Castelos
12 A Verdade Sangra
Notas iniciais
— Hoje vocês serão nosso jantar.
Nenhum dos dois respondeu.
Políbio olhou para Avelar.
Avelar olhou para as três mulheres que lentamente os cercavam.
Não podia fazer nada.
Tentou sentir o fogo.
Nada.
O gelo.
Nada.
Tentou alcançar a mente de uma delas.
Silêncio.
Até mesmo aquela segunda pulsação que sentia desde que engolira a Pedra do Medo parecia ter desaparecido.
No Pântano Vermelho, ela era apenas carne.
E talvez nem isso lhe pertencesse verdadeiramente.
Uma das bruxas aproximou-se.
Era alta, extremamente magra e tinha a pele tão clara que parecia nunca ter visto a luz. Os longos cabelos negros arrastavam-se pela água avermelhada sem sequer molhar.
Seus olhos eram amarelos.
— Abalý — sussurrou Avelar.
A bruxa sorriu.
— Ainda lembra de mim.
Outra apareceu ao seu lado.
Ícara.
A mais bela das três.
Tinha os cabelos brancos, o rosto jovem e os olhos cobertos por uma faixa de tecido vermelho.
Mesmo sem enxergar, parecia acompanhar perfeitamente cada movimento de Avelar.
A última permaneceu um pouco mais distante.
Xenôn.
Baixa.
Gorda.
Velha.
Seu corpo era coberto por pequenos ossos presos à roupa.
Alguns pareciam humanos.
Outros definitivamente não eram.
Ela abriu um sorriso sem dentes.
— Claro que lembra — disse Xenôn. — Carrega pedaços nossos dentro dela.
Políbio olhou para Avelar.
— Elas sabem.
— Evidentemente — respondeu Abalý.
Ícara aproximou o rosto de Avelar.
— Você usou nossos poderes.
Avelar tentou manter-se firme.
— Foram dados a mim.
As três riram.
Não juntas.
Uma depois da outra.
Como se repetissem a mesma gargalhada com alguns segundos de atraso.
— Dados? — perguntou Xenôn.
— Érica disse...
Abalý avançou tão rapidamente que Avelar nem percebeu.
A mão da bruxa fechou-se ao redor de sua garganta.
— Não pronuncie o nome daquela menina como se soubesse alguma coisa sobre nós.
Políbio avançou.
— Solte-a!
Ícara apenas ergueu um dedo.
Ele caiu de joelhos.
— Eu odeio homens barulhentos — disse ela.
Políbio tentou levantar.
Não conseguiu.
Avelar segurou o braço de Abalý.
— Se quisessem nos matar, já teriam feito.
A bruxa estreitou os olhos.
— Inteligente.
Soltou-a.
Avelar tossiu.
Xenôn começou a caminhar em círculos.
— O Pântano Vermelho não aceita poder estrangeiro.
— Por isso não conseguimos usar magia — disse Políbio.
— Não.
Xenôn olhou para ele.
— Vocês não conseguem usar magia porque entraram aqui mentindo.
Silêncio.
Avelar franziu o cenho.
— Mentindo sobre o quê?
As três bruxas olharam para ela.
Dessa vez, riram juntas.
— Tudo.
Foram obrigados a segui-las.
Quanto mais avançavam, mais estranho o pântano se tornava.
A água era realmente vermelha.
Não pelo reflexo das plantas.
Nem pela terra.
Vermelha como sangue.
Árvores retorcidas cresciam dentro dela. Em seus galhos pendiam pequenas gaiolas vazias, que balançavam mesmo quando não havia vento.
Avelar percebeu rostos entre os troncos.
Olhos.
Bocas.
Algumas árvores pareciam respirar.
— Não olhe por muito tempo — disse Políbio.
— Eu não estava...
Uma das árvores abriu os olhos.
Avelar desviou o rosto.
— Certo.
As três bruxas caminhavam à frente.
