Castelos
14 O Preço do Sacrifício
— Desta vez vai ter.
As palavras de Avelar ainda pareciam pairar sobre o Pântano Vermelho.
Suzan não demonstrou surpresa.
Políbio, sim.
Ele a observava com aquela expressão que Avelar começava a conhecer muito bem: a mistura irritante entre preocupação e julgamento.
— Você ouviu a parte em que ela disse que Mendragon está preparando um exército? — perguntou.
— Ouvi.
— Milhares de soldados.
— Também ouvi.
— E sua conclusão foi que devemos ir diretamente até eles?
Avelar cruzou os braços.
— Minha conclusão foi que estou cansada de correr.
Políbio respirou fundo.
— Isso não é coragem.
— E o que é?
— Às vezes é estupidez.
Avelar aproximou-se.
— Está com medo?
— Muito.
Ela esperava que ele negasse.
Políbio não negou.
— Essa é a diferença entre nós — continuou ele. — Eu não tenho vergonha de admitir quando estou com medo.
Avelar ficou em silêncio.
Suzan observava os dois.
— Seria encantador assistir vocês discutirem até Mendragon chegar aqui pessoalmente, mas existe um pequeno problema.
Os dois olharam.
Suzan apontou para o tecido negro dos Sacros nas mãos de Avelar.
— A Pedra do Sacrifício não está simplesmente em Etanin.
Avelar franziu o cenho.
— Onde está?
— Eu não sei.
— Então como sabe que está lá?
Suzan hesitou.
— Porque ouvi a pedra.
Avelar e Políbio se entreolharam.
— Pedras falam agora? — perguntou Avelar.
— Algumas coisas falam quando estamos perto o suficiente da morte.
Suzan levantou a manga.
Havia uma marca negra em seu braço.
Subia do pulso até o cotovelo como raízes queimadas sob a pele.
Políbio aproximou-se.
— O que aconteceu?
Suzan puxou novamente o tecido para esconder.
— Muriel não me matou.
— Isso nós percebemos.
— Ela tentou me mandar para outro lugar.
Avelar ficou séria.
— Que lugar?
Suzan demorou.
— O mundo dos mortos.
Silêncio.
— Mas alguma coisa me recusou.
Políbio franziu o cenho.
— A morte recusou você?
Suzan deu um sorriso sem humor.
— Parece ofensivo quando você fala assim.
Avelar aproximou-se.
— O que você viu?
Suzan olhou diretamente para ela.
— Uma porta.
Avelar sentiu um arrepio.
— E atrás dela?
— Etanin.
— Isso não faz sentido.
— Nada do que estamos vivendo faz.
Suzan respirou.
— Havia um altar. Sete espaços. Cinco estavam acesos.
Avelar contou mentalmente.
Humanidade.
Medo.
Justiça.
Perseverança.
Verdade.
Cinco.
— E os outros dois?
— Um estava vazio.
— A sétima pedra.
Suzan assentiu.
— O outro estava coberto de sangue.
Políbio ficou imóvel.
— Sacrifício.
— Sim.
Avelar apertou os dedos.
— Então vamos até esse altar.
Suzan olhou para ela.
— Há uma coisa que ainda não entendeu.
— O quê?
— Pedra nenhuma chamada Sacrifício vai simplesmente esperar que você a pegue.
Saíram do Pântano Vermelho ao entardecer.
Assim que cruzaram a fronteira, Avelar sentiu os poderes retornarem.
Primeiro o frio nas mãos.
Depois a presença das três bruxas.
A energia animal.
A telepatia.
Tudo.
Mas havia alguma coisa diferente.
Uma fraqueza.
Tocou o próprio peito.
Ithely permanecia silenciosa desde a visão das três mães.
Núbia também.
Safira desaparecera tão subitamente quanto surgira.
— Ithely?
Nenhuma resposta.
Avelar continuou andando.
— Ithely.
Silêncio.
Parou.
Políbio percebeu.
— O que foi?
— Nada.
— Avelar.
— Eu disse que não é nada.
Ele aproximou-se.
