Castelos
2 Olhos de Medo
A grande porta fechou-se atrás de Avelar.
O som ecoou pela sala como uma sentença.
Ela não se virou.
Não precisava olhar para saber que agora estava sozinha.
Sozinha não.
Havia quase duzentos soldados espalhados pelo salão, imóveis junto às paredes, dispostos em fileiras perfeitas. Lanças, espadas e machados refletiam a luz das dezenas de tochas. Nenhum deles falava. Nenhum sequer parecia respirar.
Mas, diante de tantos guerreiros, Avelar ainda se sentia sozinha.
Porque todos pertenciam a ele.
Mendragon.
Ela finalmente estava frente a frente com o chefe dos exércitos.
Durante muitos anos imaginara como seria aquele momento.
Em sua mente, Mendragon era enorme, deformado pelas batalhas, coberto de cicatrizes e permanentemente vestido com uma armadura negra.
A realidade era diferente.
E, de alguma maneira, mais perturbadora.
Ele era belo.
Avelar odiou perceber isso.
Mendragon estava confortavelmente sentado no alto de seu trono, observando-a em silêncio.
O assento fora esculpido em ipê mágico, uma árvore extremamente rara cujos troncos continuavam vivos mesmo depois de cortados. Pequenos veios dourados percorriam a madeira escura como rios de luz, pulsando lentamente.
Era quase como se o próprio trono respirasse.
A luminosidade quente do ipê envolvia Mendragon e acentuava seus traços.
Seus cabelos eram longos e negros, caindo pelos ombros. Uma única mecha branca surgia próxima à testa e descia na direção de seu olho direito.
Exatamente onde começava a cicatriz.
Três marcas atravessavam a pele daquele lado do rosto.
Avelar sabia a origem delas.
Todo vampiro sabia.
Aquelas cicatrizes haviam sido deixadas pelas garras de Flora.
A mãe de todos os híbridos.
Diziam que Flora fora uma das criaturas mais poderosas que já caminhara por aquelas terras.
Parte fera.
Parte vampira.
Parte alguma coisa que nem mesmo os estudiosos conseguiam explicar.
Durante a Grande Guerra dos Híbridos, Flora liderara seu povo contra os exércitos vampíricos e quase destruíra três reinos antes de enfrentar Mendragon.
Ele vencera.
Flora desaparecera.
E, depois daquela derrota, os híbridos perderam suas terras.
Depois os títulos.
Depois os direitos.
Por fim, perderam a liberdade.
Agora serviam.
Trabalhavam.
Obedeciam.
Pertenciam.
A cicatriz no rosto de Mendragon era celebrada como símbolo daquela vitória.
Para Avelar, porém, significava outra coisa.
Seu pai.
Ela não gostava de pensar nele.
Avelar era filha de uma vampira com um híbrido.
Zárlia sempre evitara falar sobre o assunto.
Tudo que Avelar sabia era que havia herdado da mãe os instintos de caça dos vampiros.
Mas havia outras coisas dentro dela.
Coisas que Zárlia nunca soubera explicar.
Ou talvez tivesse medo de explicar.
Mendragon continuava em silêncio.
Avelar sentiu seu olhar percorrendo seu corpo.
Não de desejo.
De análise.
Ele observava seus ombros.
Suas mãos.
O movimento de seu peito.
Sua respiração.
O chefe dos exércitos não precisava perguntar se ela estava com medo.
Ele podia vê-lo.
Seu coração batia tão forte que Avelar tinha certeza de que todos naquela sala conseguiam escutá-lo.
Tum.
Tum.
Tum.
Ela tentou controlar a respiração.
Não conseguiu.
A sala era imensa.
Clara demais.
O chão de mármore negro refletia as tochas. Grandes colunas sustentavam um teto tão alto que desaparecia entre sombras.
E soldados estavam em toda parte.
Avelar permanecia exatamente no centro.
Sem armas.
Sem aliados.
Sem saber por que fora levada até ali.
Qualquer palavra errada poderia matá-la.
Qualquer movimento interpretado como ameaça poderia matá-la.
Talvez até olhar Mendragon nos olhos pudesse ser considerado insolência.
O silêncio começou a se tornar insuportável.
Um minuto.
Talvez dois.
Mendragon não dizia nada.
Apenas observava.
“Ele quer que eu fale.”
