Castelos

5 O que os olhos não veem o coração não sente.


Notas iniciais
Esse capítulo foi muito difícil de escrever, pois eu estava sem inspiração rsrsrs. Mas eu espero muito que gostem, pois eu me esforcei muito para escreve-lo. Quero agradecer as pessoas que comentaram, vocês sem dúvidas levantaram minha motivação. Eu lhe deixo esse capítulo emocionante. Quando Avelar descobre a verdade sobre a morte de sua mãe. E abaixo as imagens das personagens, quer dizer em quem me inspirei para compô-las: Ithely: http://orig13.deviantart.net/266b/f/2011/149/a/5/pixie_lott_by_floppe-d3hi8ml.jpg Avelar: http://litbimg.rightinthebox.com/images/384x384/201209/bjd1346816381859.jpg Érica: http://www.dinet.tv/wp-content/uploads/2012/11/20150408-cabelo-ruivo-cacheado.jpg Mendragon: http://images.orkut.com/orkut/photos/OQAAAChmQyhs05a02DtoADSZudtS8h9MjOrDXLQGodiVMCfh4abeXDYzuSDZJqKgQtYSlCIFiXn7TZ1uKXVOTL-rRjIAm1T1UDgqEe5KLGMj726d6N6af08PVfmQ.jpg (Mas imaginem ele com o cabelo maior e uma mecha banca e uma cicatriz no olho.)

A escadaria parecia não terminar.

Avelar seguia Érica em silêncio, contando os degraus para ocupar a mente e impedir que o medo crescesse.

Vinte e oito.

Vinte e nove.

Trinta.

Depois desistiu.

Não fazia sentido.

Por fora, aquela construção era um casebre pequeno o bastante para ser atravessado em poucos passos. Por dentro, possuía salões, corredores e escadarias que pareciam pertencer a um castelo inteiro.

Ali, espaço não significava nada.

Talvez tempo também não.

Érica parou diante de uma porta negra.

Não havia maçaneta.

Nenhuma fechadura.

Somente um desenho entalhado na madeira: um olho fechado.

A bruxa encostou dois dedos sobre ele.

O olho se abriu.

A porta também.

Do outro lado havia apenas escuridão.

Avelar parou.

— Entre.

— Não consigo ver nada.

Érica olhou para ela e sorriu com aquela mesma doçura infantil que, por alguma razão, deixava Avelar ainda mais desconfortável.

— Às vezes é preciso não enxergar para conseguir ver.

— Isso não faz sentido.

— As melhores verdades raramente fazem.

Érica entrou.

Avelar respirou fundo e a seguiu.

A porta fechou-se atrás dela.

Escuridão.

Completa.

Avelar instintivamente fechou os punhos.

Tentou sentir a energia nas palmas das mãos.

Nada.

Tentou despertar seus sentidos de caça.

Nada.

Naquela casa, seus poderes permaneciam sufocados pela magia da bruxa.

Se alguma coisa acontecesse, teria somente o próprio corpo para se defender.

— Érica?

Nenhuma resposta.

Então ouviu um sopro.

Uma pequena chama azul nasceu diante delas.

Não vinha de uma vela.

Saía da boca da bruxa.

A luz atravessou a sala como um fio luminoso e começou a se multiplicar pelo teto, pelas paredes e pelo chão.

Um clarão azulado revelou o recinto.

Avelar perdeu o ar.

Espelhos.

Centenas deles.

Grandes.

Pequenos.

Redondos.

Quadrados.

Alguns perfeitamente conservados.

Outros rachados.

Havia espelhos nas paredes, no teto e até partes do chão.

Avelar estava cercada por si mesma.

Dezenas de Avelares observavam-na.

Algumas pareciam assustadas.

Outras furiosas.

Outras simplesmente vazias.

Ela deu um passo.

Todos os reflexos fizeram o mesmo.

— Não gosto daqui.

Érica não respondeu.

Estava de costas.

Aquela era a primeira vez que Avelar conseguia observá-la verdadeiramente sem que a bruxa estivesse olhando diretamente para ela.

