin.
“Você não quer ser um feiticeiro ou não quer deixar seu pai orgulhoso?” Ele perguntou, após uma pequena pausa refletindo sobre o que dizer. “São duas coisas diferentes.”
“Os dois,” o menino respondeu. “Eu só queria voltar a ser normal, a aprender a ler e que, quando ficasse mais velho, você pudesse me ensinar a andar de cavalo e lutar com a espada e ser um herói.”
“Você falou sobre isso com o seu pai?” Perguntou Maurice, franzindo o cenho. “Tenho certeza que ele entenderia o seu ponto, menino.”
“Eu falei hoje,” ele disse, e deixou escapar um soluço que fez com que Maurice sentisse a raiva por Rumpelstiltskin preenchendo-o. “E-ele disse q-que eu n-não tenho esco-lha. E-eu sou o que s-sou e não tem c-como mudar i-isso.”
Maurice engoliu seco, incapaz de se decidir se sentia mais raiva de Rumpelstiltskin ou de si mesmo por concordar com o feiticeiro.
“Por mais que me doa dizer isso, o seu pai está certo, Gaël,” disse Maurice, tentando transmitir calma ao neto. “Assim como eu nasci para governar Avonlea, você nasceu para ser feiticeiro, e essas são coisas das quais a gente não pode fugir para sempre.”
“M-minha mãe me disse q-que nin-guém pode d-decidir o meu destino, e-exceto eu,” os soluços de Gwenaël aumentavam a cada palavra. “E-ela m-mentiu?”
“Ela não mentiu, Gaël,” disse Maurice, com um sorriso. “Existem coisas que a gente pode escolher, e você pode muito bem aprender a ser um herói como o dos livros que lemos se realmente quiser. Mas você é feiticeiro também, e isso ninguém pode mudar.”
“Então, v-vou preci-sar continuar r-receben-do l-lições dele?”Perguntou Gwenaël.
Maurice assentiu, resignado, o que fez com que o choro de seu neto ficasse ainda mais intenso. O homem encarou a cadeira onde o neto estava sentado, tentando determinar a melhor coisa a se fazer naquele momento.
“Que tal assim: eu vou conversar com o seu pai, e ver se existe uma maneira de fazer com que ser um feiticeiro não seja uma coisa tão ruim,” falou Maurice, sabendo que estava se colocando em uma enrascada.
O pensamento não permaneceu em sua cabeça por muito tempo, entretanto, pois logo o homem sentiu os pequenos braços de Gwenaël o abraçando e as lágrimas molhando sua camisa. Maurice abraçou o neto, e eles assim permaneceram por longos minutos, nos quais os soluços do menino diminuíam gradativamente.
Assim que o silêncio preencheu a sala, Maurice observou o neto reaparecendo em seu colo e percebeu que ele dormira.
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Por um longo e tortuoso período, a jovem foi Rose French e não sabia ao certo onde estava, como estava e porque estava: os pensamentos se misturando em sua cabeça de modo confuso enquanto ela tentava encontrar algo que explicasse essas questões. Mas tudo do que podia se lembrar que fazia algum sentido era da escuridão e da solidão, mescladas em um sentimento no qual ela não pensava, pois não era capaz de descrever.
Durante esse período, ela cogitou a possibilidade de que não existia de fato, porque não havia absolutamente nada que comprovasse sua própria existência. Ela podia sentir a própria respiração, ouvir as batidas de seu coração e sentir seu toque quando abraçava as próprias pernas em busca de algum contato humano, mas isso muito bem podia ser uma ilusão, algo criado para enganá-la.
Não sabia, e não saber se tornava cada vez mais sufocante e devastador. Ela, que cada vez mais duvidava do próprio nome, começou a se perguntar se um dia deixaria aquele limbo e descobriria a resposta para todas as questões que surgiam, desapareciam e ressurgiam em sua cabeça. Parecia-lhe muito improvável.
Algum tempo depois – ou muito tempo depois, e essa era mais uma coisa que ela não sabia –, a jovem acordou repentinamente de um sonho muito vívido com uma criança e um homem de pele reluzente. Ela se perguntou quando adormecera, pois não se lembrava de tê-lo feito em muito tempo, mas o fato de que acordara significava que dormira. Certo?
