Castelos

11 Fogo Nas Nuvens


Notas iniciais
Fazia tempo que não escrevia nada, aproveitei o feriado para dar a vocês o capítulo que chama a trilogia dos últimos.

A manhã nasceu cinzenta.

Se é que aquilo podia ser chamado de manhã.

A névoa passava lentamente entre as árvores gigantes do Ninho dos Dragões, envolvendo os troncos como fantasmas procurando abrigo. Acima das copas, o céu permanecia fechado, carregado por nuvens tão escuras que pareciam anunciar uma tempestade.

A garota estava parada diante da janela quebrada do casebre.

Observava a floresta.

Imóvel.

Os cabelos, novamente mais claros, caíam sobre seus ombros.

Políbio despertara havia poucos minutos.

Durante algum tempo permaneceu sentado na cama, olhando para ela.

A noite anterior não saía de sua cabeça.

A voz.

O olhar.

Aquela frase.

Eu sou tudo aquilo que quiser ser.

Avelar.

Ele tinha certeza.

Havia sido ela.

Não Ithely.

Talvez isso tornasse tudo ainda mais confuso.

Levantou-se.

Aproximou-se lentamente.

A garota não reagiu.

Políbio parou atrás dela.

— Avelar...

Nenhuma resposta.

Ele hesitou.

Então a abraçou.

A reação foi imediata.

A garota se desvencilhou de seus braços e virou-se.

— Não faça isso.

Políbio ficou imóvel.

Havia frieza em seu rosto.

— Ontem...

Ela desviou os olhos.

— Ontem foi um impulso.

A frase atingiu-o com mais força do que esperava.

— Um impulso?

Ela continuou olhando para o chão.

— Sim.

Políbio apertou os maxilares.

— Olhe para mim.

Nada.

— Avelar.

— Precisamos continuar a viagem.

Ela passou por ele.

Políbio segurou seu braço.

A garota se virou assustada.

— Vai ter que dizer isso olhando nos meus olhos.

— Solte.

— Diga.

Ela tentou puxar o braço.

— Políbio...

— Olhe para mim e diga que ontem não significou nada.

A garota finalmente levantou o rosto.

Políbio congelou.

Os olhos.

Não eram negros.

Nem azuis.

Eram verdes.

Ele soltou imediatamente seu braço.

— Quem é você?

A garota permaneceu em silêncio.

Políbio deu um passo para trás.

— Quem está aí?

Ela respirou fundo.

— Núbia.

A palavra pareceu não fazer sentido.

— O quê?

— Meu nome é Núbia.

Políbio passou as mãos pelos cabelos.

— Não.

Ela permaneceu imóvel.

— Ontem era Avelar.

— Sim.

— Antes era Ithely.

— Sim.

— E agora você é...

— Núbia.

Políbio sentiu a cabeça girar.

— Quantas pessoas existem nesse corpo?

Núbia pensou por um instante.

— Eu não sei.

Aquilo não ajudou.

— Você é uma memória?

— Não.

— Uma alma?

— Talvez.

— Parte de Ithely?

— Não acredito.

— Parte de Avelar?

Núbia virou o rosto para a floresta.

— Talvez sejamos partes de alguma coisa maior.

Políbio não conseguiu responder.

Tudo aquilo estava escapando de qualquer lógica.

Ithely.

Avelar.

Agora Núbia.

E, em algum lugar dentro daquele mesmo corpo, talvez ainda existissem outras consciências esperando para despertar.

— E Avelar?

Núbia fechou os olhos.

— Descansando.

— Ela consegue ouvir?

— Algumas vezes.

Políbio ficou em silêncio.

Núbia voltou a caminhar.

— Precisamos ir.


A floresta estava quieta demais.

Apenas o vento atravessava as copas.

Uivava entre os galhos.

Políbio caminhava alguns passos atrás.

Não conseguia parar de pensar.

A noite anterior parecia agora ainda mais impossível.

Ele havia acreditado estar diante de Avelar.

E talvez realmente estivesse.

Mas aquele corpo...

Era o corpo de sua irmã.

A descoberta incomodava-o profundamente.

Tornava qualquer lembrança da noite anterior confusa demais para suportar.

Núbia parecia perceber seu silêncio.

Não perguntou nada.

Continuaram.

Então ouviram um estrondo.

A terra vibrou.

Políbio sacou a espada.

— O que foi isso?

Núbia levantou o rosto.

Um som atravessou as árvores.

Algo parecido com o bater de enormes asas.

— Corra.

— O quê?

— CORRA!

Uma labareda explodiu atrás deles.

As árvores pegaram fogo.

Os dois correram.

Políbio olhou por cima do ombro.

— Dragão!

A criatura surgiu entre as copas.

Negra.

Gigantesca.