Érica trajava agora uma longa capa negra.

Os cabelos ruivos e cacheados desciam pelas costas como labaredas.

Pareciam quase vivos sob aquela iluminação azul.

Havia algo contraditório naquela mulher.

Seus gestos eram delicados.

Quase leves.

Movia as mãos como se estivesse conduzindo uma dança invisível.

Sua voz tinha a suavidade de alguém contando uma história para uma criança.

Mas, quando falava, havia uma autoridade difícil de explicar.

Não precisava gritar para deixar claro que não deveria ser contrariada.

Érica ergueu as mãos.

Começou a murmurar.

Avelar tentou compreender.

Não conseguiu.

Palavras antigas escapavam de seus lábios em forma de sussurros.

Algumas pareciam humanas.

Outras não pareciam pertencer a língua alguma.

Os espelhos começaram a vibrar.

Avelar fechou ainda mais os punhos.

Então Érica parou.

Virou-se.

— Venha, menina.

— Para quê?

— Preciso lhe mostrar algo.

Apontou.

Entre todos os espelhos da sala, apenas um possuía uma moldura diferente.

Ouro.

Ficava exatamente diante delas.

Era alto o bastante para refletir o corpo inteiro de Avelar.

— O que tem nele?

Érica sorriu.

— Verdades.

Avelar não gostou da resposta.

Mesmo assim, começou a caminhar.

No primeiro passo, ouviu um estalo.

Parou.

O espelho havia rachado.

Uma linha atravessava seu próprio reflexo.

Avelar olhou para Érica.

— Isso deveria acontecer?

— Sim.

Outro passo.

Craque.

Mais uma rachadura.

Depois outra.

E outra.

Quanto mais Avelar se aproximava, mais o vidro se quebrava.

Seu reflexo começou a se dividir em dezenas de pedaços.

Olhos.

Boca.

Mãos.

Tudo fragmentado.

Ela parou novamente.

— Érica...

— Continue.

— O espelho vai quebrar.

— Essa é a intenção.

Avelar hesitou.

A bruxa estendeu a mão.

— Não tenha medo.

— Isso é fácil para você dizer.

Érica sorriu.

— A magia está tentando lhe contar um segredo.

Avelar fitou a mão oferecida.

Depois o espelho.

Finalmente aproximou-se.

As duas começaram a caminhar juntas.

A cada passo, novas rachaduras surgiam.

Quando ficaram tão próximas que Avelar poderia tocar o próprio reflexo...

O espelho explodiu.

Ela gritou e protegeu o rosto.

Mas nenhum fragmento a atingiu.

Avelar abriu os olhos.

Centenas de estilhaços estavam suspensos no ar.

Imóveis.

Brilhavam sob a luz azul como pequenas estrelas.

— Toque — ordenou Érica.

— Você enlouqueceu?

— É possível.

Avelar olhou para ela.

Érica fez um gesto na direção dos fragmentos.

— Toque.

Avelar estendeu lentamente a mão.

A ponta de seu dedo encontrou um dos estilhaços.

Não sentiu vidro.

Sentiu frio.

O fragmento transformou-se em neve.

Derreteu sobre sua pele.

Os outros começaram a fazer o mesmo.

Em poucos segundos, a parede de espelhos havia desaparecido.

E atrás dela...

Havia uma floresta.

Avelar arregalou os olhos.

Neve cobria o chão.

Pinheiros enormes erguiam-se em direção a um céu cinzento.

Uma brisa gelada atravessou a passagem e tocou seu rosto.

— Onde estamos?

Érica segurou delicadamente seu pulso.

— Corra, menina.

— O quê?

A bruxa a puxou.

— Não temos tempo a perder.


O frio atingiu Avelar imediatamente.

A neve afundava sob seus pés.

Ela olhou para trás.

A sala dos espelhos continuava visível através da passagem, como se uma porta invisível conectasse dois lugares que jamais deveriam tocar-se.

Érica caminhava rapidamente.

— Onde fica esta floresta?