A jovem olhou para as próprias mãos e, pela primeira vez, notou que um anel indicava que era casada. Isso a surpreendeu, pois nunca se lembrara de um marido – mas, também, não se lembrava de muita coisa.
Ela já estava muito certa de que não era Rose French. Havia outro nome, ela de alguma forma sabia; um nome tentava sair de dentro de si, um nome que parecia fazer muito mais sentido. Observou o anel com atenção e notou que era dourado com uma pedra lilás muito singular. Belle, meu nome é Belle, ela percebeu repentinamente.
O alívio que aquela descoberta lhe causou durou algum tempo, mas de repente ela começou a se perguntar por qual motivo acharia que se chamava Rose French. Não era como se os nomes fossem similares.
Ela sabia, entretanto, que a resposta para tudo estava naquele pequeno objeto, que fazia com que algo dentro dela começasse a lentamente despertar, algo importante e antigo. Embora o sentimento fosse predominantemente incômodo, a jovem – Belle, ela se lembrou – simplesmente não conseguia tirar os olhos do anel, como se ele possuísse um campo magnético que a atraísse.
A primeira reação de qualquer um, ela supôs, seria retirar o anel de seu dedo para uma análise mais meticulosa; mas alguma coisa dentro da jovem dizia que não devia fazer aquilo em hipótese nenhuma. Aquele anel, aquele anel era garantia.
Garantia de que? Perguntou-se, sabendo que não encontraria a resposta e também com a certeza de que acabaria por escutar seus instintos, e o anel permaneceria onde estava.
Então, repentinamente, a porta se abriu e uma mulher de lábios muito vermelhos, cabelo preso em um coque alto e completamente trajada de branco surgiu no campo de visão dela e lhe ofereceu um par de pílulas. A jovem se lembrou repentinamente que aquela pessoa sempre levava sua medicação e que ela deveria tomar sem relutância, ou…
Ou o que? Aquele era um lugar para pessoas insanas, como ela. Nunca haviam utilizado nenhum método violento, certo? Todos queriam apenas ajudar. Não, isso estava equivocado, mesmo ela sabia, pois se lembrava do longo período de escuridão e abandono – o que, em si, já era um ato de violência.
Como, Belle se perguntou, ela passara tanto tempo sem recordar daquela mulher quando a presença dela era a garantia de sua própria existência? A resposta era nebulosa, mas a jovem estava certa de que tinha relação com aqueles remédios que lhe estavam sendo entregues. Não devo tomá-los! Gritou uma voz desesperada si, algo que parecia emanar de dentro dela e, curiosamente, também do anel – embora Belle tivesse tido a sensatez de não encará-lo diante da enfermeira.
A jovem recebeu os remédios e jogou-os na boca, fingindo engoli-los para convencer a outra mulher a deixá-la em paz. Ela ainda a encarou por alguns segundos com curiosidade antes de sair. Belle soube naquele momento que fizera algo ligeiramente equivocado e que teria que descobrir o que para que não repetisse o erro – pois não podiam descobrir que ela não tomara os remédios.
Depois disso, o tempo se tornou menos nebuloso e ela começou a se lembrar, aos poucos, de pequenos elementos de seu passado, como estranhos nomes que começaram a surgir em sua cabeça: Rumpelstiltskin, Gwenaël, Maurice…
Aquele dia foi muito confuso, e Belle se perguntou se um dia recordaria dos rostos a quem pertenciam aqueles nomes. Ela tinha esperanças, percebeu repentinamente, o anel lhe dera esperança, o anel era a sua esperança.
Ela se lembrou de adormecer naquele dia, e se lembrou de sonhar com um garotinho de pele reluzente que lhe dava conselhos a respeito de um homem chamado Rumpelstiltskin. Ela lhe perguntou o seu nome, por fim, e ele dissera: Gwenaël. E Belle soube, quando acordou, que o sonho de fato acontecera um dia, embora ela tivesse passado tanto tempo sem recordar dele por causa daqueles remédios.