— Quando você diz isso geralmente existe alguma coisa prestes a nos matar.
Suzan continuou alguns metros à frente.
Avelar fechou os olhos.
Procurou.
Dentro dela havia novamente a caverna.
Escura.
Mas diferente.
Avelar entrou.
— Ithely?
Sua voz ecoou.
Nada.
Caminhou.
— Núbia?
A escuridão parecia mais profunda.
Então ouviu alguém respirar.
Avelar seguiu o som.
Ithely estava encostada numa parede.
Sentada.
Abraçada às próprias pernas.
Avelar parou.
Nunca a vira assim.
Sem arrogância.
Sem sarcasmo.
Sem raiva.
Parecia apenas uma menina.
— Ithely?
A loira ergueu lentamente o rosto.
— Eu estou desaparecendo.
Avelar sentiu o corpo gelar.
— O quê?
— Você não percebe?
Avelar permaneceu em silêncio.
Ithely olhou para as próprias mãos.
Algumas partes estavam transparentes.
— Cada vez que você assume o corpo...
Sua voz falhou.
— Eu fico menor.
Avelar aproximou-se.
— Isso não significa que está morrendo.
Ithely riu.
— Você consegue mentir para qualquer pessoa.
Olhou para ela.
— Menos para você mesma.
Avelar não respondeu.
— Muriel estava certa.
— Muriel disse muitas coisas.
— Uma de nós vai desaparecer.
Avelar ajoelhou-se.
— Não vou deixar isso acontecer.
Ithely arregalou levemente os olhos.
— Você queria me matar.
Avelar abaixou o olhar.
— Queria.
— Ainda quer?
Silêncio.
Ithely sorriu tristemente.
— Viu?
— Eu não sei.
A princesa encostou a cabeça na parede.
— Pelo menos foi sincera.
Avelar levantou-se.
— Vamos encontrar uma forma.
— Por quê?
Ela parou.
— Porque...
Ithely esperou.
Avelar não encontrou resposta.
Por que queria salvá-la?
Talvez porque descobrira que Ithely também fora manipulada.
Talvez porque agora conhecia suas memórias.
Talvez porque dividir uma alma fosse uma intimidade maior do que qualquer amor ou ódio pudesse produzir.
Ou talvez simplesmente porque não queria carregar outra morte.
— Porque você ainda está aqui.
Ithely olhou.
Avelar estendeu a mão.
— E enquanto estiver...
Fez uma pausa.
— nós encontramos uma saída.
Ithely não pegou sua mão.
Mas também não a recusou.
Avelar abriu os olhos.
Políbio estava diante dela.
— Você ficou parada por quase dois minutos.
— Eu estava conversando.
— Com Ithely?
Avelar assentiu.
Ele percebeu algo em sua expressão.
— O que aconteceu?
— Ela está enfraquecendo.
Políbio ficou pálido.
— Como assim?
— Está desaparecendo.
Ele virou o rosto.
Avelar percebeu.
— Você se importa.
— Ela é minha irmã.
— Mesmo depois de tudo?
Políbio voltou os olhos.
— Família não deixa de ser família porque dói.
A frase atingiu Avelar de maneira inesperada.
Pensou em Zárlia.
Em Drosera.
Dioneia.
Nepente.
Talvez possuísse quatro mães.
Talvez nenhuma.
Talvez família não fosse uma questão tão simples quanto sangue.
— Vamos salvá-la — disse Políbio.
Avelar quase respondeu que não poderia prometer.
Mas apenas assentiu.
Encontraram os cavalos-alados ainda vivos.
Isso já pareceu um milagre.
Os animais haviam permanecido próximos à antiga rota, escondidos entre árvores.
Suzan acariciou o pescoço do seu.
— Etanin fica a pouco mais de um dia daqui pelo céu.
Políbio montou.
— Com um exército esperando.
Avelar subiu no próprio cavalo.
— Melhor.
Ele olhou para ela.
— Você poderia tentar parecer menos feliz com a possibilidade de morrer.
— Já morri duas vezes.
— Isso não torna a terceira uma boa ideia.
Suzan riu.
