Castelos

1 Maçã Envenenada


Notas iniciais
Dedico este capitulo a Lucas Sousa que me aconselhou tanto a revisar meus textos e mesmo que às vezes fosse chato, suponho ter feito bem neste livro. Dedico também a Allana Emely que me inspirou a criar uma personagem tão cheia de atitude. A Valeria Magalhães por me mostrar o lado bom das coisas e apoiar meu talento, mesmo quando eu o desmerecia. E a todos que lerão, pois o escrevi com carinho e sem dúvida, com minha alma. The Green.

Avelar era apaixonada por maçãs.

Não sabia dizer exatamente quando aquele gosto se transformara em obsessão. Talvez tivesse começado muitos anos antes, quando sua mãe, Zárlia, colocou uma maçã vermelha em suas mãos ainda pequenas e lhe contou, à luz de três velas quase consumidas, uma das histórias mais antigas entre os vampiros.

Segundo a lenda, aqueles que se alimentassem também do fruto — e não somente de sangue — conseguiriam conservar a juventude por milhares e milhares de anos.

Zárlia nunca dissera se acreditava naquela história.

Avelar, sim.

Naquela tarde, sentada à margem do Lago de Araz, ela observava a marca de seus próprios dentes na polpa clara da maçã.

A fruta permanecia firme entre seus dedos pálidos. Algumas gotas de sumo escorriam por sua mão e desapareciam sob a manga de sua túnica.

O lago à sua frente parecia um enorme espelho negro.

As águas raramente se moviam naquele lugar.

Ao redor, as árvores da floresta se inclinavam sobre as margens como criaturas curiosas, enquanto o crepúsculo fazia o céu mudar lentamente do cinza para um violeta profundo. Pássaros retornavam aos ninhos, e seus cantos atravessavam as copas das árvores como avisos distantes.

Avelar não prestava atenção neles.

Seus olhos estavam presos em outro tempo.

Em outras palavras.

Em uma promessa.

— Você será maior do que todos eles — Zárlia lhe dissera certa vez. — Mas, para isso, precisará aprender que força e coragem não são a mesma coisa.

Na época, Avelar não compreendera.

Agora, quase cento e cinquenta anos depois, ainda não tinha certeza de compreender.

Ela era jovem para os padrões de sua espécie. Jovem demais, segundo alguns. Impulsiva demais, segundo quase todos.

Ainda assim, já havia decidido o que faria da eternidade que se estendia diante dela.

Seria uma Adaga.

Não apenas uma integrante qualquer.

Seria a maior entre eles.

A Grande Adaga era uma das mais respeitadas ordens de vampiros caçadores de recompensa. Seus membros cruzavam reinos, florestas proibidas, cidades humanas e terras onde nem mesmo exércitos ousavam entrar. Caçavam criminosos, criaturas amaldiçoadas, desertores e, algumas vezes, outros vampiros.

Ser aceito entre eles já era uma honra.

Ser lembrado entre eles era quase impossível.

Avelar queria o impossível.

— Avelar!

A voz rompeu suas lembranças.

Ela não se mexeu.

— Avelar! Por que você está aí parada pensando? O ritual da Caça às Pedras de Safira já vai começar!

Amélia estava próxima à entrada da floresta, alguns metros acima da margem. Colocava uma das mãos sobre os olhos na tentativa inútil de enxergar melhor através da luz enfraquecida do entardecer.

Avelar olhou por cima do ombro.

Amélia agitava os braços.

— Você ouviu?

Avelar finalmente se levantou.

A longa capa azul-turquesa deslizou pela grama úmida enquanto ela limpava a terra das roupas com uma das mãos.

— Não se preocupe comigo, Amélia.

— Eu sempre me preocupo com você.

— Quando as cornetas e os tambores tocarem, estarei pronta para a caçada.

Amélia estreitou os olhos.

— Você está planejando alguma coisa.

Avelar tornou a olhar para a maçã.

— Eu sempre estou planejando alguma coisa.

— Esse é exatamente o problema.

Pela primeira vez, surgiu um quase sorriso nos lábios de Avelar.

Amélia balançou a cabeça, derrotada.

— Não demore.

Virou-se e desapareceu entre as samambaias.

Avelar esperou até que não conseguisse mais ouvir seus passos.

Então se agachou.

Retirou um graveto do chão e começou a desenhar na terra.

Com a mão esquerda.

A direita ainda segurava a maçã.

Primeiro, desenhou o Lago de Araz.

Depois, as três trilhas conhecidas da floresta.

A Clareira das Corujas.

As ruínas do antigo aqueduto.