Desde aquele dia, ela nunca mais tomou o remédio que lhe davam todas as manhãs, sempre fingindo engoli-los e jogando-os posteriormente dentro de seu travesseiro. Seus pensamentos foram clareando pouco a pouco e, depois de um tempo, ela se viu completamente consciente de quem verdadeiramente era e começou a se recordar dos pequenos detalhes que explicavam tudo o que estava acontecendo a sua volta.
Belle estava certa de que a maldição fora lançada em algum momento do passado que ela tinha certeza que nunca seria capaz de determinar com precisão. Também percebeu que a maldição a deixara fora de si por tempo o bastante para que seu cérebro ainda fizesse confusão com as realidades conflitantes.
O anel a acordara, o anel que continha o seu amor verdadeiro por Rumpelstiltskin e o dele por ela. Mas ela não sabia o motivo pelo qual demorara tanto tempo para que ele começasse a minar a sua maldição particular. Talvez, um dia, se saísse daquele lugar, Rumpelstiltskin lhe explicasse.
Quando finalmente recobrou todos os seus sentidos e todas as suas memórias, recuperando dessa maneira a sua identidade, Belle começou a se dedicar a encontrar um modo de sair daquele lugar e encontrar Rumpelstiltskin.
O problema sério era que as memórias de seu eu amaldiçoado, Rose French, não estavam muito claras após tanto tempo dopada com remédios, e Belle se viu lembrando apenas alguns detalhes muito pouco úteis, como o nome da cidade em que estava – Storybrooke – e o de seu pai, Moe French. Fugir para um mundo que não compreendia sem a menor noção de quem era inimigo e quem era aliado parecia uma ideia ainda pior do que permanecer naquele quarto estranho e escuro que não se parecia com uma cela – embora provavelmente fosse uma.
Certo dia, entretanto, ela acordou com o pressentimento que algo por fim mudaria. Era algo quase instintivo, e Belle aprendera muito bem a confiar em seus instintos após tudo pelo que passara, portanto, se preocupou em se preparar psicologicamente para o que viria enquanto rezava para que fosse algo bom.
Algumas horas após o seu despertar para aquele dia, ela ouviu vozes exaltadas se aproximando. Uma das vozes era masculina e vagamente familiar, as duas outras eram femininas – uma pertencente à enfermeira que sempre a visitava e a outra completamente desconhecida.
Belle se ergueu em um salto – com a consciência de que, se precisasse se proteger de um embate físico, não seria capaz tamanha a sua fraqueza – e, com o coração dando saltos em seu peito, observou a maçaneta da porta girando.
O que veio posteriormente foi a luz muito brilhante vinda de fora da sala e a silhueta de um homem se aproximando lentamente dela.
“Miss French,” disse o homem, muito emocionado, e Belle finalmente percebeu de onde a conhecia: havia algo em seu tom que a fazia se lembrar de seu Rumpelstiltskin. “Venha comigo, eu vou te tirar desse lugar.”
Ela ergueu o olhar – repentinamente percebendo que o desviara devido à luz – e encarou um par de olhos azuis muito parecidos com os dela transbordando lágrimas. Não, aquele não era seu Rumpelstiltskin, aquela pessoa, aquele rapaz, aquele era…
“Gaël.”
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Maurice colocou o neto na cama bastante pensativo a respeito de como abordar a questão das lições de magia de Gwenaël. Ele esperava que Rumpelstiltskin o escutassem, mas não acreditava que isso fosse de fato ocorrer: o feiticeiro podia ser muito teimoso quando desejava – como a minha Belle.
Assim que se certificou de que o neto dormia profundamente, confortável em sua cama, Maurice rumou para a sua sala de reuniões – em que se sentia mais confiante e no comando da situação. Ele pediu, no meio do caminho, que um de seus empregados chamasse o feiticeiro e mandasse um jantar para os dois na sala.
Quando Rumpelstiltskin chegou, ele aparentava uma impaciência quase palpável, e imediatamente perguntou a Maurice o que ele desejava. O homem deixou escapar um suspiro e indicou o lugar na mesa diante dele, onde o jantar já os aguardava.
Rumpelstiltskin o encarou por alguns segundos, nos quais Maurice se perguntou se o outro se voltaria para a porta e iria embora, mas o feiticeiro se limitou a sentar ao lado dele e novamente perguntar o motivo pelo qual fora chamado ali.