Avelar também.
Por um breve instante, pareciam apenas três jovens fazendo uma viagem.
Então os cavalos abriram as asas.
E o mundo voltou a ser guerra.
Etanin surgiu no horizonte horas depois.
Mesmo à distância, Avelar percebeu algo errado.
Luzes.
Milhares.
Tochas cercavam a cidade.
Acampamentos militares haviam sido instalados fora das muralhas.
Bandeiras dos Sacros tremulavam em praticamente todas as torres.
— Ele realmente preparou tudo — disse Políbio.
Suzan aproximou seu cavalo.
— Não podemos entrar pelo portão.
— Conheço outra passagem — respondeu Avelar.
Políbio levantou uma sobrancelha.
— Naturalmente conhece.
— Eu passava muito tempo fazendo coisas proibidas.
— Isso explica bastante.
Avelar conduziu o cavalo para uma descida.
Pousaram numa região rochosa ao norte.
Dali seguiram a pé.
A antiga passagem ficava atrás de uma parede de raízes.
Avelar afastou-as.
Uma abertura escura apareceu.
— Quando descobriu isso?
— Aos cinquenta.
Políbio olhou.
— Você tinha cinquenta anos e entrava escondida em túneis?
— Eu era criança.
Suzan começou a rir.
Políbio olhou para ela.
— Nunca vou me acostumar com isso.
Os túneis levavam às partes mais antigas do castelo.
Cheiro de mofo.
Água escorrendo pelas paredes.
Ratos.
Ocasionalmente, ossos.
Avelar caminhava na frente.
Então ouviu.
Uma voz.
— Avelar...
Parou.
— O que foi? — perguntou Suzan.
— Vocês ouviram?
— O quê?
A voz novamente.
— Avelar...
Não vinha da mente.
Vinha do túnel.
Ela começou a seguir.
— Espere! — chamou Políbio.
Avelar acelerou.
A voz se tornava mais clara.
Familiar.
— Aqui...
Virou uma curva.
Encontrou uma pequena porta de ferro.
Abriu.
Uma mulher estava presa ali.
Magra.
Ferida.
Cabelos presos.
Avelar demorou um segundo para reconhecê-la.
— Amélia?
A amiga ergueu o rosto.
— Você voltou.
Avelar correu.
Ajoelhou-se.
— O que fizeram com você?
Amélia sorriu, apesar dos ferimentos.
— Eu sabia que voltaria.
Avelar começou a quebrar as correntes.
— Quem fez isso?
Amélia segurou seu braço.
— Não.
— Não o quê?
— Não temos tempo.
— Amélia.
— Mendragon sabe tudo.
Avelar parou.
— Tudo o quê?
— Sobre você.
Silêncio.
— Sobre suas mães.
O corpo de Avelar enrijeceu.
— Como?
— Cárdamo.
Avelar fechou os olhos.
Claro.
— Ele trabalha para quem?
Amélia balançou a cabeça.
— Esse é o problema.
— O quê?
— Ninguém sabe.
Suzan e Políbio entraram.
Amélia olhou para os dois.
Depois voltou para Avelar.
— Mendragon prendeu qualquer pessoa que já esteve próxima de você.
Avelar sentiu raiva.
— Por quê?
— Porque quer que você venha.
Políbio olhou em volta.
— Então isto é uma armadilha.
Amélia riu com dificuldade.
— Finalmente alguém percebeu.
Avelar terminou de quebrar as correntes.
— Onde está o altar?
Amélia perdeu o sorriso.
— Então você sabe.
— Onde?
— Avelar...
— AMÉLIA.
A amiga olhou para ela.
— Debaixo do salão do trono.
O altar existia desde antes do castelo.
Antes de Mendragon.
Antes dos Sacros.
Talvez antes das próprias tribos.
Chegaram através de uma escadaria escondida sob a antiga prisão.
Amélia ficou para trás.
Estava fraca demais para continuar.
Avelar prometeu voltar.
Não sabia se conseguiria cumprir.
A porta para o altar tinha sete círculos gravados.
Cinco brilhavam.