Avelar compreendeu.
Era um teste.
Respirou fundo.
Ergueu a cabeça.
— Senhor Mendragon, chefe dos exércitos, poderoso nas batalhas...
Sua própria voz pareceu pequena dentro daquele salão.
— Qual seria o motivo de chamar esta humilde serva à sua presença?
Nada aconteceu.
Durante alguns segundos, Mendragon apenas a encarou.
Então seus lábios se curvaram em um sorriso discreto.
Ele se levantou.
Avelar sentiu o estômago afundar.
O trono ficava no alto de uma plataforma sustentada por dez degraus.
Mendragon desceu dois.
Parou.
— Achei que ficaria muda para sempre.
Ergueu levemente os ombros.
— O que seria uma pena.
Avelar engoliu em seco.
Mendragon desceu outro degrau.
— Porque então eu teria de matá-la muito cedo.
Ele continuou descendo.
Um degrau de cada vez.
Sem pressa.
Avelar acompanhava seus pés.
Não conseguia obrigar-se a olhar mais alto.
Oito.
Sete.
Seis.
Cinco.
Cada passo parecia fazer seu coração acelerar.
Quando Mendragon chegou ao chão, caminhou diretamente em sua direção.
Avelar manteve os olhos baixos.
Viu primeiro suas botas.
Depois a bainha de sua túnica.
Então ele parou.
Próximo demais.
Avelar prendeu a respiração.
Mendragon estendeu a mão.
Tocou seu queixo.
Ela estremeceu.
Com dois dedos, ele ergueu lentamente seu rosto.
— Olhe para mim.
Avelar obedeceu.
E, pela primeira vez, viu os olhos de Mendragon de perto.
Escuros.
Calmos.
Não havia raiva neles.
Não havia misericórdia também.
Isso era pior.
— Você não tem, por herança, o direito de participar do torneio — disse ele.
Avelar não respondeu.
— Não poderá sequer apresentar-se diante dos juízes.
Mendragon observou sua reação.
Então inclinou levemente a cabeça.
Seu olhar mudou.
Por um instante, Avelar quase acreditou enxergar pena.
— Você tem sangue de escravo.
As palavras entraram mais fundo que uma espada.
Avelar sentiu o rosto esquentar.
Seu coração acelerou novamente.
Mas agora não era medo.
Era vergonha.
Raiva.
Humilhação.
Durante toda sua vida ouvira cochichos.
Meio-sangue.
Filha de fera.
Mistura.
Impura.
Zárlia sempre lhe ensinara a ignorá-los.
“Eles podem decidir como chamá-la”, dizia sua mãe. “Mas somente você decide quem é.”
Avelar respirou.
Uma vez.
Duas.
Seus olhos começaram a arder.
Ela tentou impedir.
Não conseguiu.
Uma lágrima deslizou por sua face.
Depois outra.
Sua expressão, porém, permaneceu imóvel.
Mendragon observava tudo.
— Posso ter sangue de escravo — disse ela.
Sua voz falhou.
Avelar respirou novamente.
— Mas o que predomina em mim é o poder de uma caçadora.
Mendragon ergueu uma sobrancelha.
— É mesmo?
— Eu posso provar.
O chefe dos exércitos permaneceu em silêncio.
Avelar enxugou as lágrimas com o dorso da mão.
Então fez algo que poucos naquela sala teriam coragem de fazer.
Encarou-o.
— Seja o senhor meu juiz.
O sorriso desapareceu do rosto de Mendragon.
O silêncio retornou.
Os soldados permaneceram imóveis.
Avelar não sabia se acabara de conquistar uma oportunidade ou assinar sua própria execução.
Subitamente, Mendragon agarrou seu pulso.
Avelar gemeu.
A força foi tão grande que ela sentiu os ossos pressionarem uns contra os outros.
— Você é realmente audaciosa como dizem.
Ele puxou seu braço, obrigando-a a aproximar-se.
Seus rostos ficaram separados por poucos centímetros.
— Quer me provar alguma coisa?
Avelar não respondeu.
Mendragon apertou mais.
— Então prove.
Soltou-a.
Avelar recuou imediatamente, segurando o pulso.
Mendragon virou-lhe as costas.
Começou a caminhar novamente em direção ao trono.
— Mate todos os soldados desta sala.
