Casamento por obrigação
10 Capítulo 10
Lá dentro do quarto escuro, Beatriz deitou-se de bruços na cama de solteiro, agarrando-se com força ao travesseiro de penas para abafar os soluços. O fato de Armando ter olhado nos seus olhos e dito, com todas as letras, que ela era apenas a sua "irmãzinha e uma menina pura" a havia deixado mil vezes mais triste do que a cena de traição que vira na cadeira da escola.
Fechou os olhos e as lembranças começaram a torturar a sua mente: lembrava-se dele com a professora, com as filhas dos fazendeiros ricos rindo no rio, com a Marcela Valência entrando no quarto dele de madrugada... Ela havia passado a adolescência inteira sendo a testemunha invisível dos desejos dele. Armando era um homem feito, rústico, forte e vigoroso, dono de um físico invejável que tirava o juízo de qualquer vivente. Ele domava os cavalos bravos, carregava toras de lenha nas costas como se não fosse nada... era avantajado e másculo por demais.
— Eu sou apenas uma menina boba, feia e idiota para ele... — sussurrou Betty contra o tecido do travesseiro, as lágrimas queimando a pele de porcelana. — Uma inocente... bah! Eu odeio essa minha inocência! Eu queria... eu queria com todas as forças do meu corpo que o Armando me deixasse de ver como uma menininha da roça. Queria que ele me olhasse como uma fêmea... que ele me tomasse nos seus braços fortes e me tornasse sua mulher de uma vez por todas! Queria que ele me beijasse na boca, que me abraçasse com aquela selvageria, que fizesse comigo na cama exatamente o que ele faz com essas mulheres da rumba...
Ela parou por um segundo, o coração batendo descompassado na escuridão.
— Mas comigo... comigo terá que ser diferente. Não pode ser em qualquer lugar sujo como aquela cabana. Comigo terá que ser especial. Uma união de pele, de entrega e de sentimento puro, onde nós nos entregaremos um ao outro perante Deus. Mas... o que é que eu estou falando aqui sozinha? — ela cobriu o rosto com as mãos, envergonhada dos próprios pensamentos impuros. — Eu nem sequer sei como se beija um homem na boca! Eu não tenho experiência nenhuma de amor!
Betty sentou-se na cama, limpando as lágrimas do rosto com determinação, enquanto um brilho audacioso começava a nascer nos seus olhos de café.
— Eu vou voltar para aquela Capital logo... — decretou ela para o quarto vazio, com um sorriso de canto surgir nos lábios. — E eu vou dar um jeito de aprender essas manhas da rumba com as meninas da faculdade! Quando eu colocar os meus pés de volta nesta Fazenda Laços, o meu caubói vai ter que me enxergar como a mulher que eu vou me tornar. Ele vai ser meu... só meu!
—Talvez a tal da Karina tenha razão! Sou apenas uma menina boba, ele me vê como a irmã caçula e não creio que uma tomada de atitude possa mudar algo. Como queria ser mais velha! Se ao menos tivesse uma chancezinha com ele.
—dizia saindo do quarto em direção à sala.
—Ah já ia chama-la, Beatriz!
—Boa tarde, dona Margarida, é que estava meio cansada e desculpe se passei da hora do café, sei que a senhora não gosta.
—Não, não é isso! É que fiquei preocupada. Pensei que estivesse se sentido mal. Armando também estava preocupado.
“Ah sim, se vou continuar a dar aulas, afinal alguém precisa ensinar algo que preste, pois aquela Karina já sei o que faz na escola.” -pensa
—Ah. Dona Margarida, mais uma vez peço desculpas.
—Inclusive, me pediu para avisá-lo se você acordasse para lhe dizer como estava. Vou mandar chamá-lo.
—Por favor não, dona Margarida! Agora tenho umas coisas para fazer.
—Tem algum problema entre você e Armando?
—Problema? Não, imagina. A menos que considere normal que seu filho ao invés de estar cuidando da fazenda ou estar organizando as matérias para as próximas aulas estava fazendo coisas com a outra professora, a tal da Karina.
—Como assim?
—Ele e a tal da Karina estavam fazendo coisas em plena sala de aula!
—Isto não é possível! Ele não seria capaz!
—Pois foi! Estavam seminus.
—Armando não tem mais jeito! Sabia que havia sido um erro deixá-lo levar esta vida. Deveria tê-lo mandado para fora do país ou estudar com o tio Padre Alberto!
Lógico que Betty não lhe havia contado. Não iria destruir a imagem de Armando perante seus pais. Assim que calou-se.