Dois permaneciam apagados.
Suzan tocou a pedra.
— É exatamente como vi.
Avelar aproximou-se.
A porta se abriu.
O salão subterrâneo era circular.
No centro havia um altar branco.
Sete espaços.
Cinco deles continham luzes que pareciam representar as pedras já reclamadas.
Medo.
Humanidade.
Justiça.
Perseverança.
Verdade.
O sexto espaço estava coberto de sangue seco.
O sétimo permanecia completamente negro.
Avelar entrou.
A porta fechou-se atrás dos três.
— Não gostei disso — disse Políbio.
— Ninguém perguntou — respondeu Suzan.
Uma voz ecoou.
— Para receber o sacrifício...
Os três se prepararam.
Não havia ninguém.
— ...algo deve ser entregue.
Avelar olhou para o altar.
— O quê?
A voz respondeu:
— Aquilo que mais deseja preservar.
Políbio ficou sério.
Suzan respirou fundo.
Avelar aproximou-se.
— Minha vida.
Nada aconteceu.
— Eu entrego minha vida.
Silêncio.
Políbio agarrou seu braço.
— Pare.
Avelar puxou.
— Não funcionou.
— Ainda bem!
Suzan estudava as inscrições.
— Não é vida.
— Então o quê?
Ela passou os dedos pelas palavras.
— “Aquilo que mais deseja preservar”.
Políbio olhou para Avelar.
— Poder.
Avelar ficou séria.
— Eu não...
O altar acendeu.
Os três pararam.
Políbio fechou os olhos.
— É seu poder.
Avelar aproximou-se.
Uma frase apareceu na pedra:
ENTREGUE O QUE A DEFINE.
Avelar sentiu medo.
Poder.
Durante toda sua existência buscara aquilo.
Primeiro para tornar-se Adaga.
Depois para sobreviver.
Depois para vingar Zárlia.
Agora para derrotar Mendragon.
Sem poder...
Quem seria?
Políbio percebeu.
— Você não precisa fazer isso.
— Preciso.
— Não.
— A pedra está aqui.
— E daí?
Avelar virou-se.
— Sem ela não vencemos.
— Quem disse que precisamos de todas?
Avelar riu.
— Você ainda não entendeu?
— Entendi melhor do que você.
Políbio apontou para o altar.
— Isso está pedindo exatamente aquilo que está destruindo você.
Avelar ficou calada.
— Talvez essa pedra não queira seu poder.
— Então o quê?
Ele se aproximou.
— Quer saber se consegue abrir mão dele.
Avelar respirou fundo.
Ithely falou dentro dela:
— Não faça.
Avelar fechou os olhos.
— Por quê?
— Porque sem poder você morre.
— Talvez.
— Mendragon vai matar você.
Avelar sorriu.
— Pensei que gostaria disso.
Silêncio.
Então Ithely respondeu:
— Não mais.
Avelar sentiu o peito apertar.
Núbia também despertou.
— Há outra coisa.
— O quê?
— A pedra não quer magia.
Avelar esperou.
— Quer escolha.
Ela abriu os olhos.
Colocou as duas mãos sobre o altar.
— Se eu entregar meu poder...
A voz respondeu:
— PERDERÁ AQUILO QUE MAIS VALORIZA NELE.
— Para sempre?
— SIM.
Políbio aproximou-se.
— Avelar.
Ela levantou uma mão.
Não queria ouvi-lo.
Pensou.
Qual poder valorizava mais?
Telepatia.
Transformação.
Fogo.
Gelo.
As três bruxas.
Ressurreição, pertencente a Ithely.
Nenhum.
Então percebeu.
O poder que mais valorizava não era um feitiço.
Era a capacidade de nunca precisar depender de ninguém.
A certeza de que podia sobreviver sozinha.
Avelar abriu os olhos.
— Eu entrego minha autossuficiência.
Silêncio.
Políbio franziu o cenho.
— O quê?
Avelar chorou.
— Eu entrego a certeza de que não preciso de ninguém.
O altar brilhou.
A voz respondeu:
— ACEITO.
