Notas iniciais
Talvez continue.

Seus olhos cor de mel as vezes brilhavam em tom acinzentado, mas só quando estava triste. Os olhos dela não eram desta cor suave antes, mas, neste mundo a cor original dos olhos dela não existe.

As vezes o olhar dela passava por mim, de uma maneira intensa.

Eu me sentia vivo.

O desespero que eu sentia quando ela passava por mim, passava através de mim, só não conseguia combater o desespero que senti quando fui banido. Eu sabia que era ela.

Sua doce voz não mudou, era como sempre fora, doce, um veneno sem gosto, está morto antes de entender que foi envenenado.

Ela era tão triste. Os anos que passei nesta dimensão, cumprindo a pena dos meus crimes da pior maneira possível, invisível em um mundo estranho. Não sinto dor, mas sinto ódio. Não sinto prazer, mas minha alma preenchida quando estou satisfeito. Demoraram anos para me acostumar a esta existência, não sei quanto vai durar, e isso só me deixa mais apreensivo. Já me arrependi de todos os meus pecados, já entendi a intensidade das coisas que fiz.

Ela cresceu suavemente, gosta de dançar, sempre gostou. Aqui ela é mais livre do que era antes, aqui ela ri, ela chora e ela brinca. É leve, mas triste. Vejo nos olhos dela, ela sente falta dele, mesmo sei saber onde ele está, ou quem é.

Eu o vi, creio que foi uma punição, ver ele novamente, aquele que teve tudo que era meu por direito, e era digno disso. Não o acompanhei por muito tempo, mas pude ver qual era a situação da existência dele aqui. Fico feliz em saber que ele está longe dela, a mares de distancia, em uma situação normal seria quase impossível eles se encontrarem, com culturas e vidas que tem um contraste tão intenso, mas sei que eles vão se ver novamente. Isso me faz sentir ódio.

Como sempre ele é brilhante, ele tem sucesso em tudo que faz, e é perseverante e honrado. Ainda é violento, certo dia vi ele em uma briga, cinco homens adultos atacaram ele, ele ganhou. Se machucou muito também, fiquei feliz por isso, me deu uma felicidade cruel em ver ele cuspir sangue e gritar de dor, tudo porque defendia um outro menininho. Quase morreu brigando com desconhecidos por causa de um menino que nunca viu na vida. Patético.

Todos parabenizaram ele, o viram como herói, mas eu o conheço melhor, sei que fez isso por causa da briga, não do motivo, o motivo foi só uma desculpa esfarrapada, ele sempre gostou de ter uma desculpa para as monstruosidades que fazia, de preferencia algo cujo qual ele pudesse se beneficiar de alguma forma, e fosse moralmente correto. Ele é deplorável.

As vezes ele chorava, sei que estava sentindo falta dela também, o pecado que eles cometeram foi menor que o meu, mas ainda foi algo terrível o bastante para serem banidos para uma existência tão desprezível e limitada quanto essa. Sempre que ele vê uma mulher como ela, seu coração se enche, mas sempre que ele fala com qualquer uma delas, perde o interesse. Anseia por algo que está muito longe do alcance dele.

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Ela teve algo que chamam de "namorado" nesta dimensão. Ela sempre foi ambiciosa. Este talvez seja o único motivo pelo qual ela fugia para os meus braços quando ele fazia algo que a contrariava. Eu não me importava em ser a segunda opção. Era um príncipe sem estima, dignidade, amor próprio ou talentos. Ela escolheu um homem de família importante no contexto social em que ela foi encaixada, um não tão inteligente, mas ambicioso. Me apiedei dele, tão tolo quanto eu, tão inútil quanto. Não durou muito tempo, ela tinha nojo de olhar no rosto dele e não ver os olhos que ela estava procurando, claro que não entendia isso, mas eu entendi. Não foi a primeira vez.

Tão jovem. Tão triste.

Um contraste interessante em relação com o que ela já foi um dia, em outro lugar. Um lugar mais intenso, com regras diferentes, regras mais claras, consequências mais pesadas e um tempo quase infinito de aprendizado.

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Eu estava sentado no jardim, ela estava se vestindo, logo iria regar as flores que ela tanto amava. Certos dias ela pegava estas mesmas flores, que tanto prezava, e destruía elas em lágrimas. Uma alma desequilibrada, depois ela limpava a bagunça e culpava algum animal. Era triste ver isso, uma cena muito dramática, mas ela sempre foi muito dramática. Talvez isso fazia a figura dela mais especial, inalcançável.

