Castelos
10 Segredos Obscuros
Notas iniciais
A caverna cheirava a ervas queimadas, terra molhada e alguma coisa amarga que Políbio não conseguia identificar.
Ele e Ithely estavam sentados no chão, presos de costas um para o outro.
As cordas apertavam seus pulsos.
Diante deles, Muriel trabalhava sobre uma mesa de pedra.
Pequenos frascos estavam espalhados ao redor de um caldeirão escuro. Algumas substâncias brilhavam. Outras soltavam fumaças de cores diferentes.
Muriel cantarolava.
Parecia feliz.
Era isso que mais assustava Ithely.
A bruxa esmagou algumas folhas dentro de uma pequena tigela.
Acrescentou um líquido negro.
Misturou.
A substância começou a borbulhar.
Ithely sentiu o coração acelerar.
— O que é isso?
Muriel não respondeu.
Despejou o líquido dentro de um pequeno recipiente.
Então caminhou até ela.
Ithely tentou recuar.
Não havia para onde.
Muriel segurou seu rosto.
— Abra a boca.
— Não.
— Vamos, criancinha.
Ithely apertou os lábios.
Muriel sorriu.
— Não dificulte.
Segurou o nariz dela.
Ithely resistiu enquanto pôde.
Quando finalmente precisou respirar, Muriel derramou o líquido em sua boca.
A princesa engasgou.
Tentou cuspir.
A bruxa manteve seu rosto erguido.
— Engula.
Ithely tentou resistir.
— Engula!
Ela obedeceu.
Muriel limpou delicadamente o canto de sua boca.
Como uma mãe cuidando de uma criança.
— Muito bem.
Sorriu.
— Logo você estará dormindo.
Ithely sentiu o estômago gelar.
Muriel aproximou o rosto.
— Eternamente.
E gargalhou.
— Onde está Suzan?
Políbio tentou manter a voz firme.
Muriel estava novamente diante da mesa.
Remexia alguns objetos.
Parou.
Olhou por cima do ombro.
— Pensei que não precisassem mais dela.
Políbio franziu o cenho.
— O que fez?
Muriel virou-se.
Seu sorriso parecia o de uma criança prestes a confessar uma travessura.
— Eu a matei.
Políbio parou de respirar.
— O quê?
Muriel aproximou-se.
— Desculpe.
Fez um pequeno bico.
— Espero não ter feito nada muito ruim.
— Você...
Políbio tentou avançar.
As cordas impediram.
— VOCÊ MATOU SUZAN?
Muriel deu de ombros.
— Ela estava no caminho.
— Onde está o corpo?
— Isso importa?
— ONDE?
Muriel olhou para ele com curiosidade.
— Você realmente se importava com ela.
Políbio não respondeu.
Ithely começou a gemer.
Ele virou o rosto.
— Ithely?
Ela se contorcia.
— Ithely!
A princesa fechou os olhos.
Seu corpo perdeu a força.
A cabeça caiu para o lado.
— O que você fez com ela?
Muriel permaneceu indiferente.
— O necessário.
— Ela está morrendo?
A bruxa puxou um tronco velho que usava como banco.
Sentou-se diante dele.
— Enquanto esperamos, podemos conversar.
Políbio a encarou com ódio.
— Não quero conversar com você.
— Mas eu quero conversar com você.
Muriel cruzou as pernas.
— Principalmente porque existem algumas coisas sobre sua adorável irmã que talvez devesse saber.
Políbio ficou em silêncio.
Muriel sorriu.
— Eu fiz um acordo com ela muitos anos atrás.
— Ithely?
— Quem mais?
A bruxa olhou para a princesa desacordada.
— Nós mataríamos Flora juntas.
Políbio sentiu um arrepio.
Sua mãe.
— Por quê?
— Poder.
Muriel respondeu como se fosse óbvio.
— Quase tudo começa por poder.
Passou os dedos pela borda do banco.
— Eu também possuía uma aliada na Dimensão Terrestre.
— Quem?
— Lanna.
Políbio guardou o nome.
Muriel continuou:
— Ithely, porém, nunca foi fiel a ninguém.
Olhou novamente para a princesa.
— Nem a mim.
— Ela tentou matar você.
— Tentou?
Muriel sorriu.
— Ela sugou minha essência.
Políbio lembrou-se do poder da irmã.