A passagem subterrânea que poucos Aqueus conheciam.

Por fim, marcou três pontos com pequenas cruzes.

— Se eu estivesse escondendo uma Pedra de Safira... — murmurou.

Os organizadores da caçada sempre escolhiam lugares perigosos.

Mas previsíveis.

A intenção não era matar os participantes.

Pelo menos, não oficialmente.

Avelar conhecia aquele bosque melhor do que muitos soldados de Mendragon. Passara anos entrando em locais proibidos, seguindo rastros que não deveria seguir e abrindo portas que claramente haviam sido construídas para permanecer fechadas.

A curiosidade lhe rendera castigos suficientes para preencher um livro.

Também lhe ensinara coisas que nenhum mestre ensinaria.

Terminou o mapa improvisado e analisou-o.

Seu dedo deslizou sobre um dos pontos.

A antiga entrada das galerias de Azamur.

Sorriu.

A primeira Pedra de Safira estaria ali.

Quase podia sentir.

Avelar fincou o graveto no chão, apagou parte do desenho com a bota e começou a caminhar.

A floresta engoliu seu corpo aos poucos.

O ar era frio e cheirava a folhas molhadas, musgo e resina.

A cada passo, os sons do acampamento da tribo ficavam mais próximos. Tambores eram testados ao longe. Homens gritavam ordens. Cavalos relinchavam.

Por entre os galhos, ainda era possível enxergar o sol, embora sua luz chegasse fraca àquela região. Nuvens escuras cobriam o céu quase constantemente, como se o próprio dia tivesse medo de permanecer por muito tempo sobre aquelas terras.

Uma rajada gelada atravessou a floresta.

Avelar parou.

Abraçou o próprio corpo.

Suas unhas percorreram o veludo da capa azul-turquesa.

Por alguns segundos, sentiu algo estranho.

Silêncio.

Os pássaros haviam parado de cantar.

Avelar levantou o rosto.

Nada se movia.

Nem as folhas.

Nem os galhos.

Então, tão repentinamente quanto desaparecera, o som retornou.

Ela franziu o cenho.

— Estranho...

Mas não tinha tempo para investigar.

Continuou.

Poucos minutos depois, alcançou a clareira da cerimônia.

Centenas de vampiros já se reuniam diante do grande altar.

O monumento havia sido construído inteiramente com pedras de Azamur, uma rocha rara, quase negra, atravessada por veios azulados que pareciam brilhar sob determinada luz.

Segundo os anciãos, aquelas pedras haviam sido conquistadas séculos antes, durante a batalha contra os espíritos do Lago dos Espinhais.

Alguns afirmavam que Azamur era indestrutível.

Outros diziam que as pedras ainda guardavam as vozes dos mortos daquela guerra.

Avelar nunca decidira em qual versão acreditava.

No alto do altar estava Cárdamo.

Oficial de Mendragon.

Ele caminhava de um lado para o outro, observando a multidão com ansiedade evidente.

A cada poucos segundos, erguia-se sobre a ponta dos pés, como se procurasse alguém.

Ao seu lado, sentada em um dos Bancos de Juízo, estava uma mulher que Avelar não reconheceu.

Devia pertencer ao conselho responsável pela escolha dos representantes que participariam da caçada.

Cárdamo inclinou-se em direção à mulher, cochichou alguma coisa e novamente examinou a multidão.

Então seus olhos encontraram Avelar.

Ele congelou.

Mesmo à distância, ela percebeu.

O oficial disse algo a um soldado.

O homem desceu imediatamente do altar.

Avelar observou enquanto ele atravessava a multidão em sua direção.

Era impossível não vê-lo.

Devia ter quase dois metros de altura. Ombros largos, braços enormes e uma cicatriz atravessando a lateral do pescoço.

Mas não foi seu tamanho que chamou a atenção de Avelar.

Foi a roupa.

Uma longa capa feita de pele escura cobria suas costas.

O fecho era de ferro.

Sobre o peito havia o símbolo de uma espada quebrada.

Avelar perdeu o sorriso.

Reconheceu imediatamente aquela vestimenta.

Não era o uniforme de batalha.

Era o uniforme fúnebre dos soldados.

Usado quando alguém estava prestes a morrer.

Ou quando os soldados acreditavam que poderiam não retornar.

— Por que ele está vestido assim? — sussurrou.

O homem parou diante dela.

— Avelar de Zárlia?

Ela não gostava quando a chamavam daquele modo.

— Depende de quem pergunta.

Ele segurou seu pulso.

Forte.

— Ei!

Avelar tentou puxar o braço.

O soldado não se moveu sequer um centímetro.

