Catarina
7 Party
Notas iniciais
A sexta-feira chegou logo, junto com o aniversário da Lola. Hoje aconteceria a festa, num clube que os pais dela alugaram para a noite. Então, ela nos chamou para passar a tarde na casa dela nos arrumando juntas e, quando desse o horário, iríamos as quatro juntas – eu, Lola, Jessy e Georgia. As aulas também passaram rápido, visto nossa ansiedade para que acabassem logo.
Fomos até a casa da Lola de carona com os pais dela, que nos buscaram na escola. Assim que chegamos lá, fomos até o quarto dela e lá ficamos. A festa começaria 21h e iria até algum horário bem tarde, por volta das 4 ou 5 horas da manhã. Ela convidou a sala toda e mais alguns amigos de fora da escola. Quase todos confirmaram presença.
– E aí, lindas? O que vocês trouxeram? Vamos, vamos, vou escolher a roupa de todas vocês. – Lola disse, quase pulando de animação. Abrimos as mochilas e cada uma de nós tirou dois vestidos da bolsa, jogando-os em cima da cama de Lola. Rimos juntas. Parecia uma loja desmontada.
Duas horas depois, o quarto estava revirado. Georgia passava maquiagem na penteadeira do quarto, Lola estava alisando o cabelo – de pé atrás de Georgia, para enxergar-se no espelho – e Jessy e eu estávamos deitadas na cama, olhando o celular. Depois da indecisão de Lola, ficamos da seguinte maneira:
Georgia estava com um vestido vermelho tubinho com renda nas costas. Jessy estava com uma saia colada azul escura e um cropped branco de mangas compridas, feito de tecido fino que tinha um caimento perfeito nela. Lola decidiu ir com um vestido roxo tomara-que-caia, que tinha a parte da saia rodada. E, por fim, o que ela escolheu para mim foi um vestido preto simples, tubinho e sem mangas, mas que serviu como uma luva. Além disso, eu tinha inúmeros braceletes dourados em meus braços que deixavam tudo mais elegante.
Algumas horas depois, quando todas já tínhamos revezado o espelho para a maquiagem, prontas, nos esparramamos na cama e ficamos conversando e checando redes sociais, confirmando se todos iriam. É impossível não se animar com festas. Eu, particularmente, acho muito legal a parte de ser um ambiente propício para dançar. Quer dizer, não que eu seja aquela pessoa que você olha e pensa: “Uou! Dança muito!”. Não sou. Nem perto disso, na verdade. Mas isso não altera o fato de que eu adoro dançar e qualquer festa vale a pena se tiver música boa – e comida, óbvio.
Um pouco depois saímos da casa da Lola, para que chegássemos um pouco antes para checar se estava tudo ok e organizar o que faltava. O lugar era espaçoso, com um amplo balcão onde ficava o barmen e inúmeras mesinhas espalhadas em cantos estratégicos do lugar, para que o centro ainda ficasse bem livre para a pista de dança. Nessa, havia uma luz fluorescente que fazia tudo ficar um pouco mais bonito. A luz era ambientada para que o lugar ficasse de certa forma escuro, mas ainda assim podíamos enxergar tudo. Haviam também banheiros, num lugar um pouco mais afastado onde daria para fazer ligações sem muita interferência da música.
Não muito tempo depois, com tudo organizado, as pessoas começaram a chegar. Aos poucos, o salão foi enchendo e a música já soava alta. Chegavam, além das pessoas da escola, alguns amigos da escola antiga da Lola e amigos de infância com quem ela ainda mantinha contato. Todos traziam algum tipo de lembrancinha nas mãos, que logo entregavam para a aniversariante e tornavam a andar até a pista de dança, beliscar os salgadinhos e aumentar a fila do pequeno bar. Lola recebia todos com um sorriso no rosto e muita animação.
Enquanto Jessy ficou com Lola recebendo os convidados, eu e Georgia fomos até o bar para buscar alguma coisa para a aniversariante, que reclamava de sede. Decidimos pegar uma garrafinha de água para ela, que momentaneamente serviria. Depois ela poderia pegar qualquer outra coisa que quisesse.
Assim que entregamos a garrafinha de água para ela, Erin apareceu pela porta do lugar, junto com Nathaniel. Ele vestia uma camisa social branca com as mangas dobradas e uma calça jeans preta, enquanto Nathaniel usava uma camisa social azul escura e calça igualmente preta. Ambos traziam sacolinhas de presente nas mãos.
Nathaniel entrou primeiro, entregou o presente para Lola e cumprimentou Jessy, Georgia e eu. Depois disso, fez um sinal para Erin apontando para o bar como se dissesse “Vou pegar bebida, me acha lá depois” e desapareceu no meio das pessoas. Erin fez basicamente a mesma coisa: Entregou o presente para Lola, desejou feliz aniversário, cumprimentou Jessy, Georgia e, por fim, chegou até mim, que estava um pouco mais distante das outras três. Ele me deu um beijo na bochecha e sorriu.