O homem contou a Rumpelstiltskin então tudo o que acontecera naquele dia e o que Gwenaël lhe falara. Para a surpresa de Maurice, o feiticeiro não o interrompeu em momento algum e, quando ele terminou de falar, passou-se quase um minuto completo de silêncio antes que o outro finalmente o respondesse:
“Tenho sido um covarde durante toda a minha vida, Maurice de Avonlea. A princípio, achei que podia utilizar o ressentimento de Gaël por mim para facilitar seu aprendizado em magia,” ele disse, por fim. “Eu percebi muito rápido que a magia dele funciona de uma maneira diferente e, então, eu deveria ter tentado consertar as coisas, explicar tudo a ele. Mas conquistar o perdão de outra pessoa exige coragem, o que não me vem com facilidade.”
Maurice sorriu diante da sinceridade de Rumpelstiltskin, algo que nunca sonhara que testemunharia em sua vida – aquele homem estava realmente mudado! Ele propôs, então, que o feiticeiro passasse a almoçar com ele a Gwenaël todos os dias.
“Acima de tudo, Gaël se ressente de sua ausência, portanto, mais do que explicações, ele precisa sentir que você não o abandonará, ele precisa de segurança.”
Ele observou Rumpelstiltskin olhando fixamente para o vazio enquanto pensava a respeito do assunto. Por fim, o feiticeiro assentiu e, com a desculpa de que precisava pensar sobre o que dizer ao filho no dia seguinte, se retirou rapidamente, deixando o prato de comida intocado para trás.
O dia seguinte amanheceu nublado, e Maurice pensou se isso refletiria no humor de Gwenaël – algo bastante comum. O governante de Avonlea tomou seu desjejum com o neto, como costumeiro, e o informou que, a partir daquele dia, almoçariam juntos como uma família os dois e Rumpelstiltskin. O menino não pareceu muito satisfeito, mas assentiu ainda assim.
A manhã se passou lentamente enquanto Maurice se perguntava se tudo daria certo durante o almoço e, quando ele se ergueu a caminho da pequena sala de refeições, estava nervoso. Ele não sabia ao certo porque era tão importante para ele que Rumpelstiltskin e Gwenaël se dessem bem – talvez, fosse a maneira que ele tinha de honrar a filha, garantindo que a família dela continuasse unida.
Quando chegou ao lugar, encontrou os outros dois já o aguardando, completamente em silêncio. Ele cumprimentou Rumpelstiltskin com um breve aceno de cabeça e trocou uma reverência com Gwenaël.
Os três se sentaram, ainda em silêncio, e o almoço foi servido. Maurice se perguntou se a noite que Rumpelstiltskin tirou para pensar no assunto não servira para nada, pois o feiticeiro não parecia estar fazendo qualquer esforço para começar uma conversa com o filho.
“Como vão as aulas de magia?” Ele perguntou, por fim, tentando enveredar por um assunto relacionado aos outros dois.
Gwenaël e Rumpelstiltskin o olharam por alguns segundos, em silêncio, e Maurice achou que eles não o responderiam quando o feiticeiro começou a falar sobre a estranha magia de seu filho e como era difícil lidar com ela. Ele elogiou o filho o chamando de dedicado e inteligente – e, pela expressão no rosto de Gwenaël, Maurice pôde perceber que fora a primeira vez que o fizera –, mas disse que nunca vira nada parecido na vida.
“Talvez eu possa ajudar,” disse Gwenaël, e Maurice e Rumpelstiltskin o olharam com surpresa. “É a minha magia, talvez eu possa ajudar de algum jeito.”
“Você já ajuda, Gaël,” disse o feiticeiro, calmamente. “Você já me ajudou mais do que qualquer livro que eu tenha lido.”
“Mas eu não fiz nada,” ele disse, com ressentimento. “Você nunca me deixa fazer nada!”
Rumpelstiltskin balançou a cabeça negativamente, sentindo-se desamparado. Maurice sabia no que o feiticeiro estava pensando: não era fácil explicar certas coisas a uma criança de dois anos e meio, mesmo quando a criança era inteligente e precoce como Gwenaël.
