Catarina
5 Sunset
Notas iniciais
No dia seguinte, sábado, era por volta de 11h quando minha mãe deu o ultimato para que eu levantasse da cama – ela não é a maior fã de acordar tarde –. Foi um começo de sábado comum: Chá bem quente no café da manhã. Frango com batatas no almoço, típico lá de casa. E então, eu já estava muito ansiosa para que o relógio soasse 16h. Não que eu seja “santa” ou qualquer coisa do tipo, mas para o auge dos meus quase 17 anos, eu não havia saído com muitos garotos. Consequentemente, eu não sabia o que esperar.
Peguei meu celular e vi que algumas mensagens das meninas piscavam na tela. Elas estavam querendo saber o que eu vestiria, que maquiagem eu iria passar e todo esse tipo de blá-blá-blá. Bom, acontece que nem eu sabia. Depois de uma envolvente discussão sobre roupas de primeiro encontro que durou aproximadamente 4 minutos, eu me joguei na cama e suspirei. Ok, isso vai ser mais difícil do que eu pensava. Será que ainda dá tempo de cancelar e assistir a maratona de Harry Potter do Telecine? Não, não dá. Eu nunca faria isso, na verdade.
Olhei para o relógio do celular. Eram 15h13, e eu precisava sair de casa 15h45 no máximo. Finalmente decidi a roupa que eu usaria: Peguei um vestido preto rodado que ia até um pouco acima do joelho, uma jaqueta jeans e meu clássico coturno preto. Por último, passei um batom vermelho queimado – meu favorito – e delineador nos olhos. Ok, estava aceitável. Olhei para o relógio e: 15h40. Droga!
Corri para pegar uma bolsa e joguei dentro dela meu celular, carteira e o livro Romeu e Julieta, junto com alguns rascunhos dos personagens que eu havia feito. Era para isso que estávamos saindo, não era? De qualquer forma, eu não queria me atrasar. Passei pela sala, onde meus pais estavam, e me lembrei que eu não havia avisado que sairia.
– Hum, mãe? – Chamei. Ambos viraram para prestar atenção no que eu iria falar, já que eu estava com uma roupa totalmente diferente da de antes e com maquiagem no rosto. – Vou lá para o café, ok? – Perguntei, apressada.
– Vai com alguém? – Ela respondeu.
– Hã... Vou encontrar as meninas. Não sei que horas volto, mas te ligo quando sair de lá. – Concluí, apressada. Não esperei por resposta deles e já saí do apartamento, descendo pelas escadas. Espero que minha mãe não invente de ligar na casa da Georgia hoje. De qualquer forma, ela me daria cobertura. Não era bem uma opção dizer para minha mãe que eu sairia com Erin.
O caminho andando até a praça não era longo, mas levou cerca de dez minutos. Sempre fui pontual com compromissos, eu não era fã de me atrasar. Quando cheguei, sentei no mesmo banco onde havíamos conversado no dia anterior. Peguei meu celular e mandei mensagem para as meninas, um tanto nervosa.
Depois de uns quinze minutos, Erin apareceu. Ele usava uma calça jeans, camiseta cinza simples e uma jaqueta de couro por cima. A pele clara contrastava com o preto da jaqueta e os cabelos dele estavam especialmente lindos. Assim que o vi, guardei meu celular na bolsa e me levantei.
– Hey, Cat. Está aí há muito tempo? – Ele perguntou, se aproximando.
– Faz uns dez minutos, não muito. Vamos? – Respondi, com um sorriso bobo no rosto. E então, começamos a caminhar lado a lado até o café. Não demorou muito até que chegamos no lugar. Era grande, tinha muitas mesas e eu costumava frequentá-lo desde que me mudei para aquele apartamento, o que significa muito tempo. Haviam dois ambientes, o de dentro e o de fora, ambos com mesas de madeira geralmente dispostas para duas ou quatro pessoas. Todos os funcionários mais antigos daquele lugar conheciam minha família e quase todos os finais de semana nós aparecíamos por lá.
Eu e Erin nos sentamos em uma das mesas do lado de fora, onde batia o sol do meio da tarde. Estava agradável e, apesar do sol, não fazia muito calor. Uma das funcionárias que eu conhecia apareceu: Era Wanda, uma senhora de seus cinquenta e poucos anos que trabalha lá desde que me conheço por gente.
– Catarina, querida! Como vai? – Ela chegou até a mesa falando alto para mim, até que percebeu que quem estava comigo era Erin, e não minha mãe. Ela olhou para ele e, em seguida, abriu um sorriso para mim. – O que vão querer?
Pedimos dois sucos de laranja que chegaram em pouco tempo e, enquanto isso, conversamos sobre aleatoriedades. Erin já tem dezoito anos porque entrou um ano atrasado na escola, gosta de ouvir rock, de andar pelas ruas movimentadas da cidade à noite e de sentar em lugares quaisquer e desenhar estranhos que passam. Ele também gosta de sair para fotografar, que é um dos hobbies dele além de desenhar. Pelo menos na cidade antiga, era o que ele costumava fazer. Ele se mudou para cá faz pouco tempo e ainda não conhece todos os lugares legais. Então, eu disse que o levaria para conhecer meus favoritos.
– Poderíamos ir pra lá agora, Cat. – Desde ontem, ele adotou o apelido “Cat”. Não que eu não tenha gostado, muito pelo contrário. Achei fofo. Inclusive, meu nome soa muito melhor vindo dele. Tudo soa melhor vindo dele, e eu não estou gostando do que isso está se tornando.
