Castelos
9 Há surpresas na escuridão
Notas iniciais
— Eu me sinto sozinha aqui dentro.
A voz surgiu na mente de Ithely sem aviso.
A princesa parou de caminhar.
Políbio, alguns passos à frente, não percebeu.
— É tudo escuro — continuou Avelar. — Ainda estou naquela caverna.
Ithely fechou os olhos.
Não.
Não queria ouvi-la.
Desde a noite anterior tentava convencer-se de que aquilo era apenas consequência da magia.
Memórias.
Resíduos.
Fragmentos de uma alma que seu corpo ainda não conseguira absorver completamente.
Mas Avelar estava consciente.
Pensava.
Sentia.
Falava.
— Eu vou sair daqui.
Ithely apertou os punhos.
— Cale-se.
Políbio virou-se.
— O quê?
Ela abriu os olhos.
— Nada.
Ele a observou por alguns segundos.
— Você falou alguma coisa.
— Estava pensando alto.
Políbio não pareceu convencido.
Voltou a caminhar.
Ithely esperou que ele se afastasse um pouco.
Então ouviu novamente:
— E quando eu sair...
A voz de Avelar tornou-se mais baixa.
— ...vou matar você.
Ithely sentiu uma pontada violenta no peito.
Levou a mão ao coração.
A dor parecia vir de dentro.
Não dos músculos.
Não dos ossos.
Era como se dentes invisíveis estivessem mastigando seu coração lentamente.
Parou.
Respirou.
A dor diminuiu.
— Você está fazendo isso? — murmurou.
Avelar riu.
Um som distante.
Ecoando em algum lugar dentro dela.
— Ainda não sei.
Ithely sentiu um arrepio.
— Mas espero que sim.
A noite anterior fora aterrorizante.
E o amanhecer não trouxe qualquer alívio.
Naquele lugar, aliás, era difícil dizer quando realmente amanhecia.
O céu permanecia escuro.
As nuvens cinzentas formavam uma cobertura espessa sobre as árvores negras, e uma luminosidade pálida apenas indicava que, em algum lugar acima delas, existia um sol incapaz de atravessar a maldição de Etanin.
Suzan desaparecera durante a tempestade.
Por isso, Ithely e Políbio caminhavam havia horas procurando-a.
Nenhum dos dois mencionava o que acontecera com Avelar.
Nem o que haviam descoberto.
Mas o silêncio entre eles estava cheio demais.
Políbio olhava para Ithely constantemente.
Primeiro para os cabelos.
Depois para os olhos.
Depois para as mãos.
Ela percebeu.
— Pare.
Ele desviou o olhar.
— De quê?
— De me observar.
— Não estou observando.
Ithely parou.
— Você olha para mim a cada dez passos.
Políbio ficou em silêncio.
Ela deu um passo em sua direção.
— Se quer dizer alguma coisa, diga.
Ele hesitou.
— Você está diferente.
Ithely levou instintivamente a mão aos cabelos.
Sabia.
Não precisava de espelho.
Os fios antes completamente loiros estavam sendo invadidos por mechas negras.
Também sentia a pele diferente.
Mais quente.
Mais pesada.
Até seu corpo parecia estar mudando de proporção.
Desde que absorvera Avelar, carregava uma força estranha nos músculos.
E três poderes pareciam pulsar ao redor de sua essência.
Humanidade.
Medo.
Justiça.
As Pedras de Safira estavam conectando-se de alguma maneira àquela fusão.
Ithely não compreendia como.
E isso a assustava.
— Foi a absorção — respondeu.
— Nunca vi seus poderes fazerem isso.
— Você nunca me viu absorver alguém como ela.
Políbio desviou os olhos.
Alguém como ela.
Avelar.
Ele ainda conseguia enxergar sua transformação em pedra.
O corpo rachando.
Desfazendo-se.
A poeira entrando em Ithely.
E depois aquela voz.
Avelar ainda estava viva.
Talvez aquilo nem pudesse ser chamado de absorção.
Políbio voltou a observá-la.
Ithely percebeu.
— Eu disse para parar!
— Estou tentando entender.
— Não há nada para entender.
Políbio quase respondeu.
Então ouviu alguma coisa.
Craque.
Os dois pararam.
Uma folha seca fora esmagada em algum ponto da floresta.
Ithely retirou uma pequena lâmina presa à cintura.
Políbio segurou a espada.