Nenhuma parecia preocupada em verificar se eles as seguiam.
Sabiam que seguiriam.
Não existia outro caminho.
Depois de algum tempo, chegaram a uma clareira.
No centro havia uma espécie de templo destruído.
Seis colunas permaneciam de pé.
Uma sétima estava quebrada.
Entre elas havia um enorme círculo de pedra.
No meio do círculo existia uma mesa.
E sobre ela...
Um coração humano.
Ainda batendo.
Políbio parou.
— O que é isso?
Xenôn respondeu:
— Verdade.
— Isso é um coração.
— Também.
Abalý apontou para o círculo.
— Entrem.
Ninguém se moveu.
— Não.
As três olharam para Avelar.
Ela respirou fundo.
— Vocês disseram que mentimos. Digam primeiro o que querem.
Ícara sorriu.
— Ela continua achando que pode negociar.
— Eu sobrevivi até aqui negociando.
— Não — respondeu Abalý. — Sobreviveu matando.
Avelar fechou a expressão.
— Qual é a diferença?
— Você descobrirá.
Xenôn apontou novamente.
— Entrem.
Políbio tocou discretamente a mão de Avelar.
Ela olhou.
Ele balançou a cabeça.
Não.
Avelar sabia que ele estava com medo.
Também estava.
Mas alguma coisa lhe dizia que fugir seria pior.
Entrou no círculo.
Políbio fechou os olhos por um instante e a seguiu.
Assim que os dois atravessaram as pedras, o mundo desapareceu.
O pântano sumiu.
As bruxas.
As árvores.
Tudo.
Restou apenas um espaço branco.
Avelar olhou para Políbio.
— Onde estamos?
— Não sei.
Uma voz respondeu:
— Dentro daquilo que vocês escondem.
Ícara.
Mas ela não estava em lugar algum.
Avelar girou.
— Apareça!
— Primeira pergunta.
A voz ecoou por todos os lados.
— Quem é você?
Avelar riu sem humor.
— Isso é sério?
O chão começou a queimar.
Ela gritou.
Chamas surgiram embaixo de seus pés.
— Avelar! — Políbio tentou alcançá-la.
Uma parede invisível separou os dois.
— Responda — ordenou Ícara.
— Avelar!
O fogo subiu por suas pernas.
— Mentira.
— É o meu nome!
— Não perguntei seu nome.
Avelar gemeu.
A pele começava a queimar.
— Sou uma vampira!
As chamas aumentaram.
— Mentira.
— Uma híbrida!
Mais fogo.
— Mentira.
Avelar caiu de joelhos.
— Então o que querem que eu diga?!
A voz de Abalý surgiu:
— A verdade.
Avelar respirava rapidamente.
Qual verdade?
Vampira.
Híbrida.
Bruxa.
A alma presa em outro corpo.
Filha de Zárlia.
Caçadora.
Assassina.
Nada parecia suficiente.
Então ouviu a voz dentro de si.
— Deixe-me tentar.
Avelar congelou.
Ithely.
Ela não falava havia horas.
— Não.
— Você vai nos matar.
— Cale-se.
— Este corpo também é meu!
As chamas subiram.
Avelar gritou.
— Deixe-me falar!
Avelar fechou os olhos.
Por alguns segundos lutou contra ela.
Depois cedeu.
Os cabelos mudaram.
As feições tornaram-se mais próximas da antiga Ithely.
Quando abriu os olhos, estavam azuis.
— Eu sou Ithely.
O fogo não diminuiu.
— Mentira — respondeu Ícara.
Ithely ficou horrorizada.
— Eu sou Ithely!
— Não completamente.
A princesa tocou o próprio rosto.
— Então...
Uma terceira voz surgiu.
Calma.
— Vocês duas estão respondendo errado.
Ithely e Avelar ficaram em silêncio.
Núbia.
— Quem é você? — perguntou Avelar dentro da mente.