– Oi, Cat. Você está completamente linda nesse vestido.
– Oi, Romeu. Você também está lindo, nunca tinha te visto de camisa social. Vai conquistar todas desse jeito.
– Não quero conquistar todas, só quero uma.
– Ah, é? – Dei um sorriso de canto. E então Nathaniel apareceu, com as mãos nos bolsos da calça.
– Cara, a fila tá enorme! Vamos comigo, lá só tem umas pessoas que eu não conheço. – O amigo completou. Com isso, Erin pegou minha mão e suspirou, decepcionado.
– Depois volto pra gente conversar, Cat. – Ele se desculpou com o olhar, soltou minha mão e logo desapareceu, junto com Nathaniel. Fui para mais perto das meninas, que tentavam prestar atenção na nossa conversa – o que era um pouco difícil, graças à música alta. Viram? Eu disse que a música era a parte mais legal da festa.
– O que foi isso…? – Lola perguntou, com as sobrancelhas arqueadas e sorrindo maliciosamente para mim. – Quando é que vocês vão se beijar, hein? Que climão... – Completou. Georgia e Jessy concordaram com a cabeça, olhando uma para a outra e rindo.
– Espero que logo. – Eu respondi. Georgia me encarou com expressão surpresa e todas gargalhamos. Depois de mais ou menos meia hora indo e voltando para pegar qualquer coisa que a Lola pedia, quase todos os convidados já tinham chego e agora estávamos sentadas numa das mesas nós quatro, comendo alguns salgadinhos e tomando qualquer coisa que um garçom nos serviu em copos vermelhos. Finalmente pudemos nos sentar e parar para observar o que estava acontecendo ao redor. Haviam muitas pessoas dançando e brilhando na pista, graças à luz fluorescente e uma música pop animada, que tocava alto.
– O que nós ainda estamos fazendo aqui? Vamos dançar! – Exclamei e puxei-as junto comigo para a pista. A música era realmente bem animada e nossos corpos se mexiam junto com as pessoas ao redor, todos numa sintonia só. Poucas pessoas ainda estavam sentadas e, quem não estava dançando, estava esperando para pegar alguma bebida no barzinho. Resumindo: A pista estava lotada.
E eu gostava da sensação. Essa coisa de estar no meio de conhecidos, desconhecidos, todos unidos num só ritmo e numa só sincronia. Alguns dançavam tímidos, outros dançavam até o chão e cantavam – tudo ao mesmo tempo –, outros eram casais aos beijos no meio daquele povo todo. Só sei que todos tinham uma coisa em comum: O sorriso no rosto, e era contagiante.
Várias músicas se passaram e nós quatro dançávamos unidas, rindo, cochichando e apontando para qualquer coisa engraçada que acontecesse ao redor. Quando percebemos, estávamos gargalhando pelo fato de Lola ter apontado para um casal e, quando chegamos mais perto para ver quem eram, nos demos conta de que era Nathaniel, beijando uma amiga de infância da aniversariante.
– E eu achava que esse garoto era um nerd! – Lola disse, entre risadas.
**
Depois de mais uma ou duas músicas dançadas, algum tempo sentadas na mesa comendo vários salgadinhos e um pouco de espera na fila do barman para Lola e Georgia – que toda hora queriam buscar bebidas –, voltávamos para as mesas quando uma batida um pouco mais lenta tomou conta do salão. Estávamos indo não muito rápido, graças aos copos que elas seguravam, passando pelo meio da pista tentando não esbarrar em quem dançava. De repente, senti uma mão agarrando meu pulso e fui levada para longe de onde elas estavam. As três estavam tão concentradas em não esbarrar em ninguém que nem perceberam meu sumiço.
– Mas que p...? – Perguntei, até perceber que quem me puxou fora Erin. – Não me mata do coração, Erin! – Coloquei a mão na testa e suspirei aliviada.
– Desculpa! Não foi intenção te assustar. – Ele riu, enquanto colocou a mão ao redor da minha cintura e me puxou para dançar. – É que antes você estava com elas e eu não queria atrapalhar, então não tive outra forma de te chamar. Você estava me devendo uma dança. – Ele justificou.
– Ah, eu estava? – Questionei, com um sorriso. Como estávamos num dos cantos da pista e a música era propícia, apoiei os braços ao redor do pescoço dele e nos deixamos levar pela batida.
– Aliás, você viu o Nathaniel em algum lugar por aí? Ele tinha ido ao banheiro e não voltou mais. – Erin perguntou.
– Bom... – Ponderei por um minuto sobre como explicar. – Quando eu estava com as meninas, ele estava aos beijos com uma amiga de infância da Lola no meio da pista. – Concluí. Ele parou durante alguns segundos, franziu a testa me encarando como se perguntasse “É sério?” e gargalhou.
