Castelos
4 Neblina
Notas iniciais
— Eu fiz você reviver!
Ithely quase não conseguiu completar a frase.
Os dedos de Avelar apertavam seu pescoço contra a coluna com força suficiente para esmagar a garganta de uma criatura comum.
A princesa segurou o pulso da jovem com as duas mãos.
— Você... estava... morta...
Avelar arregalou os olhos.
Morta.
A palavra atravessou sua mente, mas parecia impossível compreendê-la.
Ela olhou para as próprias mãos.
Para o sangue seco em seus braços.
Para as cinzas espalhadas pelo salão.
Fragmentos surgiram em sua memória.
Soldados.
Garras.
Luz.
Dor.
O braço quase sendo arrancado.
O chão se aproximando.
Depois...
Nada.
Um vazio profundo.
Frio.
E uma voz.
Avelar tentou lembrar.
Havia escutado alguma coisa.
Alguém.
Ou talvez tivesse sonhado.
— Eu morri? — perguntou, ainda pressionando Ithely contra a coluna.
A princesa tentou responder.
Antes que pudesse, Avelar sentiu algo atravessar seu corpo.
Não era dor.
Era pior.
Seus músculos simplesmente deixaram de obedecer.
Os dedos se abriram.
Os braços caíram.
As pernas permaneceram rígidas.
Ela tentou mover a cabeça.
Nada.
Avelar estava completamente paralisada.
Ithely caiu de joelhos.
Tossiu violentamente, levando as mãos à garganta.
Depois ergueu os olhos para Avelar.
O ódio em seu rosto era tão evidente que, se pudesse, provavelmente arrancaria o coração da jovem ali mesmo.
Mas não fez isso.
Levantou-se.
E correu.
A grande porta de ouro abriu-se para ela.
Ithely desapareceu pelo corredor sem dizer uma palavra.
Avelar tentou chamar.
Não conseguiu sequer mover os lábios.
Então ouviu uma voz atrás de si.
— Você precisa aprender a se acalmar.
Mendragon.
Ele falava baixo.
Quase junto ao ouvido dela.
— Antes que eu mude de ideia e a mate novamente.
Avelar sentiu um arrepio.
O rei passou por seu lado.
Ela não conseguia acompanhá-lo com o rosto, apenas com os olhos.
Mendragon parou à sua frente.
Cruou os braços.
Por alguns segundos, apenas a observou.
Seu olhar misturava duas coisas que Avelar ainda não sabia distinguir.
Desprezo.
E expectativa.
— Mas você conseguiu.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Vai participar do torneio.
Avelar sentiu algo se desfazer dentro da própria mente.
Como fios sendo cortados.
Primeiro conseguiu mover os dedos.
Depois os braços.
Por fim, seu corpo voltou a lhe pertencer.
Ela cambaleou.
Precisou apoiar a mão em uma coluna.
— O que fez comigo?
Mendragon ignorou a pergunta.
— Agora vá até o Quarto de Degustação.
Começou a caminhar ao redor dela.
Avelar acompanhou seus movimentos desconfiada.
— Ithely estará esperando.
Mendragon observou-a da cabeça aos pés.
— Já cuidei da mente dela. Não fará mal a você.
Parou.
Pensou por um instante.
— Eu acho.
Soltou uma breve gargalhada.
Avelar ficou séria.
Para sua surpresa, Mendragon interrompeu o riso quase imediatamente.
— Perdão.
Sua expressão voltou a endurecer.
Avelar não compreendia aquele homem.
Em um instante parecia capaz de brincar.
No seguinte, parecia capaz de ordenar o massacre de uma cidade sem alterar a respiração.
Agora que estava tão próxima dele, conseguiu observá-lo melhor.
Os cabelos negros.
Aquela mecha branca caindo próxima à cicatriz.
As marcas de Flora.
O corpo imponente.
Avelar já ouvira histórias sobre a beleza de Mendragon.
Achara exagero.
Não era.
Isso a incomodava.
O monstro das histórias de sua infância não deveria ser bonito.
Mendragon percebeu que ela continuava olhando.
— O que ainda está fazendo aqui?
Avelar desviou os olhos.
— Eu...
— Quer limpar a sujeira que fez?