— Eu já disse.
— Não. Você disse seu nome.
Silêncio.
As chamas se aproximaram do peito.
Núbia respondeu:
— Deixe-me.
Ithely tentou resistir.
Avelar não.
O corpo mudou novamente.
Os olhos tornaram-se verdes.
A respiração ficou tranquila.
As chamas continuavam, mas Núbia parecia não sentir dor.
Ela levantou-se.
Olhou para o vazio.
— Nós somos muitas.
As chamas diminuíram.
Políbio arregalou os olhos.
Núbia continuou:
— Somos Ithely.
Mais fogo desapareceu.
— Somos Avelar.
As chamas chegaram aos tornozelos.
— E somos aquilo que surgiu quando duas almas que deveriam destruir uma à outra foram obrigadas a sobreviver juntas.
O fogo apagou.
Silêncio.
Ícara riu.
— Melhor.
Núbia ergueu o rosto.
— Mas ainda não é toda a verdade.
A voz não respondeu.
O espaço branco desapareceu.
Voltaram ao pântano.
Avelar caiu no chão.
Políbio correu até ela.
— Está bem?
Ela empurrou a mão dele.
— Estou.
Os cabelos voltavam ao negro.
Políbio percebeu.
— Avelar?
— Sim.
As três bruxas permaneciam exatamente onde estavam.
— O que foi aquilo? — perguntou ela.
Ícara retirou lentamente a faixa dos olhos.
Avelar esperava globos oculares.
Não havia.
Duas cavidades completamente vazias ocupavam seu rosto.
Mesmo assim, Avelar sentiu que estava sendo observada.
— A primeira verdade.
— E qual é?
Ícara sorriu.
— Você já não é uma pessoa.
Avelar ficou em silêncio.
— É um conflito.
Abalý aproximou-se.
— E conflitos precisam terminar.
Avelar pensou em Muriel.
Um corpo. Duas almas.
— Uma de nós vai morrer.
Xenôn gargalhou.
— Muriel disse isso?
Avelar levantou o rosto.
— Disse.
As três trocaram olhares.
E começaram a rir.
— O que foi? — perguntou Políbio.
Abalý enxugou uma lágrima provocada pela gargalhada.
— Muriel sempre foi dramática.
Avelar ficou de pé.
— Ela estava errada?
— Não.
Seu coração afundou.
Então Xenôn completou:
— Mas também não estava certa.
— Isso não faz sentido.
— Faz quando você entende que existe algo além de viver e morrer.
Ícara aproximou-se.
— Almas podem fundir-se.
— Separar-se.
— Partir-se.
— Multiplicar-se.
Xenôn sorriu.
— E algumas podem nascer sem nunca terem possuído um corpo.
Avelar pensou imediatamente em Núbia.
— Ela...
As três ficaram em silêncio.
— Quem é Núbia?
Nenhuma respondeu.
— Vocês sabem.
Abalý virou-se.
— Segunda pergunta.
O círculo começou a brilhar outra vez.
— Não.
Avelar recuou.
— Eu fiz uma pergunta.
— E nós não prometemos respostas gratuitas.
Políbio suspirou.
— O que acontece agora?
Xenôn sorriu.
— Agora descobrimos por que vocês vieram.
Desta vez não houve espaço branco.
Houve uma casa.
Avelar reconheceu imediatamente.
Seu antigo lar.
Pequeno.
Madeira escura.
A mesa.
A janela.
O cheiro de maçãs.
— Não...
Zárlia estava diante dela.
De costas.
Cortava uma fruta sobre a mesa.
Avelar sentiu o peito apertar.
— Mãe?
Nenhuma resposta.
Políbio não estava ali.
As bruxas também não.
Somente ela e Zárlia.
Avelar aproximou-se.
— Eu sei que você não é real.
Zárlia continuou cortando a maçã.
— Já usaram isso contra mim antes.
A mãe finalmente falou:
— E funcionou.
