Catarina corria como uma gazela fugindo do tigre. Ela estava só com as meias, pois os sapatos de madeira eram muito pesados e não lhe permitiam aumentar as passadas. Ela sentia as pedras no caminho, e poderia jurar que alguns gravetos no chão haviam rasgado suas meias, mas ela não podia parar. O tempo estava ventilado e ensolarado. O céu era azul cobalto, e as árvores enchiam o horizonte de verde clarinho. Se ela não estivesse tão transtornada, com certeza pararia para admirar aquela paisagem, e quem sabe subiria em uma árvore para chupar laranjas e se balançar ao sabor do vento. Aqueles doces momentos do passado pareciam pertencer à outra vida, de outra garota. Agora a vida de Catarina estava ruindo e literalmente iria se acabar mais cedo do que ela poderia imaginar.

Ao longe ela avistou a casa de Miguel. Seu coração quase saltou do peito quando ela viu Miguel carregando tinas de água para sua casa. Os irmãos e irmãs de Miguel brincavam ali por perto, todos em roupas simples de casa, descalços e sujos. Eles com certeza não sabiam sobre a inquisição. Ao lembrar-se do alvoroço na cidade, Catarina começou a chorar. Lágrimas banharam sua face, e seu rosto se contorceu em uma careta, enquanto ela tentava reprimir os soluços. Miguel a viu aproximando-se e colocou as tinas de água no chão para poder acudir Catarina. Ele a alcançou primeiro e segurou-lhe os ombros enquanto procurava acalmá-la.

— Catarina o que houve? Por que choras? Tua mãe está bem?

— Miguel... Miguel... tu e tua família... precisam fugir... a inquisição Miguel... A inquisição...

— O que tem a inquisição Catarina? Nós não tememos a inquisição. Todos nós somos católicos e pagamos o dízimo. Não é mesmo pai? — Miguel perguntou em voz alta para seu pai, um senhor de ombros largos e magro, com um grande bigode que se emendava com costeletas.

O pai de Miguel se aproximou em silêncio e olhou grave para Catarina.

— O que tens a nos dizer menina Catarina? — O patriarca perguntou.

— A inquisição está em nossa cidade... eles deram início ao que eles fazem... começaram a prender pessoas... a cidade está maluca, um caos... Dona Lauredana foi presa... — Catarina não conseguiu se controlar e caiu no choro.

Miguel a abraçou e ficou fazendo um som de acalento, enquanto passava a mão na cabeça dela. O pai de Miguel olhava para os jovens a sua frente, mas era como se não os enxergasse. Seu pensamento estava longe. A mãe de Miguel se aproximara silenciosamente e ouvira parte da conversa. Ela abraçou-se ao marido e o olhou em uma pergunta muda. Catarina acalmou-se. Precisava avisá-los e convencê-los a fugir. Eles corriam perigo de vida.

— Miguel... Vocês precisam fugir. Não é seguro ficar aqui.

— Do que tem medo Catarina? Han? Eu e minha família não fazemos bruxaria, se é isso que você está pensando. Eles não podem nos acusar de nada. — Miguel tentava tranqüilizá-la.

— Miguel, meu filho. Eu vou falar só uma vez. Escute-me com atenção e não discuta, apenas obedeça. — O pai de Miguel se manifestou.

Miguel ficou surpreso com o tom sério do pai. Percebeu que a situação era mais grave do que imaginara.

— Nós vamos embora daqui. Catarina tem razão, a inquisição virá atrás de nós e nos... aniquilará. — O pai de Miguel olhou para sua esposa e apenas fez um movimento com a cabeça. Ela então se afastou e começou a chamar os filhos.

— Pai o que significa isso? — Miguel perguntou, mas obteve apenas o olhar sério do pai como resposta.

O velho homem apenas virou-lhe as costas e foi até o estábulo. Miguel ficou sem saber o que fazer.

— Miguel... o povo na cidade diz que vocês... não são verdadeiros cristãos. Eles chamam vocês... de judeus. — Catarina falou para Miguel com um nó na garganta.

Naqueles tempos chamar alguém de judeu era uma ofensa e motivo de humilhação. Miguel apenas olhou para ela com cara de choro, mas então se afastou e foi atrás do pai. Pelo resto do dia Miguel não falaria nada.

