Catarina
4 Romeo
Notas iniciais
Três dias depois, na sexta-feira, Erin veio falar comigo. Já tinham acabado as aulas e estávamos eu, Georgia, Lola e Jessy conversando, sentadas em um banco na saída da escola quando ele se aproximou. Radiante como sempre, deu um meio sorriso assim que parou na minha frente.
– Hey, Catarina. Posso te emprestar um pouco? – Ele perguntou. Olhei para as meninas e Georgia gesticulou com os lábios: “Vai logo, idiota!”. Levantei-me e fomos andando devagar até uma praça que ficava logo ao lado da escola.
– Então, andei pensando... Nós podíamos nos encontrar no fim de semana para discutir sobre a peça, ensaiar ou sei lá, só conversar um pouco. – Erin concluiu, enquanto chegávamos perto de um dos bancos da praça, o mais distante possível das crianças que circulavam por um playground ali perto. A praça era bastante arborizada e bonita.
– É uma boa ideia. Tem um café muito legal aqui perto em que eu costumo ir, poderíamos nos encontrar aqui mesmo e ir andando até lá... Amanhã? – Eu perguntei, enquanto me sentava. Ele se sentou ao meu lado.
– Claro, senhorita Capuleto. Quatro horas está bom pra você? – Ele me respondeu, sorrindo.
– Por mim, tudo bem. Ah e, esqueci de te falar, adorei seus desenhos! Aqueles que caíram no chão na segunda-feira, e o do Romeu também. – Eu sorri.
E então começamos a conversar sobre desenhos e todos os tipos de artes possíveis. Eu não conseguia parar de olhar para os cabelos dele, que brilhavam com o pouco de sol que chegava até aquela parte da praça.
Já estávamos lá há mais ou menos meia hora – que passou rápido demais –, até que percebi que eu estava muito atrasada. Minha mãe provavelmente estava furiosa em casa, praguejando contra mim e observando o almoço esfriar e eu ainda não estar lá. Percebi que precisaria de uma bela desculpa, que com certeza não seria: “Então mãe, é que eu estava jogando conversa fora com o filho da mulher que você odeia”. Céus, eu tinha um grande problema.
– Erin, eu queria muito ficar aqui, mas minha mãe provavelmente já está se perguntando o motivo de eu ainda não estar em casa. Preciso ir embora. – Eu o disse, fazendo uma careta. Ele riu.
– Tudo bem, Cat. Nos vemos amanhã. – Erin disse. Devolvi o sorriso, pelo apelido que ele usou.
– Até amanhã, Romeu. – Completei, dei um beijo na bochecha dele como despedida e me levantei, andando rumo ao fim da praça. Me perguntei se ele também não deveria ir pra casa, mas não sou de me intrometer muito na vida dos outros. Só um pouco, talvez. Ok, confesso, eu estava curiosa sobre o que ele estaria pensando, mas vamos deixar isso de lado por enquanto.
Caminhei tranquilamente pelo trajeto até minha casa e, ao chegar, recebi um olhar atravessado de minha mãe. Cumprimentei-a, passando rápido pela cozinha e me dirigi ao meu quarto, jogando-me na cama como faço sempre. De um jeito ou de outro, eu teria que inventar uma desculpa para que ela não fizesse muitas perguntas. Minha cabeça transtornava em dúvidas. Eu não sabia se minha atração por Erin era puramente pela proibição de minha mãe e minha cabeça estaria fantasiando sobre como ele é lindo, ou se ele realmente é lindo e eu só não sei o que fazer. Acho que terei que esperar, afinal, nem o conheço direito.
Fui até a cozinha para ajudar minha mãe a arrumar a mesa, já que meu paqi logo chegaria para o almoço. Assim que minha mãe me viu, eu abri um sorriso de quem não quer esconder nada e, de certa forma, eu disse a verdade:
– Mãe, te contei que consegui papel principal na peça desse semestre? – Na expectativa dela não ficar brava, tentei usar a desculpa da filha dedicada à escola, cuja se atrasou por compromissos puramente educacionais.