Avelar parou.
A voz era perfeita.
— Não vou cair novamente.
— Não precisa.
Zárlia virou-se.
Estava chorando.
— Porque desta vez sou eu.
Avelar sentiu as pernas enfraquecerem.
— Não.
— Minha menina...
— Não.
— Você cresceu tanto.
Avelar virou o rosto.
— Pare.
— Olhe para mim.
— Não!
Zárlia aproximou-se.
— Você queria a verdade.
Avelar olhou.
— Então escute.
Sua mãe estendeu uma maçã.
Avelar não pegou.
— Mendragon me amava.
A jovem ficou imóvel.
— Eu sei.
— Não.
Zárlia balançou a cabeça.
— Você sabe o que lhe mostraram.
Avelar sentiu frio.
— É diferente.
— Érica mostrou...
— Érica mostrou aquilo que precisava que você visse.
Avelar recuou.
— Você está tentando fazê-la parecer mentirosa.
— Não.
Zárlia sorriu tristemente.
— Érica raramente mente.
— Então?
— Ela escolhe quais verdades contar.
Avelar lembrou da terceira visão interrompida no lago.
O segredo que não viu.
— O que ela escondeu?
Zárlia baixou os olhos.
— Sua origem.
Avelar esperou.
— Mendragon não me obrigou a amar seu pai.
Ela franziu o cenho.
— Meu pai era híbrido.
— Sim.
— Mendragon escolheu ele.
— Também.
— Então...
Zárlia aproximou-se.
— As duas coisas podem ser verdade.
Avelar ficou confusa.
— Eu amei Mendragon.
A frase doeu.
— Depois amei outro.
— Meu pai?
Zárlia sorriu.
— Seu pai.
Avelar tentou perguntar o nome.
A mãe ergueu a mão.
— Ainda não.
— Por quê?!
— Porque nomes têm poder.
— Estou cansada disso!
Avelar gritou.
— Todos sabem alguma coisa sobre mim menos eu!
A casa tremeu.
— Érica sabe.
— Muriel sabia.
— Mendragon sabe.
— Ithely sabe coisas que eu não sei!
As lágrimas vieram.
— E agora até três bruxas mortas sabem quem eu sou!
Zárlia aproximou-se.
— Elas não estão mortas.
Avelar parou.
— O quê?
A mãe olhou ao redor.
— Nenhuma delas está viva da maneira que você entende.
— Isso não...
— Escute.
Zárlia segurou seu rosto.
— Você recebeu os poderes delas porque elas não podem sair do Pântano Vermelho.
— Por quê?
— Porque Safira as prendeu.
Avelar esqueceu de respirar.
— Safira?
— Elas tentaram roubar as pedras.
— Então por que me ajudaram?
— Não ajudaram você.
Zárlia aproximou o rosto.
— Usaram você.
Avelar sentiu o coração acelerar.
— Para quê?
A imagem começou a falhar.
As paredes tremiam.
Zárlia olhou para algum ponto atrás da filha.
Assustada.
— Ela está vindo.
— Quem?
— Você precisa...
A casa rachou.
— Mãe!
— Não entregue todas as pedras!
— Para quem?
Zárlia começou a desaparecer.
— MÃE!
— Principalmente...
A voz falhou.
Avelar segurou seus braços.
Eles atravessaram os dedos dela como fumaça.
— PRINCIPALMENTE PARA QUEM?
Zárlia olhou diretamente em seus olhos.
— Para Safira.
Tudo desapareceu.
Avelar acordou gritando.
Estava novamente dentro do círculo.
Políbio também.
Ele respirava descontroladamente.
— O que viu? — perguntou ela.
Ele não respondeu.
— Políbio.
— Minha mãe.
Avelar ficou em silêncio.
— Flora?
Ele assentiu.
— E?
Políbio olhou para as três bruxas.
— Ela disse que não morreu.
Ithely despertou dentro da mente.
