Castelos de gelo
7 Cadeira de balanço, Leis de Newton e Pequenos acidentes.
Notas iniciais
—Como assim presas?- ouvi a voz do irmão de Mari ressoar no telefone dela, que prontamente o afastou da orelha.
Sabe aquela lei de Newton que diz que toda ação tem uma reação oposta? Pois então...aqui estou eu, na delegacia do estado de Maine, na sala de um delegado gordinho com um bigode alinhado que a cada momento penteava com um pente preto médio, em uma mesa de papéis desarrumados, suja de sangue, alcool, lama e restos de peixe, com o tímel escorrendo pelos meus olhos e com um dos saltos quebrados. E tudo isso, por ter chamado a polícia, e ir para uma festa em que fui presa.
Ironia, oi! Você por aqui?
E o feitiço virou-se contra o feiticeiro.
Fala sério, isso é tão absurdo que eu até me recuso a acreditar. Eu fui presa, sendo que eu mesma chamei a polícia e peraí...Eu fui presa...presa..OMG! Eu fui presa! Minha mãe vai me matar!!
Eu havia quebrado a 8° regra: Não ser presa.
—A gente estava meio que, numa festa...é, numa festa, e a polícia chegou.. — Mari falava pelo telefone.-...na verdade, foi a Amy que chamou a polícia- ouvi uma risada do outro lado da linha.
Isso, ri mesmo desgraça!
Olhei para o delegado, que pelo crachá identifiquei como Rodolfo –esse nome me persegue, só pode- e me encolhi de nojo na cadeira ao perceber a maneira como ele me olhava.
Ele me dava aquele olhar que dizia “vem ni mim sua linda, eu não sou ovo, mas você me deixou todo mexido” e mexia as sobrancelhas grossas para mim. Ele devia estar muito desesperado pra dar em cima de mim...
O cheiro de whisky emanava dele, o que não me incomodou tanto assim, já que eu tava pingando praticamente chorume. Seus restos de cigarros se desintegravam em um pires marrom, meio transparente que estava em cima de sua mesa.
—Eu não te conheço de algum lugar?
Ele perguntou cético.
—Só se for do-
—Amy!- Mari desgrudou do telefone e me repreendeu sabendo que eu provavelmente poderia ser presa por desacato. Peraí, eu meio que já tava presa...anyway.
—Ele está vindo nos buscar- Mari disse, me fazendo sorrir meu sorriso metálido verde e amarelo. Finalmente sairia daquele pesadelo.
Esperamos por mais ou menos meia hora, na sala do delegado pervertido, até o irmão de Meri chegar.
Será que ele ainda tá com raiva por causa do pão?
—Pronto Mari demorei um pouco mais ch...EITA DESGRAÇA O QUE É ISSO?!
Essa foi a recepção calorosa de Adam, irmão de Mari, ao me ver. Sim Adam, eu também te amo...brincadeira, amo não.
—É bom te ver também Adam- falei ironicamente.
—É que a Amy passou por um...acidente na festa- Mari disse gesticulando com as mãos.
—Certo...- ele falou como se ainda tentasse assimilar o fato de que eu naquele exato momento parecia como que tinha ido ao esgoto e voltado.
Olhei para Mari que tinha apenas alguns rastros de sujeira por seu casaco dourado, com seu vestido branco intacto, já que quem tinha absorvido todo o impacto das sujeiras tinha sido eu.
—Então...-ele falou ainda letárgico olhando para ao delegado que mexia as sobrancelhas grossas para mim, porém parou imediatamente assim que viu que Adam olhava para ele- eu vim libertar a minha irmã e a amiga dela.
—É claro- O delegado falou para em seguida mastigarum chiclete que eu sabia não ter em sua boca-...espera.- ele falou depois começar a escrever algo em um papel. Você disse que é irmão de uma só?
—Sim, sou irmão dessa- Adam apontou para Mari.
—E você tem que idade rapaz?- o delegado perguntou o observando meio cético.
—18.
—Certo, como você é maior de idade, pode lervar sua irmã. Agora ela, tem que ficar.
Oh não...
—Como assim tenho que ficar?- perguntei com raiva.
Será que ele queria que eu ficasse apenas para ficar me cantando mais?
—Você terá que chamar um adulto responsável da sua família para assinar os papéis e pagar a fiança- ele apontou para o papel que Adam estava assinando.- Vocês podem ir, mas até alguém vir te buscar, você fica.
Ai droga..,
—Minha mãe vai me matar...- sussurrei apoiando minha mão na testa-...me trucidar...
