Catarina
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Notas iniciais
POV Lúcia
Era domingo cedo e Catarina ainda estava dormindo quando eu e Marcos saímos para buscar café. Fazia sol e o céu estava bastante limpo, mas não fazia tanto calor. Chegamos na cafeteria e nos sentamos numa das mesas de dentro do lugar. A ideia era que comprássemos alguma coisa para comermos em casa, os três – mas, como ainda era muito cedo, Marcos deu a ideia de que tomássemos alguma coisa lá mesmo e depois levaríamos algo para Catarina, já que ainda era muito cedo e ela não acordaria tão logo.
Logo, Wanda veio nos atender. Sempre muito receptiva e gentil, a mulher nos cumprimentou e pegou os pedidos. Depois de alguns minutos, ela já trazia uma bandeja com um cappuccino, um expresso e dois pães na chapa.
– Qualquer coisa é só me chamar, Dona Lúcia. – Ela disse, sorrindo – Aliás, adorei ver a Catarina por aqui ontem.
– Parece que ela se divertiu com as amigas. Chegou em casa muito feliz. – Respondeu Marcos para Wanda.
– Amigas? Mas ela veio com um rapazinho.... Muito bonito, por sinal! Namorado dela? – Wanda perguntou, com inocência.
Rapaz? Mas ela nos disse que sairia com as meninas.... Parece que alguém em casa vai ter que se explicar. Catarina não é de mentir para mim. Quem seria possível de ela sair que não queira me contar, inferno?
– Como era esse rapaz, Wanda? – Perguntei, franzindo as sobrancelhas. Marcos percebeu que eu estava nervosa e me olhou com apreensão. Nunca fomos pais conservadores, mas a regra de casa era que ela deveria me contar o que está acontecendo.
– Ah, era da idade dela e tinha o cabelo liso, de um castanho bem claro, meio dourado. E os olhos bem escuros. Não sei o nome, mas parecia ser um bom menino. – Ela concluiu. Agradeci, tomamos os cafés e logo fomos embora.
– E então? Quer perguntar para ela? – Meu marido me perguntou, quando estávamos indo para casa.
– Não, Marcos. Vamos ver até onde isso vai. Com essa descrição, tenho uma ideia de com quem esse garoto se parece. Só espero que eu esteja errada. – Respondi, mas eu sabia que não estava. Intuição de mãe não falha e, para ela ter escondido, boa coisa não era.
–
POV Catarina
O final de semana passou rápido e logo já tínhamos aula novamente. O lado bom é que hoje teríamos aula de artes, então a peça ganharia algum andamento. A professora Clara chegou rápido e fomos para o anfiteatro da Golden Valley. Apesar de aula passada ter sido no atêlie, as próximas provavelmente seriam no anfiteatro por conta do espaço, principalmente. Além disso, haviam coxias e dois camarins grandes, que facilitavam a organização dos montes de alunos que estavam no elenco.
O restante dos alunos, que faziam parte do cenário, maquiagem, iluminação, sonoplastia, dentre outros tipos de itens necessários para a peça, ficavam na platéia – ou simplesmente sentados no chão, no espaço entre o palco e a platéia –, discutindo as coisas das quais eles eram responsáveis.
– Muito bem, queridos. Entregarei os roteiros para o elenco, – Ela dizia, enquanto já entregava – ...depois vamos provar os figurinos! E, quem sabe, um primeiro ensaio. – Completou a sra Clara, empolgada.
– Isso vai ser muito legal! – Georgia vibrou, sussurrando para mim, Lola e Jessy, que concordamos com a cabeça. Os figurinos que a professora Clara arranjava eram sempre muito bonitos e a expectativa de imaginar como tudo ficaria no dia da apresentação sempre fazia todos os alunos se animarem.
Depois que a professora entregou os roteiros, fomos para os camarins. Eram grandes o suficiente para comportar quase todos os alunos, sendo um com uma plaquinha em forma de estrela escrito “moças” e outro igual, escrito “rapazes”. As portas dos mesmos eram num corredor logo depois das coxias, uma de frente para a outra. Ao chegar lá, haviam duas araras grandes que guardavam lindos vestidos longos. Cada um tinha uma etiqueta com o nome da personagem e, com todas as meninas eufóricas, logo as araras foram esvaziadas.
Eu, Georgia, Lola e Jessy nos juntamos em um dos espelhos e em mais ou menos quinze minutos estávamos todas vestidas. Para completar, Georgia ainda fez uma trança no meu cabelo como se fosse uma tiara e ela e as outras duas fizeram coques baixos e bem presos. As outras meninas estavam espalhadas pelos outros quatro espelhos do camarim terminando de se arrumar.
