Castelos
13 Sete Corações
— Safira.
Políbio pronunciou o nome quase sem voz.
A mulher diante dele sorriu.
Ou talvez não fosse exatamente uma mulher.
O corpo ainda era aquele que pertencera a Ithely, que Avelar aprendera a controlar e que Núbia usara poucos minutos antes. Os cabelos permaneciam divididos entre fios claros e escuros, mas os olhos...
Os olhos haviam se tornado completamente vermelhos.
Não havia pupilas.
Não havia branco.
Pareciam duas pedras de rubi encaixadas em seu rosto.
Políbio recuou.
— Isso não é possível.
Ela inclinou a cabeça.
— Quantas coisas impossíveis você viu nos últimos dias?
Políbio ficou em silêncio.
A resposta seria grande demais.
A mulher olhou para as próprias mãos.
Abriu e fechou os dedos lentamente, como alguém experimentando um corpo pela primeira vez.
Depois tocou o rosto.
Os cabelos.
O peito.
— Interessante...
Políbio segurou a espada.
— Onde estão elas?
Safira ergueu os olhos.
— Elas?
— Avelar. Ithely. Núbia.
O sorriso aumentou.
— Aqui.
Ela tocou o próprio peito.
— Todas.
Políbio apontou a espada.
— Saia delas.
Safira riu.
Não foi uma gargalhada.
Foi uma risada baixa, quase carinhosa.
— Você é realmente filho de Flora.
Políbio endureceu.
— Não fale da minha mãe.
— Por quê?
Safira aproximou-se.
— Ainda está tentando descobrir se ela está viva?
Políbio apertou o cabo da espada.
— Você sabe?
— Sei muitas coisas.
— Então diga.
— Não.
A resposta foi simples.
Políbio avançou.
— Pare de brincar comigo!
Safira apenas levantou uma das mãos.
A espada desapareceu.
Políbio olhou para seus dedos vazios.
A arma surgiu nas mãos dela.
Safira examinou a lâmina.
— Você ainda acredita que força serve para conseguir respostas.
Passou o dedo pelo metal.
Um pequeno corte surgiu em sua pele.
Sangue.
Vermelho.
Ela observou a gota.
— Curioso.
— O quê?
— Este corpo não sabe mais a quem pertence.
Políbio respirou fundo.
— Devolva Avelar.
Safira o encarou.
Dessa vez, o sorriso desapareceu.
— Você a ama.
Ele não respondeu.
— Ama.
Safira aproximou-se.
— Muito.
Políbio desviou os olhos.
— Isso não diz respeito a você.
— Tudo o que envolve minhas pedras diz respeito a mim.
Ela levantou a mão.
A Pedra da Verdade começou a vibrar dentro das roupas de Políbio.
Ele segurou o peito.
A pedra atravessou o tecido sozinha.
Flutuou.
Safira observou.
— Verdade.
Depois tocou o próprio peito.
Outra pulsação respondeu.
— Medo.
Mais uma.
— Justiça.
Outra.
— Perseverança.
Políbio arregalou os olhos.
— Você consegue senti-las.
— Elas são minhas.
A pedra transparente continuou flutuando entre os dois.
Safira sorriu.
— Ou eram.
— Você quer recuperá-las?
Ela ficou em silêncio.
A lembrança da visão de Zárlia surgiu imediatamente na mente de Avelar, presa em algum ponto daquele corpo.
Não entregue todas as pedras.
Principalmente para Safira.
A consciência despertou.
— NÃO!
O grito não saiu pela boca.
Ecoou dentro do corpo.
Safira parou.
Avelar tentou assumir o controle.
Nada.
— Eu sei que está aí — disse Safira.
Políbio franziu o cenho.
— Avelar?
Safira fechou os olhos.
Dentro da escuridão havia uma voz.
— Saia do meu corpo!
— Seu?
Safira respondeu mentalmente.
Avelar sentiu raiva.
— Você não pertence aqui.
— Nenhuma de nós pertence.
Uma segunda voz surgiu.
Ithely.
— Tire-nos daqui.
Safira sorriu.
Então uma terceira:
— Você não deveria ter conseguido entrar.
Núbia.
Safira abriu os olhos.
— Sete corações.