“Lembra-se quando estávamos estudando as cores que você vê em volta das pessoas e eu estava tentando imitar a sua magia?” Rumpelstiltskin perguntou, e o filho assentiu prontamente. “Eu passei vários dias procurando nos livros por algo semelhante e bastou você tocar em mim enquanto usava a magia para eu começar a ver também, e descobrimos que é leitura de emoções. Você me ajudou muito naquele dia.”
Gwenaël assentiu, encarando o seu prato. O silêncio que se seguiu foi longo, mas não tão desconfortável quanto o anterior. E, quando os três se levantaram após o almoço e Maurice se despediu dos outros dois, percebeu que parte da animosidade do neto por Rumpelstiltskin o deixara.
Eles ainda não eram pai e filho, mas Maurice estava certo de que aquele era um começo e, se tudo desse certo, logo eles estariam tão unidos quanto Belle desejaria. E só faltará a sua presença para que tudo fique perfeito, filha.
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Ryan caminhava de um lado para o outro diante da porta do quarto para onde tinham levado sua mãe. Aparentemente, eles desejavam fazer alguns exames para se certificar de que ela estava saudável. Depois, Archie Hopper faria uma rápida análise psicológica para determinar se havia motivos para Rose French estar na ala psiquiátrica do hospital.
Entretanto, Ryan não podia acompanhar nenhum dos procedimentos, pois apenas era permitida que membros da família estivessem presentes, e o rapaz não podia dizer que uma mulher que aparentava a idade dele era sua mãe.
Emma quase desistira após a busca pela biblioteca e na casa de Jefferson — que ficou espantosamente impassível e silencioso, encarando Ryan com um sorriso torto que fez com que o rapaz pensasse que ele sabia do que realmente se tratava aquilo –, mas ele a convencera de que o hospital estava completamente sob o controle de Regina.
“Você já pode se acalmar, você sabe. Essa é a única saída e entrada desse quarto, e Emma está com ela,” disse August, observando o amigo.
“Ela se lembra, August,” disse Ryan, parando por um momento de andar para olhar para o outro. “Eu entendo que meu pai se lembre, pois foi ele quem criou essa maldição. Mas por que a minha mãe se lembraria?”
August se limitou a encarar o amigo com um olhar resignado enquanto ele voltava a caminhar pela sala de espera. Ele sempre fazia aquilo quando estava pensando, e isso nunca deixara de irritar o mais velho.
Foi enquanto August pensava a respeito do assunto que os dois ouviram o som de saltos e imediatamente se colocaram em alerta, sabendo a quem eles pertenciam. Eles esperavam que a rainha aparecesse em algum momento e se acreditavam preparados para enfrentá-la, mas isso não os impedia de temer. Dois segundos depois, a rainha surgiu no campo de visão deles, sua ira aparente em seu rosto.
“O que está acontecendo aqui?” Ela perguntou, sua voz, alta, transbordando temor e raiva. “Acabo de receber uma ligação informando que uma perigosa doente mental foi solta de sua cela sob as ordens da xerife. Onde está Swan?”
August se levantou da cadeira e se interpôs entre Ryan e Regina, que se encaravam como se fossem matar um ao outro. Não que ele quisesse estar no meio daquela briga, mas também não queria que o amigo fosse preso por assalto à prefeita de Storybrooke e incapacitado de ajudar a mãe. Embora passasse a impressão de calma, o mais novo podia ser muito temperamental quando a situação era de acordo – e August nunca vira o amigo encarar um momento em que tivesse mais motivos para estar irado com alguém.
“Senhora prefeita, receio que a xerife esteja ocupada se certificando de que esteja acompanhando os exames que estão fazendo Rose French,” disse August, tentando fazer sua voz transmitir calma, embora já soubesse previamente que era inútil. “Como ainda não tivemos tempo de contatar o pai dela e Miss French estava um pouco desnorteada, a xerife achou adequado que permanecesse ao lado dela.”
Regina não encarou August em nenhum momento enquanto este falava, seu olhar focado em um Ryan que tentava a todo custo conter a sua ira. O mais novo não desviou o olhar em nenhum momento e, repentinamente, percebeu sinais de reconhecimento no rosto da prefeita.
“Quem é você?” Perguntou, e Ryan sorriu triunfante por saber que ela conhecia e temia aquela resposta. “O que significa isso tudo?”