— Longe.

— Isso não responde.

— Nem toda pergunta precisa ser respondida no momento em que é feita.

— Você fala assim de propósito?

Érica riu.

— Quase sempre.

Avelar revirou os olhos.

Continuaram.

Pouco depois, chegaram diante de um lago.

Aquilo pareceu ainda mais impossível.

Toda a floresta estava coberta de neve, mas as águas permaneciam líquidas.

Nenhuma camada de gelo.

Nenhuma ondulação.

A superfície parecia um enorme espelho escuro.

Érica parou diante dele.

— É aqui.

— Aqui onde?

— Onde você verá aquilo que precisa ver.

Avelar cruzou os braços.

— Você disse que tinha uma missão para mim.

— Tenho.

O sorriso desapareceu do rosto da bruxa.

Pela primeira vez, Érica parecia verdadeiramente séria.

— Mas antes precisa compreender por que escolhi você.

Avelar franziu o cenho.

— Escolheu?

— Para vencer o torneio.

Silêncio.

Avelar olhou para ela.

— Você?

— Sim.

— Mendragon me colocou no torneio.

Érica soltou uma pequena risada.

— Mendragon colocou você onde eu precisava que estivesse.

Avelar ficou imóvel.

A bruxa aproximou-se.

— Alguns participantes vão trapacear.

— Ithely?

— Não somente ela.

Érica voltou os olhos para o lago.

— Existem interesses muito maiores envolvidos nesse torneio do que glória ou reconhecimento.

Fez uma pausa.

— Eu preparei você para isso.

— Preparou como?

Érica olhou para ela.

— Você terá o poder de três bruxas.

Avelar quase riu.

Até perceber que ela estava falando sério.

— Três?

— Abalý.

Avelar congelou.

— Ícara.

Seus olhos se arregalaram.

— Xenôn.

— As bruxas do Pântano Vermelho?

Érica sorriu.

— Exatamente.

Avelar deu um passo para trás.

As histórias sobre aquelas três eram contadas para assustar até vampiros adultos.

Abalý, a bruxa das enfermidades.

Ícara, senhora das ilusões.

Xenôn, aquela que conversava com coisas que não deveriam possuir voz.

— Elas estão mortas.

— Estar morto nunca impediu ninguém de ser útil.

Avelar pensou imediatamente em si mesma.

Érica percebeu.

— Como você já deveria saber.

Avelar respirou fundo.

— E como vou receber os poderes delas?

— No momento certo.

— Por que eu?

O sorriso de Érica desapareceu.

— Porque você consegue carregá-los.

— Isso não é uma explicação.

— É a única que posso dar agora.

Avelar abriu a boca para insistir.

A bruxa ergueu uma mão.

— Não temos tempo.

Então se aproximou.

Tocou o rosto da jovem.

Virou-o delicadamente na direção do lago.

— Três coisas.

— O quê?

— O destino lhe mostrará três coisas.

Avelar observou a água.

— Quero que preste atenção.

— Érica...

— Não importa o quanto doa.

Avelar sentiu um aperto no peito.

A superfície do lago começou a se mover.


Duas figuras apareceram sobre a água.

Primeiro eram apenas manchas.

Depois ganharam forma.

Duas meninas.

Avelar esqueceu de respirar.

Uma delas possuía cabelos negros presos em uma longa trança que quase tocava os pés.

Seu sorriso.

Seu rosto.

Seus olhos.

Avelar reconheceria aquela pessoa em qualquer idade.

— Mãe...

A palavra saiu quebrada.

Zárlia.

Jovem.

Viva.

Brincava na margem do lago como se nenhuma tragédia jamais tivesse acontecido.

Avelar levou uma das mãos à boca.

As lágrimas vieram antes que pudesse controlá-las.

Durante tantos anos lembrara da mãe doente.

Do leito.

Do sangue.

Das últimas palavras.

Agora a via sorrindo.

— Zárlia...

Ao lado dela estava outra menina.

Também tinha cabelos negros, mas muito mais curtos, terminando próximos ao pescoço.

