Castelos

3 O Sussurro da Morte


Notas iniciais
Dedico este capítulo a Érica Giovana que me inspirou a escrever um capítulo tão cheio de surpresas. Por ter mostrado que meu trabalho não é vão, que pessoas leem nossos textos com o mesmo amor que escrevemos.

Quando o soldado encontrou Ithely, ela estava no Quarto de Degustação.

O nome parecia quase elegante.

O lugar, não.

Era uma das salas mais temidas da fortaleza, escondida nos níveis inferiores do castelo, onde prisioneiros eram interrogados de uma maneira que poucos sobreviviam para descrever.

Ali, os lobisomens encarregados das confissões não usavam instrumentos comuns de tortura.

Usavam os próprios dentes.

Arrancavam pedaços do corpo das vítimas lentamente, escolhendo regiões que provocassem dor suficiente para quebrar a resistência sem causar uma morte rápida.

Ao menos, essa era a intenção.

O cheiro de sangue impregnava as paredes.

Correntes pendiam do teto.

Havia manchas escuras no chão de pedra e marcas profundas deixadas por garras nas portas.

No centro da sala, um homem permanecia suspenso de cabeça para baixo.

Seus tornozelos estavam presos por grossas correntes de ferro.

As mãos, amarradas atrás das costas com arame farpado.

O metal cortava sua pele e dificultava a circulação do sangue.

Ele ainda estava vivo.

Por enquanto.

Ithely caminhava ao redor dele.

Loira.

Alta.

Elegante.

Seus cabelos caíam pelos ombros como fios dourados, contrastando com a roupa de couro negro que moldava seu corpo.

Naquela noite, não usava capa.

Talvez fosse melhor assim.

O soldado já vira aquela capa antes.

Todos haviam.

Era feita com a pele de vítimas que Ithely considerara dignas de serem lembradas.

Mas o capuz era a parte que ninguém conseguia esquecer.

Olhos.

Dezenas deles.

Costurados no tecido.

Alguns humanos.

Outros vampíricos.

Outros pertencentes a criaturas que o soldado nem sequer sabia nomear.

Diziam que aqueles olhos ainda conseguiam enxergar.

Diziam muitas coisas sobre Ithely.

A maioria era verdadeira.

Ela podia matar praticamente qualquer criatura tocando sua essência.

Podia absorver capacidades daqueles cuja vida tomava.

E, mais raro ainda, podia fazer o contrário.

Trazer os mortos de volta.

O soldado parou diante da porta aberta.

Mesmo sendo grande o bastante para intimidar a maioria dos homens do exército, suas mãos tremiam.

Ergueu uma delas.

Três batidas leves.

Toc.

Toc.

Toc.

Ithely não se virou.

— Prin... Princesa...

— Por que está gaguejando?

A voz dela era tranquila.

Quase divertida.

O soldado engoliu em seco.

Ithely acariciou o rosto do vampiro que permanecia suspenso diante dela.

Passou os dedos lentamente pela face ensanguentada do prisioneiro.

— Tem medo de terminar como este lindo vampiro?

O homem pendurado soltou um gemido fraco.

Ithely sorriu.

O soldado abriu a boca.

Não conseguiu responder.

Num instante, a princesa estava diante do prisioneiro.

No outro...

Estava diante dele.

O soldado recuou assustado.

Não viu seu deslocamento.

Não ouviu passos.

Ithely apenas surgiu diante de seus olhos, rápida demais para que o cérebro pudesse compreender o movimento.

Ficou tão próxima que o soldado sentiu a respiração dela em seu rosto.

Os olhos azuis da princesa encontraram os seus.

E durante aquele breve instante ele compreendeu por que alguns homens diziam que Ithely não olhava para as pessoas.

Ela olhava para dentro delas.

— Então? — perguntou.

— S-seu pai...

Ela arqueou uma sobrancelha.

O soldado se apressou.

— Lorde Mendragon deseja vê-la imediatamente.

Ithely ficou em silêncio.

Depois sorriu.

Um sorriso pequeno.

Malicioso.

— Imediatamente?

— Foi a palavra dele, minha senhora.

— Naturalmente.

Ela se afastou.

Caminhou até a porta, mas parou antes de atravessá-la.

Olhou por cima do ombro.

— Cuide deles para mim.

O soldado olhou para os prisioneiros.

— Sim, princesa.

— Não deixe nenhum fugir.

Ela voltou a caminhar.

Então soltou uma gargalhada que continuou ecoando pelo corredor mesmo depois de desaparecer.

O soldado olhou para o vampiro pendurado.

O prisioneiro abriu os olhos com dificuldade.