Enquanto as três faziam seus últimos ajustes, amarrando coisas por todos os lados para que o vestido servisse perfeitamente, resolvi sair um pouco. Ao abrir a porta, dei de cara com Erin, que estava saindo do camarim da frente. Paramos um na frente do outro, avaliando mutuamente os figurinos e, depois de alguns segundos, sorrimos um para o outro.
– Você ficou incrível nesse vestido, Cat. – Ele quebrou o silêncio. Imagino que devo ter corado, coisa que não acontece com muita frequência.
– Igualmente, Erin. – Retribuí. E ele estava. Eu usava um vestido longo, vermelho e bufante, com algumas camadas de anáguas por baixo, mangas bufantes que deixavam os ombros à mostra e detalhes em dourado na parte da saia do vestido. Já ele estava com uma blusa azul bem escura com muitos detalhes igualmente em dourado, de mangas compridas e bufantes e uma longa capa atrás. Ah, e uma calça justa.
– Onde estão o Romeu e a Julieta?! – A professora gritou, do palco. Erin estendeu o braço para mim e fomos até o palco juntos. Pude nos imaginar entrando em cena na apresentação. Isso-será-incrível. E, como previsto, assim que entramos no palco, os olhos da senhora Clara brilharam. Ela até bateu palminhas.
– Oh, vocês estão lindos. Essa peça ficará incrível! Vamos, vamos começar pela cena clássica: A varanda. – Ela apontou para um lado e depois para o outro, o garoto que estava na sala da iluminação fechou as cortinas, apagou as luzes e eu e Erin deixamos os roteiros em algum canto pelo palco, desnecessários frente às cenas já decoradas. Aquela era a cena que reproduzimos no terraço, no sábado.
– “Calma!, que luz é aquela na janela?
É o leste e traz Julieta como um sol(...)”
(...)
Depois do ensaio – e de todo o resto das aulas (chatas) –, eu estava em casa almoçando quando tive a ideia mais genial de todas. Eu prometi levar Erin aos meus lugares favoritos, então lembrei de um que ele amaria desenhar. Peguei meu celular e mandei uma mensagem para o grupo das meninas:
“Preciso sair hj! Alguém me cobre??”
“Relaxa... Contanto que conte tudo dps, vc tá na minha casa hahahah” – Lola respondeu.
Fui até o quarto, onde minha mãe estava. Ok, essa é a parte fundamental da coisa toda. Se não der certo aqui, meus planos estão arruinados.
– Mãe, vou passar a tarde na piscina com as meninas lá na casa da Lola, tá? Não volto tarde. – Disse, cruzando os dedos.
– Está bem. Quer que eu te deixe lá? – Ela perguntou.
– Não, pode deixar que eu vou andando. É pertinho. – Completei rápido e fui para o quarto. Peguei meu celular novamente, olhei o horário e suspirei. 14h, ainda está cedo, dá tempo. Acho que ele vai gostar.
“Romeu, tá afim de conhecer outro lugar legal hj? Esse é um pouco mais longe...”
“Claro, Cat. Q horas?”
“Agora! Me encontra na portaria em dez minutos?”
“Blz :P”
E então deixei o celular em cima da cama e saí correndo. Peguei minha mochila, tirei todos os livros e estojos e deixei tudo em cima da cadeira da minha escrivaninha. Peguei duas toalhas, minha carteira e meu celular. Enfiei tudo na mochila, gritei um “tchau” para a minha mãe e desci.
Quando cheguei, Erin já estava parado com o carro exatamente na frente da portaria. Entrei no carro, deixei a mochila no banco de trás junto com a dele e o cumprimentei com um beijo na bochecha.
– Oi, Romeu. Animado?
– Claro! Onde vamos hoje?
– Bem, dá uma meia hora daqui... Mas é lindo! Você vai gostar.
– Cat, se é você quem está me levando, eu sei que vou gostar. Só quero saber o que é. – Ele respondeu e ficou me observando, com expectativa.
– É a minha praia favorita.
E então, depois de vários quilômetros, algumas músicas num volume bem alto e o vento bagunçando os cabelos, chegamos. Onde paramos, havia apenas um quiosque e algumas crianças montando castelos de areia junto dos pais, ocupando os poucos guarda-sóis dali. Descemos do carro e deixamos os sapatos por lá mesmo, já que iríamos para a areia. Andamos devagar até a parte da praia onde as ondas só tem força para molhar os pés e ficamos lá, observando o horizonte por algum tempo.