Avelar sentiu uma dor no peito.
Gritou.
Caiu.
Políbio correu e segurou-a.
Ela tentou empurrá-lo.
Não conseguiu.
Sua força havia desaparecido.
Não toda.
Mas algo fundamental.
Aquela energia inesgotável que sempre surgia quando precisava proteger a si mesma...
Sumira.
Avelar respirava desesperadamente.
— O que aconteceu?
Suzan olhava o altar.
O sangue seco começou a desaparecer.
No centro surgiu uma pedra branca.
Pequena.
Quase frágil.
Políbio ajudou Avelar a se levantar.
Ela olhou para a pedra.
— Sacrifício.
Suzan assentiu.
— Ela não tirou seus poderes.
Avelar tentou ficar de pé sozinha.
Suas pernas falharam.
Políbio a segurou.
— Tirou sua capacidade de carregá-los sozinha.
Avelar olhou para ele.
Entendeu.
A partir daquele momento, seu poder dependeria de vínculos.
De outras pessoas.
Daquilo que passou a vida inteira evitando.
A pedra flutuou.
Veio na direção dela.
Avelar estendeu a mão.
Mas passou por seus dedos.
Foi até Políbio.
Ele a segurou.
Avelar ficou imóvel.
— De novo?
Suzan sorriu.
— Talvez Safira esteja tentando dizer alguma coisa.
Políbio olhou para a pedra.
Agora carregava Verdade e Sacrifício.
Avelar possuía as demais dentro do corpo.
Juntos.
As pedras estavam se dividindo entre eles.
— Unidos pelo sangue... — murmurou Políbio.
Avelar lembrou de Muriel.
— Unidos...
Uma explosão interrompeu.
O teto tremeu.
Poeira caiu.
Suzan sacou a espada.
— Encontraram a gente.
Outra explosão.
A porta foi arrancada.
Soldados entraram.
Dezenas.
Depois centenas.
E atrás deles...
Mendragon.
Avelar ficou imóvel.
Ele caminhou lentamente para dentro do altar.
Cárdamo vinha ao seu lado.
O rei sorriu.
— Finalmente.
Avelar tentou despertar seus poderes.
Nada.
O sacrifício.
Seu corpo não respondia.
Políbio percebeu.
Colocou-se à frente dela.
Mendragon riu.
— Que bonito.
Avelar segurou o braço de Políbio.
— Saia.
— Não.
— Eu disse para sair.
— E eu disse não.
Mendragon continuou aproximando-se.
— Então era isso.
Olhou para os dois.
— A pedra tirou aquilo que você mais precisava.
Avelar tentou novamente.
Nenhuma chama.
Nenhuma transformação.
— Parece que agora precisa dele.
O sorriso de Mendragon aumentou.
Avelar sentiu ódio.
— Eu não preciso de ninguém.
Nada aconteceu.
A Pedra do Sacrifício brilhou nas mãos de Políbio.
Mendragon arqueou uma sobrancelha.
Avelar compreendeu.
A pedra não permitiria nem que mentisse sobre aquilo.
Políbio estendeu a mão.
— Avelar.
Ela olhou.
— Confie em mim.
— Não.
— Então morremos.
Mendragon já estava próximo.
Avelar olhou para a mão de Políbio.
Passara a vida inteira evitando aquilo.
Dependência.
Entrega.
Confiança.
Tudo lhe parecia fraqueza.
Então ouviu Zárlia.
Não como magia.
Como lembrança.
Força e coragem não são a mesma coisa.
Avelar respirou.
Pegou a mão dele.
O mundo explodiu.
Energia atravessou os dois.
Os poderes de Avelar retornaram.
Mais fortes.
Muito mais fortes.
Políbio gritou.
Os olhos dela ficaram negros.
Os dele, dourados.
O chão rachou.
Suzan recuou.
Mendragon perdeu o sorriso.
Avelar e Políbio permaneceram lado a lado.
Mãos unidas.
— Interessante — murmurou o rei.
Avelar sorriu.
— Você queria que eu aprendesse meu lugar.
Fogo surgiu ao redor de seu corpo.
