Notas iniciais
Obrigada a todos pelos reviews.

Um aviso: Os caps serão postados todas as terças e sextas, se me der algum treco e eu postar antes ou depois dos dias estipulados eu aviso.

Boa leitura :D

O contacto da pele acetinada contra o seu ombro acordou Blake de um sonho voluptuoso. Um sonho no qual uma odalisca loira exibia as curvas estonteantes na dança do ventre e, por fim, tocava no seu braço com expressão convidativa. Provocado, Blake estendeu a mão para a figura escultural, enlaçando-a pela cintura fina e desejando fazer amor com ela. Naquele exacto instante, despertou.

Desconcertado, sentiu entre os dedos o tecido sedoso do lençol e, em seguida, a pele feminina contra a sua. A última coisa de que se lembrava era o episódio da liga, no casamento do primo. Mas nenhuma fantasia, por mais delirante que fosse, conseguiria criar uma situação assim. Era real! Havia uma mulher ao lado dele!

A descoberta explicava por que Blake havia acordado com uma sensação de saciedade. Girou o corpo para olhar melhor e constatou, intrigado, que a causa de tudo tinha sido Tori Hanson, a dama de honra que conhecera na noite anterior, dona do mais excitante par de pernas que ele vira. Era a última pessoa que esperava encontrar na sua cama.

Blake inclinou-se contra a almofada e tentou recordar como e porque os dois estavam deitados juntos. Observou Tori cautelosamente. Muito provavelmente, ela também le­varia um susto enorme quando despertasse.

A festa do casamento de seu primo Shane Clark com a esfuziante Kapri Watanabe havia se estendido até cerca de meia-noite, numa animada celebração regada a champanhe. O tempo passara vertiginosamente, e ele não se recordava do que tinha acon­tecido após ter colocado a liga na perna de Tori.

O excesso de bebida, mais o fato de estar duas noites sem dormir, talvez lhe tivesse afectado a memória. Blake viera de avião de Boston a Las Vegas e não pudera descansar, convocado logo na chegada para o ensaio da cerimónia.

Lembrava-se bem da perna roliça e quente que tivera na mão ao passar a liga até o alto da coxa. O elástico coberto de renda deslizara suavemente na pele macia que pôde sentir sob a meia. Para sua surpresa, o olhar de alerta de Tori continha uma outra mensagem, ela parecia apreciar aquele toque.

E depois? O resto da história permanecia sepultado nos des­vãos da memória. Se ficasse calmo e relaxado, talvez as res­postas não tardassem a surgir.

Blake suspirou fundo e examinou o amplo quarto do Majestic, o hotel de Las Vegas onde o casamento civil e a recepção tinham se realizado. Também não se lembrava de ter feito uma reserva ali, para pernoitar, mas a mala perto da porta confirmava que sim. Sua roupa estava atirada em desordem sobre uma cadeira, ao lado da cómoda, e noutra poltrona jazia um vestido azul, encimado por uma pequena calcinha, pelo corpete rendado e por um par de meias de seda.

Sem pressa, ele olhou para o sofá sob a janela, emoldurado pela cortina branca. Estava arrumado para dormir, com o lençol estendido e um travesseiro à cabeceira. Se havia se preparado para passar a noite ali, como tinha ido parar na cama com Tori? Era uma questão crucial, que aos poucos começava a se de­sanuviar. Recordava-se de ter devolvido o olhar de Tori com uma audaciosa expressão de desejo. E então? Os detalhes escapavam-lhe, mas as evidências diziam que, levados pelo mesmo impulso, ele e a loira deviam ter partilhado uma noite memorável. Blake demorou-se a observar a pele alva de Tori, com pe­quenas sardas na região do colo. Ela tinha os ombros nus, o rosto plácido. Os lábios curvados em um sorriso murmuravam algo inaudível. Parecia imersa em sonhos de amor, e Blake cur­vou-se para tentar ouvi-la, sentindo uma pontada de culpa.

Ah, sim. Seu olhar caloroso para Tori, na hora da festa, não traduzira propriamente uma intenção de conquista, mas de desafio. Quisera provocá-la, depois de vê-la encabulada ao colocar a liga. O que teria acontecido durante a noite para causar aquele sorriso satisfeito?

O ar meigo da mulher inspirou Blake a retirar uma mecha de cabelos da sua testa. Ele limpou a garganta e, ao som do pigarrear, Tori acordou, esgazeando os olhos.