Ele apontou para as cinzas.
— Porque, nesse caso, posso providenciar uma vassoura.
Avelar fechou a boca.
Mendragon ergueu uma sobrancelha.
— Vá.
Ela se virou.
A porta de ouro abriu-se sozinha.
Avelar atravessou o salão.
Antes de sair, olhou uma última vez para trás.
Mendragon caminhava em direção ao trono.
Sua capa arrastava-se pelas cinzas de duzentos soldados mortos.
O pó levantava-se ao redor de suas botas.
Os longos cabelos negros desciam pelas costas.
E aquela mecha branca permanecia inconfundível.
A porta fechou-se.
Avelar encontrou o Quarto de Degustação antes mesmo de alcançar a porta.
Bastou seguir o som.
Vidro quebrando.
Madeira se partindo.
Gritos.
E alguma coisa pesada atingindo uma parede.
Quando chegou à entrada, encontrou Ithely completamente descontrolada.
A princesa lançou um jarro contra as pedras.
O recipiente explodiu.
Depois empurrou uma pequena mesa.
Chutou uma cadeira.
Um dos prisioneiros pendurados no recinto tentou se encolher, mesmo estando amarrado.
Avelar permaneceu na porta.
Aquilo provavelmente era mais perigoso do que enfrentar os duzentos soldados novamente.
Limpou a garganta.
Ithely congelou.
Virou lentamente o rosto.
Avelar levantou as mãos, mostrando que não pretendia atacá-la.
— Seu pai pediu que eu viesse até você.
Ithely desapareceu.
Avelar mal teve tempo de piscar.
A princesa surgiu diante dela.
Cara a cara.
Seus olhos azuis estavam carregados de ódio.
Os dentes rangiam.
A respiração estava pesada.
Por um instante, Avelar esperou sentir as mãos da princesa fechando-se ao redor de sua garganta.
Nada aconteceu.
Ithely permanecia ali.
Imóvel.
Furiosa.
Mas incapaz de atacar.
Avelar percebeu.
— Ele realmente entrou na sua mente.
Ithely não respondeu.
Depois da morte de Flora, quando as antigas alianças haviam se partido, as grandes raças passaram anos guerreando pelo domínio dos territórios.
Foi nessa época que os Sacros fizeram um acordo com uma bruxa chamada Akiré.
Em troca de um pântano inteiro, onde ninguém poderia entrar sem autorização, ela ensinaria parte das artes mágicas aos lobisomens ligados àquela ordem.
Alguns aprenderam encantamentos simples.
Outros dominaram proteção, ilusão e manipulação.
Os mais poderosos descobriram como invadir mentes vulneráveis.
Mendragon transformara aquilo em uma arma.
Ithely era poderosa.
Talvez uma das criaturas mais perigosas daquele reino.
Mas, diante do próprio pai, alguma parte de sua mente ainda podia ser acorrentada.
Ela respirou profundamente.
Então sorriu.
Um sorriso falso.
— Agora que você destruiu o salão real, matou duzentos soldados e desafiou o homem mais poderoso dessas terras...
Sua voz tornou-se absurdamente delicada.
— Ainda não compreendo por que ele não deixou você morta.
Enquanto falava, pegou uma estaca.
Sem sequer desviar os olhos de Avelar, ergueu o braço e cravou-a no corpo de um bruxo amarrado sobre uma pedra.
O homem gritou.
Avelar deu um pequeno passo para trás.
Ithely sorriu ainda mais.
— Ele quer que participe do torneio conosco.
Avelar esqueceu o prisioneiro.
— Conosco?
Ithely retirou a estaca.
Sangue escorreu pela madeira.
— Sim.
— Você vai participar?
A princesa virou-se.
Desta vez, seu sorriso pareceu genuíno.
— Claro que vou.
Colocou a estaca sobre a mesa.
— Já sabemos quem serão os representantes das raças há muito tempo.
Avelar franziu o cenho.
— Então para que existem os juízes?
Ithely caminhou até um armário.
Abriu uma das portas e retirou um pergaminho amarrado por uma fita escura.
— Teatro.
Voltou.
Abriu o documento diante de Avelar.
Havia um mapa.
Territórios.