— O quê?
Avelar repetiu em voz alta:
— Ele disse que Flora não morreu.
As bruxas não demonstraram surpresa.
Políbio levantou-se.
— Vocês sabiam.
Xenôn começou a bater palmas lentamente.
— Segunda verdade concluída.
— Respondam!
Abalý se aproximou.
— Floresça a verdade primeiro.
— Minha mãe está viva?
— Talvez.
— Onde?
— Talvez perto.
— Parem com isso!
Políbio avançou.
Abalý apenas olhou.
Ele parou.
Não por magia.
Por medo.
— Terceira pergunta — disse Ícara.
Avelar respirou fundo.
— Qual?
A bruxa apontou para ela e Políbio.
— Por que querem as pedras?
Nenhum respondeu.
— Fácil — disse Avelar. — Quero me tornar uma Adaga.
Nada aconteceu.
Ícara sorriu.
— Mentira.
Avelar irritou-se.
— Era isso que eu queria desde o início!
— Desde o início.
Abalý enfatizou as palavras.
— E agora?
Avelar ficou calada.
Agora?
Queria vingança.
Queria matar Ithely.
Depois descobriu que Ithely talvez também fosse vítima.
Queria derrotar Mendragon.
Queria descobrir quem era.
Queria encontrar a verdade sobre Zárlia.
Queria sobreviver.
Queria poder.
Ainda queria poder.
Talvez mais do que antes.
— Eu quero...
Parou.
Políbio respondeu primeiro:
— Quero encontrar minha mãe.
As pedras do círculo começaram a brilhar.
Verdade.
Ele continuou:
— Quero saber por que fui abandonado.
Outra luz.
— Quero saber por que mentiram para mim minha vida inteira.
A luz aumentou.
Políbio olhou para Ithely.
— E quero sair daqui com minha irmã viva.
Avelar sentiu Ithely reagir dentro dela.
Uma dor.
Não física.
Emoção.
A princesa permanecia em silêncio.
Políbio completou:
— Mesmo que ela me odeie.
O círculo brilhou intensamente.
As três bruxas olharam para Avelar.
Sua vez.
— Eu quero poder.
Nada aconteceu.
Mentira.
Avelar respirou.
— Quero me tornar uma Adaga.
Nada.
— Quero matar Mendragon.
Uma pequena luz apareceu.
Parcialmente verdadeiro.
— Quero vingar minha mãe.
A luz cresceu.
Mas não completamente.
Avelar fechou os olhos.
O que queria?
A resposta veio de um lugar que evitava observar.
— Eu...
Sua voz falhou.
— Quero deixar de ser pequena.
As bruxas ficaram imóveis.
A luz aumentou.
Avelar continuou:
— Passei minha vida inteira ouvindo o que eu não podia ser.
Mais luz.
— Que meu sangue estava errado.
— Que eu não pertencia.
— Que havia lugares onde eu nunca poderia chegar.
Lágrimas surgiram.
— Eu queria ser uma Adaga porque pensei que, quando fosse poderosa, ninguém mais poderia me dizer que eu valia menos.
O círculo inteiro começou a brilhar.
Avelar chorava.
— Depois minha mãe morreu.
Sua voz diminuiu.
— E eu achei que precisava cumprir aquilo que ela acreditava que eu seria.
Olhou para as próprias mãos.
— Mas agora...
Silêncio.
— Agora não sei mais se estou tentando realizar meu sonho...
Levantou os olhos.
— ...ou provar para todos que não conseguiram me destruir.
O coração sobre a mesa parou de bater.
Uma vez.
Duas.
Silêncio.
Então explodiu.
Sangue espalhou-se pelo círculo.
No lugar dele havia uma pedra.
Transparente.
Quase invisível.
Apenas quando a luz atravessava sua superfície era possível enxergar pequenas linhas azuis em seu interior.
Xenôn aproximou-se.
