Casca Temporária

6 Capítulo 6 - Surpresa


Sei que não entendeu o real impacto do que aconteceu. Sei e não o culpo, tolo leitor. Não sei se se recorda, entretanto lembro-me de ter dito que achava que minha casca tinha consciência de mim.

A ideia, porém, de tão absurda que me pareceu, foi descartada. Até o momento presente.

Não digo que a obedeci, não, não foi isso! Eu apenas paralisei, imerso em surpresa e choque. Pelo que me recordo, venho habitando e trocando de cascas há mais de dez séculos, e nenhuma delas nunca se deu conta de minha presença.

Entende agora, leitor? Pela primeira vez, tenho a chance de obter uma experiência diferente e, quem sabe, menos tediosa!

Mas, como eu também disse, paralisei. Por algumas horas, não consegui me manifestar, recuei, permanecendo no canto obscuro daquela mente, refletindo sobre o ocorrido.

Tive dúvidas. Estranho, há muito não me vinham tantas dúvidas. Foi assustador me ver acuada, bombardeada por tantas perguntas diferentes minhas e da casca. Sim! Só nesse momento eu permiti ouvir-lhe os pensamentos, caminhar por entre eles e analisá-los!

O "erro" tinha sido meu... Menosprezando esta, como todas outras cascas, não me importei em pesquisá-la, interessei-me somente em suas sensações e esqueci de às vezes chegar-lhe a mente.

Que mente! Desde a minha recepção, essa mente tinha trabalhado como uma máquina frenética. As engrenagens tentavam se ajustar para poder compreender a nova realidade, encaixam-se e desmontavam-se, almejando se adequarem, desejando descobrir o que eu seria, o que estava fazendo ali, e se de fato aquilo era real.

Ah, pobre mente! A mente não consegue aceitar a resposta se esta lhe foge do conhecido e do que ela aceita como real. Eu a vi acertar, ela compreendeu por um breve espaço de tempo, entretanto abandonou logo a ideia.

Sentada, quieta, voltei a prestar atenção nas ações de minha casca, preferindo não interferir e assisti-la. Ela caminhou até o espelho, sentou-se no chão e permaneceu ali: imóvel, determinada a se estudar. Sua mão elevou-se até a lisa superfície refletora, e eu senti que ela estava me chamando, tentando me tocar, me ver.

Ri, descrente, mas parei ao notar a casca se enrijecer, olhando para os lados assustada. Ela me ouvia?

Suas mãos foram à cabeça, bagunçando o cabelo.

– Estou enlouquecendo...

Sua voz nunca me pareceu tão desesperada. Fraqueza humana, de certo, medo de perder o que caracteriza tal espécie: a razão.

Dividi-me entre assistir o desenvolvimento desse pânico ou esclarecer logo o que se passava. Sadicamente falando, seria muito mais proveitoso para mim proporcionar e contemplar a ruína de uma casa, já que nunca pude fazê-lo.

Porém a ideia me pareceu tediosa por ter um fim breve. Demoraria mais neste receptáculo agindo a favor dele, não contra e, por isso, continuei apenas quieta, refletindo sobre o que faria daquele momento em diante.