Notas iniciais
Obrigada a todos pelos reviews.
Blake - E obrigado por torcerem para eu ficar com a Tori.
Tori - Eu também agradeço. Mas agora vamos ao capítulo que vão aparecer mais 5 ou 6 pessoas.

Boa leitura.

Debaixo do chuveiro, Blake exasperou-se com uma idéia fixa: como podia pensar em ter-se casado se não se lembrava de ter ido a um cartório e se não
possuía uma certidão qualquer? Balançou a cabeça molhada, em um gesto de inconformismo. Não conseguia atinar com o que havia acontecido. Quanto a Tori, ela também parecia transtornada com o facto de ser sua esposa legítima. Nenhum dos dois planejara aquilo.

Ao sair do banho, ele apressou-se em verificar sua carteira: o preservativo não estava mais lá. Respirou aliviado. Casar-se com uma estranha já era ruim, mas ter um filho indesejado era bem pior!

Criado no seio de uma família rigorosa, com pais emocionalmente contidos, sua infância não tinha sido propriamente cercada de amor. Em consequência, Blake carecia de interesse pela paternidade. Não pretendia formar uma família antes de se considerar completamente preparado.

Resmungando consigo mesmo, Blake deu um aceno breve para Tori, entretida diante do espelho da penteadeira, e dirigiu-se resolutamente para o saguão do hotel, cuja decoração formava um ambiente campestre, com plantas e flores circundando o rústico chafariz central. O cenário lhe pareceu vagamente familiar, o que já era um progresso em face de seus lapsos de memória.

— Houve uma festa no salão, ontem à noite? — perguntou ao recepcionista logo que se aproximou do balcão.

— O senhor deve saber — o homem afirmou com ar de surpresa. — O senhor e sua mulher foram as grandes atrações...

Blake devolveu o olhar admirado. Examinou o saguão por cima do ombro e nenhuma lembrança lhe ocorreu. Se havia uma explicação para os acontecimentos, ele pretendia descobrir, e a fonte mais segura e óbvia de notícias era o primo Shane, cujo casamento havia transformado sua vida. Deu um passo na direção das cabinas telefónicas, mas estacou ao recordar-se de que Shane e a esposa Kapri estavam em lua-de-mel, em lugar desconhecido. Quem mais poderia ajudá-lo a esclarecer os fatos, sem que ele parecesse um maluco por perguntar? Talvez a tia Clara, a mãe de Shane. Não. Sua reputação dentro da família ficaria completamente arruinada. Precisava encontrar outro caminho. Pensou em interrogar o pessoal da limpeza quando deparou com o subgerente que havia batido à porta do quarto. O mo­vimento no saguão era intenso, com hóspedes chegando ou saindo, mensageiros portando malas e a equipe de recepção enxugando o suor.

— Posso ajudar, sr. Bradley? — ele ofereceu com ar prestativo.

— É uma grande confusão, não é? — retrucou Blake para ganhar tempo. Estava indeciso quanto ao que perguntar pois não pretendia passar por tolo.

— Nada de especial para um hotel como o nosso — o homem sentenciou. — E a publicidade extra que o senhor e a sra. Bradley nos trouxeram é muito valiosa.

A que publicidade estava se referindo? Por que alguns fun­cionários olhavam para ele e continham o riso? Com os nervos tensos, Blake deduziu que, de certa maneira, ele e Tori estavam envolvidos em alguma coisa fora do comum. Repassou na me­mória o ritual da liga e a fatal atracção que sentira pela dama de honra. O cansaço devia tê-lo abatido a partir daquele momento, pois o resto da noite havia passado sem que percebesse. Pior, sem que se lembrasse de ter feito amor com Tori.

Como um homem pode perguntar a outro o que aconteceu em sua própria noite de núpcias?

Rangindo os dentes, Blake agradeceu ao subgerente pela atenção e voltou à ala dos elevadores. Em sua frustração, apertou obses­sivamente o botão de chamada. Tori já devia estar esperando.

