Castelos de gelo

2 Eu não sou antissocial!


Notas iniciais
Bem, fiquei meio triste ao ver que tenho 3 comentário, mas mais de 30 visualizações. Estou endo que vai ser acontecer o mesmo que aconteceu com A Escolhida :( Porém, eu quero agradecer a DJ, sophiaarm e Unworldly, pelos lindo comentários, eu realmente os amei! Bem, espero que gostem! Enjoy!

—Okay, então você está tentando me dizer...

—Sim...-Elly incentivou

—Que eu...

—Sim...

—Sou antissocial?

—Exatamente! Apenas você não percebe! Você só quer estudar, estudar e estudar, e é por isso que não te convidaram para a festa.

—Eu antissocial?!- bufei e joguei minhas mãos para o alto em descrença- você só pode estar brincando. Eu vou ali falar com a tia da cantina, para ver se ela colocou “substâncias ilícitas” em sua sopa- falei já me levantando, enquanto fazia aspas imaginárias no ar.

—Deixa de ser dramática Amy...

—Quer dizer, eu sou popular!-falei ligeiramente na defensiva, enquanto espalmava minha mão pintada com um esmalte todo corroído, contra meu peito.

—E lá vamos nós...-sussurrou Elly, já prevendo meu surto de identidade. Seus olhos se reviravam, e observei seus orbes azuis se perderem no branco. Filha da mãe sortuda. Sempre achei olhos azuis, os mais lindos. Enquanto o meu eram castanho-claro sem graça.

—Todos me conhecem! Eles apenas...se esqueceram de mandar o convite, bem, e o aviso...

—Não se esqueça das pulseiras.- ela pontuou.

—...e as pulseiras- fui obrigada a continuar, constrangida.

—Admita, você é antissocial.

—Ah é? Eu posso provar que sou conhecida- pronunciei com aquele meu olhar desafiador, o que era uma droga, já que Elly era uma baita apostadora, e poderia jurar que no futuro ela se tornaria uma pequena gângster.

Na verdade, tinha suspeitas muito elevadas de que ela fosse descendente de Meyer Lansky*.

Seus olhos brilharam ante desafio e sede de aposta. E mesmo antes que aquela pequena apostadora emitisse mais algum som, já sabia qual seria suas próximas palavras.

—Aposta quanto?- Bingo!

—Hum...10 notas.

—Na na ni na não, 100- ela me corrigiu com um sorriso.

Já falei que ela também tinha talento para extorquir as pessoas?

—Nem pensar, 50- falei sorrindo, ante o momento de testar minhas habilidades de negociação.

—60- seus olhos azuis-escuros se estreitaram.

—55- falei já me garantindo, nem sabendo se tinha aquele dinheiro na minha velha e rabugenta carteira, com um furo nos fundos e ninja expert, em fazer meu dinheiro desaparecer em menos de 5 segundos.

—80- ela falou.

—Fechado- e a idiota aqui só foi perceber o que tinha falado, depois de entender o sorriso de “toma retardada” na cara da garota que a mais de 5 anos é sua melhor amiga.

—Peraí...- tentei protestar.

—Não! Aposta é aposta! Você acertou 80, então 80 será!

—Sua pequena gângster, apostadora, que ama extorquir as pessoas — sibilei com raiva.

Me levantei novamente, pronta para provar como qualquer um naquela escola me conhecia, e que sim, eu era popular. Em segundos avistei que ao longe, chegava um garoto. Seus olhos eram verdes e seus cabelos extremamente negros, seu físico compensava a sua inteligência, já que ele só tirava notas baixas. Eu sabia desse fato por ele ser meu parceiro de biologia a seis anos. Eu nutria uma paixão por aqueles olhos azuis, e por aqueles cabelos negros, junto com seu sorriso de canto e voz musical, porém negava até a morte, se necessário. E nas aulas ele sempre cola de mim. É impossível não me conhecer, ou lembrar de mim.

—Her...oi.

— E eu te conheço?- ele falou sem parar de andar, enquanto vidrava por contados 3 segundos seus olhos aos meus, fazendo de alguma forma meu coração, bater mais forte.

Porém aquele ser que muitos julgavam ser um ser humano, e eu julgo ser um cavalo batizado, passou por mim esbarrando em meu ombro, e me levando ao chão. Ele nem voltou para pedir desculpas, e muito menos olhou para trás. Talvez eu fosse mesmo invisível. Filho da mãe.