As duas corriam.

Empurravam uma à outra.

Riam.

Pareciam inseparáveis.

— Quem é ela?

Érica respondeu rapidamente:

— Muriel.

Avelar olhou para a bruxa.

— Minha mãe.

Érica continuava olhando para o lago.

— Nossas mães eram amigas.

Avelar voltou sua atenção à visão.

Zárlia corria atrás de Muriel.

As duas chegaram muito próximas da água.

Uma empurrou a outra.

Perderam o equilíbrio.

Antes de desaparecerem dentro do lago, Avelar ouviu a voz de sua mãe.

— Muriel!

As meninas caíram.

— Muriel!

A água envolveu seus corpos.

— Muriel!

A imagem desapareceu.

Avelar chorava abertamente agora.

Não se importava.

— Eu nunca soube.

Érica não respondeu.

— Minha mãe nunca falou dela.

— Havia muitas coisas sobre as quais Zárlia foi obrigada a permanecer calada.

A água voltou a se mover.

— Segunda verdade — murmurou Érica.

Uma nova figura apareceu.

Ithely.

Avelar enxugou rapidamente os olhos.

A princesa estava em uma sala que Avelar não reconhecia.

Caminhava de um lado para o outro.

Parecia nervosa.

Esperava alguém.

Uma segunda mulher surgiu.

Avelar imediatamente observou seus cabelos negros na altura dos ombros.

A pele parda.

As feições delicadas.

Olhou para Érica.

— Muriel?

A bruxa assentiu.

Sua expressão havia mudado.

Não havia doçura agora.

Somente dor.

As duas mulheres começaram a conversar.

Avelar não conseguia ouvir.

Ithely gesticulava violentamente.

Muriel parecia tentar acalmá-la.

— O que estão dizendo?

— A água não guarda todas as palavras.

— Por quê?

Érica apertou os punhos.

— Porque até a memória tem medo de algumas verdades.

Avelar voltou-se para a visão.

Muriel aproximou-se de Ithely.

Então aconteceu.

Ithely agarrou-a.

Muriel gritou.

Avelar recuou.

Uma luz começou a escapar do corpo da mulher.

Não era sangue.

Parecia algo mais profundo.

Mais vivo.

A essência.

Ithely estava sugando sua força.

Muriel tentou escapar.

Não conseguiu.

Em poucos segundos, sua pele perdeu a cor.

Seu corpo secou.

A forma se desfez.

Cinzas.

Avelar olhou horrorizada para Érica.

A bruxa não piscava.

Uma lágrima desceu por seu rosto.

— Ela matou sua mãe.

Érica permaneceu em silêncio.

No lago, a última partícula de Muriel desapareceu.

A visão terminou.

As águas começaram a escurecer novamente.

— Há uma terceira — disse Érica.

Avelar sentiu medo.

Se aquela era apenas a segunda...

— Não sei se quero ver.

Érica segurou seu braço.

— Precisa.

A superfície do lago começou a ondular.

Alguma coisa estava prestes a aparecer.

Então uma voz ecoou pela floresta.

— AVELAR!

Ela virou-se.

— AVELAR!

Ithely.

A princesa estava do outro lado do portal.

Na sala dos espelhos.

Parecia desesperada.

— SAIA DAÍ!

Avelar recuou.

— Ithely?

— NÃO ACREDITE NELA!

Érica segurou seu braço com força.

— Olhe para o lago!

Avelar virou-se.

Uma nova imagem começava a surgir.

Ainda distorcida.

Uma silhueta.

— Avelar, preste atenção!

A voz de Ithely veio novamente.

— ELA VAI MATAR VOCÊ!

Avelar puxou o braço.

Érica não soltou.

Pela primeira vez, a bruxa parecia assustada.

— Não!

— Solte-me!

— Você precisa ver!

— Solte!

— Não perca o segredo!

Avelar olhou para o lago.

Por uma fração de segundo, reconheceu cabelos negros.

Uma capa.

Alguém caído.

Talvez sua mãe.

