Notas iniciais
Desculpem a demora, mas é questão de tempo e velocidade, sou leso.

Pertinho dali, Anita cantarolava contente. Era a nova professora de reforço da escola. Não era ótimo, mas era um começo. O suficiente para pagar uma faculdade e ter sustento próprio. Tinha sido fácil. Coincidentemente a escola precisava de uma professora de reforço, então, uma mão lava a outra, as duas lavam o rosto!

Daria aulas à noite, na escola mesmo, visto que não tinha residência própria. Apenas uma hora por dia, de segunda a sexta. Cada dia uma matéria específica. Era simples, visto que seus alunos eram do primeiro ginásio. Quem estivesse precisando de reforço seria automaticamente inscrito nas aulas de Anita. Era bom. Com o tempo ela esperava se tornar professora de fato, não de reforço. Seria melhor. Iria passar a noite estudando e se preparando para os dias seguintes.

E era com respeito aos dias seguintes que Inácio se preparava. Iria visitar o amigo há muito não visto, Augusto. E iria também ver sua ‘grande paixão’, a ingênua Anita. Planejava se acomodar onde quer que Augusto estivesse morando, como sempre fazia com tudo.

Ia simplesmente partir, sem intenção de voltar. Queria uma nova aventura. Pensava que os anos tinham tirado a falta de disposição de Augusto para danações e vadiagens. Seria o parceiro de farras e festanças.

Augusto perdeu a concentração no trabalho durante toda à tarde. Estava com a mente voltada para Seu Zé Bonifácio. Mal tinha se envolvido com aquela garota, e já estava com um abacaxi nas mãos. Não era de ferro, e já estava nervoso a medida que o tempo corria para a noite.

Ao chegar em casa, logo após o encontro com Augusto, Carmelita procurou seu pai. Quando o encontrou, colocou-o a par da situação. E disse que Augusto estaria disposto a conversar com seu Zé Bonifácio.

–Que esse rapaz não alimente esperança...

–Mas pai, dê uma chance, ele é decente, de família... Argumentou Carmelita.

–Se for assim e assado, eu vou descobrir. Encerrou Seu Zé.

Restava à pobre Carmelita rezar, para quem sabe Augusto mostrasse ser o que aparentava ser. Se a primeira impressão é a que fica, ele teria que caprichar!

Quem já correu com medo do tempo a fim de fazê-lo passar mais vagarosamente sabe que é um esforço em vão. Quando queremos que passe devagar, rápido e implacável ele é. Quando queremos que ele seja veloz e curto, ele anda como um caracol aleijado.

Augusto e Carmelita queriam que a noite demorasse o tempo que fosse preciso para aquele momento não chegar. Frio na barriga, nervosismo e nó em crina de cavalo completaram o repertório do dia, ou melhor, da noite que finalmente caía.

–Seja homem e faça isso logo!

Era mais uma lembrança de Cel. Alberto e os momentos que passaram juntos.

–Mas pai, eu num sei... É meio nojento! Argumentava Augusto de cara feia.

–Quando é mais tarde quer leite, num quer? Quer queijo, quer manteiga. Meu filho, fácil ou difícil, seja homem e faça o que têm que ser feito!

Cel. Alberto ralhava com aquele inexperiente garoto numa tentativa mal sucedida de tirar leite das vacas. Tentativas que só tiveram resultados quando Augusto passou a ser ativo nos afazeres da fazenda, logo após o falecimento de seu pai.

“Faça o que têm que ser feito.” Era simples. Era necessário. E nesse espírito, nosso moço avançou passo a passo até a casa de Carmelita, onde lhe aguardava Seu Zé Bonifácio.

Não saber o que se faz. Por uma razão ou outra todos os jovens desta trama sofriam desse problema. Imaturidade, ócio, irresponsabilidade, e etc... Tudo isso no fim se tornou apenas uma adição à bola de neve que já era grande.

E enquanto o fim não se aproximava, Augusto sim, chegava a porta de seu destino. Tinha ensaiado palavras que agora ferviam como um turbilhão de pensamentos, como peixes que rodeavam e não mordiscavam a isca no anzol. Resumindo, ele estava se esquecendo, talvez por causa do nervosismo. Mas, tudo tem uma primeira vez.

Uma fraca batida na porta acordou Carmelita de suas abstrações. Agora ela mergulhava num frio daqueles que embrulha o estômago. Tinha chegado o momento totalmente precipitado em que Augusto conheceria seu pai!

Se levantou da rede, e foi atender a porta.

Era Augusto, tentando parecer confiante com um sorriso jovial estampado no rosto. Só que tentar não é sinônimo de conseguir, não é mesmo?

–Entre! Carmelita pediu num tom carinhoso.

Depois das belas escadas de granito, Augusto adentrou numa pequena sala, onde se encontravam uma rede branca com varandas rendadas, umas cadeiras de balanço, uma mesinha de centro, e um senhor careca de meia idade que o estudava com um olhar intimidador, ou era essa a ideia que Seu Zé Bonifácio tinha de si naquele momento.

Talvez Seu Zé pensasse que o sangue que corria em suas veias, de um avô que tinha sido coronel o desse um certo ar de superioridade. De qualquer maneira, estava claro que ele não era de tolerar muito, e gostava de resolver as coisas cortando as pontas soltas, o que Augusto parecia apreciar.

Ambos se estudaram por um momento curto, que parecia eterno aos olhos de Carmelita.

–Então, pai, esse é o Augusto, e Augusto, esse é meu pai. Carmelita estava nervosa, um pouco insegura. E não era pra menos. Nunca tinha passado por isso antes.

Notas finais
Comentem, critiquem, e opinem. Muito obrigado por lerem!