— Solte-me.

Ele virou lentamente o rosto em sua direção.

Seus olhos eram escuros.

As presas apareceram por trás dos lábios.

Um rosnado grave nasceu de sua garganta.

Avelar sustentou seu olhar.

Por um instante, cogitou atacá-lo.

Então voltou a observar a capa fúnebre.

Não.

Aquele homem não estava ali para discutir.

“Os soldados não vieram preparados para uma guerra”, pensou.

“Vieram preparados para a morte.”

Ela relaxou o braço.

— Muito bem.

O soldado a conduziu por entre a multidão.

Não disse uma única palavra.

Atrás do altar havia uma grande construção de madeira e pedra usada pelos participantes antes das cerimônias.

Assim que entrou, Avelar foi atingida por uma mistura de odores.

Perfume.

Sangue.

Incenso.

Ervas queimadas.

Cinco vampiras ocupavam enormes espelhos iluminados por velas, ajustando vestidos, armaduras e maquiagens enquanto bebiam sangue em taças ornamentadas.

Uma delas mergulhava o dedo indicador no líquido vermelho antes de passá-lo sobre os lábios.

Em outro canto do ambiente, cinco vampiros estavam de mãos dadas.

Usavam longas túnicas cinzentas.

No chão, diante deles, havia um círculo feito de cinzas, ossos pequenos e símbolos antigos.

Murmuravam todos a mesma frase.

Avelar reconheceu algumas palavras.

Balock.

O deus dos Murtiços.

Os cinco mantinham os olhos fechados enquanto invocavam sua proteção para a cerimônia.

O soldado empurrou Avelar para dentro.

Ela virou-se imediatamente.

— Faça isso outra vez e eu arranco sua mão.

O homem apenas sorriu.

Foi então que uma porta lateral se abriu.

Cárdamo apareceu.

Desceu apressadamente uma pequena escada que ligava os bastidores à parte superior do altar.

Assim que seus pés tocaram o chão, ele foi diretamente até Avelar.

Não a cumprimentou.

Não perguntou como estava.

Não demonstrou qualquer preocupação em preparar as palavras.

— Mendragon proibiu seu ingresso na caçada.

Silêncio.

Avelar piscou.

Cárdamo pareceu aliviado assim que terminou a frase, como se finalmente tivesse entregado um pacote perigoso que carregara durante horas.

A jovem vampira permaneceu parada.

Nenhuma lágrima surgiu.

Nenhuma palavra.

Nenhum grito.

Por alguns segundos, absolutamente nada aconteceu.

Então sua boca começou a salivar.

Cárdamo percebeu primeiro.

Depois vieram as mãos.

As unhas de Avelar cresceram lentamente, transformando-se em garras negras.

Seus ombros se curvaram.

A respiração tornou-se pesada.

Os caninos desceram.

A pele ao redor de seus olhos escureceu enquanto as pupilas se dilatavam.

Cárdamo recuou.

Um passo.

Depois outro.

Seu rosto perdeu a cor.

A fama do oficial era conhecida entre praticamente todas as tribos.

Gostava de contar batalhas nas quais nunca lutara.

Descrevia monstros que jamais enfrentara.

Jurava ter sobrevivido sozinho ao ataque de quarenta Selvagens nas terras de Ormatar.

Avelar sabia a verdade.

Cárdamo era inteligente.

Muito inteligente.

E exatamente por isso evitava qualquer situação em que pudesse morrer.

— Controle-se — disse ele, embora a própria voz tremesse.

Avelar inclinou o corpo para a frente.

Pronta para saltar.

As vampiras diante dos espelhos pararam de se maquiar.

Uma delas baixou lentamente a taça de sangue.

Os cinco Murtiços abriram os olhos ao mesmo tempo.

Avelar sentiu o olhar deles sobre si.

Não havia medo ali.

Somente prontidão.

Se ela atacasse durante um ritual dedicado a Balock, seria interpretado como profanação.

E Murtiços não discutiam profanações.

Executavam os responsáveis.

— Segure-a! — ordenou Cárdamo.

O soldado atrás de Avelar moveu-se imediatamente.

Prendeu seus dois braços para trás.

A força do homem fez seus ombros arderem.

Ela tentou se libertar.

Inútil.

Ele apertou ainda mais.

Avelar ouviu um estalo vindo das próprias articulações.

“Ele pode quebrar meus braços.”

O soldado aproximou o rosto de seu ouvido.

— Tente outra vez.

A voz dele era assustadoramente calma.

Avelar parou.

Sua respiração continuava pesada.

Olhou para a capa fúnebre.