Políbio olhou para ela.
— O quê?
Safira devolveu a Pedra da Verdade.
Ela voltou para a mão dele.
— As bruxas avisaram, não foi?
Políbio lembrou.
Quando ouvir sete corações batendo dentro de um único corpo, corra.
Ele recuou.
Safira soltou a espada no chão.
— Então corra.
— Não vou deixar Avelar.
— Não?
— Não.
Safira parecia quase admirada.
— Mesmo sabendo o que ela fez?
Políbio abaixou os olhos.
Tabôr.
As lembranças.
As mentiras.
A manipulação.
O fato de Avelar ter pensado em usá-lo.
Talvez matá-lo.
Ainda assim...
— Mesmo assim.
Safira observou-o por alguns segundos.
— Interessante.
— O quê?
— Ela também escolheria você.
Avelar ouviu aquilo.
— Mentira.
Safira respondeu sem mover os lábios:
— Você deveria parar de mentir para si mesma. Já perdeu a Pedra da Verdade por isso.
Avelar permaneceu calada.
Políbio se aproximou.
— O que está acontecendo com elas?
Safira olhou para ele.
— Estão nascendo.
— Quem?
— Todas.
Políbio não compreendeu.
Safira virou-se em direção ao Pântano Vermelho.
— Preciso mostrar-lhes alguma coisa.
— Não vou a lugar algum com você.
Ela soltou um suspiro.
— Vocês sempre dizem isso.
Estalou os dedos.
O mundo desapareceu.
Avelar caiu.
Desta vez tinha corpo.
Seu próprio corpo.
Olhou para as mãos.
Pálidas.
As unhas.
Os braços.
Tocou o rosto.
Seu rosto.
Os cabelos negros desciam novamente pelas costas.
Longos.
Como eram antes de Ithely cortá-los.
— Não...
Olhou ao redor.
Não estava mais no pântano.
Nem dentro da caverna de sua consciência.
Encontrava-se num campo.
Era noite.
Mas uma noite diferente da de Etanin.
Havia estrelas.
Milhares.
E uma lua enorme iluminava o chão.
— Políbio?
Nada.
— Ithely?
Silêncio.
— Núbia?
Nenhuma resposta.
Então ouviu alguém cantar.
Uma voz feminina.
Doce.
Avelar começou a caminhar.
A música vinha de trás de uma fileira de árvores.
Passou por elas.
Parou.
Três mulheres estavam diante de um lago.
Avelar sentiu alguma coisa estranha imediatamente.
Não as conhecia.
Mas seu corpo parecia conhecer.
Seu coração acelerou.
Uma delas estava ajoelhada junto à água.
Tinha cabelos negros e cacheados, pele morena e olhos muito escuros. Usava um vestido verde profundo coberto por pequenas folhas.
A segunda estava de pé.
Alta.
Cabelos ruivos.
Olhos dourados.
Sua roupa era vermelha e possuía pequenas estruturas semelhantes a espinhos nos ombros.
A terceira estava sentada sobre uma pedra.
Tinha cabelos quase brancos, extremamente longos, e pele escura. Um enorme colar feito de sementes cobria seu peito.
Avelar não conseguia se mover.
A mulher ruiva olhou para ela.
Sorriu.
— Você demorou.
Avelar sentiu frio.
— Quem são vocês?
A mulher morena levantou-se.
Seus olhos estavam cheios de lágrimas.
— Ela cresceu.
A de cabelos brancos sorriu.
— Nós sabíamos que cresceria.
Avelar deu um passo para trás.
— Quem são vocês?
A ruiva respondeu:
— Drosera.
A mulher morena colocou a mão sobre o próprio peito.
— Dioneia.
A terceira inclinou a cabeça.
— Nepente.
Silêncio.
Avelar não sabia por quê, mas os nomes doeram.
— Eu conheço vocês?
Dioneia começou a chorar.
Drosera segurou sua mão.
Nepente respondeu:
— Não.
Fez uma pausa.
— Mas deveria.
Avelar franziu o cenho.
— O que significa isso?
Drosera se aproximou.
— Significa que esconderam de você a primeira verdade.
— Qual?
As três mulheres se entreolharam.
Então Dioneia respondeu:
— Nós somos suas mães.