— Tu! — Ela exclamou após alguns segundos de perplexidade.

— Eu mesmo — Confirmou ele com a voz rouca, deslocando-se para o seu lado da cama.

— O que estás a fazer aqui? — Tori puxou o lençol até cobrir os ombros.

A reacção de Blake foi de alívio. A loira aparentava mais serenidade do que ele previa, e talvez agora as coisas pudessem ser esclarecidas.

— Se estás a falar do quarto, creio que este é o meu aposento. Mas, por que estamos juntos na mesma cama, eu não sei. Acabei de acordar e te vi ao meu lado. — Notou que ela parecia confusa. — Eu me chamo Blake, caso não te lembres.

— E eu sou a Tori — respondeu ela, mordiscando o lábio. Era sua vez de debater-se com dúvidas embaraçosas. Lembra­va-se de ter sido rapidamente apresentada pela amiga Kapri ao padrinho do noivo. Reviu o episódio da liga, mas era óbvio que alguma coisa mais tinha ocorrido para levá-los àquela situação de intimidade.

Tori avaliou que Blake tinha menos de trinta anos, cabelos pretos e, a partir do peito exposto, um musculoso corpo queimado de sol. A despeito de seu embaraço, não pôde deixar de apreciar a atraente figura masculina. Admitiu que a sensualidade dele a fizera retribuir o olhar malicioso quando ele lhe tocara a perna. O mesmo olhar sensual, prefigurando beijos ardentes, prevalecia entre eles agora.

— Não sei o que aconteceu — Tori sussurrou enquanto apertava o lençol entre os dedos. — Mas parece que tu me seduzis-te. Não sou de passar a noite com um homem que mal conheço.

Blake deslizou a mão pelos cabelos e ficou contemplando o teto.

— Francamente, é uma surpresa para mim também. — Lem­bro-me pouco do fim da festa, só sei que me senti exausto depois de ir até ti e colocar a...

— Dispenso detalhes. Deve ter sido o champanhe. Nunca fiz nada parecido.

— Nem eu. Fiquei tão encabulado quanto tu. — Reviu mentalmente os olhares trocados com Tori e imaginou o que o teria levado a praticar jogos eróticos com a melhor amiga da noiva. Forçou-se a sorrir. — Apesar das aparências, lembro de ter-me oferecido para dormir no sofá.

Tori olhou por todo o quarto, até deter-se no sofá arru­mado com roupa de cama.

— Ainda não acredito no que fiz — ela franziu a testa.

— Quem sabe não foi apenas uma brincadeira? — su­geriu Blake.

— Talvez. — A ideia trouxe um visível alívio a Tori.

— Do que te lembras, exactamente? — ele indagou.

— Do suficiente. — Ela foi directa e sentiu um rubor nas faces.

Tori sabia que, na festa, tinha provocado Blake com o olhar. Queria apenas desafiar a ousadia dele e depois afastar-se. Fi­cara presa pelo sorriso tentador daquele homem e com ele partilhara muitas taças de bebida. Mas em que momento tudo havia evoluído para algo mais sério? Como se fosse a Cinderela, ela deveria ter optado por sair do baile à meia-noite!

Notando o rubor no rosto de Tori, Blake quase desistiu de fazer o comentário que pretendia. Uma luz forte acabara de acender-se em sua mente. Talvez fosse o mais importante de­talhe a ser lembrado, na tentativa de explicar a situação. To­mou fôlego e disse com ansiedade:

— Acho que nós casamos ontem à noite.

— O quê? Isso é ridículo. Por que eu me casaria contigo, sem te conhecer? — Ela apertou mais ainda o lençol contra o corpo.

— Bem, é óbvio que, durante a festa de Shane e Kapri, algo aconteceu, envolvendo nós dois.

— Sim, aconteceu um flerte que acabou na cama. Devíamos estar alcoolizados. Mas foi apenas uma brincadeira, como tu disseste. Agora, vamos esquecer.

— Mas eu me lembro bem de uma cerimónia de casamento.

— Claro, a do teu primo Shane e da minha amiga Kapri. Não me considero pronta para casar e, por mais bêbeda que estivesse...

Blake ponderou que talvez não fosse a melhor hora ou lugar para dizer a Tori que ele tinha pensado em fazer amor com ela. Mas o sonho com a odalisca lhe parecera muito real!

— Talvez tenhas razão, mas a cena é nítida demais...