A placa de "Não perturbe" pendurada na maçaneta da porta indicava que Tori tinha se preparado para uma reunião tem­pestuosa. Quando entrou, viu que ela estava sentada na saleta da suíte, envolta no roupão branco do hotel. Devia ter tomado banho novamente, desta vez na banheira de hidromassagem, e experimentado os exóticos sais e perfumes que tinham vindo no cesto de brindes. Um excitante aroma se desprendia do corpo dela. Provavelmente estava nua sob o roupão. Os sentidos de Blake se aguçaram antes que ele pudesse contemplar o rosto bonito de Tori.

— Onde estiveste? — ela perguntou franzindo a testa.

— Na recepção — informou sem a menor disposição de dis­cutir. — Antes que comeces, quero avisar que também não estou nem um pouco feliz com nosso problema. Portanto, vai com calma. — Dirigiu-se ao telefone. — Vou pedir café quente para ti. O do carrinho já deve estar frio.

— Como podes pensar em café quando temos coisas tão im­portantes a resolver?

— Por isso mesmo. De estômago cheio, pensamos melhor. — Não era uma resposta inteligente, e Blake aceitou o desdém com que Tori a recebeu.

— Precisamos conversar a sério. Quero esclarecer logo a con­fusão, pois nada me tira da cabeça que nós não estamos casados.

Apesar da seriedade da situação, ele não pôde evitar um sorriso. Quanto mais furiosa, mais atraente ela se tornava. Ensaiou algo para dizer, mas foi interrompido por insistentes batidas na porta.

— Outra vez! — protestou Tori, caminhando para a entrada. — Não viu a placa? — gritou para fora, pela fresta que abriu.

Um rapazinho de seus doze anos irrompeu quarto adentro.

— Tori! Esconde-te! O pai e o Dustin estão subindo, furiosos.

— Peter! O que estás a fazer aqui? — Ela olhou para o corredor externo e encostou a porta.

— Vim à frente a correr, para te avisar — o menino falou quase sem fôlego. — O pai disse que te viu na televisão ontem à noite e que tu casas-te. É verdade?

— Não — Tori foi incisiva e trocou um olhar com Blake.

— Sim — ele rebateu. — Quer dizer, acho que sim. Estamos...

— Mais tarde eu conto — ela disse, passando o braço pelo ombro do garoto e conduzindo-o para o sofá. — Espera aí, quietinho.

— O pai não me pode ver aqui. É melhor eu voltar para casa antes que ele chegue.

Blake observou as feições do menino, que lembravam as de Tori. Impossível duvidar de que fossem irmãos.

- Ninguém vai sair daqui — trovejou a voz grave do oficial da polícia de Las Vegas que acabava de abrir a porta.

Blake pensou rápido. Teria infligido alguma lei local? Em caso afirmativo, a situação era pior do que parecia.

Hunter? Tu também? — Tori ficou pasma. Observando melhor o policial uniformizado, Blake notou que ele era uma versão masculina de Tori. Os mesmos traços, a mesma cor loira nos cabelos visíveis sob o quepe. Estranha­mente, Blake não se sentiu ameaçado pelo duro olhar.

- Sim, Hunter. Teu irmão, lembras-te? — Correu a vista pelo quarto e fixou-se em Peter. — Quanto a ti, menino, já que vies-te tão rápido de casa, agora podes ficar.

O menino apanhou disfarçadamente uma bolacha do carri­nho, enquanto Hunter se voltava para a irmã.

- Para tua informação, todo o pessoal do distrito me cum­primentou quando eu fui trabalhar, esta manhã. Praticamente toda a cidade assistiu ao teu casamento no programa Casamento na Tv! Pena que a família estava ausente.

- Não é o que parece — interveio Tori. — Dá-me um minuto para explicar.

- O que há para explicar? Casas-te e ponto. Como eu nunca soube dos teus planos, achei melhor verificar se estava tudo bem. Concentrou a atenção em Blake. — Tu és o noivo? — Perdido naquela espécie de reunião familiar, Blake só pôde oscilar gravemente a cabeça.