O mundo pareceu parar.
Avelar riu.
Não por achar graça.
Por não saber o que fazer.
— Não.
Drosera continuou aproximando-se.
— Avelar...
— Minha mãe era Zárlia.
Dioneia baixou os olhos.
— Zárlia foi sua mãe.
— Então vocês não são.
Nepente levantou-se.
— Uma coisa não elimina a outra.
Avelar ficou furiosa.
— Eu estou cansada de enigmas!
Sua voz ecoou pelo lago.
— Estou cansada de todo mundo saber quem eu sou!
Apontou para as três.
— Érica sabe.
— Mendragon sabe.
— Muriel sabia.
— Safira sabe!
As lágrimas apareceram.
— Todo mundo sabe alguma coisa sobre minha vida menos eu!
Dioneia tentou aproximar-se.
Avelar recuou.
— Não toque em mim.
A mulher parou.
Avelar olhou para cada uma.
— Digam.
Sua voz tremia.
— Agora.
Drosera respirou fundo.
— Você não nasceu de uma única mulher.
Avelar ficou imóvel.
— Isso é impossível.
— Para humanos.
Nepente sorriu discretamente.
— Você nunca foi humana.
Drosera continuou:
— Nem vampira.
— Nem híbrida — acrescentou Dioneia.
Avelar sentiu o coração acelerar.
— Então o que eu sou?
As três ficaram em silêncio.
— DIGAM!
Drosera respondeu:
— Uma criação.
Avelar congelou.
— O quê?
Dioneia chorava.
— Uma filha.
— Não uma arma — interrompeu Nepente.
Olhou duramente para as outras.
— Nunca deveria ter sido apenas uma arma.
Avelar percebeu.
— Apenas?
Nenhuma respondeu.
— O que fizeram comigo?
Drosera estendeu a mão.
A superfície do lago mudou.
Uma visão surgiu.
Três mulheres.
Mais jovens.
As mesmas três.
Dentro de uma sala subterrânea.
Havia um círculo no chão.
Sangue.
Plantas.
Ossos.
Uma pequena chama azul.
No centro...
Um bebê.
Avelar levou uma mão à boca.
— Não.
A criança chorava.
Drosera aproximava sangue dos lábios dela.
Dioneia colocava as mãos sobre seu peito.
Nepente murmurava algum encantamento.
Três energias entravam na criança.
Avelar sentiu náusea.
— Parem.
As imagens continuaram.
— PAREM!
Drosera tocou o lago.
A visão desapareceu.
— Nós a criamos.
— Por quê?
Ninguém respondeu.
— POR QUÊ?
Nepente foi a única capaz de encará-la.
— Para destruir os Sacros.
Silêncio.
Avelar não respirava.
— O quê?
— O domínio deles havia se tornado absoluto.
Disse Drosera.
— Mendragon transformava povos inteiros em servos.
Dioneia completou:
— Linhagens eram apagadas.
— Crianças eram tomadas.
— Rebeldes desapareciam.
Nepente aproximou-se.
— Precisávamos de alguém que pudesse atravessar todas as fronteiras que ele criou.
Avelar sentiu as mãos tremerem.
— Então me fizeram.
— Sim.
— Para matar Mendragon.
Drosera demorou a responder.
— Para derrubar tudo o que ele representa.
Avelar começou a rir.
As três a observaram.
— Então isso é tudo?
— Não — disse Dioneia.
— É exatamente isso!
Avelar apontou para elas.
— Mendragon me usou.
Apontou para si.
— Érica me usou.
— Safira está me usando.
Sua voz aumentou.
— E agora descubro que vocês me fizeram para me usar também!
— Não! — gritou Dioneia.
Avelar ficou surpresa.
Foi a primeira vez que uma delas elevou a voz.
Dioneia aproximou-se.
— Foi assim que começou.
Lágrimas desciam.
— Mas você nasceu.
Tocou o próprio peito.
— Você respirou.
— Chorou.
— Segurou meu dedo.
Sua voz falhou.
— E naquele instante você deixou de ser nossa rebelião.
Avelar sentiu alguma coisa quebrar dentro dela.
Dioneia continuou:
— Tornou-se nossa filha.
Drosera baixou a cabeça.
