Castigo Sem Cor.
2 Ato II.
Entrei em pânico.
Ela provavelmente acha que sou algum tipo de maníaco, estou encarando ela a mais tempo que o necessário. Não sei o que dizer. Tenho que pensar rápido, tenho que...
—Olá... — Disse ela, com uma voz trêmula, quase adicionando algo a sentença, mas momentaneamente desistindo.
Eu suspirei involuntariamente, o tom de voz dela me lembrava rosas desabrochando, ouvir ela era como voar acima de florestas orientais e abaixo de um céu estrelado. Perdi o ar.
Seus olhos, uma imensidão incógnita, eram o espaço. Neste momento pensei sobre sermos feitos de estrelas, talvez não somos, mas ela é. Ela é feita de tudo que é belo e justo e verdadeiro e... faz quanto tempo que estou encarando ela? De repente, me senti observado por algo, então, não mais. Neste momento finalmente disse algo.
—Desculpe-me, eu... Qual é o seu nome? — Me senti o maior estúpido do planeta. Um intruso, um monstro em uma floresta de fadas. Ela é tão perfeita, eu sinto que é uma ilusão, e poderia desaparecer de...
-... Carmen Marin Rosen, o seu seria? — Ela respondeu, falando rápido demais.
Ela realmente respondeu, não me deu um tapa ou nada do gênero. Sentiria apenas alívio, se não estivesse tão encantado. Até seu nome era bonito, mas ainda assim eu não me sentia como se tivesse a resposta que queria, devo estar enlouquecendo.
—Me desculpe por não ter me apresentado antes, me chamo Bernard Irvine. Acabei chegando tarde demais para o espetáculo, mas presumo que seja uma das bailarinas, se isso for verdadeiro, eu me arrependo profundamente sobre o atraso. — Não sei como consegui falar normalmente, mas peguei a mão dela, beijando-a alguns milésimos a mais do que o apropriado, então soltei hesitantemente.
Ela estava vermelha, o ar de repente parecia pesado demais para ser respirado, o ambiente de repente se tornou quente demais para as roupas que usava, era como estar bêbado em uma sauna.
-Bernard Irvine, é uma surpresa ter falado comigo em inglês em um ambiente russo, eu poderia muito bem não saber o idioma. — Estava correta, me envergonhei, mas ela estava tentando deixar o clima menos tenso, pude ver, então me deixei levar pela brincadeira dela sorrindo largamente.
-Me desculpe senhorita, mas como pode ver não falo russo, estou apenas de passagem no país e sou escocês. Posso ver pelo seu sotaque que também não é daqui. — Ela sorriu como se minha afirmação fosse verdadeira, a verdade é que não pude ver sotaque algum nela. Minhas palavras não saíram de acordo com meu raciocínio. Idiota, idiota. Se ela for russa mesmo vou fazer papel de bobo.
Olhei melhor o rosto dela, tentei ver através do meu encanto, o que foi quase impossível. Pude ver que as características dela não são russas, seu cabelo é castanho claro, e seus olhos tem um tom adorável de mel avermelhado, lábios de coração, pele clara de tonalidade dourada. Ela usava um vestido quase branco de gola alta, com um grande laço no pescoço de tecido perolado e sapatilhas. Intocável.
-Perspicaz. Moro aqui a um ano, sou argentina. — De repente senti vontade de aprender espanhol.
Ouvi alguém chamar por ela, e então dizer algumas coisas em russo, um menino magro e alto com um cabelo preto e expressão felina apareceu. Um dos dançarinos.
-Carmen, venha conhecer os patrocinadores. — Ele gentilmente disse a ela em inglês, com um sotaque forte, mas não se deu o trabalho de reconhecer minha existência.
Ela por sua vez, parecia incomodada.
-Yvon, este é Bernard. Ele irá ver o espetáculo novamente amanhã, estava parabenizando sua performance. — Ela acabou de mentir. Senti que teve algum motivo obscuro, mas ela apenas se virou para mim e piscou. Acabei de perceber também que foi um convite, quase uma ordem. Eu estaria aqui amanhã, nem que tivesse que desmarcar todos os compromissos importantes que tinha.
-Não perderia por nada. — Eu disse com um sorriso frio, mas ele pareceu ignorar, vi que ainda estava encarando ela. Ele se virou sem se despedir, obviamente esperando Carmen o seguir. Ela parecia incomodada, mas disse rapidamente
— Me dê seu celular, agora. — Eu rapidamente a entreguei o aparelho, ela passou pela tela inicial de oceano e começou a digitar seu número nos contatos. Percebi que colocou o nome inteiro, de alguma forma senti que ela queria manter contato comigo tanto quanto eu gostaria de manter contato com ela.
— Foi um prazer te conhecer. — Ela disse com uma voz baixa e abafada, fazendo uma quase imperceptível reverencia com a cabeça e andando apressadamente atrás do dançarino sem modos.
Eu segurava celular como se fosse a única coisa importante que eu possuísse. Eu acho que me coração explodiria de tanto bater.
O que acabou de acontecer?
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