Silêncio.
Craque.
Outro passo.
Mais próximo.
Eles olharam para as árvores.
Nada.
— Tem alguém aqui — murmurou Políbio.
— Eu sei.
O vento parou.
Não lentamente.
Parou.
As folhas ficaram imóveis.
Os galhos deixaram de balançar.
Até os pequenos ruídos da floresta desapareceram.
Ithely sentiu a presença antes de enxergá-la.
Algo os observava.
— Suzan? — chamou Políbio.
Nenhuma resposta.
Deram mais alguns passos.
Então Políbio agarrou Ithely.
— O que está fazendo?!
Ele a puxou contra o próprio corpo.
— Solte-me!
Ithely empurrou seu peito.
Nada aconteceu.
Políbio tentou afastar-se também.
Não conseguiu.
Os dois se encararam.
— Eu não estou fazendo isso.
Ithely parou de lutar.
Uma força invisível mantinha seus corpos unidos.
Peito contra peito.
Braços presos.
Como se mãos gigantescas os comprimisse um contra o outro.
— Tire suas mãos de mim.
— Eu não consigo!
— Tente!
— Estou tentando!
Ithely forçou os braços.
Nada.
Então ouviram música.
Uma voz feminina.
Distante.
Longa.
Suave.
Uma melodia parecida com uma ópera começou a percorrer a floresta.
Não havia instrumentos.
Não havia músicos.
Somente aquela voz.
A cada nota, Ithely sentia seu corpo enfraquecer.
Políbio também.
As pernas tremiam.
A visão tornava-se turva.
Mas permaneciam presos um ao outro.
Seus rostos estavam muito próximos.
Olhos nos olhos.
Respiração contra respiração.
E foi então que uma terceira voz atravessou a música.
— Assim...
Ithely congelou.
Conhecia aquela voz.
Não.
Impossível.
— Era exatamente assim que vocês ficavam.
A respiração da princesa acelerou.
— Não...
A voz aproximou-se.
— Juntos.
Passos.
— Apertadinhos.
Ithely começou a tremer.
— Não.
Políbio olhou para ela.
— O que foi?
Então a voz concluiu:
— Dentro da placenta de Violeta.
Ithely perdeu o controle.
— NÃO!
Tentou se libertar.
— Não é verdade!
Políbio assustou-se.
— Ithely!
— É UMA ILUSÃO!
Ela começou a gritar para a floresta.
— EU MATEI VOCÊ!
Lágrimas surgiram.
— EU MATEI VOCÊ!
Políbio tentou segurar seu rosto.
— Quem?
Ithely nem parecia ouvi-lo.
— BRUXA MALDITA!
Sua voz se partiu.
— EU VI VOCÊ MORRER!
Políbio tapou os ouvidos.
A música aumentou.
Então uma força esmagou os dois contra o chão.
Caíram de joelhos.
Finalmente se separaram.
Mas antes que pudessem levantar, seus corpos giraram sozinhos.
Ficaram lado a lado.
De frente para a escuridão.
E alguém saiu de dentro dela.
Uma mulher.
Longa capa negra.
Pele parda.
Cabelos negros na altura dos ombros.
Caminhava sem pressa.
Ithely cobriu o rosto.
— Não.
A mulher sorriu.
— Pare de chorar.
Aproximou-se.
Ajoelhou-se diante da princesa.
— Eu ainda nem comecei a torturá-la.
Levantou uma sobrancelha.
Seu sorriso era quase divertido.
Ithely afastou as mãos do rosto.
— Você não existe.
— Que falta de educação.
— É uma ilusão desta floresta.
A mulher inclinou a cabeça.
Ithely chorava.
— Eu matei você anos atrás.
A desconhecida sorriu.
— Ah, criança...
Levantou-se.
Começou a caminhar diante deles.
— Você não faz ideia de quanto trabalho tive para permanecer escondida aqui.
Ithely parou.
— Escondida?
— Se não fosse por minha filha...
A mulher tocou uma das árvores.
Seus dedos percorreram a casca negra.
— ...provavelmente não teria sobrevivido.
Érica.
Avelar ouviu aquilo de dentro da escuridão.
— Muriel...
Ithely imediatamente percebeu a reação interna.
— Você conhece esse nome.
Avelar não respondeu.
A mulher abriu os braços.
Olhou para a floresta como alguém que contemplava a própria casa depois de uma longa viagem.