As asas pareciam cobrir metade do céu.

Escamas escuras refletiam o fogo que saía de sua boca.

A fera mergulhou.

Outro jato de chamas atravessou a floresta.

Políbio puxou Núbia para o lado.

Os dois caíram.

— Faça alguma coisa!

Ela levantou-se.

— Não posso.

— Como assim?

— Não consigo acessar os poderes.

Políbio arregalou os olhos.

— Então chame Avelar!

— Não funciona assim!

A criatura aproximava-se novamente.

Políbio agarrou um tronco caído.

Tentou levantá-lo.

— Você está brincando?

— Tem alguma ideia melhor?

Com esforço, lançou a madeira.

O tronco atingiu uma das asas.

Não fez absolutamente nada.

O dragão rugiu.

— Excelente — disse Núbia.

Políbio olhou desesperado para ela.

— Nós vamos morrer.

A criatura abriu a boca.

Fogo começou a se acumular entre seus dentes.

Núbia parou.

Políbio segurou sua mão.

— Vamos!

Ela não se moveu.

— NÚBIA!

Os cabelos começaram a mudar.

Primeiro uma mecha.

Depois outra.

O loiro desaparecia.

Negro.

Políbio soltou lentamente sua mão.

Os olhos tornaram-se escuros.

A postura mudou.

Aquela expressão.

Ele conhecia.

— Avelar...

Ela respirou profundamente.

Virou-se.

O dragão avançou.

Avelar ergueu uma mão.

Uma palavra surgiu em sua mente.

— Iskal venora.

O ar explodiu em frio.

O fogo na boca da criatura apagou-se.

Gelo começou a espalhar-se pelo focinho.

Pescoço.

Asas.

Patas.

Em poucos segundos, o dragão inteiro estava congelado.

A enorme criatura caiu.

O impacto fez a floresta tremer.

Políbio permaneceu parado.

Avelar virou-se para ele.

— Vamos.

Ele ainda olhava para o dragão.

— Você...

— Ainda existe um ninho inteiro dessas criaturas.

Ela começou a caminhar.

— Não pretendo congelar todas individualmente.

Políbio sorriu involuntariamente.

Avelar estava de volta.

Mas agora ele sabia que até aquilo podia ser temporário.


Chegaram ao Zênite algumas horas depois.

A floresta terminava abruptamente.

Diante deles havia um precipício colossal.

Do outro lado começava uma região de vegetação vermelha e água escura.

O Pântano Vermelho.

A distância não parecia enorme.

O problema era aquilo que existia abaixo.

Políbio aproximou-se da borda.

O cheiro de enxofre subiu imediatamente.

— Dragões.

Avelar assentiu.

Centenas de ninhos estavam presos às paredes do precipício.

Alguns vazios.

Outros não.

— Precisamos atravessar.

— Como?

Avelar permaneceu em silêncio por alguns segundos.

Então segurou seu braço.

Políbio olhou para ela.

— O quê?

— Vou precisar unir nossos corpos.

Ele afastou-se.

— Você vai fazer o quê?

— Não temos tempo.

— Temos tempo suficiente para você explicar isso.

Avelar respirou fundo.

Parecia inquieta.

— Esta manhã você conheceu Núbia.

— Infelizmente.

— Ela surgiu porque eu precisava recuperar forças.

Políbio franziu o cenho.

— Não entendi.

— Desde que fui absorvida, meu corpo não existe mais da maneira que deveria.

Tocou o próprio peito.

— Estou usando o corpo de Ithely.

— Eu sei.

— Mas os poderes dela escondiam capacidades que nem mesmo ela conhecia.

— Como criar outras pessoas?

— Não.

Avelar ficou séria.

— Migrar.

— Migrar?

— A consciência pode mudar de posição. Recuar. Dividir-se. Usar partes da alma como abrigo.

Políbio tentou compreender.

— Então Núbia...

— É uma manifestação diferente.

— Sua?

Avelar hesitou.

— Não sei.

Aquilo o preocupou.

— E unir nossos corpos?

Avelar olhou para o precipício.

— Também faz parte desse poder.

— Por que eu?

— Porque somos compatíveis.

Políbio endureceu.

— Somos?

— Híbridos.

Avelar percebeu a desconfiança.

— Não estou falando de outra coisa.

Ele respirou.

— O que acontece?

— Nossos corpos se fundem temporariamente.

— Temporariamente?

— Se tudo funcionar.

— Muito tranquilizador.

Avelar segurou sua mão.

— Políbio.

Ele olhou para ela.

Pela primeira vez, enxergou preocupação verdadeira.

— Precisamos atravessar.

Ele olhou para o pântano.

Depois para os ninhos.

— Faça.

Avelar não perdeu tempo.

Puxou-o.