— Impossível. Se nós tivéssemos casado, eu me lem­braria. Repito: nunca pretendi me casar.

— Está bem, pensa o que quiseres. — Blake ergueu no ar a mão direita. — Mas juro que a última coisa de que me recordo é ter arrumado o sofá para mim. Tu também te lembras disso?

Por mais sinceridade que ele demonstrasse, pensou Tori, nada impedia que tivesse vindo do sofá para a cama durante a noite. E não para dormir, a julgar pela maneira como seu corpo formi­gava. Debaixo do lençol, ela tocou-se ansiosamente. A liga rendada que havia provocado toda a situação ainda estava em sua perna. Mas, para seu assombro, era tudo o que tinha sobre a pele.

Em sua mente formou-se a imagem do pai, dos três irmãos e de outros parentes, acusando-a de conduta imprópria. Nua na cama, com um desconhecido! Não deixavam de ter razão.

— Do que mais te lembras? — apressou-se a perguntar. — Chegamos a...

— Deve haver uma explicação... — Blake esquivou-se de res­ponder directamente e pensou em se levantar, mas à algum tempo havia percebido que também não trazia nada sobre o corpo. Nem mesmo as meias.

A expressão de desconsolo de Tori prenunciava grandes problemas. Ele esforçou-se inutilmente para encontrar uma explicação diferente da que era óbvia e que ela teimava em aceitar: Tori era sua esposa legítima, e ambos haviam con­sumado o casamento naquela noite.

— O que vamos fazer? — ela exasperou-se.

— Juro que não sei.

Desistindo de explicar o inexplicável, Blake concentrou-se no próximo passo. Talvez Tori o ajudasse nisso, embora não pa­recesse disposta a compreender e perdoar o impulso que pos­sivelmente os levara a um dos vários cartórios de plantão na madrugada de Las Vegas.

— Se estamos casados, deve existir um documento — ela argumentou. — Com ele, podemos entrar com um pedido de divórcio. Ou de anulação.

Era uma sugestão civilizada. Blake engoliu em seco, ao antever os problemas acarretados por qualquer uma das iniciativas.

— E se não estivermos casados — ele propôs esperançoso —, prefiro esquecer esta noite e tudo o resto. Concordas?

Tori pensou rápido. O que parecia ter sido romântico, à luz do dia ganhava as dimensões de um acto ir­responsável. Com toda a honestidade, não podia culpar apenas Blake. Ele podia tê-la instigado durante a festa, mas nunca chegaria àquele ponto. Ela tinha sido tola em pensar que o flerte terminaria como brincadeira. Além do mais, eram ne­cessárias duas pessoas para fazer o que tinham feito.

O problema é que a amiga Kapri havia assolado seus ouvidos com elogios a Blake e referências ao que eles tinham em comum. Na rápida apresentação, durante o ensaio, Tori sentira um estranho arrepio quando houve um contacto com a mão de Max. Depois, houve o episódio da liga e o toque dele em uma parte sensível de seu corpo. Reconhecia que ele era a pessoa mais sensual que já conhecera, mas, depois do pai e dos irmãos mais velhos, não queria outro homem em sua vida. Mesmo que fosse Blake. Um novo pensamento perpassou-lhe a mente. A prolífica família ?(Hanson)?, de origem irlandesa, representava um exército de tios, primos e sobrinhos, a maioria do sexo masculino, e Tori estava cansada das atitudes machistas que era obrigada a enfrentar, além das anedotas picantes que tinha de ouvir. Ela simplesmente estremeceu ao cogitar que podia ter engravidado de Blake.

— Algo errado? — ele perguntou ao perceber-lhe o desconforto.

— Talvez — ela murmurou, apertando os lábios de preocu­pação. — Usas-te alguma proteção? Eu não tomo a pílula.

Blake engoliu em seco, não se recordava desse detalhe. Caso julgasse que Tori era sua esposa legítima, talvez não tivesse usado nada. Mas sempre trazia um preservativo na carteira.

— Sim... — afirmou com certa hesitação. — Eu não seria tão irresponsável.

Logo que fosse possível, iria conferir na carteira. Antes de retomarem a conversa, eles ouviram uma batida na porta.

— Quem será? — Tori sussurrou, verificando se estava bem coberta. — Não posso ser vista aqui.

— Vamos fingir que ainda estamos dormindo, e irão embora — Blake disse baixinho ao colocar um dedo sobre os lábios dela.