— Estou viva, criança.
Virou-se.
— Afinal...
Seus olhos brilharam.
— Eu sou uma grande bruxa.
Riu.
— Você acreditou que havia me enganado.
Deu alguns passos na direção de Ithely.
— Mas fui eu quem enganou você.
Políbio estava completamente perdido.
Olhou para a mulher.
Depois para Ithely.
— Quem é ela?
Ithely permaneceu calada.
— Ithely.
Nada.
Políbio aproximou a boca dela e sussurrou:
— Quem é essa mulher?
Ithely respondeu entre os dentes:
— Muriel.
A mulher sorriu.
— Pelo menos ainda lembra meu nome.
— A bruxa que tentou matar a rainha Flora.
O sorriso de Muriel desapareceu por um instante.
Depois voltou.
Mais largo.
Ela aproximou-se de Ithely.
Tocou delicadamente seu rosto.
— É majestoso ouvir isso de você.
Ithely tentou afastar a cabeça.
Não conseguiu.
Muriel acariciou sua face.
— Saber que finalmente entende qual é o seu lugar neste maldito fim de mundo.
Ithely cuspiu próximo aos pés dela.
— A derrotada aqui é você.
Muriel ficou imóvel.
Políbio prendeu a respiração.
Então a bruxa começou a rir.
Primeiro baixo.
Depois alto.
Uma gargalhada quase infantil.
Afastou-se pulando entre as folhas.
— Ela é engraçada!
Levou as mãos ao peito.
— Continua tão engraçada!
Ithely a observava com ódio.
Muriel finalmente recuperou o fôlego.
— Uma escravinha me chamando de derrotada...
O sorriso desapareceu.
Ela levantou a mão.
O corpo de Ithely saiu do chão.
A princesa tentou gritar.
Não conseguiu.
Muriel fechou os dedos ao redor de seu pescoço.
— Talvez devêssemos corrigir isso.
Apertou.
Ithely começou a sufocar.
Políbio se levantou.
— Pare!
Muriel ignorou.
Ithely segurou o braço dela.
A bruxa parecia pronta para arrancar sua cabeça.
Políbio gritou:
— ONDE ESTÁ SUZAN?
Muriel parou.
Virou lentamente o rosto.
Soltou Ithely.
A princesa caiu no chão tossindo.
Muriel caminhou até Políbio.
Fingiu surpresa.
— Veja só.
Aproximou o rosto.
— Pensei que você soubesse apenas sussurrar.
Políbio manteve a espada preparada.
Mesmo tremendo.
Muriel observou isso.
— Você tem medo.
Ele não respondeu.
— Mas ainda tenta protegê-la.
Olhou para Ithely.
Depois novamente para ele.
— Que adorável.
— Onde está Suzan?
Muriel ignorou a pergunta.
— Conheço vocês há muito tempo.
Políbio franziu o cenho.
— Nós?
— Desde antes de conhecerem a própria luz.
Fez uma pausa.
— Os filhos de Flora.
Silêncio.
Ithely levantou lentamente o rosto.
Políbio perdeu a cor.
— O quê?
Muriel sorriu.
— Ou Violeta.
Andou entre eles.
— Como ela passou a ser chamada quando viveu na Dimensão Terrestre.
Políbio deixou a espada baixar.
— Não.
Muriel continuou:
— Dois filhos.
Ithely começou a respirar rapidamente.
— Dois corações crescendo lado a lado.
Políbio olhou para ela.
— Não...
— Gêmeos.
A palavra atravessou a floresta.
Nenhum dos dois se moveu.
Muriel abriu os braços.
— Separados ao nascer.
Políbio sentiu o mundo girar.
As palavras de Lucian surgiram em sua memória.
Você é herdeiro de tudo, meu filho.
Depois outra lembrança.
Sua mãe morreu quando você nasceu.
E outra.
Eu não estava na caverna durante o parto.
A voz do pai parecia distante agora.
Quando cheguei, havia oito crianças.
Políbio fechou os olhos.
Sete estavam mortas.
Abriu-os.
Olhou para Ithely.
Você era o único vivo.
— Não era verdade...
Muriel sorriu.
— Quase nada nessa família é.
Políbio encarava Ithely.
De repente, tantas coisas faziam sentido.
A dor que sentia quando ela sofria.
As emoções que às vezes surgiam dentro dele sem qualquer motivo.