Talvez não.

— AVELAR!

Ithely gritou novamente.

O medo venceu.

Avelar empurrou Érica.

A bruxa não esperava.

Seu corpo caiu dentro do lago.

A água explodiu.

A visão desapareceu.

Avelar correu.


— Vamos!

Ithely estendeu a mão.

Avelar atravessou o portal.

Assim que retornou à sala dos espelhos, as duas correram em direção à porta.

— O que aconteceu? — perguntou Avelar.

— Depois!

— Ela disse...

— DEPOIS!

Chegaram à saída.

Pararam.

Érica estava ali.

De costas.

Imóvel diante da porta.

Ithely segurou o braço de Avelar.

— Para trás.

As duas começaram a recuar.

Érica virou lentamente o rosto.

Seus cabelos estavam molhados.

Água escorria pela capa.

Seu olhar permanecia calmo.

Isso assustou Avelar mais do que se estivesse furiosa.

— Corram — murmurou Ithely.

Elas se viraram.

Tarde demais.

Érica ergueu uma das mãos.

Uma onda azul atravessou a sala.

Avelar sentiu o mundo desaparecer.

Caiu antes mesmo de perceber que estava caindo.


Escuridão.

Avelar abriu os olhos.

Havia alguma coisa em sua mão.

Uma lamparina.

Uma pequena chama iluminava seu rosto.

— Onde estou?

Sua voz ecoou.

Caverna.

Ela estava dentro de uma caverna.

As paredes eram úmidas.

Havia água pingando em algum ponto distante.

Não conseguia ver saída alguma.

— Ithely?

Nada.

— Érica?

Silêncio.

Então ouviu uma voz.

Não vinha de frente.

Nem de trás.

Parecia nascer dentro da própria cabeça.

— Você precisava conhecer o segredo.

Érica.

Avelar girou.

— Onde você está?

— Por isso precisei fazê-la dormir.

A chama da lamparina tremulou.

— Quando despertar, precisará ser forte.

Avelar começou a caminhar.

— Mostre-se!

Nenhuma resposta.

— O torneio está chegando.

A voz ecoou por toda a caverna.

— E você ainda não compreende a guerra da qual está prestes a fazer parte.

Avelar parou.

— Quem é você?

Silêncio.

Então a voz respondeu:

— Eu sou Érica.

A chama tornou-se azul.

— Herdeira da Noite.

Avelar apertou a lamparina.

— Filha de Muriel.

Sombras começaram a se mover pelas paredes.

— Da linhagem dos Alfa.

Avelar sentiu o coração acelerar.

— E acredito em você.

— Por quê?

— Porque sua mãe acreditava.

Avelar congelou.

— Você conhecia minha mãe?

— Mais do que imagina.

A voz pareceu aproximar-se.

— Portanto, escute.

Avelar não respirava.

— Sua mãe não morreu no torneio.

A chama apagou por um instante.

Voltou.

— O quê?

— Zárlia foi assassinada.

Avelar sentiu as pernas enfraquecerem.

— Não...

— Mentiram para você.

— Não.

— Transformaram sua morte em uma história conveniente.

— Quem?

O silêncio durou alguns segundos.

Então Érica respondeu:

— Ithely.

O coração de Avelar pareceu parar.

— Não.

— Ithely matou sua mãe.

As lágrimas começaram a descer.

— Como matou Muriel.

Avelar recuou.

— Não...

— Como matou tantas outras pessoas.

A chama da lamparina começou a diminuir.

— E como pretende matar você.

— Por que eu deveria acreditar em você?

A voz demorou a responder.

— Não deveria.

Avelar arregalou os olhos.

— Acredite naquilo que descobrir.

A chama estava quase apagando.

— Observe.

— Espere!

— Escute.

— Érica!

— Finja.

Avelar correu pelo escuro.

— ÉRICA!

— E quando chegar a hora...

A chama desapareceu.

A última frase ecoou na escuridão:

— Faça com que ela jamais veja sua vingança chegando.


Avelar acordou bruscamente.