– Gostou? – Perguntei, ansiosa pela resposta.
– Cat, é linda. Assim como a cobertura. Mas sabe como ficaria ainda melhor?
– Como? – E então, Erin me pegou pelas pernas e me carregou até dentro do mar, logo me jogando na água – e se jogando junto. Esperneei um pouco, mas aguentei meu destino.
– Nãaaao, eu não ia molhar meu cabelo. – Reclamei e fiz uma careta, jogando minha franja, que agora estava grudada na testa, para trás. Bati a mão na água, espirrando-a em Erin. Ele devolveu a ofensa e começamos uma guerra de água, até que uma onda forte veio e quase me afogou.
Consequentemente, Erin me segurou pela cintura para que eu não me afogasse e então nós ficamos muito próximos. Eu conseguia sentir sua respiração suave e, assim como ele ainda me segurava pela cintura, eu estava com as mãos apoiadas nos ombros dele. Estava tudo tão brilhante e o mar parecia mais calmo agora. Estávamos com os rostos cada vez mais perto, com a água do mar suavemente nos aproximando.... Até que uma criança na praia deu um grito estridente. Muito, muito alto, e que fez com que ambos voltássemos o olhar para a areia e gargalhássemos. A criança estava enterrada na areia, desesperada, pois o pai havia a colocado lá e ela não conseguia sair, devido à sua imensa força de uns quatro ou cinco anos de idade.
Minha barriga doía de tanto rir. Igualmente estava Erin, que estava até com o rosto um pouco vermelho. Algumas ondas fortes vieram e fizeram com que nós fossemos mais para o raso, e então decidimos ficar na areia um pouco.
– Cat, se importa se eu te desenhar? – Erin perguntou, observando-me com um olhar carinhoso. Mas que pergunta boba, é óbvio que eu o deixaria me desenhar. Eu o deixaria desenhar até uma formiga no lugar da minha cabeça, se ele pedisse.
– Agora? – Perguntei, e ele fez que sim com a cabeça.
– Aguenta aí um pouquinho. – Ele respondeu e levantou-se, correndo até o carro. Depois de menos de dois minutos, ele estava de volta, trazendo as duas mochilas nas costas, a minha e a dele. Colocou-as ao nosso lado e sentou-se de frente para mim.
Peguei minha mochila e dentro dela, as duas toalhas. Joguei uma para ele e abri a outra, jogando-a em minhas costas. Logo, Erin pegou um caderno de desenho e um lápis dentro da mochila dele. Como eu nunca tinha servido de “modelo” para nenhum desenho, fiquei parada sorrindo feito uma boba, observando a concentração dele enquanto desenhava.
– Nunca me desenharam. – Falei, tentando não mudar a posição do meu corpo. – Sabe, ao vivo.
– Então será o primeiro. E o mais bonito também. – Ele abriu um sorriso convencido. – Acho interessante desenhar pessoas na vida real. Deixa o desenho com mais sentimento.
– E o que você mais gosta de desenhar? – Perguntei.
– Garotas lindas, igual estou desenhando agora.
E depois de mais ou menos dez minutos, ele subitamente fechou o caderno de desenho e o jogou na mochila. Levantei as sobrancelhas, como se questionasse.
– Você só vai vê-lo amanhã. Quando chegar em casa, vou finalizar e depois te levo. – Ele respondeu minha pergunta silenciosa. Eu não podia conter minha curiosidade de abrir aquele caderno e espiar como tinha ficado o desenho, mas segurei-me e concordei com a cabeça.
– Vou cobrar. – Respondi, rindo. Sentamos um ao lado do outro e ficamos lá durante algum tempo, conversando e observando a forma das poucas nuvens no céu. Passeamos pela praia, tomamos sucos, montamos até um pequeno castelo na areia. No entanto, o fim da tarde se aproximava e devíamos voltar, já que amanhã ainda teria aula e eu supostamente estava na casa da Lola. Ou da Jessy. Já nem lembro mais.
– Cat, acho que deveríamos voltar. Está ficando tarde.
– Estava pensando nisso também… Amanhã tem aula. – Suspirei, frustrada.
Caminhamos de volta para o carro, colocamos as toalhas nos bancos para que não ficassem molhados e o caminho pareceu até mais curto na volta. Logo já estávamos na frente dos condomínios e, novamente, a despedida. Um soco doeria menos.
Passei a perceber que eu gostava de estar com Erin. Parecia tudo tão certo, tão feliz. Não sabia se ele sentia o mesmo, mas ele estava, aos poucos, se tornando meu Romeu de verdade.
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