Depois para os Murtiços.

Depois para Cárdamo.

“É melhor me controlar.”

Fechou os olhos.

Inspirou.

Lembrou-se de Zárlia.

Força e coragem não são a mesma coisa.

Aos poucos, as garras diminuíram.

As presas voltaram ao tamanho normal.

Seu corpo relaxou.

Quando abriu os olhos novamente, era apenas Avelar.

As vampiras perderam o interesse.

Uma por uma, voltaram aos espelhos.

Os Murtiços tornaram a fechar os olhos.

A cerimônia de invocação continuou como se nada tivesse acontecido.

Era assim com aquela tribo.

Os Murtiços raramente interferiam em conflitos alheios.

Não discutiam.

Não opinavam.

Não tomavam partido.

Mas qualquer ameaça ao seu espaço, aos seus deuses ou aos seus rituais era respondida imediatamente.

Sem julgamento.

Sem piedade.

Avelar sabia que escapara de atravessar uma linha perigosa.

Cárdamo limpou a garganta.

Tentava recuperar alguma dignidade.

Respirou fundo duas vezes.

Ergueu o queixo.

Colocou uma das mãos na cintura e começou a gesticular exageradamente com a outra.

— Ficou insatisfeita com a decisão, criança?

Avelar olhou para ele.

Agora perfeitamente calma.

Calma demais.

— Apenas esperava uma explicação.

A resposta pareceu desconcertá-lo ainda mais do que sua transformação.

Cárdamo ficou alguns segundos em silêncio.

Então fez um gesto para o soldado.

— Solte-a.

O homem obedeceu.

Avelar levou as mãos aos pulsos e massageou a pele marcada pelos dedos dele.

Cárdamo evitava olhar diretamente para ela.

— Venha.

— Para onde?

Ele finalmente a encarou.

— Vamos falar com Lorde Mendragon.

O coração de Avelar pareceu parar por um segundo.

Mendragon.

O chefe dos exércitos.

O senhor das muralhas do norte.

O vampiro que comandara tropas durante mais guerras do que Avelar conseguia contar.

Ela nunca estivera diante dele.

Durante toda a sua formação, qualquer comunicação entre ambos acontecera através de mensageiros, documentos ou oficiais.

Encontrá-lo pessoalmente era algo reservado a comandantes, membros do conselho ou criminosos prestes a conhecer sua sentença.

Avelar não sabia a qual dos três grupos estava mais próxima naquele momento.

Mesmo assim, não poderia recuar.

Não agora.

Sua dignidade estava em jogo.

Seu futuro estava em jogo.

Seu sonho.

A Grande Adaga.

A Caça às Pedras de Safira poderia ser sua primeira oportunidade de provar que não era apenas uma vampira impulsiva com talento para encontrar problemas.

Se vencesse, seu nome chegaria aos ouvidos das ordens superiores.

Talvez até mesmo aos líderes das Adagas.

E sua mãe havia acreditado nisso.

Até o último momento.

Avelar ainda se lembrava da voz fraca de Zárlia em seu leito de morte.

Das mãos frias segurando as suas.

Do cheiro de ervas medicinais no quarto.

Do sangue escuro sobre os lençóis.

— Você nasceu para coisas grandes, Avelar.

Foram algumas de suas últimas palavras.

A jovem fechou a mão ao redor da maçã que ainda carregava.

Cárdamo começou a subir as escadas.

— Está vindo?

Avelar observou a fruta.

Uma pequena parte já estava escurecendo junto à mordida.

Por um instante, lembrou-se novamente da antiga lenda sobre juventude eterna.

Então pensou em Zárlia.

Em Mendragon.

Na caçada.

Nas pedras.

Nos soldados vestidos para a morte.

E naquele estranho silêncio que havia tomado a floresta minutos antes.

Alguma coisa estava errada.

Avelar sentia isso.

Mesmo assim, deu o primeiro passo.

— Estou.

E seguiu Cárdamo.

No lado de fora, as cornetas começaram a tocar.

Uma.

Duas.

Três vezes.

Os tambores responderam.

A multidão explodiu em gritos.

A Caça às Pedras de Safira estava prestes a começar.

Mas, para Avelar, aquela noite já havia se transformado em outra coisa.

Porque, enquanto subia os degraus em direção ao homem mais poderoso que já conhecera, ela ainda não sabia que a caçada daquela noite não decidiria apenas quem encontraria as pedras.

Decidiria quem sobreviveria para contar a história.

Notas finais
Naquele dia a maça de avelar, seu amuleto, não estava tão madura. Parecia mais envenenada e não lhe deu muita sorte.