Ouvi uma risada esganiçada que com toda certeza era da minha amiga, futuramente ex-melhor amiga, Marielly Mason.

Olhei para ela, lançando-lhe um olhar de cortar a alma, e ainda no chão, ergui minha mão, para examinar o machucado que se encontrava no início de minha palma. O sangue já começava a escorrer, e eu tinha certeza que ficaria um calo de sangue ali. Minhas mãos, que muitos julgavam ser feia, e cheia de calos, ficaria mais feia do que já era.

— Ih, foi mal, não tenho troco.

Oque?

Olhei para cima e encontrei um garoto me observando. Seus cabelos eram loiros como areia, seus olhos azuis, sua pele era bronzeada, e seu corpo evidenciavam que ele amava esportes. Meus olhos se focaram em suas mãos, que naquele momento, esvaziavam seus bolsos.

Peraí...Ele esta me chamando...de mendiga?

—N-não, n-não é isso — gaguejei como a lezada que eu sou, apenas por causa daquela beleza, e daqueles olhos azuis. Ah fala sério, não me julguem! Olhos azuis e verdes são o meu fraco.

Tudo bem que minhas roupas eram esfarrapadas e tinham alguns buracos em minha blusa, e minhas gordurinhas “a mais” apareciam pela barra dela, a fazendo parecer tamanho PP infantil, e me fazendo parecer aquelas barraquerias, que ergue a blusa antes de começar a briga.

Tudo bem que houvesse alguns rasgos em meus jeans...e imundice no meu sapato, e que meu cabelo castanho- avermelhado fosse seco, cheio, e armado a ponte de fazer alguém erguer as mãos em sinal de rendição. Que minhas sobrancelhas me fizessem parecer um lobisomem, e que minhas espinhas tivessem uma cara. Que meus dentes fossem extremamente tortos, e amarelos a ponto de fazer os carros reduzirem, e me condenar a passar mais de seis anos com aparelho. Mais ai comparar à mendiga é demais!

Ele nem quis ouvir minha explicação, apenas foi embora, sem olhar para trás.

Ouvi uma risada soar bem alta atrás de mim.

Olhei para ela, ainda sem me levantar do chão.

—Isso, ri mesmo sua lezada, é você que vai ficar sem dinheiro.

—Amy- ela riu- v-você- ela não conseguiu terminar a frase pois recomeçou a rir.

Quando ela parou, por causa do meu olhar gélido, tomou fôlego, e retomou as palavras.

—Amy, eu sabia que você não tinha dinheiro, agora pedir esmola já é demais.

Então retomou a risada com mais força. Me levantei, e voltei ao banco, no qual Mari estava, e que se encontrava no pátio imundo da escola.

—Não tem graça- sussurrei em tom letal. Ela se virou em minha direção, e seus olhos azuis, começaram a ficar gentis.

—Olha Amy, veja pelo lado bom...pelo menos você ficou conhecida como uma mendiga- ela relinchou. Aquele animal.

E voltou a rir, quer dizer, relinchar.

—Pare de relinchar- falei empurrando de leve seu ombro, sem olhar para ela.

E se vocês acham que ela ficou ofendida, muito pelo contrário, ela voltou a rir com mais força.

Muitos estranham nossa amizade, mas é assim. Brigamos, xingamos uma à outra, reclamamos, nos alfinetamos, nos chamamos dos piores apelidos. Porém em cada palavra, ou reclamação, havia um respeito subentendido por nos duas. Nos respeitavamos, e essa é a verdade, nos amavamos também. Nossa amizade era pura, e sincera, sem bajulações, e com um amor singelo que poucos entendiam. Ela nunca se ofendia, muito menos eu. Sabiamos que nosso amor estava subentendido em cada ofensa. Ela é como uma irmã para mim.

—E agora, o que eu faço? Eu não tenho as pulseirinhas para a festa- choraminguei enquanto colocava minha cabeça em seu ombro.

—Olha, você pod-

—Já sei!

Olhei para ela com um sorriso de quem ia aprontar nos lábios. E mesmo sem trocar uma palavra, ela já sabia o que ia fazer. Afinal tinhamos essa conexão rara. Ela já sabia o que eu ia dizer e fazer, sem que dizer uma palavra sequer.

Vou rouba-las.