– Ah é? E qual vai ser a peça? – Ela respondeu, num tom neutro.
– Romeu e Julieta. Fiquei até quase agora vendo coisas da peça com a Georgia e, por isso, me atrasei. – Espero, do fundo do coração, que ela acredite nessa.
– Que legal! Mal posso esperar pra te ver no palco. – Quando ela disse isso, suspirei aliviada. Até que ela completou com: – Quem vai ser o Romeu? Eu conheço? – E eu arregalei os olhos, mas tentei disfarçar como quem não quer nada.
– Ah, não sei ainda não. Parece que é um dos alunos novos, não tenho certeza. – E dei um sorrisinho forçado, mas acho que ela não percebeu. Papai, como bom salvador da pátria, chegou nesse exato instante e se juntou à mesa conosco. Nos sentamos e almoçamos, prestando mais atenção num programa qualquer de notícias do que em outra coisa.
Depois do almoço, fui novamente para meu quarto e sentei em minha escrivaninha, apoiando os pés na mesa e vi que Georgia, Jessy e Lola estavam me chamando para conversar, em um grupo de mensagens no celular. Dei risada pelo desespero delas.
Georgia: "Catarina pelo amor de deus aparece!"
Lola: "Oq o Erin te disse??? Estamos curiosasss"
Jessy: "Daqui a pouco tô aí na sua casa p te dar uns tapas se tu ñ aparecer logo!!"
E mais uma sequência de desesperados apelos pela minha atenção. A questão problema era que elas haviam mandado muitas mensagens assim durante o tempo em que eu saí do lado delas até agora. Respondi, sem mais delongas, que Erin havia me chamado para sair. Mais ou menos isso. E logo que mandei a mensagem, meu celular tocou, recebendo uma ligação de Georgia.
– Como assim te chamou pra sair?! – Ela gritou. Gargalhei baixo, tentando não chamar a atenção da minha mãe.
– Sim! Nós vamos naquele café perto da escola amanhã à tarde para "conversar sobre a peça". – Fiz aspas com os dedos, mas revirei os olhos para mim mesma quando percebi que Georgia não estava ali para ver. Ela deu um gritinho. – Enfim, você vai ter que me ajudar a escolher uma roupa, sei lá!
Depois de uns dez minutos de dicas de moda para primeiros encontros com a Georgia – que é mais experiente que eu, já que ela tem um namorado de verdade –, ouvi minha mãe me chamar, do quarto dela.
– Georgia, minha mãe está chamando. Daqui a pouco te chamo pra conversar mais. – Concluí.
– Ok, Cati. Só um último conselho: Assim que surgir a oportunidade, agarra o bofe! – Ela concluiu, e só deu tempo de eu rir alto e ela desligou a chamada, também rindo. Georgia namora desde o meio do ano passado, mas o namorado dela mora relativamente longe e eles só se vêem de tempos em tempos, então o relacionamento deles é bem aberto. Por isso, ela sempre brinca de achar um "novo crush" em qualquer lugar. Ele não é "o cara" pra ela, pelo menos eu penso assim. Eles constantemente brigam, mas não terminam por nada. Zona de conforto ou carência, talvez?
De qualquer forma, fui até o quarto da minha mãe ver o que ela queria. Ela estava revirando algumas gavetas porque não achava um casaco que queria usar, e perguntou se não estava comigo. Revirei os olhos e fui até meu quarto buscá-lo no meu guarda-roupa. Usei-o ontem! Ela sabia que estava comigo.
– Estava falando com quem, filha? – Engoli em seco. Espero que ela não tenha ouvido a conversa.
– Com a Geo, mãe. – Joguei o casaco em cima da cama dela e voltei ao meu quarto, sem mais perguntas. Deitei na cama e, sem perceber, dormi até anoitecer.
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