—Relaxa Amy- Mari falou espalhando a mão pelas minhas costas- aposto que se você explicar a situação direitinho, ela te perdoa.
Embora ela esteja tentando me confortar, ela me deu aquele olhar de “é amiga, tu tá lascada”.
—Se quiser eu espero ela chegar e aguentamos a fúria dela juntas- Eu até pensei em aceitar a proposta da minha melhor e única amiga, mas...eu não podia fazer isso com ela.
—Não precisa, o fato de você estar aqui quando ela chegar não parará a fúria dela. Mas obrigada...- disse um pouco triste enquanto segurava a mão dela que agora jazia em meu ombro.
— Você sabe o telefone de casa de cor? — Adam falou meio confuso e com um olhar meio triste, é, até ele estava com um pouco de pena de mim. Afinal, de todas as regras que eu poderia quebrar, eu tinha quebrado uma de grande importância.
— Sei sim — eu sussurrei me debruçando na mesa. Meu cabelo que antes estava liso, agora estava totalmente armado. Além de estar com um cheiro terrível.
É um fato, eu estava um lixo.
—Não se preocupe Amy, amanhã eu volto.
—Eu vou dormir na delegacia?!- perguntei sentando-me ereta na cadeira.
—Não, Amy, você entendeu errado — Marielly colocou a mão em meu ombro, tentando me acalmar — amanhã eu te procuro.
—Certo- repondi mais relaxada- xau Adam.
Depois de todas as despedidas e lágrimas, tá até parecendo que eu tô doente, eu sentei-me na cadeira do ganinete, de frente ao polícial que mexeu as sobrancelhas para mim...é, essa está sendo uma longa noite.
Depois de mais ou menos 10 minutos de intoxicação pela fumaça gerada pelo charuto barato que o delegado que não parava de mexer as sobrancelhas sugestivamente para mim fumava, ele finalmente quebrou o silêncio e começou a falar algo.
—Então, senhorita Amy- ele falou meu nome sugestivamente, demorando demais na maneira de pronunciá-lo. Droga cara, é só três letras.
—Você tem direito a uma ligação- ele continuou depois do que se pareceram 10 minutos pronunciando meu nome.
Eu hein...
Depois de dizer o número e perceber que ninguém atendia –ainda bem, ou não...- decidi deixar uma mensagem depois do sinal. Porque sim, eu era pobre mas tinha secretária eletronica. Me processe.
“Ahn...mamãe? Só queria dizer que, bem...é uma história engraçada, a senhora provavelmente vai rir bastante! É que, humm, eu estava meio que numa festa, é eu sei, eu menti para a senhora, mas se a senhora analisar com humor, enxergará que não é tão ruim assim. E agora vem a parte mais engraçada, tá preparada? Bem eu fui presa. Eu sei que isso vai manchar minha chance de entrar em uma boa faculdade e provavelmente vai atrapalhar meu histórico escolar mas veja, quem sabe, daqui a alguns anos iremos nos balançar em nossas cadeiras de balanço e rir dessa droga toda. Te amo, xau”
Quando ela visse minha mensagem, ia me trucidar...
—Bom senhorita...
—Preston- completei lembrando-me da primeira regra sobre o nome, quando hesitei em falar o segundo.
—Como você não tem um responsável para te buscar, tenho que pegar seu nome inteiro para colocar no sistema- disse o delegado parecendo pela primeira vez um homem sério.
—No sistema?- brandi assustada. Masoq...
—Não se preocupe- ele riu um pouco do meu desespero- é só por precaução por você ser menor de idade. Se ninguém vir te buscar bem, eu não apagarei seu nome do sistema.
Seus dedos cheinhos e com as unhas meio sujas teclavam rápidamente as minhas informações.
—Seu endereço- ele perguntou enquanto digitava.
—Rua Carmélia número 84.
—Sua idade.
—17.
—Seu número do telefone- ele falou enquanto me lançava um olhar suspeito. Praí, esse número de telefone é para os registros ou para ele? Para os registros Amy, para os registros...ele não é um stalkeador.
—Seu nome inteiro?
—Amy Preston- mentira.
—Você não é filha de Clear Lancaster?- ele perguntou cético quanto ao meu nome.- Seu nome inteiro- ele disse meio sem paciência. Oxe, tava me paquerando nextante...
Suspirei ante a ideia de ter que quebrar a primeira regra, justo da principal.
—Amanda Lancaster Preston Schreave Bouvier D’vila.
Ele apertou enter confirmando para quem quer que soubesse que eu havia quebrado duas regras essenciais.
Suspirei com pesar.
Eu estava no sistema.
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