Por um breve instante, os dois homens se encararam.

O soldado sentiu pena dele.

Mas sabia que demonstrá-la poderia colocá-lo exatamente no lugar da vítima.

Fechou a porta.


Quando Ithely entrou no grande salão do trono, não precisou perguntar o que havia acontecido.

Sentiu primeiro.

Morte.

Muita morte.

O mármore negro quase não podia mais ser visto.

O chão estava coberto por uma grossa camada de cinzas.

Centenas de montículos espalhavam-se pelo salão.

Ithely parou.

Seus olhos azuis percorreram a cena.

Um massacre.

Ela reconhecia facilmente aquilo.

Afinal, provocara muitos.

Caminhou sobre as cinzas como se atravessasse areia numa praia.

No alto da escadaria, Mendragon estava novamente sentado em seu trono.

Ithely ergueu os olhos para o pai.

Cruzou os braços.

— Uma de suas mulheres o traiu?

Mendragon franziu o cenho.

Ela continuou:

— Porque, se isso foi apenas uma crise de ciúmes, devo dizer que exagerou um pouco.

Mendragon levantou-se.

— Como pude gerar a personificação da ingratidão?

— Talvez seja hereditário.

Ele lançou-lhe um olhar furioso.

Ithely sorriu.

Mendragon começou a caminhar de um lado para o outro no topo da plataforma.

— Uma menina fez tudo isso.

O sorriso de Ithely desapareceu.

Olhou outra vez para as cinzas.

— Uma menina?

— Sozinha.

Agora ela parecia interessada.

— E onde está essa maravilha?

Mendragon parou.

— Morreu.

Ithely soltou o ar pelo nariz.

Entendeu imediatamente por que fora chamada.

— Não.

O pai virou lentamente o rosto para ela.

— O quê?

— Eu não vou ressuscitá-la.

Mendragon permaneceu imóvel.

Ithely descruzou os braços.

— Não pode usar meus poderes sempre que alguma criatura lhe desperta curiosidade.

Ele não respondeu.

Desceu o primeiro degrau.

— Eu tiro vidas porque quero — continuou ela. — Devolvê-las é outra coisa.

Segundo degrau.

— Exige energia.

Terceiro.

— Exige concentração.

Quarto.

— E, principalmente, exige que eu me importe minimamente com quem está voltando.

Mendragon continuou descendo.

Ithely percebeu que talvez tivesse ido longe demais.

Ainda assim, não recuou.

Quando chegou diante dela, Mendragon a examinou da cabeça aos pés.

Então, para sua surpresa, sorriu.

Ergueu as mãos.

Segurou delicadamente o rosto da filha.

Ithely ficou imóvel.

— Minha querida filha...

A suavidade em sua voz era pior que um grito.

Mendragon acariciou a lateral de seu rosto.

— Você fará exatamente aquilo que eu mandar.

Ithely apertou os maxilares.

— Eu sou o rei.

Houve uma pausa.

O sorriso dele aumentou.

Ithely não escondeu a repulsa.

Mendragon parecia apreciar aquilo.

— Fiz muitas coisas para chegar até este trono.

Seus dedos apertaram o rosto dela.

— Coisas que você sequer conseguiria imaginar.

A princesa sustentou seu olhar.

— Conheço muitas delas.

O sorriso de Mendragon morreu.

— Então sabe que também posso matar minha própria filha.

A última palavra saiu carregada de ira.

Ithely afastou o rosto das mãos dele.

Respirou fundo.

— Vai exigir um esforço enorme ressuscitar todos esses mortos.

Mendragon arregalou os olhos teatralmente.

Levou as mãos à boca, fingindo espanto.

— Todos?

Virou-se.

Sua capa atravessou as cinzas e levantou uma pequena nuvem de pó.

— Eu não me importo com esses soldados.

Ithely observou centenas de restos espalhados pelo salão.

— Eram seus homens.

— Eram substituíveis.

A resposta veio sem hesitação.

Mendragon subiu novamente em direção ao trono.

— Quero apenas a garota.

Ithely soltou uma risada curta.

Girou lentamente no meio do salão.

— E como espera que eu descubra qual verme deseja que eu ressuscite no meio deste deserto?

Mendragon sentou-se.

Cruzou as pernas.

Um dos braços permaneceu apoiado no outro, enquanto a mão sustentava seu queixo.

— Ela não virou pó.

Ithely parou.

Mendragon retirou a mão do rosto.

Apontou.

— Está ali.

Ithely seguiu a direção indicada.

A princípio, enxergou apenas cinzas.

Depois percebeu uma forma.