Símbolos.
Nomes.
Alguns riscados.
Outros circulados.
— Uma bruxa lançou um encantamento para encontrar aqueles que deveriam participar.
Avelar aproximou o rosto.
— Encontrar?
— Os caçadores.
Ithely enrolou novamente o pergaminho.
— O julgamento público existe para demonstrar nossa força diante do povo. Para que eles acreditem que tudo depende de mérito.
Guardou o documento.
— É mais bonito assim.
Avelar sentiu algo se apertar dentro dela.
— Então minha prova...
— Foi real.
Ithely voltou-se para ela.
— Os soldados estão mortos. Você quase morreu. Meu pai gostou do espetáculo.
Fez uma pausa.
— Só não significa que você deveria estar aqui.
Avelar estreitou os olhos.
Ithely aproximou-se.
— Não pense que está representando os vampiros.
Havia ironia em sua voz.
Avelar permaneceu calada.
— Sangue puro — continuou Ithely. — Essa sempre foi uma das condições.
A princesa sabia exatamente onde ferir.
— E você definitivamente não possui sangue puro.
Avelar desviou o olhar.
Não sabia o que responder.
Ela própria não compreendia por que Mendragon lhe permitira participar.
Na verdade, naquele momento, ainda tentava aceitar algo muito mais simples.
Estava viva.
Tocou discretamente o próprio peito.
O coração batia.
Havia respirado.
Sentira dor.
Morrera.
E retornara.
Talvez fosse melhor não questionar a sorte.
Ithely observou-a.
Então abriu um sorriso estranho.
— Vamos.
— Para onde?
— Precisamos visitar Akiré.
Avelar sentiu desconforto imediatamente.
— A bruxa?
— Ela mesma.
Ithely passou por ela.
— Você precisa ser batizada para participar do torneio.
O pântano parecia não pertencer ao mesmo mundo.
Avelar percebeu isso assim que atravessou a primeira fileira de árvores.
Gostava de florestas.
Sempre gostara.
Árvores tinham caminhos.
Tinham sons conhecidos.
Havia pássaros.
Vento.
Folhas.
Até mesmo predadores obedeciam a determinadas regras.
Pântanos eram diferentes.
A água escondia o chão.
As árvores cresciam tortas.
Raízes surgiam de lugares inesperados.
E, acima de tudo, havia a neblina.
Ela cobria tudo.
Era tão espessa que Avelar mal conseguia enxergar alguns metros à frente.
Em certos pontos, Ithely parecia apenas uma silhueta loira caminhando diante dela.
Avelar aproximou a capa do corpo.
— Odeio este lugar.
— Ele também odeia você.
— Muito reconfortante.
Ithely continuou andando.
O som dos próprios passos parecia diferente ali.
A lama sugava suas botas.
Algo se movimentava dentro da água.
Avelar tentava não olhar.
— Você precisa ficar atenta — disse Ithely.
— Por quê?
— Mensageiros das Sombras.
Avelar franziu o cenho.
— O que são?
— Eles aparecem para verificar se somos intrusas.
— E como sabem?
Ithely abriu a boca.
Avelar gritou.
Alguma coisa agarrou seus cabelos.
Foi puxada violentamente para trás.
Caiu.
Suas costas atingiram o chão.
Antes que pudesse reagir, começou a ser arrastada pela lama.
— ITHELY!
A princesa virou-se.
Avelar tentava agarrar raízes, pedras, qualquer coisa.
Não havia ninguém segurando seus cabelos.
Pelo menos ninguém visível.
Ithely correu.
Em vez de atacar Avelar, cravou as garras no tronco de uma árvore.
Rasgou profundamente a casca.
Uma massa de musgo acinzentado caiu dos galhos.
Espalhou-se pelo ar.
Parte dele pousou sobre alguma coisa.
A criatura começou a aparecer.
Primeiro os braços.
Depois o torso.
Uma forma alta e fina.
Quase humana.
Mas não havia rosto.
A cabeça era completamente lisa, exceto por uma fenda vertical onde deveria estar a boca.
O Mensageiro soltou Avelar.
Ithely avançou.
A criatura desapareceu.
A princesa girou.
Um golpe invisível atingiu suas costas.