Os dois corpos se chocaram.

Uma energia atravessou os dois.

Políbio gritou.

Não era exatamente dor.

Era a sensação impossível de deixar de saber onde seu corpo terminava.

Ossos se transformaram.

Carne se reorganizou.

As duas formas começaram a se fundir.

Quando terminou, uma criatura completamente nova estava diante do precipício.

Dois braços.

Grandes asas formadas por estruturas semelhantes a ossos.

No lugar das pernas, uma longa cauda serpentina.

O rosto parecia dividido.

De um lado, traços de Avelar.

Do outro, Políbio.

Mas não eram dois seres presos.

Eram um único monstro construído a partir de ambos.

Políbio abriu os olhos.

Avelar também.

Mas enxergaram a mesma coisa.

O mesmo céu.

O mesmo precipício.

Sentiam o mesmo vento.

O mesmo cheiro.

A mesma pele.

Quando Políbio tentou falar, a voz saiu misturada à dela.

— Isso é horrível.

Dentro da mente compartilhada, Avelar respondeu:

— Vai se acostumar.

— Espero que não.

As asas se abriram.

A criatura saltou.


Voaram.

Durante alguns segundos, tudo correu bem.

Então Avelar parou.

As asas permaneceram abertas.

Políbio sentiu a interrupção.

— Por que parou?

— Eles estão vindo.

— Quem?

— Olhe para baixo.

A visão deles se voltou.

Políbio sentiu o sangue gelar.

Dragões.

Dezenas.

Talvez centenas.

Subiam pelas paredes do abismo.

Corpos enormes se entrelaçavam como serpentes.

Asas batiam.

Fogo iluminava a escuridão.

— Avelar...

— Não se mova.

— Não temos como lutar contra isso!

— Eu sei.

A primeira criatura aproximou-se.

Depois outra.

E outra.

Avelar emitiu um ruído.

Não era humano.

Nem vampírico.

Parecia o som de uma enorme serpente.

Os dragões pararam.

Todos.

Políbio sentiu o espanto atravessar a consciência compartilhada.

— O que você fez?

— Não sei.

Avelar fez um pequeno movimento.

Os dragões avançaram.

— AVELAR!

As criaturas envolveram o corpo fundido.

Asas.

Escamas.

Garras.

Fogo.

Por alguns segundos, não conseguiram enxergar nada.

Então Avelar pensou uma palavra.

Frio.

O poder explodiu.

Toda a massa de dragões congelou.

Silêncio.

Depois...

Craque.

Gelo quebrou-se.

Centenas de criaturas transformaram-se em fragmentos que despencaram pelo precipício.

Políbio ficou horrorizado.

— Você matou todos.

— Eles matariam nós dois.

— Eram filhotes.

Avelar não respondeu.

Continuaram voando.

Então uma voz atravessou as nuvens.

— VOCÊS MATARAM MEUS FILHOS!

O som fez o ar vibrar.

Avelar parou.

Políbio também sentiu.

Medo.

Atrás deles, alguma coisa enorme surgiu.

Uma figura formada por fumaça negra.

Olhos vermelhos.

Chifres.

Asas tão grandes quanto uma tempestade.

— Tabôr — pensou Avelar.

Políbio conhecia o nome.

O protetor dos dragões.

— FUJA!

Não discutiram.

As asas bateram.

A criatura voou.

Tabôr veio atrás.

Mas o demônio não lançava fogo.

Não precisava.

Seu poder era outro.

A mente.


Políbio viu primeiro.

Imagens.

Avelar.

A noite anterior.

Mas não como lembrava.

Como verdade.

A proximidade.

As palavras.

O cálculo.

Avelar pensando.

Preciso que ele confie em mim.

Outra cena.

Políbio pode reunir as pedras.

Outra.

Não posso matá-lo ainda.

Políbio tentou afastar a visão.

Não conseguiu.

Sentiu tudo.

Avelar sabia.

Planejava.

Manipulava.

— Pare! — gritou ele dentro da mente compartilhada.

— Não sou eu!

Tabôr continuou.

Políbio viu Avelar observando-o.

Não com carinho.

Com utilidade.

Ela precisava dele.

Talvez apenas disso.

Então viu Ithely.

Avelar dentro dela.

A raiva.

O desejo de tomar completamente o corpo.

O pensamento:

Se eu conseguir dominar Ithely, não precisarei mais dela.

Políbio sentiu dor.

Não física.

Algo pior.

— Você mentiu para mim.

Avelar viu as memórias dele também.

Lucian.

Um menino crescendo sem mãe.

Perguntando por que todas as outras crianças tinham histórias sobre o nascimento, menos ele.

A rejeição.

Outras tribos chamando-o de fera.

Escravo.

Sangue sujo.

