Notas iniciais
Prosseguindo, sintam-se a vontade para criticar, e abrir meus olhos para novas formas de melhorar... Obrigado!

A alguns quarteirões de distância, Carmelita tentava ficar mais linda do que já era. Passou mais de hora e meia se requintando para o passeio de logo mais. Testou todas as saias, blusas e vestidos, até encontrar algum que ela julgou ideal. Uma saia de seda em cor verde clara, uma blusa semi decotada com um leve tom de rosa, e um tradicional batom vermelho marcante. Cabelo de lado, caindo pelo pescoço. Tanta beleza, que parecia ser descendente da própria Afrodite.

Ao sair, falou para o pai que ia ao cinema.

–Papai, estou indo ver um filme. Afirmou Carmelita, certa de suas ações.

–Será mesmo? Parece que tá indo ver o príncipe da Inglaterra! Falou Seu Zé Bonifácio, em um tom de quem estava com a pulga atrás da orelha.

–Oh, meu pai! Só um filmezinho. Volto às nove. E beijou o velho na bochecha, saindo em seguida antes que seu querido pai fuçasse mais sua estranha ida ao cinema.

–Nem um minuto a mais! Gritou Seu Zé, voltando a fazer o que quer que estivesse fazendo naquele momento.

Carmelita caminhava para a praça, quando Augusto a surpreendeu por trás.

–Augusto, meu Deus! Quase que morro de susto. E riu nervosamente.

–Não quis te assustar. A senhorita está linda. E entregou o lírio nas mãos delas, que sorriu e colocou no cabelo.

Carmelita estava deslumbrante. Tanto que quase Augusto ficou emudecido. Era o perfume de jasmim, era o dourado dos cabelos refletindo a luz da lua, era seu rosto com contornos delicados, perfeitos. Não era possível encontrar palavras. Deus com certeza tinha caprichado no serviço.

Chegaram ao cinema poucos minutos antes de começarem o filme. Tinha poucas pessoas. Mas ainda assim alguns cochicharam quando viram aquele jovem casal sorrindo e se divertindo. Mas o casal nem reparou nos outros. Estavam ali apenas por si mesmos. Eles pareciam um oásis em meio a um deserto de pessoas monótonas e sem tempero na vida.

Combinavam um com o outro. Ainda não entendo porque houve (des)combinação. Mas, segundo a sabedoria popular, Deus escreve certo por linhas tortas. Eu particularmente não tenho fé nesse dizer.

Foi tudo como tinha sido planejado, ou até mesmo destinado. Terminaram de ver o filme, e foram caminhar um pouco. As pernas, ou o coração, os levaram até a lagoa. O céu estava bonito. Estrelado, e iluminado por um luar esplêndido. Talvez o frio, ou algo que eu não sei dizer fez com que aqueles dois dessem as mãos um para o outro. Ficaram por um longo momento deitados na grama, olhando para o céu, em silêncio, apenas ouvindo a respiração apressada um do outro, sentindo o calor das mãos, e o vento cortante típico daquelas noites.

Faltavam uns vinte minutos para dar nove horas, resolveram ir então para suas respectivas moradias. Augusto acompanhou Carmelita até a esquina da rua dela.

–Bem, acho que já vou! Falou Carmelita em um tom diferente. Um tom que só as mulheres sabem pronunciar.

–Foi ótimo! Eu gosto de estar em sua companhia. Arriscou Augusto, sem saber se estava indo com muita sede ao pote.

Carmelita se inclinou um pouco para frente. Augusto sabia o que aquilo significava. Apenas fechou os olhos e deixou-se levar por aquele mar doce, com gosto de creme, com cheiro de morangos. Intenso e rápido. Apenas o suficiente para ele ficar sem palavras. Conseguiu ainda balbuciar um “boa noite, durma bem”.

Voltou para a pensão. Seu Marciano cochilava no balcão, enquanto Anita lia um livro em uma poltrona. Os outros moradores de lá já deviam estar dormindo. Tentou passar despercebido, mas Anita foi mais esperta.