— Foi por isso que precisamos entregá-la.
— A quem?
Avelar já sabia.
Mesmo antes da resposta.
— Zárlia.
O nome saiu das três.
Avelar fechou os olhos.
— Ela sabia?
— Tudo — respondeu Nepente.
Isso doeu mais.
— Tudo?
Drosera assentiu.
— Ela prometeu criar você longe de nós.
— Por quê?
Nepente olhou para o lago.
— Porque Mendragon descobriu que alguém tentava produzir uma nova linhagem.
— Ele não sabia quem.
— Ainda.
Dioneia enxugou as lágrimas.
— Se ficasse conosco, ele encontraria você.
Avelar apertou os olhos.
— E meu pai?
Silêncio.
Drosera olhou para Nepente.
Nepente para Dioneia.
Avelar percebeu.
— Não existe.
Nenhuma respondeu.
— Existe?
Drosera respirou.
— Não da maneira como imagina.
— Então aquele híbrido...
— Serviu para esconder sua origem.
Avelar sentiu o estômago revirar.
— Zárlia fingiu...
— Que você era filha dele — concluiu Dioneia.
Avelar se afastou.
De repente, tudo parecia errado.
A mãe.
O pai.
O sangue.
A infância.
Até sua própria espécie.
— Por que três?
Nepente franziu o cenho.
— O quê?
— Por que três mães?
Drosera respondeu:
— Porque uma única linhagem não conseguiria criar o que precisávamos.
Aproximou-se.
— Drosera deu a você a capacidade de absorver e adaptar.
Dioneia falou:
— Eu lhe dei transformação e regeneração.
Nepente continuou:
— E eu lhe dei ligação com magia ancestral.
Avelar lembrou das palavras.
Dos poderes.
Da facilidade com que seu corpo aceitava aquilo que deveria destruí-lo.
— Por isso eu consigo...
— Tornar-se aquilo de que precisa — disse Drosera.
A frase atravessou Avelar.
Eu sou tudo aquilo que quiser ser.
Ela sentiu medo.
— Então Núbia...
As três mulheres mudaram de expressão.
Avelar percebeu.
— Vocês sabem quem ela é.
Nepente respondeu:
— Sabemos o que ela pode ser.
— O que significa isso?
— Ainda não.
Avelar fechou as mãos.
— NÃO FAÇAM ISSO DE NOVO!
O lago começou a tremer.
— Chega de segredos!
Então outra voz surgiu.
— Concordo.
As quatro olharam.
Safira estava atrás delas.
Avelar recuou.
— Você.
As três mães imediatamente se colocaram diante dela.
Drosera mostrou os dentes.
Dioneia assumiu postura de ataque.
Nepente ergueu as mãos.
Safira sorriu.
— Depois de tantos anos...
Olhou para as três.
— As jardineiras ainda estão vivas.
Avelar franziu o cenho.
— Jardineiras?
Safira ignorou.
— Vocês fizeram algo muito perigoso.
Drosera respondeu:
— Fizemos aquilo que você não teve coragem de fazer.
O sorriso de Safira desapareceu.
— Cuidado.
— Você teve poder para derrubar Mendragon e preferiu espalhá-lo pelo mundo como brinquedos.
Safira deu um passo.
— Eu garanti que um dia alguém digno o reunisse.
Nepente riu.
— Digno?
— Ou manipulável?
Silêncio.
Avelar olhou de uma para outra.
— O que está acontecendo?
Safira virou-se para ela.
— Suas mães não criaram apenas uma rebelde.
Drosera avançou.
— Cale-se.
Safira sorriu.
— Criaram um recipiente.
Avelar sentiu frio.
— Para quê?
— Para as pedras.
As três atacaram.
A visão explodiu.
Políbio agarrou o corpo antes que ele caísse.
Os olhos vermelhos haviam desaparecido.
Agora estavam negros.
— Avelar!
Ela puxou o ar.
Olhou ao redor.
O Pântano Vermelho.
Políbio.
As árvores.
Tudo voltara.
— Eu...
Levou as mãos ao rosto.
— Eu as vi.
— Quem?
Avelar começou a chorar.
— Minhas mães.
Políbio ficou em silêncio.
— Três.
— Três mães?