“Receio que essa pergunta não seja a correta, senhora prefeita,” falou Ryan, o sorriso ainda teimando em permanecer nos seus lábios, embora ele tentasse com afinco transformar seu rosto em uma máscara, como há muito seu pai lhe ensinara. “A pergunta que a senhora deveria estar fazendo deveria ser: o que ele fará quando descobrir a respeito dela? O que ele fará quando ela contar a ele tudo pelo que passou?”
O rosto de Regina ficou muito pálido enquanto Ryan enunciava as palavras, e ele estava certo de que a prefeita já estava arrependida de ter aparecido e se denunciado. Antes que ela esboçasse qualquer reação, Emma Swan, o Dr. Whale e o Dr. Hopper saíram do quarto.
“Miss Swan,” disse Regina, visivelmente feliz em poder mudar o foco daquela conversa. “Acabo de receber uma ligação me informando que você mandou soltar uma perigosa doente mental. Você poderia…”
“Receio, prefeita Mills,” interrompeu Archie, com um pequeno pigarro, “que a jovem Miss French tenha sido diagnosticada de modo muito equivocado. Talvez, a senhora saiba o nome do psiquiatra que a internou e possa me informar, pois essa pessoa cometeu um erro imperdoável. Miss French está desnorteada após tanto tempo naquele lugar que esse hospital chama de ala psiquiátrica, mas posso garantir que é perfeitamente saudável, mentalmente falando.”
“Sei que ela pode parecer equilibrada agora, Dr. Hopper,” disse Regina, e Ryan pôde ver que suas palavras ainda ressoavam na cabeça dela. “Mas ela foi internada exatamente por seus graves surtos.”
“Então, dê-me a pasta do caso dela para que eu possa dar uma olhada,” disse Hopper, com um olhar genuinamente preocupado. “De todo modo, eu vi o lugar onde ela foi colocada, e é desumano. Ela não deve retornar àquele lugar.”
“Bom, é o único lugar de que dispomos para pessoas como ela,” disse Regina, com um sorriso nascendo nos lábios. “Se não é do seu agrado, Hopper, talvez possamos contatar outros lugares e tentar interná-la fora de Storybrooke.”
“Isso está fora de cogitação,” respondeu, para a surpresa de Ryan e August, Emma. “Ela não sairá da cidade enquanto não conversarmos com o pai dela e descobrirmos o que ele pensa sobre o assunto, e eu ainda gostaria que Archie fizesse uma análise mais profunda do caso.”
Hopper assentiu lentamente e encarou Regina, que prometeu lhe enviar a pasta do caso de Rose French ainda naquele dia e foi embora sem dizer mais uma palavra sequer. Ryan respirou profundamente e encarou Whale com atenção.
“Você pode me informar como ela está, por favor?” Perguntou Ryan, tentando passar um aspecto de calma que ainda não era capaz de sentir. “Ouvi o que o Dr. Hopper disse sobre a saúde mental dela, mas a verdade é que é a física que me preocupa.”
Whale o encarou por um momento, incerto se deveria dizer qualquer coisa a uma pessoa que sequer era da família da jovem. Antes que ele pudesse se decidir a respeito, Emma se adiantou:
“Segundo os exames que o Whale fez, ela passou por um longo período de alimentação muito escassa,” disse, com o olhar fixo em Ryan. “Está subnutrida, anêmica e sofre leves efeitos de abstinência dos medicamentos que tomou, como pequenas tremedeiras, mas vai ficar bem.”
Ryan assentiu, incerto a respeito do que responder. Ele encontrara sua mãe e a realidade finalmente o atingira. Ele cumprira a missão de sua vida, encontrara sua mãe e agora podia ressuscitar a sua pequena família. O problema da maldição parecia muito pequeno diante disso.
“Eu quero vê-la,” ele falou, com a voz rouca.
“Sinto muito, rapaz,” disse Whale dando um passo em direção a Ryan. “Ela está muito esgotada, e receio não poder permitir visitas que não sejam de pessoas da família dela.”
Ryan abriu a boca para protestar quando Emma novamente intercedeu por ele:
“Não seja um babaca, Whale, foi ele quem me falou a respeito de Miss French,” disse, com impaciência. “E qualquer um que tenha visto o rosto dos dois saberia que eles são parentes próximos. Você pode entrar, Greenley.”