– Eu achava que ele era o maior santinho, pra te falar bem a verdade. Foi um choque ver ele lá. – Eu disse, sincera, enquanto Erin tentava se recuperar do choque.
– E ele é! – Erin me respondeu, com o rosto corado de tanto rir. – Vocês tiraram alguma foto ou algo assim? Isso é um momento histórico! – Completou. Rimos juntos e logo voltamos a prestar atenção na música, que acabou rápido e deu início à outra, com a mesma batida lenta.
Erin permaneceu com os braços envoltos na minha cintura, me puxando um pouco para mais perto dele. A música estava agradável e ele parecia pensar em alguma coisa, enquanto me observava. Entrelacei os dedos nos cabelos finos e lisos dele na parte próxima da nuca, acariciando-os. Depois de alguns segundos, ele pareceu completar a linha de pensamento.
– Cat... – Suspirou, logo retomando o que iria falar. – Eu gosto de você.
Aquilo foi tão rápido e inesperado que me preencheu como um choque. Meu coração acelerou e tudo o que eu consegui fazer foi abrir a boca, como se eu fosse falar alguma coisa e ficar lá, parada feito uma idiota.
– Eu sei que isso é meio repentino e talvez meio precipitado, mas estava me corroendo, sério. Eu só precisava que você soubesse disso. Conforme fomos pro café, depois pro terraço, no ensaio e aí pra praia... Eu andei percebendo que gosto muito de estar com você, Cat. Me traz uma felicidade que eu não encontrava fazia muito tempo. Aliás, eu ainda não te entreguei o desenho da praia porque estava com medo de não encontrar as palavras certas pra... – E então ele parou de falar.
Parou de falar porque eu finalmente deixei minha cara de idiota e resolvi juntar toda a coragem guardada em mim durante esses quase dezessete anos de vida. Parou de falar porque eu, enfim, percebi que estava na hora de fazer alguma coisa. Uma coisa que eu queria. Queria muito. Ele parou de falar porque eu o beijei. Sem pensar muito, simplesmente fechei os olhos e acabei com a distância entre nossos rostos, que já estavam próximos.
E tudo pareceu fazer sentido, pareceu estar no lugar certo. Fez desaparecer qualquer coisa que estivesse passando pela minha cabeça, qualquer medo, qualquer dúvida, insegurança. Eu parecia completa junto dele. Então, ele se afastou um pouquinho, encostando o nariz junto ao meu.
– Isso quer dizer que é recíproco? – Falou baixinho, de modo que só eu escutaria. Fixei meu olhar no rosto dele, tentando observar cada pequena feição e fiz que sim com a cabeça.
– Claro que é, Romeu. – Finalmente o respondi. E, dessa vez, foi ele quem me beijou.
**
Depois de mais algumas músicas, conversas, sorrisos e beijos trocados, decidimos achar quem quer que fosse no meio da pista. Não tínhamos visto Nathaniel e nem as meninas, que provavelmente deveriam estar na mesa – ou no barzinho. Erin entrelaçou nossos dedos e tentamos passar pelo meio das pessoas sem esbarrar em ninguém, o que ainda era uma tarefa um pouco complicada.
Chegando ao fim do monte de pessoas que dançavam, consegui ver algum rosto conhecido apontando para mim. Era Lola, junto com Georgia e Jessy. Erin vinha logo atrás de mim, ainda segurando minha mão.
– Catarina do céu, onde é que você se meteu? Estávamos t... – Ela parou de falar, assim que viu Erin atrás de mim. – Awwww, que lindos. Era isso, então. – Concluiu, e as outras duas junto com ela fizeram o mesmo som com a voz de quem vê um bebê. “Awnnnnn”. Revirei os olhos, um pouco constrangida. Não muito longe delas, estava Nathaniel, sentado numa mesa com um copo pela metade na mão.
No fim, acabamos todos juntos na mesma mesa – As três meninas, Nathaniel, Erin e eu –, o lugar inteiro se agitou cantando o “Parabéns para você” da Lola não muito tempo depois, doces servidos, mais músicas tocadas, muitas risadas e logo o fim da festa já chegava. Acabei pegando carona com a mãe da Georgia, que também levou a Jessy para casa depois que quase todas as pessoas já tinham ido embora. Erin foi embora um pouco antes de nós, e a despedida foi um pouco mais horrível que das últimas vezes, já que agora... Bem, era alguma coisa de verdade.
Quando chegamos na frente do condomínio, agradeci a carona e me despedi das meninas. Meus pés estavam me matando. Dentro do elevador, já tirei os sapatos de salto e assim que consegui – finalmente – chegar no meu quarto, me joguei na cama e um novo dia já amanhecia, com a claridade batendo no vidro da janela. Já eram cinco e meia da manhã e, agora, éramos definitivamente Romeu e Julieta. Ou melhor, Erin e Catarina.
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