Avelar riu entre as lágrimas.
— Parece que minha vida ainda podia ficar mais absurda.
Políbio aproximou-se.
Hesitou.
Depois abraçou-a.
Dessa vez, ela não o afastou.
Avelar escondeu o rosto em seu peito.
— Elas me fizeram.
Políbio fechou os braços ao redor dela.
— Para matar Mendragon.
Ele não respondeu imediatamente.
— E você quer?
Avelar afastou o rosto.
Os olhos ainda molhados.
— Quero.
A resposta veio sem hesitação.
Mas depois ela completou:
— Só não sei mais se quero porque eu escolhi...
Olhou para as próprias mãos.
— ...ou porque fui criada para querer.
Políbio tocou seu rosto.
— Então descubra.
Avelar olhou para ele.
— Como?
— Continue vivendo até conseguir separar uma coisa da outra.
Ela sorriu fracamente.
— Você faz parecer fácil.
— Não é.
Um barulho interrompeu os dois.
Água.
Alguma coisa se movimentava no pântano.
Avelar se afastou.
Políbio puxou a espada.
Uma figura surgiu entre as árvores.
Suzan.
— Suzan!
Políbio correu.
A bruxa levantou uma mão.
— Não!
Ele parou.
Suzan estava ferida.
Roupas rasgadas.
Sangue.
Olhos cansados.
Mas viva.
— Muriel disse que você estava morta.
Suzan riu.
— Muriel era uma mentirosa excelente.
Avelar aproximou-se.
— Onde você esteve?
Suzan olhou para ela.
Seu sorriso morreu.
— Procurando vocês.
— Por quê?
— Porque descobri onde está a sexta pedra.
Políbio e Avelar se entreolharam.
— Onde?
Suzan respirou fundo.
— Etanin.
Avelar sentiu o coração acelerar.
O lugar para onde não queria voltar.
Mendragon.
— Qual pedra?
Suzan respondeu:
— A Pedra do Sacrifício.
Silêncio.
Então tirou algo do bolso.
Um pedaço de tecido negro.
Nele havia bordado o símbolo dos Sacros.
— E tem mais.
Avelar pegou o tecido.
— O quê?
Suzan olhou diretamente para ela.
— Mendragon sabe que você está viva.
Avelar sentiu o sangue gelar.
— Como?
Suzan demorou um instante.
— Porque ele já começou a preparar o exército.
Políbio segurou a espada com mais força.
— Para nos impedir de voltar?
Suzan balançou a cabeça.
— Não.
Olhou para Avelar.
— Para matar você antes que consiga reunir as sete pedras.
Avelar permaneceu imóvel.
Dentro dela, Ithely despertou.
Núbia também.
E, em algum lugar mais profundo, Safira observava.
Avelar apertou o tecido dos Sacros.
Pensou em Zárlia.
Drosera.
Dioneia.
Nepente.
Pensou em todas as pessoas que haviam decidido o que deveria ser antes que pudesse decidir por si mesma.
Então ergueu os olhos.
— Ótimo.
Políbio franziu o cenho.
— Ótimo?
Avelar sorriu.
Não era o sorriso de Ithely.
Nem de Núbia.
Nem de Safira.
Era dela.
— Estou cansada de fugir de Mendragon.
Guardou o tecido.
— Se ele quer guerra...
Seus olhos escureceram.
— Desta vez vai ter.
Muito longe dali, no alto do castelo de Etanin, Mendragon observava milhares de soldados reunirem-se diante das muralhas.
Cárdamo aproximou-se.
— Meu senhor, os exércitos estão prontos.
Mendragon permaneceu olhando para o horizonte.
— E minha filha?
Cárdamo hesitou.
— Ainda não voltou.
Mendragon sorriu.
— Vai voltar.
— Como pode ter certeza?
O rei levou uma mão ao próprio peito.
Sob a pele, alguma coisa vermelha pulsava.
A Pedra da Humanidade.
— Porque todos voltam para aquilo que amam.
Cárdamo ficou em silêncio.
Mendragon apertou o peito.
Então completou:
— Mesmo quando deveriam fugir.
No interior da pedra, uma pequena fissura surgiu.
E alguma coisa, presa havia muitos anos dentro dela, abriu os olhos.
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