Avelar achou que havia escutado errado.
— O quê?
Mendragon continuou caminhando.
— São duzentos.
Ela olhou ao redor.
Pela primeira vez percebeu que todos aqueles soldados a encaravam.
Nenhum demonstrava surpresa.
Como se estivessem esperando por aquilo.
Mendragon subiu os degraus.
— Se conseguir...
Chegou ao trono.
Sentou-se.
Ao lado dele havia uma pequena mesa de pedra com um cálice de ouro.
Mendragon pegou-o.
O líquido em seu interior era vermelho e espesso.
Sangue.
Tomou um gole.
Então dirigiu a Avelar um olhar que fez um arrepio atravessar sua coluna.
— Estará no torneio.
Ele apoiou o cálice.
— E ninguém poderá questionar sua entrada.
Avelar permaneceu imóvel.
Mendragon sorriu.
— Porque eu fui seu juiz.
Ela olhou novamente ao redor.
Duzentos soldados.
Alguns maiores que ela.
Outros provavelmente muito mais antigos.
Muitos carregavam cicatrizes que contavam histórias de batalhas que Avelar sequer conhecia.
Seria impossível.
Seu instinto dizia para fugir.
Mas a voz de Zárlia respondeu de algum lugar dentro dela.
Você nasceu para coisas grandes.
Avelar olhou para Mendragon.
A Grande Adaga.
Era tudo que sempre quisera.
Se recusasse, talvez jamais tivesse outra oportunidade.
E de que adiantaria viver por milhares de anos se passasse todos eles fugindo daquilo que desejava?
Se sua vida tinha um propósito, era aquele.
Ela levou as mãos ao pescoço.
Desamarrou o nó da capa azul-turquesa.
O tecido escorregou por seus ombros.
Caiu no chão.
Avelar deu um passo à frente.
Olhou profundamente nos olhos de Mendragon.
— Eu aceito o desafio.
Então fechou os olhos.
Por um instante, nada aconteceu.
Depois vieram os ossos.
Estalos ecoaram pela sala.
O corpo de Avelar arqueou-se.
Seus braços se alongaram.
Os músculos cresceram.
As unhas transformaram-se em grandes garras negras.
Uma camada de pelos brancos começou a espalhar-se por seu pescoço, braços e rosto.
O maxilar projetou-se para frente.
Dentes cresceram.
Presas surgiram.
Seu rosto deixou de ser completamente humano.
Ou vampírico.
Transformou-se no focinho de um enorme lobo.
Os olhos se abriram.
Vermelhos.
Avelar agora se sustentava sobre duas pernas poderosas, mas havia algo inconfundivelmente animal em sua postura.
Um rosnado atravessou o salão.
Até mesmo alguns soldados recuaram.
Mendragon inclinou-se no trono.
Interessado.
Então percebeu as mãos dela.
No centro de cada palma havia uma pequena abertura escura.
Dela escapava uma luz branca pulsante.
Mendragon estreitou os olhos.
Aquilo não fazia parte dos poderes de Zárlia.
Era outra coisa.
Outra herança.
Avelar ergueu as mãos.
Os soldados ao seu redor levaram os dedos às têmporas.
Alguns cambalearam.
Telepatia.
Mendragon não sorriu dessa vez.
Observou atentamente.
Quando a transformação terminou por completo, levantou a mão direita.
Avelar olhou para ele.
Mendragon estalou os dedos.
Os soldados avançaram.
O salão desapareceu em caos.
A primeira fileira atacou ao mesmo tempo.
Avelar saltou.
Uma espada passou por baixo de seu corpo.
Ela girou no ar e atingiu um soldado com as garras.
Antes mesmo de tocar o chão, outro veio pela esquerda.
Ela ergueu a palma da mão.
Um clarão branco atravessou o salão.
O vampiro congelou.
Por alguns segundos, seus próprios pensamentos deixaram de obedecê-lo.
Avelar o lançou contra dois outros soldados.
Mendragon acompanhava tudo do trono.
Logo tornou-se impossível distinguir quem atacava quem.
A figura branca de Avelar desapareceu no meio da multidão.
Gritos.
Metal.
Rosnados.
Explosões de luz.
Sangue atingiu as colunas.
Mais soldados avançaram.
Avelar sentiu uma lâmina atravessar sua lateral.