Em uma hora reuniram todos os pertences e provisões essenciais para uma longa jornada. As crianças e os jovens foram andando, acompanhando a carroça com suas bagagens, que foi o que puderam carregar para a fuga. Os pais de Miguel iam na carroça, guiando a parelha de quatro cavalos. Miguel e Catarina iam puxando um casal de bovinos consigo, e as crianças iam levando ovelhas e cabras. Seguiram pela estrada principal, e após muitas horas de caminhada, pararam para descansar. Fizeram um pequeno lanche e já iam retomar a viagem, quando o pai de Miguel resolveu abandonar os animais. Todos sentiram pesar, mas ninguém o confrontou por isso. Todos ficaram muito tristes, mas consideraram que o patriarca sabia o que estava fazendo.

Por muitos dias andaram e fizeram diversas paradas. Os pais de Miguel resolveram vestir os filhos com várias peças de roupa, e esconder comida em seus bolsos. Abandonaram a carga da carroça pelo caminho, e colocaram as crianças cansadas na carroça. Durante as noites eles dormiam na mata fechada. Estavam exaustos e temerosos. O pai de Miguel não conseguia dormir, passando as noites em vigília, que alternava com Miguel. Catarina de quando em vez lembrava-se da mãe, e do quanto sua genitora estava assustada. Sentia remorso por não ter ficado com ela, mas a família de Miguel precisava dela. Sua mãe com certeza deveria ter se escondido em algum lugar, pois voltar para casa era perigoso. Como Catarina ansiou estar ao lado de sua tão sofrida mãe. Lágrimas de pena e desespero banhavam-lhe o rosto freqüentemente.

Catarina dormia nos braços de Miguel, e toda vez que ela era sacudida por soluços, ele a apertava um pouco mais e a ninava como a uma menina. Antes de o sol nascer o pai de Miguel acordava a todos, e eles prosseguiam na jornada. Chegaram à outra paragem, em que as pessoas falavam com uma entonação diferente. O pai de Miguel fez um negócio. Ele entregou sua carroça e cavalos cansados em troca de sua inclusão em uma caravana de migrantes, que partia para uma terra longínqua. Catarina protestou e quis voltar para sua cidade, mas eles não a deixaram ficar. Eles a tinham como parte da família agora. E foi assim que a família conseguiu fugir da inquisição e atravessou a fronteira para outro país, onde a paisagem era diferente e as pessoas falavam outra língua.

Eles pediram a um rico senhor que os deixasse morar em suas terras, em troca de trabalhar na lavoura e entregar-lhe toda a produção. Conseguiram uma casa para morar e comida, mas nada daquilo era seu, e sempre seriam vistos como estrangeiros. As crianças estavam tristes e os jovens estavam preocupados. A mãe de Miguel lamentou ter perdido tudo, mas ao menos sua família estava viva. Quanto a Catarina, não havia um só dia em que ela não se lembrasse da mãe, e tivesse que conter o impulso para sair correndo de volta para casa.

A magricela menina Clariana passou a mão nos arbustos rasteiros, que produziam flocos fofos esbranquiçados semelhantes algodão. Ela encheu uma grande cesta de vime com aquelas pequenas nuvens que as plantas produziam. Sua mãe chamou-a. Ela voltou para casa saltitando feliz. Suas tranças balançaram as suas costas, com tanta força que a fita de cetim amarelo que amarrava uma das pontas, caiu ao chão. Quando ela entrou em sua humilde cabana, seu marido a recebeu com um grande sorriso e lhe entregou a fita amarela perdida. \"Quando tivermos uma filha ela usará fitas amarelas no cabelo\" ele lhe falou. \"Por onde andará Catarina?\" ela pensou. Sua filha havia saído cedo para procurar uma gata parida, e ainda não voltara para ajudá-la.

A graciosa donzela Clariana resolveu cuidar no almoço. Pegou o farnel de vagens de feijão e começou a debulhar. Os deteriorados para um lado. Os bichinhos ela matava, e os feijões inteiros e bonitos iam para sua tigela. Era uma quantidade enorme de feijões, mas ela gostava de fazer serviços domésticos. Sua mente viajava para reinos fantásticos nessas horas. Depois de escolher o feijão e lavá-lo, ela colocou em uma grande panela de barro que ferveria no forno a lenha. A água começou a ferver e o ambiente ficou insuportavelmente quente. Clariana sentiu necessidade de sair dali, pois tinha medo de sucumbir com tanto calor. Ela resolveu dar uma volta na cidade. Ao sair de casa, sua amiga Lauredana a cumprimentou e ambas começaram um longo e agradável passeio até a cidade. Andaram tanto que Clariana sentiu todos os ossos do corpo doerem. Estava muito cansada. Lauredana molhou seu lenço de algodão em água fresca e passou na fronte de Clariana. \"Agüente um pouco amiga, logo voltaremos para casa. Só mais um pouco.\"