- Nunca vi Tori sair contigo — prosseguiu Hunter. — És novo na cidade?

Blake confirmou de novo e relanceou um olhar assustado para a mulher. Quantos irmãos ela possuía? E o que diriam quando soubessem da verdadeira situação? Tori atenuou o mal-estar fazendo as apresentações formais.

— O nome completo é Blake Bradley — achou melhor informar, enquanto apertava a mão do suspeitoso Hunter.

- Então, és o feliz marido... — O policial não parecia nem um pouco contente.

- Vitoria! (N/A: Só para lembrar o verdadeiro nome de Tori é Vitoria. Ás vezes irei por o verdadeiro nome dela.) — Mais uma voz fez-se ouvir na porta e um senhor alto e esguio, de meia-idade, com uniforme de oficial da Aero­náutica, ingressou no aposento.

Era o pai dela, deduziu Blake, perplexo com a velocidade com que os parentes, e os problemas, se multiplicavam. Atrás do recém-chegado, vinha um homem mais jovem, também far­dado, mas de patente inferior.

— Como está, pai? E tu, Dustin? — Tori estreitou o roupão contra o corpo, sentindo que não estava adequadamente trajada para a imprevista reunião. — Por que vieram todos me ver?

— Tenho uma pergunta melhor, filha. O que estás a fazer aqui, com um completo desconhecido? Eu sabia que tu ias a um casamento, mas nunca pensei que seria o teu próprio.

— Não é isso... — Sorriu debilmente. — Foi uma surpresa para mim também.

Tori dirigiu um olhar aflito para o paralisado Blake e, com isso, atraiu a atenção do pai para ele.

— Este é o teu marido?

— Blake Bradley, senhor. — Estendeu a mão respeitosamente.

— Michael Hanson. Prazer em conhecê-lo, rapaz. — O homem estreitou os olhos castanhos. — Sei como a minha filha é impulsiva, mas fiquei surpreso com este desfecho. — Foca­lizou o menino Peter, encolhido no sofá. — O caçula ali também gosta de nos pregar surpresas, mas o caso dele ainda tem cura.

— Pai, como pode ameaçar o Peter? A culpa foi toda minha.

— Tua? E o noivo, não teve participação?

A questão não requeria resposta. Blake fez um breve inventário mental das chances que tinha com esse tipo de interrogatório e consultou Tori com o olhar. O pai e os irmãos dela, cóm seus vistosos uniformes, faziam-no sentir-se numa corte marcial. Percebendo o sorriso maroto de Peter, concluiu que ele era o único da família que parecia ser tão espontâneo e compreensivo quanto a irmã. Ainda era uma criança, mas foi um alívio ver-se apreciado por pelo menos um membro do clã Hanson.

Aproximou-se de Tori a pretexto de ajeitar a gola do roupão e cobriu-lhe a mão esquerda com a sua, de modo a esconder a falta de uma aliança no dedo anular. Sentiu que lhe devia apoio, fosse ou não sua esposa de verdade.

— Querida, por que não entras e vais te vestir?

— Boa ideia, mas vem comigo. Pai, volto num instante. — Distraídos no exame do cesto de brindes e do carrinho de guloseimas, os familiares de Tori concordaram com um aceno de cabeça.

O quarto não era refúgio seguro para uma conversa particular, pois não existia separação entre ele e a saleta. Tori conduziu Blake ao banheiro e silenciosamente fechou a porta.

— O que vamos fazer agora? — inquiriu franzindo a testa.

— Boa pergunta. — O inebriante aroma que preenchia o ambiente era o mesmo que o corpo de Tori exalava, causando um agradável torpor. Pensamentos sensuais o fizeram demo­rar-se na resposta. — Suponho que é melhor deixar como está. Vamos fingir que está tudo certo até eles irem embora. Aí podemos estudar uma anulação de casamento.

— Anulação? Depois do que houve entre nós na cama? — Ela estava certa. Seria difícil encontrar uma alegação viável para abrir o processo.