Ela pretendia entrar na política, mas desistiu, tão jovem e já viu que esta vida não vale nada se comparado a que já teve, não quer criar nada aqui, quer paz.

Ela gosta de plantas. Eu penso na criação que ela teve em sua outra vida, quando criança vivia em florestas e bosques, mas ela não falava tanto sobre sua infância, era um assunto proibido em nossas conversas. Eu entendi o motivo alguns anos antes do desastre.

Ela gosta de plantas, ela decide se entregar a ciência das plantas, ainda não entendi muito bem o sistema educacional deste lugar, mas é bem limitado. Ela quer visitar um lugar distante, quer ter aulas com mestres distantes. Ela não sabe porque escolheu aquele lugar, eu sei porque.

O tempo está próximo. Eles vão se encontrar.

Eu quero destruir algo, mas estou preso, nada posso fazer, só sentir, observar. Foi meu castigo.

Eu percebo que quando falo com ela, de alguma forma, a alma dela ouve.

Começo a insistir com ela sobre dança, cantar músicas que eu mesmo inventei, músicas sobre a tristeza e desespero que ela sentiria se abandonasse a dança de alguma forma, eu moldo isso nela, ela gosta de dançar. Algum tempo depois, ela já está muito confusa para o meu próprio bem.

Ela muda de ideia.

Eu choro de alívio.

Não sabia que podia chorar, mas sinto minhas lágrimas. É estranho.

Poucos anos mais tarde (eles dividem o tempo desta forma), ela já é respeitada. O uniforme dela é branco e cheio de penas, e os sapatos são feitos do couro de algum animal, tingido de branco. Ela ficaria horrorizada com isso se fosse a criança que foi em outra vida, aqui é algo aceitável e normal. A roupa molda o corpo dela perfeitamente, mas o corpo dela é levemente diferente, com formas levemente diferentes. Ela tem uma vida diferente. Percebo que é alguém diferente, mas ainda é ela.

Ela é convidada a dançar em outro continente. Eu não preciso terminar de ouvir para saber onde é.

Não consegui lutar contra o destino.

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Por incrível que pareça, não é o lugar que pensei que seria. Era outro país (assim eles dividem o território), não era o país dele. Fico aliviado, penso então que o destino não quer me ver sofrer tanto.

Ela se adapta muito bem, com a cultura, com o povo. Ela não fala muito, mas todos a amam ou a invejam. Não tem meio termo, ela não é uma existência a ser ignorada, ela é especial.

Estou mais calmo, ela é rodeada por beleza, e é tão bela, e toda essa visão me acalma, estou me acostumando a isso, me sentindo suave. Ainda desejo poder estar totalmente nesta dimensão.

No fim, todos estão encantados, com os olhos cheios de lágrimas, tamanha beleza para seres acostumados ao pior. Pobres humanos. Nunca poderão ver algo mais magnífico enquanto estiverem vivos.

Ela coloca um vestido branco, com o comprimento até os joelhos e uma gola cheia de babados que cobria o pescoço. Não é comum para aquele contexto social, mas não é inaceitável, e diferente, mas não errado. Ela era a única coisa que valia a pena ser olhada no local. Logo os outros vão querer usar o mesmo vestido.

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Eu sinto uma energia forte, como uma explosão espiritual.

Ela está toda arrepiada, não fui o único.

Alguém toca o ombro dela.

É ele.

Ela está quase chorando, ele também.

Ainda não sabem o motivo, tentam se portar.

Não posso fazer mais nada, como sempre, não vão mais se separar.

Eu me afasto, para bem longe, uma montanha, um bosque. Não quero mais ver isso, já sei o final deste conto.

Espero que não cometam os mesmos erros.

Eu perdoo eles.

Eu perdoo ela. Sempre irei.

Afinal, eu a amo. (mesmo que ele a ame mais)

Ela nunca foi minha, ainda assim...

Eu sempre a amarei.

E a perdoo, e quero o bem dela.

Ela era minha única prova. Sinto isso.

Logo não estarei mais aqui.

Fim. (?)

Notas finais
Será que ele foi perdoado?