Gritou.
Girou.
Quebrou o braço do agressor.
Outro segurou suas costas.
Mais dois agarraram suas pernas.
Ela abriu as palmas.
A energia branca explodiu.
Os três foram lançados para longe.
Os Murtiços começaram a morrer.
E quando um Murtiço morria, não deixava cadáver.
Seu corpo começava a secar quase instantaneamente.
A pele se desfazia.
Os ossos viravam cinzas.
Em poucos segundos, restava apenas pó.
Um após outro.
O chão começou a mudar de cor.
O mármore negro desapareceu sob uma camada cinzenta.
Dez soldados.
Vinte.
Quarenta.
Avelar já não sabia quantos havia derrotado.
Não pensava.
Apenas caçava.
Desviava.
Atacava.
Sentia.
Os movimentos começaram a tornar-se instintivos.
Como se alguma coisa muito antiga tivesse despertado dentro dela.
Uma coisa que não pertencia a Zárlia.
Um soldado tentou atacá-la por trás.
Sem sequer olhar, Avelar virou a palma da mão em sua direção.
Ele parou.
Seus próprios braços se ergueram contra sua vontade.
Então atacou o companheiro ao lado.
Mendragon levantou-se ligeiramente do trono.
Agora compreendia.
Ela não apenas lia pensamentos.
Podia interferir neles.
Talvez até controlá-los.
— Interessante... — murmurou.
A luta continuou.
Avelar estava ficando mais lenta.
Um machado atingiu seu ombro.
Uma lança atravessou sua coxa.
Uma espada quase lhe abriu o rosto.
Mas ela continuou.
O último grupo avançou.
Avelar ergueu a cabeça.
Seu pelo branco estava manchado.
Sua respiração saía como vapor.
Havia dezenas deles.
Ela rugiu.
A luz nas palmas de suas mãos tornou-se tão intensa que iluminou todo o salão.
Mendragon protegeu os olhos.
Então veio o silêncio.
Quando tornou a olhar...
Ninguém estava de pé.
O salão havia desaparecido sob uma camada de cinzas.
Duzentos soldados.
Mortos.
No centro de tudo estava Avelar.
De joelhos.
Sua transformação começava a desaparecer.
Os pelos recuavam.
O focinho diminuía.
As garras voltavam a ser dedos.
Pouco a pouco, a jovem vampira retornava à própria forma.
Mas estava destruída.
Seu braço esquerdo pendia quase sem força.
Um corte profundo atravessava o ombro, tão grave que parecia que o membro poderia se desprender do corpo.
Avelar tentou levantar-se.
Não conseguiu.
Apoiou uma mão no chão.
Respirou.
Tentou novamente.
Nada.
Mendragon a observava.
Pela primeira vez desde que ela entrara naquela sala, havia algo diferente em seu rosto.
Espanto.
Ele começou a aplaudir.
Devagar.
Uma palma.
Depois outra.
O som ecoava pela enorme sala vazia.
— Extraordinário.
Avelar tentou olhar para ele.
Sua visão tornou-se turva.
O salão girou.
Ela cambaleou.
Então caiu sobre as cinzas.
Mendragon parou de aplaudir.
Seu semblante mudou.
Por um instante, pareceu genuinamente preocupado.
Não esperava que ela morresse.
Não depois daquilo.
Não depois de revelar um poder daquela magnitude.
Desceu do trono.
Caminhou pelo salão.
Seus passos atravessavam o pó dos soldados mortos.
A capa negra arrastava-se sobre as cinzas.
Ao passar ao lado de Avelar, não parou.
Não a tocou.
Não verificou se ainda respirava.
Continuou caminhando com a mesma postura imponente.
A grande porta de ouro abriu-se diante dele.
Do lado de fora, um soldado permanecia de guarda.
Mendragon parou.
Olhou uma última vez para Avelar caída ao longe.
Então disse:
— Vá buscar minha filha.
O soldado inclinou a cabeça.
— Qual delas, meu senhor?
Mendragon voltou os olhos para a garota desacordada no centro do salão.
— Ithely.
A porta começou a se fechar.
E, pela primeira vez em muitos anos, Mendragon não estava pensando em guerras.
Nem em escravos.
Nem no torneio.
Pensava apenas em uma pergunta.
O que exatamente era Avelar?
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