Avelar mal conseguia compreender a batalha.
Ithely aparecia de um lado.
Depois de outro.
O Mensageiro tornava-se visível sempre que o musgo grudava em seu corpo.
Então desaparecia novamente.
Garras.
Galhos quebrados.
Lama.
Avelar tentou levantar-se.
Seu couro cabeludo queimava.
Sentiu um puxão.
O Mensageiro havia agarrado seus cabelos outra vez.
Ithely apareceu atrás da criatura.
Havia uma lâmina em sua mão.
Avelar viu.
— Não!
Tarde demais.
A lâmina atravessou os cabelos negros.
Avelar caiu para frente.
O Mensageiro levou consigo uma grande porção dos fios.
Ithely atacou.
Desta vez, encontrou o pescoço.
A criatura soltou um ruído agudo.
Seu corpo transformou-se em uma fumaça negra que desapareceu entre as árvores.
Silêncio.
Avelar permaneceu ajoelhada.
Levou uma mão à cabeça.
Seus dedos percorreram os cabelos.
Pararam.
Curto.
Muito curto.
Os fios que antes desciam pelas costas agora terminavam pouco acima dos ombros.
Avelar ficou imóvel.
— Você cortou meu cabelo.
Ithely limpou a lâmina.
— Não havia outra maneira.
Avelar passou a mão pela cabeça novamente.
Seu peito começou a doer.
Não pela vaidade.
Por Zárlia.
Desde a morte da mãe, Avelar quase nunca permitira que alguém cortasse seus cabelos.
Zárlia costumava penteá-los.
Ainda criança, Avelar sentava-se diante dela enquanto a mãe desembaraçava cada mecha com paciência.
Era uma das poucas lembranças que ainda conseguia reconstruir perfeitamente.
O toque.
A voz.
O perfume.
Manter os cabelos longos havia se transformado em uma maneira silenciosa de manter alguma coisa de Zárlia viva.
Agora estavam no chão.
Na lama.
Ithely começou a caminhar.
— Eu havia esquecido.
Avelar levantou lentamente o rosto.
— Esquecido o quê?
Ithely olhou por cima do ombro.
— Faz parte do acordo.
Avelar não se moveu.
— Que acordo?
— Só a bruxa pode usar cabelos longos dentro deste pântano.
Houve um silêncio.
Então Avelar compreendeu.
Observou os cabelos de Ithely.
Também terminavam acima dos ombros.
Olhou novamente para a princesa.
Ithely estava sorrindo.
— Você sabia.
A loira continuou andando.
— Sabia o quê?
Avelar correu.
Parou diante dela.
— Você sabia disso desde o início!
Ithely parou.
As duas ficaram frente a frente.
Por alguns segundos, nenhuma falou.
Avelar sentia os olhos arderem.
Não choraria.
Não diante dela.
Ithely também tinha motivos para odiá-la.
Avelar a atacara.
Humilhara.
E, por causa dela, Mendragon ameaçara a própria filha de morte.
Nenhuma das duas queria estar ali.
Mas ambas estavam presas.
Ithely precisava obedecer ao pai para continuar viva.
Avelar precisava obedecer para continuar no torneio.
E o sonho de entrar para a Grande Adaga ainda era maior que sua raiva.
Ela saiu do caminho.
Ithely passou.
Avelar continuou seguindo alguns passos atrás.
Durante muito tempo, caminharam sem dizer nada.
Então Ithely quebrou o silêncio.
— Eu não posso matar você.
Avelar não respondeu.
— Mas precisava me vingar de alguma maneira.
Avelar apertou os lábios.
Uma lágrima finalmente escapou.
Ela a enxugou rapidamente.
Ithely não viu.
Ou fingiu não ver.
As duas desapareceram juntas dentro da neblina.
O casebre surgiu quando Avelar já começava a acreditar que jamais encontrariam coisa alguma naquele lugar.
Era pequeno.
Velho.
Torto.
Madeira escura.
Telhado coberto de musgo.
Havia ossos pendurados próximos às janelas e pequenos sinos amarrados aos galhos.
Avelar parou.
— Esta é a casa dela?
— Infelizmente.
Ithely subiu os dois degraus.