A batida soou mais alta, desta vez insistente.

— Estamos sem sorte — ele resmungou. — Vou ver quem é. — Enrolou-se numa toalha de banho e foi atender. Tori já havia esticado o lençol até cobrir a cabeça. De passagem, la­mentou o desalinho em que se encontrava o quarto, com as roupas espalhadas. Costumava ser uma mulher organizada, amante da ordem. Até isso havia mudado naquela noite! — O que deseja? — Blake perguntou pela fresta da porta.

— Sou o subgerente do hotel, senhor. Trouxe as cortesias incluídas na suíte nupcial. Ontem, o senhor e a sra. Bradley entraram muito tarde e não receberam os brindes.

Sra. Bradley? Suíte nupcial? Ali estava a confirmação de que, para o bem ou para o mal, ele havia casado com Tori. Era um convicto apreciador da companhia feminina, mas, do mesmo modo que ela, também não se achava pronto para o casamento. O subgerente passou, pelo vão da porta, um cesto de guloseimas e, depois, um balde de prata com uma garrafa de champanhe. Blake resmungou um agradecimento e já ia fechar quando o funcionário lhe apontou o carrinho de serviço, em­purrado por um garçom.

— Um desjejum especial, senhor, por nossa conta.

O carrinho estava decorado com fitas e laços em forma de coração, o que Blake considerou um exagero. Virou-se para olhar para a cama e, vendo que Tori permanecia bem escondida, abriu a porta para o garçom passar.

— Qualquer outra coisa que deseje, senhor, basta me avisar — despediu-se o gerente, apressando o garçom e lançando um olhar panorâmico pelo quarto e depois fixar-se levemente es­candalizado na toalha que recobria Blake. — Nossos melhores votos de felicidade ao casal.

Felicidade? Ali estava uma palavra descabida naquele con­texto. Nada podia ter-lhe acontecido de pior, refletiu enquanto examinava o conteúdo do carrinho.

— Já foram embora? — inquiriu Tori com a voz sufocada debaixo do lençol.

— Sim, e trouxeram o pequeno-almoço. — Pôs de lado o champanhe, atribuindo-lhe toda a desgraça que enfrentava. Com o estômago doendo de fome, deitou café numa chávena, para arrefecer, e mordiscou uma fruta. — Queres?

— Não tenho vontade — avisou Tori. — Vou me arrumar e depois decidiremos o que fazer.

Com o canto dos olhos, Blake viu quando ela, enrolada no lençol, recolheu suas roupas e trancou-se no banheiro. Pouco depois, ouviu água caindo do chuveiro.

Ele aproveitou para vestir as calças, adiando o banho, e fartou-se com o saboroso desjejum, rico em sumos, frutas, queijos, bolos e pães dos mais variados tipos. Não tocou no cesto de vime com os presentes, cuja alça vinha enrolada em fita de cetim, termi­nando com um coração de veludo vermelho bem no centro.

Tori não demorou a entrar, convenientemente vestida e penteada. Logo teve a atenção despertada pelo cesto e apro­ximou-se para conferir. Rasgou o papel de seda e sentiu-se acalorada pelas implicações sensuais dos brindes: sais aromáticos de banho, escovas de formas diversas, incluindo um par
de cabo comprido para esfregar as costas, miniaturas de perfumes inebriantes, máscaras pretas para dormir ou para algum exótico ritual amoroso.

Tudo isso criou um inevitável clima erótico. A visão do torso nu de Blake lhe despertou imagens extasiantes das próprias mãos deslizando por aqueles músculos rígidos. Depois viu-se igualmente massageada por ele, em cada centímetro do corpo. Cerrou os olhos e teve a impressão de sentir os dedos percorrendo suas pernas.

Ao voltar para a realidade, Tori notou a inscrição no coração vermelho que viera junto com o cesto: "Sr. e sra. Bradley". Seguiam-se palavras de congratulações aos noivos e votos de felicidade.

Suspirou profundamente e retraiu-se ante o olhar curioso de Blake. Se era verdade que estava casada com ele, então podia desfrutar sem culpa as delícias da lua-de-mel, antes da previsível separação.

Blake nada disse. Deixou-a pensativa e foi vestir-se.

Notas finais
Afinal, Tori e Blake casaram mesmo.
O que será que eles vão fazer?
Separar-se? Ou ficar juntos?