—Problemas? Não. Armando e eu sempre nos demos bem. A questão é que... que... meu pai reclamou que mesmo tendo voltado, quase não fico com eles. Então, prometi que assim que acordasse, iria vê-los.
—Está bem, querida.
—Olá, Beatriz!
—Boa tarde, don Roberto! –beijo na testa.
—Que bom que acordou bem.
—Sim, don Roberto.
—Bem, creio que já devo ir.
—Mas filha não é porque cheguei, é?
—Não, imagina don Roberto ojojo!
—Ela vai ficar a tarde com os pais.
—Faz muito bem!
Betty se despediu daqueles que amava como tios e foi direto à casa de seus pais. Não queria correr o risco de que Armando voltasse para casa. Não estava preparada pra vê-lo.
—Mamãe?
—Filha! Que bom que veio nos visitar! –a mãe a abraça.
—E está tudo bem?
—Sim, claro.
—Na escola, na casa dos Mendoza?
—Sim, mamãe.
—É que... não sei, seus olhos dizem outra coisa.
—Imagina, mamãe. As coisas estão bem?
—Bem, você sabe como é seu pai anda reclamando que voltou para cá, vai ficar alguns meses, mas não para aqui para nada. Aparte disso tenho saudades.
—
—Também tenho saudades de vocês, mamãe!
—Ah, olha só quem resolveu lembrar-se dos pais! –disse don Hermes chegando neste momento
—Papai!
Depois de receber umas broncas, Beatriz o abraçou e ele abraçou de volta. Precisava daquele carinho.
—De verdade vai ficar aqui na fazenda?
—Sim, papai, tranquei a matrícula por um semestre. –disse triste, pois na verdade queria uma boa desculpa para afastar-se e ir para a capital, mas não tinha coragem de deixar as crianças sem as aulas.
—E está dando aula na escolinha? –perguntou Don Hermes
—Sim.
—A menina sempre gostou de dar aulas com a dona Catalina e também com a doce dona Inesita. –disse Júlia
—E o don Armando também é professor dessa escola, não? –perguntou o pai
—Sim, ele é.
—Hum.
—Ele é professor e diretor.
—Bem. E você vai ficar morando na casa dos Mendoza?
—Hermes!
—Não acha que está incomodando?
—Hermes!
—Não me interrompa, Júlia! Esta não é a filosofia dos Pinzón. Não é bom que fique por aí na casa dos patrões! Nós os Pinzón não somos assim. Ainda mais depois de passar cinco anos longe de casa!
—Estava estudando.
—Sim, mas não sei para quê tanto estudo?
—Hermes!
—Não, isto não está certo, Júlia! Seu lugar é aqui conosco, ao menos até que se case.
—Pois pretendo voltar para capital para continuar estudando daqui a seis meses! Dona Catalina me arrumou a bolsa e conta comigo.
—Sobre isto conversaremos.
Bronca vai. Conversa vem e convenceu à Betty que deveria voltar para casa.
—Desculpa, filha. Não esperava que aceitasse voltar. –disse Hermes –Prometo que em breve organizarei tudo.
—Não tem problema, Muitas vezes adormecia neste sofá.
—Oh, minha filha!
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Dona Margarida ficou surpresa com a notícia, achava que a menina gostava de estar ali, Mas entendia que devia estar com saudades de seus pais.
—Quero que saiba que quando quiser voltar, este quarto sempre estará disponível.
—Grata, dona Margarida!
Iria sentir saudades, a ajudava a suprir a falta que Camila lhe fazia, e ainda gentil, lhe ajudava com os afazeres e a tomar conta da casa. Tão diferente da futura nora, que ficava na sala e não fazia nada.
Armando chegava naquele momento.
—O que acontece aqui? Que malas são estas?
—São de Beatriz!
—Mas ela vai ficar, trancou a faculdade e...
—Vai para a casa de seus pais.
—Mas como assim?
Armando foi até o quarto de Camila, onde Betty se encontrava.
—O que pensa que está falando?
—Como entra assim no meu quarto?
—Desculpe, mas achei que não abriria para mim! Por que está indo embora?
—Estou indo para a casa de meus pais.
—Mas, por quê?
—Ora, são meus pais.
—Mas eu sei. Acontece que não tem um lugar seu lá e pode ficar aqui no de Camila, minha mãe gosta da sua companhia!
—E você?
—Sabe que sempre gostei...
—Como, como uma irmãzinha, ainda mais porque Cami não está aqui?
—Não é isso, Betty! Gosto de conversar contigo, nos entendemos.
—Por que gostaria de falar com uma menina boba como eu?
—Você não é boba! Olha, me perdoe pelo que viu.
—Não quero falar sobre isso!