— A Pedra da Verdade.
Avelar sentiu o corpo inteiro arrepiar.
A quinta pedra.
Políbio olhou para ela.
Depois para Avelar.
— Quem fica com ela?
As três bruxas sorriram.
— Vocês decidirão.
Avelar caminhou primeiro.
Políbio segurou seu braço.
— Espere.
Ela olhou para ele.
— O quê?
— Tabôr me mostrou o que você pensava.
Avelar fechou a expressão.
— Não agora.
— É exatamente agora.
— Políbio...
— Você acredita que eu preciso reunir as pedras.
As bruxas observavam em silêncio.
Avelar puxou o braço.
— Não sabemos se o que ele mostrou era verdade.
— Sabemos.
— Ele mexe com a mente!
— Mas não inventou seus pensamentos.
Avelar ficou calada.
Políbio olhou para a pedra.
— Você queria me usar.
— Eu precisava sobreviver.
— Pensou em me matar.
— Pensei em matar todo mundo!
— Isso deveria melhorar?
Avelar se aproximou.
— Você não sabe o que passei.
— Agora sei!
A frase a atingiu.
— Nós dividimos um corpo, lembra?
Políbio tocou o próprio peito.
— Eu senti.
Avelar ficou imóvel.
— Senti sua raiva.
— Seu medo.
— Seu desejo de vencer.
— E sei que uma parte de você ainda faria qualquer coisa por essas pedras.
Avelar olhou para ele.
— E você não?
— Não.
A resposta veio rápida.
— Eu escolheria minha irmã.
Silêncio.
Avelar sentiu Ithely chorar dentro dela.
— E você? — perguntou Políbio.
Avelar não respondeu.
— Se tivesse de escolher entre uma pedra e salvar alguém...
Ele deu um passo.
— O que escolheria?
Avelar olhou para a Pedra da Verdade.
Depois para Políbio.
O silêncio foi a resposta.
Ele sorriu tristemente.
— Foi o que pensei.
Virou-se.
Avelar agarrou seu braço.
— Não faça isso.
— Fazer o quê?
— Me julgar.
— Não estou julgando.
Políbio retirou lentamente a mão dela.
— Estou finalmente enxergando você.
Avelar sentiu raiva.
— Você acha que é melhor do que eu?
— Não.
Ele olhou para ela.
— Acho que você está se tornando exatamente aquilo que diz odiar.
Mendragon.
Avelar o empurrou.
Políbio cambaleou.
As bruxas sorriram.
— Excelente — murmurou Ícara.
— Calem a boca! — gritou Avelar.
Então a Pedra da Verdade levantou-se sozinha.
Flutuou.
Os dois pararam.
A pedra se moveu em direção a Avelar.
Ela sorriu.
— Eu sabia.
Então passou por ela.
Avelar congelou.
A pedra parou diante de Políbio.
— Não...
Ele ergueu a mão.
A Pedra da Verdade pousou sobre sua palma.
Avelar ficou sem reação.
— Não.
Abalý sorriu.
— A verdade escolheu.
— EU RESPONDI!
— Ele também.
— Eu enfrentei tudo!
— Ele também.
— EU TENHO AS OUTRAS PEDRAS!
Xenôn aproximou-se.
— Talvez seja exatamente esse o problema.
Avelar avançou para pegar a pedra.
Assim que seus dedos tocaram nela...
Uma dor atravessou seu corpo.
Gritou.
Foi lançada para trás.
Políbio correu.
— Avelar!
Ela caiu na água vermelha.
Levantou-se imediatamente.
Furiosa.
Seus olhos estavam negros.
— Me dê.
Políbio segurou a pedra contra o peito.
— Não.
— Ela é minha.
— Não é.
Avelar avançou.
Então seu corpo parou.
Não por magia das bruxas.
Por dentro.
Ithely havia assumido os movimentos.
— Pare! — gritou Avelar dentro da mente.
— Não.