–Onde será que meu irmãozinho estava até agora? Perguntou sorrateiramente Anita a Augusto.

–Deu pra me vigiar agora? Tava no cinema. Respondeu Augusto.

–E foi ver qual filme?

Eita, rapaz. E agora, José? José, e agora? O nomezinho do filme, pois é. Augusto não se lembrava. Resolveu encerrar a conversa:

–Deixa de interrogatório, que tô cansado e já vou me deitar.

E subiu as escadas da pensão, até encontrar seu quarto. Estava tão contente que nem a fome causada pela ausência do jantar lhe incomodava. Estava absorto, acho que essa é a melhor palavra para definir a sensação daquele momento. Augusto se encontrava absorto desde o momento em que seus lábios colidiram com os de Carmelita. Mil e um pensamentos antes de dormir, e todos voltado a uma única pessoa. E por fim dormiu.

Ainda sem dormir, Carmelita não tinha nem se trocado ainda. Estava deitada, colocando as melhores rimas em formas poéticas. O encontro não poderia ter sido melhor. Estava encantada cada vez mais com o moço Augusto. Aquele rapaz que tinha o olhar mais distante que ela já vira. Aquele sorriso torto. Aqueles cabelos ondulados. Ela pensava em cada detalhe de Augusto.

Como foi fácil para o Diabo preparar essa armadilha. Tão simples que resolveu incrementar alguns obstáculos. Até por que para fazer um bom acarajé, pimenta não pode faltar!

No dia seguinte, Carmelita acordou cedo, e foi preparar o café da família. Não deixou de reparar na cara de quem comeu e não gostou proveniente de seu pai. Pensou que talvez fossem problemas nos produtos da mercearia.

–Alguma coisa, papai?

–Me diz tu. Um passarinho me contou que tu foi ao cinema com um rapaz qualquer aí. De mãos dadas e tudo. É verdade?

–Ah, eu fui só...

–Não minta pra mim. Interrompeu Seu Zé Bonifácio, elevando o tom da voz.

–Eu só tava passeando com um amigo. Tentou Carmelita se esquivar.

–E desde quando passeio termina com beijo?

–Foi só um...

–Não adianta tentar arrumar desculpas esfarrapadas. Quero saber quem é esse moleque. Quero ter uma conversinha olho no olho com esse caboclo.

Vendo que nenhuma tentativa ia funcionar, Carmelita resolveu concordar com um fraco meneio positivo.

Chegou segunda, e com ela o frio na barriga, causado pelo novo emprego de Augusto. Não era difícil. Só burocracia e paciência. Saber datilografar ajudou Augusto na hora que Seu Raul perguntou de suas habilidades. Era um bom emprego. Esperava que o salário fosse bom também.

Na hora do almoço voltou para pensão. Tinha duas horas de descanso. Comeu, e subiu as escadas até o quarto. Tirou os pés dos sapatos, e as meias dos pés, pra dar aquele frescor revigorante. Se deitou, e procurou relaxar. Terminado o momento da folga, se vestiu novamente e foi para o banco. Mal dobrou a esquina, trombou com Carmelita. Os dois se assustaram. Não tinham marcado de se verem naquela segunda.

Nem preciso contar como foi tal encontro por obra do acaso. Mas imaginem aí. Pareciam duas crianças meio tímidas. Ainda não tinham encontrado palavras para descrever a noite passada. Mas o momento era outro.

–Eu estava indo até Seu Marciano deixar esse bilhete a ti. E Carmelita estendeu a mão entregando o pedaço de papel, quase amassado.

“Meu pai quer te conhecer. Alguém contou pra ele.”

–Toma um sorvete comigo hoje as sete? Aí a gente resolve isso! Disse Augusto apreensivo.

–Têm certeza? Estou tão nervosa. Questionou Carmelita, insegura.

–Confia em mim.

Carmelita subitamente o abraçou. E mais uma vez se beijaram. Curto, mas significativo. Foi o bastante para tranqüilizar ambos. E já contentes e destemidos, se despediram.

Notas finais
Obrigado por estarem acompanhando!