Ryan assentiu e caminhou até o quarto onde a mãe estava. Ele sentia seus pés pesados e seu peito dolorido, pois estava a caminho de ver a sua mãe. E se a decepcionasse? E se ela não gostasse mais dele? O homem sabia que aqueles pensamentos eram tolos, mas não pôde impedi-los.
Quando Ryan abriu a porta, encontrou imediatamente o olhar de sua mãe.
O que mais o incomodava e envergonhava era o fato de que sua memória não fazia justiça à aparência dela, e que tipo de pessoa não se lembraria do rosto da própria mãe? Ele rapidamente desviou o olhar e se concentrou em se sentar na única cadeira que se encontrava no quarto e encarar os próprios pés.
“Gaël,” disse ela, e sua voz não era bela e melodiosa como ele se lembrava de ser, mas muito rouca devido à falta de uso. “Você está tão grande e bonito! Desculpe-me por não estar presente para ver isso acontecendo, você precisa acreditar em mim quando digo que realmente sinto muito.”
“Não é sua culpa,” ele disse, com raiva e olhando para os próprios pés. “A culpa é de Regina por ter te seqüestrado, do meu pai por não ter cuidado de nós dois tanto quanto deveria. Você é a única que não tem nenhuma responsabilidade a respeito disso. Você é a vitima!”
Eles passaram algum tempo em um silêncio que Ryan considerou opressor. Sabia que ela podia ouvir as palavras que ele não dissera, a culpa que não revelara ter sentido, e se perguntou se o silêncio dela era uma forma de concordância. Repentinamente, Ryan sentiu os dedos da mãe em seus cabelos e ergueu os olhos para encontrar os dela cheios de lágrimas.
“Você se parece muito com o seu pai, Gaël. Vocês dois querem segurar o mundo sobre os ombros,” havia um quê de leveza e brincadeira no tom dela que fez com que Ryan se sentisse imediatamente mais relaxado. “Às vezes, o mundo nos prega peças, e nem sempre podemos controlar tudo e todos. Muitas vezes, precisamos aceitar o nosso destino e tirar o melhor proveito dele.”
Os dedos de Belle percorreram os cabelos dele e deslizaram até a base do pescoço, e ela se viu segurando o colar prateado que ele sempre possuíra: o presente de trégua das fadas para o filho do Senhor das Trevas, conforme lhe fora dito. Ryan percebeu o sorriso de Belle crescendo.
“Bom, nobre e bonito, eu tenho medo que existam muitos netos me esperando fora desse quarto,” ela disse, um sorriso brincalhão nos lábios. “Não estou certa de que eu esteja pronta para ser avó.”
“Durante todos esses anos, eu nunca pensei em começar outra família,” disse ele, com mais veemência e seriedade do que a situação de fato exigia. “Não podia me dar ao luxo de pensar sabendo que você, meu avô e meu pai precisavam de mim. Vocês são a minha família.”
Belle não permitiu que seu sorriso morresse, mas Ryan percebeu a tristeza crescendo novamente em seus olhos. Ele se levantou e segurou as mãos dela com firmeza.
“Talvez, existam netos em um futuro distante, mas o futuro é o ramo do meu pai, não o meu. O que eu sei é que tudo o que quero agora é a família que me foi tirada,” disse Ryan, e o sorriso de Belle se tornou novamente alegre quando ela assentiu, concordando.
“Isso você conquistou o direito de ter, meu Gaël,” disse Belle, abraçando-o fortemente. “Muito obrigada por ter me libertado, filho.”
E, quando Moe French entrou no quarto da filha, alguns minutos depois, ele sentiu os olhos ardendo devido às lágrimas quando viu seu neto e sua filha, seus dois sóis, juntos e abraçados, irradiando luz novamente em sua vida. E ele só pôde sorrir.
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*Você costumava me cativar/Através de sua luz ressonante/Agora eu estou vinculado pela/Vida que você deixou para trás/Seu rosto assombra/Meus sonhos que já foram agradáveis/Sua voz expulsou/Toda a sanidade em mim (My Immortal – Evanescence)
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