Os cabelos começaram a clarear.
Os olhos voltaram ao azul.
Ithely assumiu o corpo.
Políbio ficou imóvel.
— Ithely?
Ela respirou.
— Sim.
Os dois se olharam.
Ithely caminhou até ele.
Por um instante, Políbio pareceu esperar um ataque.
Ela apenas colocou a mão sobre a Pedra da Verdade.
Nada aconteceu.
Nenhuma descarga.
Nenhuma rejeição.
A pedra brilhou.
— Muriel estava certa — disse Xenôn.
Os dois irmãos olharam.
— Apenas um pode reunir as pedras.
Abalý continuou:
— Mas vocês compartilham o mesmo sangue.
Ícara completou:
— Safira não os reconhece completamente como dois.
Ithely franziu o cenho.
— Então podemos carregar as pedras juntos?
— Podem.
Avelar gritou dentro dela:
— NÃO!
Ithely fechou os olhos.
— Avelar...
— Elas estão roubando minha vitória!
— Não é sua vitória!
Avelar tentou tomar o corpo.
Ithely resistiu.
Os cabelos começaram a mudar rapidamente entre loiro e negro.
Políbio recuou.
— O que está acontecendo?
— Ela está tentando voltar!
Ithely segurou a própria cabeça.
— Saia!
— ESSE CORPO TAMBÉM É MEU!
— NÃO!
— VOCÊ ME PRENDEU AQUI!
— EU NÃO ESCOLHI ISSO!
O corpo caiu de joelhos.
As bruxas observavam fascinadas.
Então uma terceira voz surgiu.
— Parem.
Núbia.
Tudo cessou.
O corpo ficou imóvel.
Os cabelos pararam no meio da transformação: metade claros, metade negros.
Os olhos se abriram.
Verdes.
Núbia estava no controle.
Abalý sorriu.
— Finalmente.
Núbia olhou diretamente para ela.
— Você sabe quem eu sou.
Não era uma pergunta.
As três bruxas ficaram em silêncio.
— Digam.
Xenôn inclinou a cabeça.
— Ainda não.
Núbia caminhou até elas.
— Vocês disseram que este lugar exige verdade.
— Sim.
— Então mintam para mim.
Silêncio.
— Digam que não sabem quem sou.
Nenhuma falou.
Núbia sorriu.
— Foi o que imaginei.
Ícara recolocou a faixa sobre os olhos.
— Há verdades que não pertencem a nós.
— Mas pertencem a mim.
— Ainda não.
Núbia aproximou-se.
— Por quê?
Abalý respondeu:
— Porque se descobrir agora, Avelar tentará usar isso.
Dentro da mente, Avelar gritou:
— Maldita!
Núbia não reagiu.
Xenôn continuou:
— Ithely tentará fugir disso.
Ithely permaneceu em silêncio.
— E você...
A velha sorriu.
— ...deixará de existir.
Pela primeira vez, Núbia demonstrou medo.
— O quê?
— Algumas verdades criam coisas.
Xenôn tocou o rosto dela.
— Outras desfazem.
Núbia recuou.
Políbio observava tudo.
— Então o que fazemos?
As três bruxas olharam para ele.
— Continuam.
Abalý apontou para o norte.
As águas do pântano começaram a se dividir.
Um caminho de terra surgiu.
— Duas pedras ainda não foram reclamadas.
Avelar ouviu.
Duas.
Então realmente eram sete.
— Onde estão? — perguntou Núbia.
Ícara respondeu:
— Uma está onde nenhum de vocês deseja voltar.
— Etanin — disse Políbio.
A bruxa sorriu.
— Talvez.
— E a última?
Xenôn ergueu o rosto.
Seu sorriso desapareceu.
— A última não está escondida.
— Então onde?
— Está esperando.
Núbia franziu o cenho.
— Por quem?
As três bruxas responderam juntas:
— Pelo morto que ainda não morreu.