— Então como está viva?
O sorriso da bruxa desapareceu por alguns segundos.
— Érica.
Políbio ergueu o rosto.
— Sua filha.
Muriel assentiu.
— Ela desconfiava que Ithely tentaria me trair.
Uma expressão estranhamente orgulhosa surgiu em seu rosto.
— Então criou uma proteção.
— O que Ithely matou...
— Uma encenação.
Muriel levantou-se.
— Uma cópia convincente o bastante para enganar até uma criatura tão arrogante quanto ela.
Caminhou pela caverna.
— Mas sabe qual foi a pior parte?
Políbio não respondeu.
— Viver escondida.
A voz da mulher mudou.
— Anos e anos.
Passou a mão pela parede de pedra.
— Sem poder voltar.
— Por medo?
Muriel virou o rosto.
— Sobrevivência não é medo.
Uma lágrima quase apareceu.
Ela a conteve.
— Às vezes sobreviver exige desaparecer.
Antes que pudesse continuar, um som interrompeu a conversa.
Ithely puxou o ar violentamente.
Abriu os olhos.
Muriel virou-se.
— Não pode ser.
Foi até ela.
A princesa piscava repetidamente.
Parecia não reconhecer onde estava.
— Ithely?
Ela olhou para Muriel.
Depois para Políbio.
— Onde...
Muriel segurou seu rosto.
— Qual é o seu nome?
A garota pareceu confusa com a pergunta.
— Ithely.
Muriel soltou-a.
Baixou a cabeça.
Ficou alguns segundos em silêncio.
— Interessante.
— O quê? — perguntou Políbio.
Ela não respondeu.
Foi até uma das paredes.
Havia um pequeno buraco entre as pedras.
Muriel enfiou a mão.
Depois o braço inteiro.
Fez força.
Parecia procurar alguma coisa escondida muito profundamente.
Finalmente encontrou.
Retirou a mão fechada.
Voltou até os dois.
— Eu não consegui vencer.
Ithely a observava.
— Avelar também não.
Muriel abriu lentamente os dedos.
Uma pedra vermelha repousava em sua palma.
Não era como a Pedra da Humanidade.
Tinha pequenas linhas douradas atravessando sua superfície.
— Portanto...
Olhou para Ithely.
— A vencedora merece o prêmio.
A princesa arregalou os olhos.
— Que pedra é essa?
Muriel colocou-a em suas mãos.
Assim que Ithely tocou a pedra, uma sensação quente atravessou seu braço.
— Perseverança.
Políbio ficou imóvel.
A Pedra da Perseverança.
Muriel voltou a se sentar.
— Safira não espalhou seus fragmentos aleatoriamente.
Olhou para a pedra.
— Algumas pedras precisam ser encontradas.
— E outras? — perguntou Políbio.
— Escolhem quem conseguiu representar aquilo que carregam.
Muriel olhou ao redor.
— Eu recebi essa pedra.
Seu sorriso desapareceu.
— Porque permaneci viva.
Acariciou uma cicatriz no próprio braço.
— Sobrevivi à traição.
— Ao isolamento.
— À fome.
— Ao medo.
— À vontade de desistir.
Por um instante, aquela mulher aterrorizante parececeu apenas cansada.
— Todos os dias nesta floresta foram uma batalha.
Voltou seus olhos para Ithely.
— Safira decidiu que eu compreendia a perseverança.
Ithely apertou a pedra.
— E agora está me entregando?
Muriel sorriu.
— Você bebeu algo que deveria ter destruído sua essência.
Políbio arregalou os olhos.
Ithely empalideceu.
— O veneno...
— Era real.
Muriel inclinou a cabeça.
— E você despertou.
A princesa olhou para as próprias mãos.
— Por quê?
Muriel observou seus cabelos escurecidos.
— Talvez porque não esteja sobrevivendo sozinha.
Avelar.
Ithely ouviu uma respiração dentro da mente.
— Eu estou aqui.
Ela fechou os olhos.
Muriel sorriu.
— A pedra escolheu você.
Para surpresa dos dois, Muriel começou a desfazer suas amarras.
Políbio esfregou os pulsos.
— Está nos libertando?
— Sim.
— Por quê?
— Porque meu papel termina aqui.
Ithely guardou a Pedra da Perseverança.
— Onde está a última?