Um braço.

Cabelos.

Parte de um rosto.

O corpo estava quase completamente coberto pelo pó dos mortos.

Ithely caminhou alguns passos.

Parou.

Seu olhar tornou-se sério.

— Ela não virou pó...

Havia surpresa em sua voz.

Aproximou-se mais.

Então percebeu algo ainda mais estranho.

— Ela é uma escrava.

Virou-se bruscamente para o pai.

— Você quer que eu traga uma escrava de volta à vida?

Mendragon nada respondeu.

Ithely caminhou até a escadaria.

Subiu os degraus rapidamente.

— Eu me recuso.

Parou diante dele.

— Não vou desperdiçar minha força ressuscitando uma mestiça qualquer.

Mendragon se levantou.

Antes que Ithely pudesse reagir, sua mão fechou-se ao redor do pescoço dela.

Os pés da princesa deixaram o chão.

Ithely segurou o braço do pai.

Tentou respirar.

Não conseguiu.

Mendragon aproximou seu rosto.

— Então você não é mais útil para mim.

E sorriu.

— Talvez esteja na hora de substituí-la também.

Os olhos de Ithely se arregalaram.

Ele apertou mais.

A princesa tentou usar seus poderes.

Mas havia algo diferente no toque de Mendragon.

Alguma força.

Alguma barreira.

Como se a própria presença dele impedisse sua magia de agir.

Mendragon observava o desespero crescer nos olhos da filha.

Parecia desfrutar daquilo.

— Vou matá-la.

Ithely sentiu a garganta fechar.

Seu orgulho dizia para permanecer em silêncio.

Seu corpo implorava pelo contrário.

Ela tentou falar.

Nenhum som saiu.

Mendragon apertou mais.

Finalmente, entre respirações quebradas, conseguiu dizer:

— Eu... farei...

Ele inclinou a cabeça.

— O quê?

— Eu farei!

A voz saiu rouca.

— Preserve... minha vida.

Mendragon soltou uma gargalhada.

Mas não a colocou no chão.

Arremessou-a.

O corpo de Ithely atravessou o salão em alta velocidade.

Ela atingiu a grande porta de ouro.

O impacto produziu um estrondo.

A estrutura inteira vibrou.

Ithely caiu no chão.

Uma nuvem enorme de cinzas levantou-se ao redor dela.

Por alguns segundos, não enxergou absolutamente nada.

Apenas ouviu a voz de Mendragon atravessar a poeira.

— Isso é para que aprenda que minha vontade é soberana neste castelo.

Ithely apoiou uma das mãos no chão.

Tentou levantar-se.

— Você não é nada diante de mim.

Ela rangeu os dentes.

— Ressuscite a menina.

A poeira começou a baixar.

Mendragon concluiu:

— Agora.


Ithely ficou de pé.

Seu pescoço doía.

Suas costas queimavam.

Mas não demonstraria fraqueza.

Não diante dele.

Nunca diante dele.

Olhou para o centro do salão.

O corpo da garota continuava praticamente escondido sob as cinzas.

Ithely estendeu as mãos.

Fechou os olhos.

Respirou profundamente.

Murmurou:

— Tusty suviani... takomuny itokirashi... simbalou.

Nada.

Ithely abriu os olhos.

O corpo permaneceu imóvel.

Mendragon observava do trono.

Ela tentou novamente.

— Tusty suviani... takomuny itokirashi... simbalou!

Silêncio.

Nenhuma resposta.

Ithely abaixou os braços.

Droga.

Sabia qual era o problema.

Matar era simples.

Para ela, ao menos.

Bastava encontrar a essência viva de uma criatura e arrancá-la do corpo.

Não precisava conhecer seu nome.

Sua história.

Seus desejos.

Nada.

A morte não precisava saber quem você era.

Mas a vida...

A vida precisava encontrar o caminho de volta.

Para ressuscitar alguém, Ithely precisava de uma ligação com a alma.

Uma roupa.

Um objeto importante.

Uma lembrança.

O verdadeiro nome.

Qualquer coisa carregada de significado suficiente para chamar aquela essência de volta ao corpo.

Usara energia à toa.

E isso a irritava.

— Qual é o nome dela?

Mendragon não respondeu imediatamente.

Ithely olhou para ele.

O rei estava atento a cada movimento da filha.

Parecia estranhamente satisfeito.

Passou os dentes pelo lábio inferior.

Então sorriu.

— Avelar.

O corpo de Ithely enrijeceu.

Por alguns segundos, nem respirou.

— O quê?

Mendragon continuou sorrindo.

— Avelar.