Bateu.
Toc.
Toc.
Toc.
Uma voz idosa veio de dentro.
— Só um momento!
Avelar olhou para Ithely.
— Parece...
— Não diga.
— ...normal.
Ithely fechou os olhos.
— Você disse.
Esperaram.
Ouviram passos arrastados.
Algo caiu lá dentro.
Depois um resmungo.
Finalmente, a porta rangeu.
Uma senhora apareceu.
Era baixa.
Extremamente curvada.
Os cabelos brancos eram ralos.
O rosto estava coberto por rugas.
A mulher aproximou-se demais das duas, apertando os olhos como se não conseguisse enxergar.
— Ah...
Olhou para Ithely.
Depois para Avelar.
— Eu estava esperando vocês, mocinhas.
Avelar se surpreendeu.
— Estava?
— Mendragon disse que viriam.
A velha abriu mais a porta.
— Entrem. Entrem.
Ithely atravessou primeiro.
Avelar veio logo atrás.
Assim que passou pela porta...
Parou.
O casebre não existia.
Ou, pelo menos, não por dentro.
Avelar ergueu o rosto.
Diante dela havia um enorme palácio.
O teto desaparecia dezenas de metros acima.
Colunas douradas sustentavam passarelas.
Cristais brilhavam presos às paredes.
Objetos de ouro estavam espalhados por estantes.
Pedras preciosas decoravam móveis.
Havia tapeçarias.
Esculturas.
Relógios.
Livros.
E dezenas de retratos.
Mulheres.
Bruxas.
Algumas jovens.
Outras velhas.
Algumas belas.
Outras monstruosas.
Avelar olhou para trás.
A porta pela qual passara ainda parecia pertencer a um pequeno casebre.
— Como...?
— Não tente entender — murmurou Ithely.
A velha sorriu.
— Sentem-se.
Apontou para um grande sofá negro.
— Vou buscar alguma coisa para beber. Vocês devem estar cansadas.
Ela desapareceu por uma porta.
Avelar sentou-se.
Ithely permaneceu alguns segundos olhando na direção em que a bruxa havia desaparecido.
Então se virou rapidamente.
— Não se engane.
Avelar franziu o cenho.
— Com o quê?
— A aparência.
Ithely aproximou-se.
Falava baixo.
— Esse não é o verdadeiro corpo dela.
Avelar olhou para a cozinha.
— O quê?
— Fique atenta.
Ithely observava tudo ao redor.
Pela primeira vez desde que Avelar a conhecera, a princesa parecia realmente nervosa.
Não irritada.
Não furiosa.
Nervosa.
— Essa velha é traiçoeira.
— Você tem medo dela?
Ithely lançou-lhe um olhar.
— Tenho inteligência.
A velha voltou.
Carregava uma bandeja.
Sobre ela havia três xícaras.
Uma verde.
Uma vermelha.
Uma branca.
— Bom, meninas...
Sentou-se em uma cadeira simples de madeira diante delas.
Colocou a bandeja sobre a mesa de centro.
— Fiquem à vontade. Já sei por que vieram.
Silêncio.
Avelar esperou que a mulher distribuísse as bebidas.
Ela não fez isso.
Apenas permaneceu sorrindo.
Ithely olhou para as xícaras.
Avelar percebeu imediatamente que alguma coisa estava acontecendo.
A princesa parecia pensar.
Analisar.
Tentava descobrir qual recipiente era seguro.
Verde.
Vermelho.
Branco.
Ithely chegou a uma conclusão.
— Para quebrar o silêncio, tomo a liberdade de me servir.
Curvou levemente a cabeça.
— Se a rainha Akiré permitir.
A velha fez o mesmo gesto.
Ithely pegou a xícara vermelha.
Avelar a observou.
Akiré escolheu a verde.
Restou apenas a branca.
Avelar hesitou.
Olhou novamente para Ithely.
A princesa tomou um gole.
A velha também.
Avelar pegou a xícara branca.
Levou-a aos lábios.
Doce.
Um gosto estranho.
Algo entre frutas e ervas.
As três devolveram as xícaras à bandeja.
Ithely parecia satisfeita.
Quase segurava o riso.
Akiré levantou-se.