Não que eu tenha medo de gostar de alguém, não é isso. Mas é que, das poucas vezes em que eu gostei de alguém, algo deu muito errado. Já ocorreu uma vez onde o garoto que eu gostava mudou de país, outra onde descobri que na verdade ele gostava de uma amiga muito próxima e só tinha se tornado meu amigo para que eu “conseguisse” ela para ele. Mas acho que essas foram só paixonites, sabe aquelas em que você quer muito uma pessoa ao ponto do exagero, mas depois... Passa?
E eu não sabia exatamente o que eu sentia pelo Erin. E era exatamente isso que eu precisava descobrir. Pensando bem, como diz um ditado popular do qual eu gosto muito: “Quem está na chuva é para se molhar”, então por que não?
– Vamos! Só que é um pouquinho longe daqui. – Eu respondi e imediatamente ele sorriu.
– Não tem problema, vamos, depois te deixo na sua casa. – E então pagamos os sucos e ele segurou minha mão e me guiou até um carro preto, que estava perto da praça. Por essa, eu definitivamente não esperava. Erin pegou as chaves no bolso da calça e logo em seguida abriu a porta do passageiro para mim. Assim que ele entrou no carro, comecei a indicar por onde deveria ir. Iríamos para um dos meus lugares preferidos na terra: O prédio onde meu pai trabalha. Bem, falando assim, não parece muito.
– Chegamos! – Eu disse e Erin estacionou o carro. Saímos, ele pegou uma mochila que estava no banco de trás e eu segurei no braço dele, andando depressa. – Ok, feche os olhos. Não, melhor não, vai que você tropeça. Não seria legal. – Concluí, e ele riu. Parei na frente do prédio e abri os braços, apontando para o destino. Era um edifício comercial, com as janelas todas feitas de espelhos.
– Um prédio? – Erin questionou.
– Bem, acontece que é o prédio onde meu pai trabalha. E também, o prédio mais alto da cidade. E, por acaso, meu pai é chefe de alguma coisa, e eles me deixam entrar aqui. – Eu olhei para Erin, com os olhos provavelmente brilhando. Ainda o puxando pelo braço, passei pela porta e cumprimentei o segurança, que já sabia para onde eu iria. Entrei no elevador com Erin e apertei os números 1-3-3. Eram a senha para a cobertura.
Assim que o elevador chegou, Erin suspirou.
– Ok, isso é incrível. – Ele disse, andando em direção a uma das muretas do lugar. A cobertura era ampla, mas era apenas um espaço vazio que ninguém frequentava. Não tinha realmente nada lá, além da minha vista preferida no mundo todo. Dava para ver a cidade toda dali e, como já era mais ou menos 17h30, o sol já estava baixo. Mais uma meia hora e daria para ver o sol indo embora. Não havia nenhum defeito para colocar. Além disso, durante a noite era um dos poucos lugares onde dava pra ver as estrelas no meio da cidade.
– Gostou? – Eu perguntei, na expectativa. Aquele lugar era meu refúgio, um escape de tudo.
– É lindo. – Ele respondeu, observando o sol. – Muitas pessoas vêm aqui? – Ele perguntou, virando-se em minha direção.
– Na verdade, ninguém vem aqui. E eu também nunca trouxe ninguém aqui, então sinta-se honrado. – Eu sorri. Ele colocou a mochila que tinha pego no carro num canto no chão e me puxou pela mão, me girando como numa valsa.
– “Calma!, que luz é aquela na janela?
É o leste e traz Julieta como um sol(...)
Respondo a esses olhos que conversam?
Que audaz! Não é a mim que el’s se dirigem:
Ausentes em trabalho, duas estrelas
Pediram aos seus olhos p’ra brilharem
Nas órbitas enquanto elas não voltam
E se entre si trocassem de lugar?
Sua face humilharia essas estrelas” – Erin começou a recitar um trecho de Romeu e Julieta.
– “Ai de mim!” – Respondi, continuando com o trecho que ele havia começado. Paramos um na frente do outro e começamos a rir.
– Cat, me deixa tirar umas fotos suas? – Ele pegou a mochila do chão e dela tirou uma câmera Nikon com uma lente grande. Ele apontou a câmera para mim como se me ameaçasse e eu fiz uma pose, sorrindo. Depois de alguns cliques, ele abaixou a câmera e foi até o meu lado e, por alguns minutos, ficamos só observando aquilo tudo.
Depois de mais algumas fotos e muitas poses diferentes, acabamos sentados rabiscando desenhos numa das folhas que eu levei. Quando percebemos, já estava escurecendo e se eu não voltasse logo, minha mãe começaria a me ligar. E isso não seria bom.
– Erin, eu adoraria ficar mais aqui, mas preciso ir pra casa. Se anoitecer e eu não estiver em casa, a coisa complica para o meu lado. – Eu disse, com tristeza.
– Ah, tudo bem. Eu te levo pra casa com uma condição.
– Diz.
– Me leva em outro dos seus lugares preferidos, quando der. – Ele disse. Eu ri e concordei com a cabeça.
– Tudo bem. Me dá seu celular. – E então ele pegou o celular do bolso e me entregou. Coloquei meu número e salvei como “Cat” na lista de contatos dele.
Descemos da cobertura e fomos até o carro e, em pouco tempo, já estávamos na frente dos condomínios. Eu percebi que não queria que o dia acabasse quando demorei alguns minutos para mentalizar que eu deveria descer do carro.
– Obrigada por ter me trazido. – Agradeci Erin, dei um beijo na bochecha dele e abri a porta.
– Julieta, o prazer é todo meu. – Ele respondeu e eu desci do carro. Fiz um sinal de “Me liga!” com a mão e entrei no condomínio. Ele riu e entrou com o carro no estacionamento do condomínio da frente.
Quando entrei no meu quarto, as estrelas começavam a aparecer no céu e meu coração batia mais rápido.
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