Políbio treinando até as mãos sangrarem porque acreditava que força seria suficiente para conquistar respeito.

Lucian dizendo:

Você não precisa ser o mais poderoso.

Só precisa continuar.

Avelar sentiu algo apertar dentro dela.

Políbio sofrera.

Muito.

E, mesmo assim, ainda conseguia ser gentil.

Ela não.

Avelar havia transformado a dor em arma.

Políbio transformara em resistência.

Talvez por isso Safira o tivesse escolhido.

Talvez ele sempre tivesse sido o verdadeiro destinado a reunir as pedras.

Não ela.

O pensamento a feriu.

Porque parte dela sabia que podia ser verdade.


O Pântano Vermelho apareceu adiante.

Avelar forçou as asas.

Tabôr aproximou-se.

— VOCÊS NÃO PODEM FUGIR DA VERDADE!

A criatura soltou um rugido.

Mais memórias.

Mais segredos.

Mais dor.

Até que finalmente atravessaram a fronteira do pântano.

Tabôr parou.

Como se tivesse atingido uma parede invisível.

Avelar não olhou para trás.

Desceu.

Assim que tocaram o solo, a transformação terminou.

Os corpos se separaram violentamente.

Políbio caiu de joelhos.

Avelar cambaleou.

Respirava com dificuldade.

Durante alguns segundos, nenhum falou.

Políbio começou a chorar.

Avelar observou.

— Levante.

Nada.

— Políbio.

Ele continuou.

Avelar segurou seu ombro.

Puxou-o.

— Levante!

Políbio tentou afastá-la.

— Não encoste em mim.

Avelar congelou.

— O que Tabôr mostrou?

Políbio fechou os olhos.

— Você sabe.

— Ele distorce memórias.

— Mas não inventa tudo.

Avelar apertou seu ombro.

— O que você viu?

— Solte.

— DIGA!

Ele abriu os olhos.

Cheios de lágrimas.

— Eu vi você me usando.

Avelar ficou imóvel.

— Vi você pensando em me matar.

Silêncio.

— Vi que só me mantém vivo porque acredita que precisa de mim.

Avelar sentiu raiva.

Não dele.

Do demônio.

De si mesma.

Do fato de Políbio agora possuir informações que nunca deveria ter visto.

— Não foi assim.

— Foi exatamente assim.

— Você não entende.

— Então explique.

Avelar abriu a boca.

Nada saiu.

Porque existiam verdades difíceis de defender.

Políbio riu entre as lágrimas.

— Eu sabia.

Virou-se.

Avelar segurou novamente seu braço.

— Você não pode simplesmente ir embora.

— Posso.

— Precisamos um do outro.

Políbio olhou para a mão dela segurando-o.

Depois para seu rosto.

— Exatamente.

Avelar soltou.

Os olhos dela começaram a arder.

Não choraria.

Mas já era tarde.

Uma lágrima caiu.

Ela a enxugou com raiva.

Seus planos estavam desmoronando.

A confiança dele.

O controle sobre Ithely.

Sua própria identidade.

Tudo parecia escapar.

Como sangue saindo de uma ferida impossível de fechar.

Políbio respirou fundo.

Preparou-se para dizer alguma coisa.

Então uma voz surgiu atrás deles.

— Que cena tocante.

Os dois congelaram.

Viraram-se.

Três silhuetas estavam entre as árvores vermelhas.

Mulheres.

Avelar reconheceu a energia antes mesmo de reconhecer os rostos.

O poder dentro dela reagiu.

Abalý.

Ícara.

Xenôn.

As Bruxas do Pântano Vermelho.

Uma delas sorriu.

— Invadem nossas terras...

Outra aproximou-se.

— Matam os filhos de Tabôr...

A terceira passou a língua lentamente pelos dentes.

— E ainda chegam chorando.

Políbio tentou usar seus poderes.

Nada.

Avelar também.

Nada.

O Pântano Vermelho anulava qualquer magia que não pertencesse às suas donas.

As três bruxas começaram a cercá-los.

— O que fazem aqui? — perguntou uma delas.

Avelar permaneceu em silêncio.

A segunda sorriu.

— Não importa.

A terceira completou:

— Hoje vocês serão nosso jantar.

Políbio olhou para Avelar.

Avelar olhou para ele.

Não havia poderes.

Não havia transformação.

Não havia feitiços.

Nem sequer podiam confiar plenamente um no outro.

E talvez esse fosse exatamente o verdadeiro teste daquele lugar.

Pela primeira vez desde o início do torneio, força nenhuma poderia salvá-los.

Somente a verdade.

E, naquele momento, a verdade era justamente aquilo que mais poderia destruí-los.

Notas finais
Quero muitos comentários, pois preciso de estimulo para fazer o final desta história.