— Está bem. Talvez um divórcio.

— Impossível — retrucou Tori com crescente aflição. — Ainda acho que não estamos casados oficialmente, mas, se es­tivermos, na minha família ninguém se divorcia. É por isso que meus irmãos maiores ainda estão solteiros, esperando a mulher certa. Meu pai nunca aceitaria essa idéia.

— Calma — Blake solicitou. — Por enquanto, podemos dizer que vamos viajar em lua-de-mel. Quando estivermos sozinhos, ajeitaremos tudo,

— Lua-de-mel? — ela quase gritou, sentindo-se insultada. — É muito atrevimento!

— Fala baixo — ele insistiu com um olho na porta. Se não chegassem a um acordo, logo um dos truculentos parentes de Tori estaria atrás deles. — Seria apenas fingimento, para tirar a tua família do nosso encalço.

— Ah! — A exclamação valeu por uma concordância. — Mas cuidado com Hunter e Dustin. Eles são capazes de tudo para me proteger.

— Agora estás a ser paranóica. — Blake notou os nervos retesados. — É natural que se preocupem com a irmã.

— Esse é o problema. Eles acham que podem se meter na minha vida. Vivem me vigiando. — Apertou a fronte com os dedos. — Espero que me dêem uma folga.

Blake agarrou Tori pela cintura e girou-lhe o corpo até ficar de frente para o espelho.

— Olha. Não há nada escrito em sua testa, denunciando o que ocorreu aqui neste quarto. Além disso, como mulher ca­sada, não deves satisfações aos teus parentes.

Uma estranha excitação pairava no ar perfumado. Ela con­templou seu reflexo no cristal polido. Atrás da própria cabeça, viu o rosto expectante de Blake. Ele mantinha as mãos no seu corpo, e a proximidade fez crescer o desejo de reclinar-se no ombro dele e oferecer-lhe os lábios para um beijo fremente. O roupão se abriria e...

Ela se conteve com um arrepio de frustração. Simplesmente não era hora.

— Tu sabes muito bem que não nos casamos! — Tori recobrou a lucidez e quebrou a tensão sensual que se instalara entre eles.

— Veremos — ponderou Blake, recolhendo as mãos. — Mas estamos juntos nisso.

— Obrigada por me lembrares. Talvez o meu pai queira promover o casamento para religioso, numa igreja irlandesa. É melhor concordar com tudo o que ele disser, até ficarmos sozinhos.

Blake não podia deixar de apoiá-la. Sentia-se um pouco cul­pado pela situação. A atração que experimentara por Tori durante a festa, o impulso que propositadamente despertara nela, eram os responsáveis pelo impasse cujos desdobramentos ele não conseguira antecipar. Não naquele momento, com o tribunal familiar esperando por ele no outro aposento.

A saleta da suíte havia se transformado num território de domínio dos parentes de Tori. Se Blake estivesse em sua casa, com a própria família, teria muito menos com que se preocupar. Lembrou-se da passagem aérea para o Havaí, guardada na mala. Tinha planejado conhecer a vida noturna de Las Vegas e, depois, encontrar-se com Leanne Larock(N/A: Não deve ser o verdadeiro apelido, mas não sei qual é o verdadeiro.) para uma semana de férias. Leanne, sim, era uma mulher que deveria estar a seu lado.

— Agora veste-te — ele ordenou ao abrir a porta para voltar à saleta. — Talvez a ideia da lua-de-mel funcione.

De uma coisa Blake estava convencido. De nada valeria propor anulação ou divórcio com a família de Tori por perto. Só cau­saria mais dissabor. Fingir-se de marido apaixonado seria bem mais viável, além de gratificante: Tori era bem mais atraente e espontânea do que Leanne.

Notas finais
O pai e os irmãos de Tori apareceram.
Blake devia ir ter com Leanne ao Havaí e casar com ela. Será que ainda vão casar?
Será que Tori e Blake vão acabar por se separar?
Talvez a resposta apareça no próximo capítulo.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.