Silêncio.
Políbio olhou para Núbia.
— O que isso significa?
Ela não sabia.
Ou talvez alguma das consciências dentro daquele corpo soubesse.
Então Abalý estendeu a mão.
As águas começaram a ferver.
— Agora vão.
— E Suzan? — perguntou Políbio.
As três ficaram imóveis.
Ele havia quase esquecido.
— Muriel disse que a matou.
Xenôn abriu um sorriso.
— Muriel disse muitas coisas.
Políbio sentiu esperança.
— Ela está viva?
— Sim.
— Onde?
Ícara apontou para baixo.
Políbio olhou para a água vermelha.
Nada.
— Embaixo?
— Muito mais.
A bruxa sorriu.
— Suzan encontrou um caminho que vocês ainda não estão preparados para conhecer.
— Quero encontrá-la.
— Então sobreviva.
Políbio apertou a Pedra da Verdade.
Núbia começou a seguir pelo caminho.
Antes de sair da clareira, porém, ouviu Xenôn chamar:
— Núbia.
Ela parou.
Virou lentamente o rosto.
A velha bruxa estava sorrindo.
— Quando ouvir sete corações batendo dentro de um único corpo...
Núbia sentiu um arrepio.
— Corra.
— De quê?
Xenôn olhou para o céu.
As nuvens sobre o Pântano Vermelho começaram a girar.
— De Safira.
Horas depois, já longe das bruxas, Políbio e Núbia caminhavam em silêncio.
A Pedra da Verdade estava guardada junto ao peito dele.
Núbia continuava no controle.
Nem Avelar nem Ithely haviam conseguido expulsá-la.
— Você está bem? — perguntou Políbio.
— Não sei.
— Elas disseram que você deixaria de existir.
— Eu ouvi.
Políbio olhou para ela.
— Você tem medo?
Núbia sorriu tristemente.
— Acho que sim.
— Então você é real.
Ela parou.
— O quê?
— Pessoas que não existem não têm medo de morrer.
Núbia permaneceu olhando para ele.
Então sorriu.
Dessa vez verdadeiramente.
— Você é estranho.
— Já disseram.
Continuaram caminhando.
Depois de alguns minutos, Núbia levou uma mão ao peito.
Parou.
— O que foi?
Ela não respondeu.
— Núbia?
Seu rosto perdeu a cor.
— Eu...
Colocou a outra mão sobre o peito.
Tum.
Políbio ouviu.
Um batimento muito forte.
Depois outro.
Tum.
Então outro.
Mas não vinha do mesmo lugar.
Tum.
Núbia arregalou os olhos.
— Não.
Políbio aproximou-se.
— O que está acontecendo?
Tum.
Tum.
Tum.
Mais pulsações.
Dentro dela.
Uma.
Duas.
Três.
Quatro.
Núbia começou a contar.
— Não...
Cinco.
Políbio segurou seus ombros.
— Fale comigo!
Seis.
Núbia olhou para ele.
Aterrorizada.
Então veio a última.
A sétima pulsação.
O corpo inteiro se curvou.
Núbia gritou.
As águas do pântano estremeceram.
As árvores inclinaram-se.
Muito longe dali, as três Bruxas do Pântano Vermelho levantaram o rosto ao mesmo tempo.
Xenôn fechou os olhos.
— Tarde demais.
Políbio tentava segurar Núbia.
— O que está acontecendo?!
Ela ergueu o rosto.
Seus olhos já não eram verdes.
Nem negros.
Nem azuis.
Eram vermelhos.
Como rubis.
Quando falou, nenhuma das três vozes conhecidas saiu de sua boca.
Era outra mulher.
Antiga.
Calma.
Poderosa.
— Finalmente...
Políbio soltou-a.
Deu um passo para trás.
— Quem é você?
A mulher olhou para as próprias mãos.
Depois para o céu.
Sorriu.
E respondeu:
— Safira.
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