Muriel levantou uma sobrancelha.
— Já pensando em vencer?
Ithely não respondeu.
Muriel apontou para uma abertura na caverna.
— Sigam para o Vale Vermelho.
Políbio franziu o cenho.
— O Pântano Vermelho?
— Próximo dele.
— Onde vivem Abalý, Ícara e Xenôn?
Muriel olhou para Ithely.
— Onde viveram.
Ithely sentiu os poderes de Avelar pulsarem dentro dela.
As três bruxas.
— O caminho mais rápido passa pelo Ninho dos Dragões.
Políbio suspirou.
— Naturalmente.
Muriel riu.
— Não seria divertido se fosse fácil.
Os dois caminharam em direção à saída.
Quando chegaram à abertura, Muriel falou:
— Esperem.
Eles se viraram.
A bruxa estava parada no centro da caverna.
Havia algo estranho em sua expressão.
Paz.
— Apenas um pode reunir todas as pedras.
Ithely tocou instintivamente o lugar onde as guardava.
— Mas vocês...
Muriel olhou para os dois.
— São um.
Políbio franziu o cenho.
— Somos duas pessoas.
— Sangue.
A bruxa aproximou as mãos.
— Origem.
Entrelaçou os dedos.
— Destino.
Olhou para Ithely.
Depois para Políbio.
— Unidos pelo sangue.
Fez uma pausa.
— Unidos...
Muriel levou as mãos ao próprio pescoço.
Políbio percebeu tarde demais.
— Não!
Um movimento.
Seco.
Impossível.
A bruxa caiu.
Seu corpo tombou para um lado.
O silêncio tomou a caverna.
Políbio ficou paralisado.
— Muriel...
Ithely apenas observava.
Nenhuma lágrima.
Nenhum espanto.
Seu rosto parecia estranhamente tranquilo.
Políbio virou-se para ela.
— Por que está olhando assim?
Ithely ajeitou os cabelos.
— Assim como?
— Ela morreu.
— Percebi.
— Por nossa causa!
A princesa ergueu o nariz.
— Ela fez aquilo porque quis.
Políbio tocou seu ombro.
— Você não pode ser tão cruel.
Ithely lentamente retirou a mão dele.
Olhou para os dedos que haviam tocado sua roupa.
Depois para ele.
Havia alguma coisa diferente em seus olhos.
— Se me tocar novamente sem minha permissão...
A voz saiu fria.
— Poderá terminar aqui ao lado dela.
Políbio recuou.
Aquilo não parecia apenas Ithely.
O Ninho dos Dragões ficava entre eles e o Vale Vermelho.
Era uma floresta diferente de todas as outras.
As árvores eram gigantescas.
Algumas possuíam troncos tão largos que dez homens de mãos dadas não conseguiriam abraçá-los.
As copas desapareciam no céu escuro.
Entre raízes e pedras existiam enormes ninhos feitos de galhos, ossos e folhas.
Dragões usavam aquela região para dar à luz.
O maior perigo não vinha daqueles que voavam.
Vinha dos que permaneciam no chão.
Muitas espécies conseguiam mudar a textura e a cor das escamas.
Pedra.
Musgo.
Folhas.
Troncos.
Uma criatura de dez metros poderia estar a poucos passos sem ser percebida.
Ithely e Políbio caminhavam devagar.
Nenhum queria descobrir isso da pior maneira.
Ao cair da noite, encontraram um casebre abandonado.
A construção estava parcialmente coberta por raízes.
Entraram.
O interior parecia ter pertencido a algum mago.
Havia símbolos pintados nas paredes.
Frascos vazios.
Retratos antigos.
Uma única cama ocupava boa parte do cômodo.
O tecido que a cobria era negro, pontilhado por pequenas estrelas prateadas.
Ao lado havia uma lareira apagada.
Políbio sentou-se na beirada da cama.
Desde a morte de Muriel permanecia calado.
Ithely parou diante da lareira.
Estendeu uma mão.
As palavras simplesmente surgiram em sua mente.
— Surbidá flemas.
Políbio levantou o rosto.
A madeira pegou fogo.
Ithely ficou imóvel.
Ela nunca aprendera aquele feitiço.
— Foi Avelar? — perguntou Políbio.
Ithely não respondeu.
Dentro dela, Avelar também parecia confusa.
— Eu conheço essas palavras.