A estranha familiaridade desde o primeiro momento em que a conhecera.
O modo como seus poderes pareciam reagir um ao outro.
— Você é minha...
Ithely balançou a cabeça.
— Não.
— Ithely...
— NÃO!
Muriel riu.
— Um herdou a bondade.
Olhou para Políbio.
Ele não gostou.
Depois virou-se para Ithely.
— O outro...
A princesa fechou os olhos.
— ...o desejo de vingança.
Muriel abriu um sorriso.
— Acho que não preciso explicar quem é quem.
Durante alguns segundos, ninguém se lembrou de Suzan.
Nem da floresta.
Nem do torneio.
Havia apenas aquela revelação.
Ithely e Políbio.
Irmãos.
Gêmeos.
Filhos de Flora.
Híbridos.
Políbio olhava para a princesa tentando encontrar nele próprio algum traço dela.
Os olhos.
O formato do rosto.
Talvez nada fosse exatamente igual.
Mas agora conseguia enxergar semelhanças onde antes jamais procurara.
— Quem nos separou? — perguntou.
Muriel nada respondeu.
— Foi Mendragon?
Ithely levantou o rosto.
A pergunta atravessou-a.
Mendragon.
Seu falso pai.
Talvez aquela mentira fosse ainda maior.
— Responda! — exigiu Políbio.
Muriel caminhou novamente até Ithely.
Agarrou-a pelo pescoço.
— Talvez eu responda quando estiver pronta.
Levantou a princesa.
Ithely tentou usar seus poderes.
Nada.
Muriel a observou.
Então sua expressão mudou.
O sorriso desapareceu.
A bruxa ficou imóvel.
Seus olhos percorreram o rosto de Ithely.
Os cabelos.
A pele.
O peito.
Como se enxergasse alguma coisa que nenhum dos dois podia ver.
— Não...
Ithely franziu o cenho.
Muriel a colocou lentamente no chão.
Deu um passo para trás.
— Isso não é possível.
Políbio segurou a espada novamente.
— O quê?
Muriel ignorou.
Continuava encarando Ithely.
— Eu senti...
Aproximou-se.
— Duas.
Ithely sentiu o coração acelerar.
Muriel colocou a mão sobre seu peito.
Fechou os olhos.
Um sorriso surgiu.
Lento.
Assustador.
— Duas almas.
Ithely empurrou sua mão.
— Não me toque.
Muriel abriu os olhos.
Agora havia satisfação neles.
— A escolhida.
Ithely congelou.
Avelar também.
Na escuridão da caverna, sua voz desapareceu.
Muriel voltou a tocar o peito da princesa.
— A menina de Zárlia.
Ithely recuou.
— Não.
Muriel sorriu.
— Está viva.
Silêncio.
Políbio arregalou os olhos.
— Avelar?
A princesa balançou a cabeça.
— Não.
Muriel aproximou-se.
— Ela está dentro de você.
— Não!
Foi como se alguém tivesse lançado uma pedra contra seu peito.
Ithely respirou rapidamente.
— Eu absorvi a essência dela.
— Absorveu?
Muriel riu.
— Foi isso que pensou?
— Eu me alimentei dela.
— Então por que ainda escuta sua voz?
Ithely parou.
Políbio olhou imediatamente para ela.
— Você escuta Avelar?
A princesa não respondeu.
Muriel começou a andar ao redor dela.
— Seus cabelos.
Ithely tocou uma das mechas negras.
— Sua pele.
A princesa olhou para as próprias mãos.
— Seu corpo.
Muriel aproximou a boca de seu ouvido.
— Tudo está mudando.
— Pare.
— Você achou que estava absorvendo Avelar.
— Cale-se.
— Mas e se estiver acontecendo o contrário?
Ithely virou-se violentamente.
— CALE A BOCA!
Muriel apenas sorriu.
Avelar, dentro dela, também permanecia em silêncio.
Isso era pior.
Ithely fechou os olhos.
— Avelar?
Nada.
— Avelar!
Nenhuma resposta.
Muriel observava.
— Ela está ocupada.
Ithely abriu os olhos.
— Com o quê?
— Sobrevivendo.
A bruxa parou diante dela.
Seu rosto agora misturava ira e satisfação.
— Zárlia gerou algo que não deveria existir.
— Ela é uma híbrida.
Muriel balançou a cabeça.