Levantou o corpo.

— Calma!

Ithely estava diante dela.

Avelar quase atacou.

Conseguiu parar.

Olhou ao redor.

O Quarto de Degustação.

De novo.

Como?

Ithely segurava uma capa cor de vinho.

— Fique quieta.

Avelar permaneceu imóvel.

A princesa colocou a capa sobre seus ombros.

No tecido havia um emblema bordado.

Uma espada atravessando um círculo.

O símbolo do torneio.

Avelar observava as mãos de Ithely.

Aquelas mãos.

Tinham segurado sua mãe?

Tinham arrancado sua essência?

Tinham assistido Zárlia transformar-se em pó?

Seu estômago revirou.

— Você não se lembra?

Ithely parou.

— Do quê?

Avelar tentou manter a voz normal.

— Do que aconteceu.

A princesa franziu o cenho.

— Você está louca?

Avelar sentiu o corpo gelar.

— É claro que lembro.

— O quê?

Ithely terminou de ajustar a capa.

— Fomos até a casa daquela bruxa insuportável.

Deu de ombros.

— Ela fez o seu batismo, entregou sua capa e voltamos.

Avelar permaneceu calada.

Ithely não se lembrava.

Nada da poção.

Nada da sala dos espelhos.

Nada da floresta.

Nada do lago.

Nada de Érica.

Avelar compreendeu.

A bruxa havia apagado sua memória.

Mas não a dela.

Por quê?

Porque queria que Avelar soubesse.

E queria que Ithely continuasse sem saber que Avelar sabia.

Não era um convite para atacar.

Era um aviso.

Espere.

Avelar fechou o rosto.

Precisava controlar-se.

O ódio queimava em seu peito.

Queria agarrar Ithely naquele instante.

Queria perguntar sobre Zárlia.

Queria obrigá-la a contar a verdade.

Queria vê-la sofrer.

Mas Érica estava certa em uma coisa.

Se atacasse agora, seria morta.

Mendragon não permitiria que tocasse em sua filha.

Além disso...

Avelar precisava descobrir se tudo aquilo era verdade.

Precisava de provas.

E, caso fosse...

Precisaria de uma forma de matar Ithely sem pagar pelo crime.

Um álibi.

Um acidente.

O torneio.

Avelar olhou para a capa vinho.

Talvez o próprio torneio lhe desse a oportunidade.

Ithely terminou de apertar o laço.

— Pronto.

Avelar levou uma das mãos à cabeça.

Fez uma expressão de dor.

— Claro...

Ithely olhou para ela.

— O quê?

Avelar sorriu.

— Por um momento fiquei tonta.

Ithely não demonstrou qualquer preocupação.

— Você morreu hoje. Imagino que tontura seja o menor dos problemas.

Pegou sua própria capa.

Avelar continuou sorrindo.

Observava-a.

O sorriso escondia náusea.

Raiva.

Ódio.

E uma vontade que ainda não conseguia admitir nem para si mesma.

Ithely amarrou a capa.

— Vamos.

— Para onde?

A princesa caminhou em direção à saída.

— Precisamos nos apresentar aos juízes.

Avelar a seguiu.

As duas caminharam lado a lado pelos corredores.

Ithely falava alguma coisa sobre as regras do torneio.

Avelar não escutava.

Só observava seu pescoço.

Imaginava suas garras atravessando aquela pele.

Imaginava a cabeça de Ithely separada do corpo.

Imaginava Zárlia.

Mas não faria nada.

Ainda.

Avelar tocou discretamente o emblema em sua capa.

Se Ithely realmente matara sua mãe, haveria um momento certo.

Um lugar certo.

E uma maneira de fazer com que todos acreditassem que sua morte não passara de consequência do torneio.

Avelar continuou caminhando.

Sorrindo.

Como se nada tivesse acontecido.

Afinal...

o que os olhos não veem, o coração não sente.

Notas finais
Por favor se você leu, deixe seu comentário para que eu possa fazer o próximo capítulo melhor ainda. :) Eu agradeço...