Ithely olhou novamente para o corpo.

Agora compreendia.

Aquela não era uma mestiça qualquer.

Era Avelar de Zárlia.

Filha da caçadora.

Filha daquela mulher.

Zárlia havia sido uma das caçadoras mais celebradas de sua geração.

A vencedora do antigo torneio pela conquista de Etanin.

Seu nome ainda era contado em histórias.

Algumas com admiração.

Outras com ódio.

Ithely fechou as mãos.

Sentiu as unhas ferirem as próprias palmas.

— Então é ela...

Mendragon permaneceu em silêncio.

— A maldita filha de Zárlia.

A princesa respirou fundo.

Voltou a erguer as mãos.

Desta vez, não precisaria apenas lançar magia.

Precisaria chamar alguém.

E chamar os mortos era uma coisa perigosa.

Porque nem sempre apenas aquele que procurávamos conseguia ouvir.

Ithely fechou os olhos.

As tochas tremularam.

O salão tornou-se mais frio.

Muito mais frio.

Mendragon descruzou as pernas.

As cinzas começaram a se mover.

Primeiro lentamente.

Depois em pequenos círculos ao redor de Avelar.

Ithely pronunciou:

— Tusty suviani, Avelar...

Sua voz ecoou de maneira estranha.

Parecia haver outra voz repetindo as palavras em algum lugar distante.

— Takomuny itokirashi...

O vento atravessou o salão.

As tochas apagaram-se.

Restou apenas a luz dourada do trono de ipê.

Ithely abriu os olhos.

Eles já não eram azuis.

Estavam completamente negros.

— SIMBALOU!

As cinzas explodiram ao redor do corpo.

Depois...

Silêncio.

Absoluto.

Ithely permaneceu imóvel.

Mendragon inclinou o corpo para frente.

Nenhum movimento.

Nenhuma respiração.

Nada.

Os olhos de Ithely voltaram ao azul.

Ela abaixou os braços.

— Não...

Mendragon remexeu-se no trono.

A princesa encarou o corpo.

Alguma coisa havia acontecido.

Ela sentira.

Durante uma fração de segundo, encontrara Avelar.

Não o corpo.

A alma.

Mas havia alguma coisa junto dela.

Algo profundo.

Antigo.

Ithely não sabia o quê.

E pela primeira vez em muito tempo sentiu uma emoção que não gostava de reconhecer.

Medo.

Mendragon abaixou a cabeça.

Ithely imediatamente soube o significado daquele gesto.

As presas.

Ele fazia aquilo antes de punir alguém com sua mordida.

O veneno de Mendragon não matava rapidamente.

Primeiro, a pele apodrecia.

Depois os músculos.

Então os órgãos começavam a falhar.

A vítima permanecia consciente durante boa parte do processo.

— Venha até mim, filha.

A voz estava baixa.

Ithely sentiu lágrimas ameaçarem surgir.

Não permitiria.

Jamais.

Respirou profundamente.

Ergueu o queixo.

Então começou a caminhar.

Um passo.

Outro.

Suas botas afundavam levemente nas cinzas.

Mendragon continuava com a cabeça abaixada.

Esperando.

Ithely aproximou-se do corpo de Avelar.

Passou ao lado dela.

Um passo.

Dois.

Então alguma coisa se moveu.

Ithely virou o rosto.

Não teve tempo de reagir.

Avelar abriu os olhos.

Seu corpo levantou-se violentamente.

Uma mão fechou-se ao redor do pescoço de Ithely.

— O quê...?

Avelar a arrastou pelo salão.

Rápido.

Forte.

Viva.

Ithely sentiu as costas chocarem-se contra uma das grandes colunas.

O impacto rachou a pedra.

Mendragon levantou-se do trono.

Avelar pressionou o braço contra a garganta da princesa.

Seus olhos estavam completamente abertos.

Mas havia algo diferente neles.

Algo que não estava ali antes.

Ela respirava como alguém que acabara de emergir debaixo d'água.

Olhou ao redor.

As cinzas.

O sangue.

O salão.

Mendragon.

Depois encarou Ithely.

Sua voz saiu grave.

Confusa.

Furiosa.

— O que aconteceu?!

Ithely não respondeu.

Porque, naquele momento, percebeu algo que fez seu sangue gelar.

O feitiço havia funcionado.

Avelar estava viva.

Mas...

Ithely ainda conseguia sentir a presença que encontrara do outro lado.

E ela não havia desaparecido.

Alguma coisa atravessara de volta com Avelar.

Em algum lugar do salão, uma voz que ninguém deveria conseguir ouvir sussurrou:

— Encontrei você.