— Não.
Políbio se aproximou.
— Então o que ela é?
Muriel olhou para ele.
— Ainda não existe um nome que consiga defini-la completamente.
Voltou sua atenção para Ithely.
— Avelar adapta-se.
— Adapta-se?
— Sangue.
Muriel tocou o braço de Ithely.
— Magia.
Tocou sua cabeça.
— Corpo.
Por fim, colocou a mão sobre seu coração.
— Alma.
Ithely empurrou-a.
— Ela não pode tomar meu corpo.
Muriel inclinou a cabeça.
— Não?
Apontou para seus cabelos.
— Então explique isso.
Ithely ficou em silêncio.
— Você está mais pesada.
A princesa arregalou os olhos.
— Sente dores no peito.
Mais silêncio.
— Às vezes tem pensamentos que não são seus.
Ithely recuou.
— Como sabe?
Muriel sorriu.
— Porque sua querida hóspede está construindo uma casa.
Avelar finalmente falou dentro dela:
— Não estou fazendo isso.
Ithely colocou as mãos nas têmporas.
— Saia!
Políbio tentou aproximar-se.
— Ithely?
— SAIA DE MIM!
— Eu não sei como! — respondeu Avelar.
Muriel conseguia perceber a batalha interna.
Parecia fascinada.
— Maravilhoso.
Ithely olhou para ela com lágrimas nos olhos.
— Tire-a.
Muriel arqueou uma sobrancelha.
— O quê?
— Tire Avelar de mim!
— Por que faria isso?
— Porque...
Ithely não terminou.
Muriel aproximou-se.
— Porque está com medo?
A princesa apertou os dentes.
Muriel levantou delicadamente uma das mechas negras.
— Deixe-me explicar o que está acontecendo.
Soltou o fio.
— A alma de Avelar não aceita morrer.
Ithely respirava cada vez mais rápido.
— Está usando seu corpo para reconstruir aquilo que perdeu.
— Não.
— Cada mudança...
Muriel tocou seus cabelos.
— Cada dor...
Sua mão desceu até o peito.
— Cada lembrança que não lhe pertence...
Ithely tentou afastá-la.
Não conseguiu.
— É Avelar.
A voz da bruxa ficou mais baixa.
— Crescendo dentro de você.
Políbio parecia horrorizado.
— O que vai acontecer?
Muriel virou o rosto.
— Com quem?
— Com as duas.
A bruxa pensou por alguns segundos.
Então sorriu.
— Essa é a parte interessante.
Ithely sentiu o coração falhar uma batida.
— Existem duas almas.
Muriel ergueu dois dedos.
— Mas apenas um corpo.
Baixou um deles.
— E corpos não foram feitos para serem governados por duas pessoas para sempre.
Ithely ficou pálida.
— Então uma delas...
Muriel assentiu.
— Precisará desaparecer.
Avelar voltou a falar.
Desta vez, sua voz estava assustada.
— Ithely...
A princesa fechou os olhos.
— Cale-se.
— Eu não quero morrer.
— CALE-SE!
Muriel segurou os ombros dela.
Ithely abriu os olhos.
A bruxa a encarava.
Por um instante, não havia brincadeira.
Nem sarcasmo.
Nem falsa piedade.
Somente certeza.
— Avelar já venceu a morte uma vez.
Ithely não respirava.
— E, pelo que estou vendo...
Muriel passou os dedos por outra mecha que acabara de escurecer.
— pretende vencê-la novamente.
Uma lágrima silenciosa desceu pelo rosto da princesa.
Muriel fez um pequeno gesto negativo com a cabeça.
Seu sorriso voltou.
Quase compassivo.
Quase.
— Lamento, menina.
Ithely apertou os punhos.
— Mas você vai morrer.
Silêncio.
Então, de algum lugar dentro do peito de Ithely, outra voz respondeu:
— Não.
Muriel ficou imóvel.
Políbio não ouvira.
Ithely sim.
Avelar continuou:
— Nós vamos descobrir outra maneira.
A princesa fechou os olhos.
Pela primeira vez desde que suas almas haviam sido unidas, não havia ódio na voz de Avelar.
Havia medo.
E aquilo talvez fosse ainda mais assustador.
Porque agora as duas compreendiam a mesma verdade.
Se Muriel estivesse certa, não eram mais apenas inimigas.
Eram duas condenadas disputando a mesma vida.
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