— Como?
— Não sei.
Ithely observou as próprias mãos.
As memórias estavam se misturando.
Os poderes também.
Talvez Muriel estivesse certa.
As duas estavam deixando de possuir fronteiras claras.
Ithely virou-se.
Olhou para Políbio.
Ele ainda parecia perturbado.
— Você acredita nela? — perguntou.
— Em quê?
— Que somos irmãos.
Políbio demorou para responder.
— Eu sinto quando você sofre.
Ithely ficou em silêncio.
— Sinto desde antes de saber quem você era.
— Isso não prova nada.
— Meu pai sabia.
Ela levantou o olhar.
— Lucian?
— Ele tentou me contar.
Políbio abaixou a cabeça.
— Eu não quis acreditar.
Ithely aproximou-se.
Ficou diante dele.
Durante alguns segundos, apenas o observou.
Então tocou seu rosto.
Políbio ficou rígido.
A expressão dela mudou.
Suavizou.
— Ithely?
Ela inclinou-se.
Políbio segurou seus braços antes que se aproximasse mais.
— Pare.
A garota piscou.
— Por quê?
— Porque você é minha irmã.
Ela ficou imóvel.
Um sorriso estranho apareceu.
Não combinava com Ithely.
Políbio percebeu.
— Quem está olhando para mim?
Silêncio.
— Ithely?
Nada.
Ele soltou os braços dela.
Recou um passo.
Os olhos da garota pareciam diferentes.
Não pela cor.
Pela maneira de olhar.
Políbio conhecia aquele olhar.
Já o vira no deserto.
Já o vira quando Abalon morreu.
A garota levou uma mão ao peito.
Respirou fundo.
Então seus caninos começaram a crescer.
Políbio ficou imóvel.
— Não.
Ela sorriu.
— O quê?
— Ithely não tem presas assim.
O sorriso aumentou.
A garota passou a língua por um dos caninos.
Políbio sentiu um arrepio.
— Quem é você?
Ela se aproximou.
— Você já sabe.
Políbio balançou a cabeça.
— Diga.
Os cabelos da garota pareceram escurecer ainda mais sob a luz da lareira.
Então ela repetiu uma frase que Políbio ouvira anteriormente.
Mas não da boca de Ithely.
— Eu sou tudo aquilo que quiser ser.
Políbio perdeu o ar.
A floresta desapareceu de sua consciência.
O casebre.
A lareira.
O torneio.
Tudo.
Restou apenas aquela frase.
— Avelar?
A garota parou.
Foi uma mudança mínima.
Mas suficiente.
O sorriso desapareceu por um instante.
Seus olhos encontraram os dele.
Como alguém que acabara de ser chamado pelo próprio nome depois de estar perdido durante muito tempo.
— Políbio...
Ele recuou.
Não havia mais dúvida.
Avelar conseguia assumir o corpo.
Talvez apenas por segundos.
Talvez por minutos.
Mas estava ficando mais forte.
— Onde está Ithely?
A garota levou as mãos à cabeça.
A expressão mudou novamente.
Dor.
Confusão.
— Eu...
Cambaleou.
Políbio segurou-a antes que caísse.
Ela fechou os olhos.
Quando tornou a abri-los, havia raiva.
— Tire suas mãos de mim.
Políbio imediatamente soltou.
Ithely estava de volta.
Ela respirava pesadamente.
— O que aconteceu?
Políbio não respondeu.
— Políbio.
Ele continuou olhando.
Ithely franziu o cenho.
— O quê?
Políbio sentiu medo de dizer.
Mas precisava.
— Ela assumiu seu corpo.
Ithely ficou imóvel.
— Não.
— Eu conversei com ela.
— Não.
A princesa levou uma mão à boca.
— Avelar?
Silêncio.
— Avelar!
Nenhuma resposta.
Ithely fechou os olhos.
Dentro da escuridão de sua mente, havia uma caverna.
E, pela primeira vez, estava vazia.
Avelar não estava lá.
Ithely abriu os olhos lentamente.
Políbio percebeu o terror em seu rosto.
— O que foi?
Ela respondeu quase sem voz:
— Ela saiu da prisão.
E, naquele mesmo instante, no reflexo de uma pequena janela quebrada, Ithely viu sua própria imagem sorrir.
Mas ela não estava sorrindo.
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