—Fui um idiota, sempre fui descontrolado. Não tem idade para entender, mas homens tendem a ser meio canalhas. A só pensar no momento...
—Pensei que vocês adultos fossem mais controlados!
—Às vezes não. Vai mesmo ir embora?
—Necessito.
—Me perdoe, pelo que viu, sei que quebra a imagem que tem de mim!
“É bobo ou o quê? Realmente assim nunca o havia visto, mas já tinha visto-o beijando as moças por aí” -pensou
—Lalálá! Não estou ouvindo nada. Não estou ouvindo nada. –disse ela tapando os ouvidos
—Está sendo infantil, Beatriz!
—Ao menos sei me controlar, não vou por aí fazendo coisas com qualquer um na escola! Já pensou se seus pais sabem disso?
—Nem quero pensar!
—Melhor que deixemos isto assim. Tenho que terminar de arrumar minhas coisas.
—Está bem. Mas espero que não deixe de ir na escola por isso. As crianças andam sentindo sua falta.
—Também sinto falta delas. Mas para a tal Karina está bem, pois estou fora.
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—Acredite que não me interessa nem um pouco. Pense no que te falei.
Assim, Beatriz volta para a casa dos pais. Trocou o belo quarto de Camila, decorado para uma boneca, com todo conforto e luxo pelo sofá da casa dos Pinzón, pois seu quarto ainda não estava arrumado. Mas prefere que estar ao lado de Armando, era muita tortura para ela ouvi-lo através da porta fazendo com outras mulheres, mas o pior era ter que cruzar com ele o dia inteiro e querer agarrar-se em seu pescoço para lhe mostrar que ela não era a menina inocente e que lhe mostraria que poderia ser a mulher da sua vida. Mas não tinha coragem e nem experiência para isso.
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O que Betty não sabia é que desde aquele dia em que Betty o havia flagrado com Karina não havia tido nada mais com ela nem dentro nem fora da escola.
—Isto não vai ficar assim! Não pode terminar assim! Você não pode terminar comigo depois de tudo!
—Depois de tudo, o quê? Não temos nada!
—Tudo por conta daquela menina idiota!
—Não ouse falar assim de Beatriz! Ou...
—Ou o quê?
—Não me tire do sério!
—Cadê ela, fugiu? Ou a cena foi muito forte para ela? Paixão, desejo, prazer! Não deve conhecer nada disso uma fedelha daquelas! —Beatriz está tirando uns dias com minha permissão e não se meta com ela ou...
—Ou? O que rola com você? Acaso sente algo por ela?
—Não diga besteiras! Sabe que sou como seu irmão!
—Ah sim, mas não é assim que ela te vê. Ela está apaixonada por você! Por isso, abriu mão de estar na Capital. Coitada, é uma iludida, você gosta é de mulheres como eu!
—Beatriz não é como pensa, seu foco são os estudos!
—Tão ingênuo, Mendoza!
—Olha, Karina, pouca me importa o que pensa, se concentre nas aulas, que foi para isso que lhe dei a vaga de professora. Mas não se meta com Beatriz quando ela voltar.
—Esqueçamos dela e falemos de nós.
—Não existe nós! Não temos nada!
—Não pense que vai ficar assim! O que acha de eu contar tudo que fazemos à Marcela? Não será difícil, ela já desconfia.
—Você não se atreva a dizer nada ou te demito e não vai conseguir emprego em lugar nenhum!
—Você não se atreveria!
—Me atrevo. Não sabe do que sou capaz!
—Armando!
—Já está avisada!
Armando não gostava de Marcela, mas uma vez que teve que aceitar se casar, não queria que a noiva pegasse no seu pé e o controlasse.
Karina se foi chorando, sabia que Armando falava sério.
Beatriz ainda demorou dois dias para voltar para a escola, Armando ficou encantado de ver como tanto as crianças quanto os adultos gostavam dela, Mas a moça não queria assunto com ele e se limitava a falar coisas das aulas. Estava triste, amava conversar e passear com ela.
Por outro lado, os alunos adolescentes estavam com os hormônios ativados e ficavam loucos por ela, até mais que por Karina, pois a outra já era toda uma mulher, já Beatriz era uma adolescente como eles e tão inteligente, despertava-lhes interesses inclusive românticos com ela. Armando não gostava nada daquilo, pois seu instinto de irmão mais velho o fazia querer defendê-la. E conhecia bem como eram estes jovens, tais como ele. Lógico que para ela nenhum lhe interessava, mas passou a ser gentil e atenciosa com eles, tão diferente dos rapazes que nunca haviam prestado atenção nela, a não ser para fazer bullying com ela, a não ser ele, seu Armando, mas porque a defendia como sua irmãzinha.
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