Catarina
2 Hey, mother
Notas iniciais
Depois de uma série de aulas, que passaram rapidamente graças às trinta apresentações de alunos novos, fomos liberados para ir para casa. Eu sempre fui a pé, já que moro muito perto da escola e sempre gostei de andar pela cidade – desde que conquistei minha “independência” de horário para chegar em casa – e também conheço muitas pessoas que moram perto da minha casa e sempre que posso, passo pra dar um oizinho. Hoje, além de mim, tinham muitas pessoas circulando pelas calçadas rumo às suas casas, já que era o primeiro dia do semestre.
Já Georgia, bem... Sempre foi de carro com o pai dela. Ela também mora perto, mas não tanto quanto eu. Então, assim que saímos da sala, nos abraçamos e fomos cada uma para um lado. As ruas estavam quentes graças ao fim do verão e pessoas de roupas sociais lotavam todos os restaurantes por onde eu passava. Mas então, fazendo o caminho de rotina, comecei a pensar sobre Erin. Sim, só trocamos um “oi”. Depois daquilo, ele foi para a cadeira dele – ao lado do outro garoto, o Nathaniel – e eu fui para a minha. Georgia achou engraçado o jeito que a gente se encarou, ela disse que parecia que estávamos vendo a alma um do outro. No entanto, ainda não descobri o que parece tão familiar nele.
Bem, é claro que podem ser os cabelos dourados, bagunçados de um jeito charmoso que prenderam minha atenção, ou os incrivelmente escuros olhos que parecem esconder alguma coisa. Ou então... Espera, acho que conheço alguém assim. Mas calma, estou morrendo de fome e já cheguei no condomínio. Entrei e minha mãe estava lá, fazendo minha comida preferida: Macarrão. Deixei minha mochila no chão em algum lugar do meu quarto e joguei-me na cama, afundando o rosto no travesseiro.
Meu quarto é pequeno, mas comparado ao tamanho do apartamento todo, é mais do que suficiente para uma pessoa de 18 anos viver tranquilamente. Ele é organizado em: um guarda-roupa com as portas em espelho, ocupando toda a parede de um lado e, do lado oposto, uma cama de solteiro com dois ou três travesseiros. Na parede oposta à porta, há uma janela grande e em baixo dela uma escrivaninha com minhas muitas coisas. Na parede onde fica a porta, existem várias prateleiras onde eu guardo livros, minhas maquiagens, pôsteres de muitas bandas e outros tipos de coisas, como esmaltes, pincéis e esse tipo de coisas que se coloca em prateleiras.
Quando fui para a cozinha, depois de uns cinco minutos, minha mãe já tinha feito suco e terminado de fazer o molho do macarrão. Pegamos a comida e sentamos na mesa, com ela sentada na minha frente. E agora começaria a típica sessão de perguntas de primeiro dia de aula: “Como foi o primeiro dia de aula?” “Professores novos?” “Alunos novos?” “Conheceu gente legal?”, coisa típica de pais.
– E aí, filha? Como foi o primeiro dia? – Ok, não achei que minha mãe seria [i]tão[/i] previsível. Ela é bem legal, no geral. Minhas amigas costumam falar que queriam ter mães como a minha. Ela não costuma ser o tipo de mãe conservadora, por isso eu gosto muito dela. Minha mãe é alta, tem cabelos castanhos da mesma cor dos meus, olhos muito escuros e adora roupas coloridas. No geral, ela sempre me incentiva a sair com minhas amigas e curtir a vida. Ela diz que eu devo fazer a faculdade que eu ame e possa me tornar uma boa profissional. Nunca me forçou a ser religiosa (E nem ela e nem eu somos). Ela também diz que “Já cometeu erros demais pra uma geração inteira de Lúcias”, por isso gosta que eu seja livre e faça tudo o que eu amo. Quase uma utopia de mãe. Ah, e o nome dela é Lúcia!
– Foi legal, mãe. As aulas e os professores de sempre. Mas, dessa vez, com mil e um sermões sobre “O-vestibular-está-batendo-na-porta”. Típico de terceiro ano. Em compensação, tem muita gente nova! Tipo, umas trinta pessoas.
– Algum menino bonito? – Ah, começou. Clichê de qualquer mãe. Apesar disso, eu sempre fui muito aberta com a minha mãe. Nós conversamos sobre tudo e todos.
– Ah, tem um garoto novo que eu acho que conheço de algum lugar, mas não sei de onde. Ele parece familiar e é bem bonito. Quando eu descobrir quem ele é de verdade, te conto. – Respondi, enquanto comia o manjar dos deuses com molho em cima. Minha mãe sorriu pra mim e assentiu com a cabeça, querendo dizer: “Sim, me conte tudo”. Alguns minutos depois, meu pai tocou a campainha como aviso e entrou no apartamento, sorrindo. Meu pai também é legal, ele faz o tipo “pai engraçado” e é muito carinhoso. Ele vem almoçar com a gente todos os dias e depois volta para o trabalho. Minha mãe trabalha de casa, então ela faz almoço pra gente todos os dias (ou quase).
– Não me esperaram? – Ele perguntou, fazendo uma cara triste forçada.
– Eu estava com muita fome, pai. – Respondi, com o meu prato já vazio.
– E aí, como foi o primeiro dia de aula do terceiro ano? – Opa, mais uma pergunta! Respondi pra ele a mesma coisa que respondi pra minha mãe, enquanto ele estava se servindo na cozinha. Ele se sentou na mesa ao lado da minha mãe e começou a comer, enquanto minha mãe colocava mais suco pra todos.
– Ah, esqueci de contar pra vocês. Sabem o filho da Cristina, aquela louca? – Bem, essa é clássica. Minha mãe vai reclamar da arqui-inimiga dela. Cristina, também conhecida como ex-amiga da faculdade da minha mãe. Elas fizeram o mesmo curso e foram melhores amigas até alguns anos atrás, mas se odeiam desde que Cristina resolveu sumir, ignorar minha mãe completamente, e aí a merda foi feita. Minha mãe nunca me contou a história completa, mas Cristina reapareceu um tempo depois, totalmente diferente e divorciada do marido, que era de outro estado. As duas se odeiam desde então. Vai entender...
– Sim, o que tem ela? – Respondi, enquanto meu pai comia e ambos prestávamos atenção na minha mãe.
– Ela se mudou pro condomínio da frente! E o filho dela está na sua escola! Falando nisso, ele é da sua idade, não é? Ele é da sua sala? – Ela disse, furiosa.
– Não sei não, mãe. Não cheguei a conhecer ele, lembra? Só sei quem é a Cristina, daquela minha festa de aniversário de... 15 anos? E o filho dela estava viajando pra sei lá qual país. – Respondi, pegando o copo de suco e levando à boca.
– Como era o nome dele mesmo... E... Eric? Erin? Isso, Erin. É da sua sala? Bom não se misturar com esse tipo de moleque, viu? Não quero influências da Cristina em qualquer um da minha família! Aquela vaca! – Ela completou, resmungando e me fuzilando com o olhar. Eu estava tomando suco, e subitamente engasguei. Ela assustou e veio dar tapinhas nas minhas costas para que eu conseguisse voltar ao normal.
– C-Conheço não, mãe. Pode ficar tranquila.
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