Políbio começou a se transformar.
— Acho que finalmente aprendi.
Mendragon ergueu uma mão.
Os soldados avançaram.
Avelar apertou a mão de Políbio.
— Meu lugar não é abaixo de você.
Uma onda de energia atravessou o salão.
Os primeiros soldados foram lançados contra as paredes.
Mendragon protegeu o rosto.
Quando baixou o braço...
Avelar estava diante dele.
Olhos negros.
Presas.
Chamas.
— É diante de você.
Ela preparou o ataque.
Então sentiu uma dor.
Profunda.
Ithely gritou dentro dela.
Avelar caiu de joelhos.
— ITHELY?
Políbio correu.
Mendragon parou.
Avelar segurava o peito.
Dentro de sua mente, a caverna começava a desmoronar.
— Ithely!
Encontrou-a caída.
Seu corpo estava quase completamente transparente.
— Não.
Avelar correu.
Ajoelhou-se.
— Levante.
Ithely sorriu.
— Parece que Muriel estava certa.
— Cale a boca.
— Avelar...
— EU DISSE PARA LEVANTAR!
A princesa levantou uma mão.
Tocou o rosto dela.
— Eu estou cansada.
Avelar sentiu lágrimas.
— Não.
— Passei minha vida inteira tentando provar que era melhor que todo mundo.
Ela riu fracamente.
— Engraçado.
— Ithely...
— Nem era minha vida.
A caverna tremeu.
Partes do teto começaram a cair.
— Você não vai morrer.
Ithely fechou os olhos.
— Todo mundo morre.
Avelar segurou sua mão.
— Eu voltei.
Ithely abriu os olhos.
Sorriu.
— Você é diferente.
Avelar chorava.
— Você também.
A princesa ficou surpresa.
Então a caverna rachou ao meio.
Avelar gritou.
No mundo real, seu corpo começou a convulsionar nos braços de Políbio.
Mendragon observava.
Pela primeira vez, medo surgiu em seu rosto.
— Ithely...
Avelar abriu os olhos.
Azuis.
Não negros.
Azuis.
Mendragon deu um passo.
— Filha?
Ela olhou para ele.
O rosto estava diferente.
Era Ithely.
Talvez pela última vez.
— Nunca mais me chame assim.
Mendragon congelou.
Ithely sorriu.
Então levantou a mão.
E pela primeira vez em toda sua existência...
apontou seu poder de morte para o homem que a criara.
— Isso é por todas as vidas que você roubou de mim.
Mendragon arregalou os olhos.
Ithely atacou.
Mas antes que a energia o alcançasse, uma figura surgiu entre eles.
Cárdamo.
O golpe atravessou seu peito.
Silêncio.
Ithely ficou imóvel.
Cárdamo olhou para o próprio corpo.
Depois para Mendragon.
Sorriu.
— Eu disse...
Sangue escorreu por sua boca.
— ...que escolheria meu lado quando chegasse a hora.
Caiu.
Mendragon olhou para ele.
Ithely também.
Ninguém sabia para quem Cárdamo realmente trabalhara.
E agora talvez jamais soubessem.
Mendragon ergueu os olhos.
— Peguem todos.
Os soldados avançaram.
Políbio segurou Ithely.
Suzan preparou magia.
E, muito longe dali, numa árvore antiga nas fronteiras de Etanin, uma enorme coruja abriu os olhos.
Dourados.
A criatura girou a cabeça.
Escutou algo que nenhum outro ser vivo conseguia ouvir.
Uma alma começava a se desprender.
A coruja abriu as asas.
Voou.
E uma voz muito antiga sussurrou entre as árvores:
— Ainda não, criança.
— Ainda não chegou sua hora.
A coruja desapareceu na noite.
Seu nome havia sido esquecido por quase todos.
Mas os mais antigos ainda se lembravam.
Itanira.
A curandeira ancestral.
A mulher-coruja.
Aquela que, séculos atrás, aprendera a caminhar entre o corpo e a alma.
Aquela que alguns chamavam apenas de...
Cacuracaia.
Fale com o autor