A jovem matrona Clariana decidiu voltar ao seu lar de madrugada e manteve janelas e portas fechadas. Fez uma refeição e procurou repousar, embora sua mente estivesse dando voltas, com as muitas imagens que vivenciou naquele dia sem fim. Onde estaria sua filha Catarina? Se ela estava na casa de Miguel, seu namoradinho, então estava bem. Ela dormiu e teve um pesadelo, em que havia morrido e ido parar no inferno, com o capeta vestido de batina negra lhe atiçando o braseiro com um grande garfo, enquanto as labaredas lhe mordiam as carnes. Acordou banhada em suor, sentindo calafrios e uma violenta dor de cabeça que a fazia enxergar estrelinhas e manchas roxas a sua frente.

Ela procurou ar fresco no quintal de casa, indo sentar-se em um tosco banco sob velha árvore. Permaneceu ali o resto da noite. Quando o céu começou a se tingir de vermelho-laranjado ela começou a ouvir sinfonias de aves. Em sua maioria eram galos, mas poderia identificar também alguns pássaros canoros. Seu marido a abraçou e disse-lhe palavras doces ao ouvido. Ela murmurou alguma coisa para ele. Não conseguia ouvir o som das próprias palavras, no seu íntimo queria dizer: \"Pelo menos Catarina está salva\". Seu marido lhe disse mais palavras doces e encostou sua cabeça no peito dele. Ela falou-lhe algo importante, mas não conseguiu ouvir o som de sua voz. O que ela queria dizer era: \"Você sabia que seu pai foi preso?\"

Seu marido assentiu com a cabeça e permaneceu placidamente ao lado dela, velando por seu sono. Ela conseguiu dormir novamente. Dessa vez sonhou com um bonito lago na floresta. Sua mãe e seu pai estavam na outra margem e pediram a ela que pegasse uma canoa que estava ali e fosse ter com eles. Ela examinou tudo em volta e encontrou a canoa. Entrou e sentou-se. Procurou pelo remo, e desamarrou a corda que prendia a canoa à terra firme. O barco se desprendeu e seguiu deslizando suavemente até o outro lado do lago. Ao chegar do outro lado, percebeu que estava acompanhada. Seu marido a acompanhara na viagem de canoa, e agora os quatro estavam juntos do outro lado.

Enquanto isso, no calabouço da sede da inquisição, o algoz pegou um balde com água. Ele o atirou sem cerimônias na cara da prisioneira. A velha mulher não reagiu. Continuou com os olhos semicerrados, e o rosto sereno de quem estava em paz. O algoz não gostou do que viu.

— Desgraçada! Alguém chame o médico aqui. Eu acho que essa bruxa aqui já era.

Alguns soldados correram escada acima e voltaram logo depois com um homem vestido luxuosamente, gordo e de olhos empapados. Ele trazia uma bolsa de couro a tira-colo. Retirou alguns frascos do interior e os abriu sob o nariz da velha mulher que estava presa em correntes a uma espécie de mesa inclinada. O médico da inquisição guardou seus frascos e a seguir passou a examinar a mulher. Após alguns minutos confirmou as suspeitas do algoz.

— Está morta. Você deveria ter me chamado mais cedo. Eu lhe avisei que idosos não agüentam tanto quanto os mais jovens.

— Com mil culhões de bodes. E agora o inquisidor geral vai descontar em mim. É bem capaz de ele cortar meu salário novamente. Por que essa bruxa não agüentou mais algumas horas? — Reclamou o algoz desferindo violento soco no cadáver para liberar sua frustração.

— Ora pare com isso. Ela não pode mais senti-lo. Preciso do nome dela para meu relatório para o inquisidor geral. Como a defunta era chamada?

— Clariana de Navarro. Foi presa no primeiro dia de ronda. Não falava coisa com coisa. Ela pensou que me enganava se fingindo de doida. Mas nenhuma magia resiste ao meu látego.

— É, mas ela conseguiu executar uma grande magia que a livrou de suas mãos.

— Que porra de grande magia é essa?

— Ela morreu.