Casca Temporária
5 Capítulo 5 - Café
Eu gosto de me sentir viva.
Em momentos de transição, quando só vago perdida pelo universo, não sinto minha existência, o sentimento do vazio me preenche e passo a contemplar o infinito com um olhar melancólico.
Por isso, gosto quando tenho a oportunidade de invadir um pequeno receptáculo.
Não me importo com aparências ou status. Com o lento passar dos anos, desisti de selecionar vítimas e hoje apenas as abato.
É interessante que algo como eu sinta alegria com tão pouco, mas não nego. Minha existência aprecia conectar-se aos neurônios e tomar posse das batidas do coração.
Não sei se um dia já fui assim como você, leitor. Não sei se já possuí consciência fixa, um coração para sentir acelerar dentro do peito por palavras doces, um cérebro para tentar combater minhas emoções se as tivesse.
Dos muitos que vagam pelo universo, sou uma das poucas que vê brilho na sujeira humana. Não, leitor, não gosto de sua espécie, e é esse não gostar que instiga minha curiosidade. Vocês, como um todo, apenas exala do pior odor possível, contaminando meios e animais, dispersando sua "sabedoria" aos ventos. De fato, sua luz opaca agride minha visão, e meus ouvidos berram pelo silêncio.
Não me importo se concorda ou não, sua opinião não tem como me abalar, uma vez que muito provavelmente não me lembrarei dela daqui a pouco.
Novamente, mudei o foco do assunto, não é mesmo?
Peço que entenda, já que para quem tem a eternidade, uma pequena divagação em nada atrapalha ou aborrece. Você é o culpado! Habituado à informação de fácil acesso, foge das extensas linhas como uma presa com medo da morte.
Enfim, como dizia, gosto das sensações as quais a humanidade está sujeita. Ainda mais se puder se lembrar de quão passional sua espécie é!
Quando estou instalado, sinto como a mais leve brisa pode lhes arrepiar a pele, causando uma sensação para uns incômoda, para outros suave. Essa variedade de verditos é fascinante, os diferentes pontos de vista formados pelos mais diferentes modos de se criar alguém.
Particularmente, gosto de café. Um líquido que desperta de maneira única a maioria dos meus sentidos. Minhas mãos se aproveitam do calor da xícara, às vezes, queimam-se, porém sem nunca recuar. O aroma acalma meus pensamentos, as partículas entram lentamente no organismo habitado, invadindo células e depositando migalhas de sua doçura. O gosto!O prazer de queimar minimamente a língua no primeiro gole, afoito, para depois aos poucos ir saboreando aquela preciosidade.
Não te chamei aqui para ler sobre como aprecio essa bebida. O conflito dá-se no momento em que minha casca, contrariando-me, não toma café. Não me importa os motivos, já disse que opiniões são efêmeras para mim. Travo uma luta, tentando torcer-lhe a vontade, forçá-la a esse pequeno ato. Era para ser simples, caro leitor. Eu mando, ela obedece, eu saboreio o café.
Entretanto, não só não me obedeceu, mas também não tomou o café e ainda falou diretamente comigo, sussurrando bem baixinho um assustado: "Pare de querer me controlar."
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