Pegou a bandeja.
— Estava boa a bebida?
Avelar olhou para Ithely, esperando que respondesse.
A princesa permaneceu em silêncio.
— Ithely?
Nada.
Avelar tocou seu braço.
Rígido.
— Ithely?
O corpo estava duro como pedra.
Os olhos abertos.
Sem piscar.
Sem reação.
Avelar levantou-se imediatamente.
— O que fez com ela?!
Nenhuma resposta.
A velha havia desaparecido.
Avelar tentou encontrar seus poderes.
Nada.
Nem força.
Nem telepatia.
Nem aquela sensação animal que sempre permanecia escondida em algum lugar de seu corpo.
Estava indefesa.
— Akiré!
Ouviu passos.
Virou-se.
Uma mulher entrou na sala.
Avelar parou.
Longos cabelos ruivos desciam quase até a cintura.
A pele era clara.
Os olhos brilhavam com inteligência.
Usava um vestido azul comprido, justo na cintura e fluido nas pernas.
Era jovem.
Bela.
Sedutora.
Parecia ter talvez trinta anos.
A mulher sentou-se exatamente na mesma cadeira que a velha ocupara antes.
Avelar recuou.
— Quem é você?
A desconhecida soltou uma pequena risada.
Inclinou a cabeça para o lado.
Havia algo quase infantil no gesto.
— Eu sou Akiré, Avelar.
Avelar ficou imóvel.
Olhou para a cozinha.
Depois para ela.
— A velha...
— Também sou eu.
— Então Ithely...
Akiré observou a princesa petrificada.
— Pensou muito alto.
Avelar não compreendeu.
A bruxa sorriu.
— Ela acreditou que eu colocaria algo na xícara branca porque seria a escolha óbvia.
Olhou para Ithely.
— Depois imaginou que escolher a vermelha seria muito inteligente.
Akiré cruzou as pernas.
— Portanto, coloquei a poção na vermelha.
Avelar olhou para sua própria xícara.
— E a branca?
— Chá.
— Só chá?
— Camomila.
Avelar permaneceu desconfiada.
Akiré sorriu.
— Você deveria beber mais. Está sempre tão tensa.
Avelar não achou graça.
— O que quer conosco?
A expressão da bruxa mudou.
O sorriso permaneceu.
Mas alguma coisa nos olhos desapareceu.
Akiré levantou-se.
— Venha comigo.
Caminhou em direção a uma escadaria próxima à cozinha.
— Não temos muito tempo.
Avelar olhou para Ithely.
— E ela?
— Ficará bem.
— Quando?
Akiré começou a subir.
— Quando eu decidir.
Avelar hesitou.
Sem poderes.
Dentro da casa de uma bruxa capaz de transformar um casebre em palácio.
Longe de Mendragon.
Longe de qualquer ajuda.
Talvez seguir aquela mulher fosse a pior decisão possível.
Mas alguma coisa lhe dizia que não tinha escolha.
Começou a subir.
Akiré não olhou para trás.
— Outra coisa.
Avelar esperou.
— Akiré é o nome que Mendragon conhece.
A bruxa tocou o corrimão.
Por onde seus dedos passavam, pequenas flores surgiam na madeira.
Avelar observou fascinada.
— Você pode me chamar pelo meu verdadeiro nome.
A mulher finalmente olhou para ela.
— Érica.
Avelar sentiu algo estranho.
O nome pareceu comum demais para alguém como ela.
— Érica...
— Sim.
A bruxa sorriu.
Desta vez, sem ironia.
Sem doçura fingida.
Parecia quase triste.
Então disse:
— E eu tenho uma missão para você.
Avelar parou no degrau.
— Uma missão?
Érica continuou subindo.
— Mendragon acredita que trouxe você aqui para ser batizada.
Avelar sentiu o coração acelerar.
A bruxa desapareceu no andar superior.
Sua voz voltou através da neblina que, inexplicavelmente, começava a escorrer pela escadaria.
— Mendragon acredita em muitas coisas.
Avelar ficou imóvel.
Uma fumaça branca começou a envolver seus pés.
Então ouviu a última frase de Érica:
— Principalmente naquelas que eu fiz questão de fazê-lo acreditar.
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