Casamento por obrigação
11 Capítulo 11
Apesar de estar secretamente feliz por Betty ter voltado a dar aulas na escola, Armando não estava nada satisfeito com o fato de a moça não ser mais a mesma de antes. Ela já não limpava o chão por onde ele passava. Agora, apenas falava o estrito essencial com ele e, geralmente, limitava-se a assuntos escolares frios. Mas havia algo mais que o estava perturbando profundamente: o modo como os homens da fazenda a olhavam.
— Beatriz, até quando você vai continuar me ignorando desse jeito? — cobrou Armando em uma tarde, encurralando-a perto do armário de livros. — Eu preciso falar contigo de verdade.
— Acaso o senhor tem algum assunto pendente para tratar sobre o cronograma das aulas, Professor Mendoza? — rebateu ela, sem desviar os olhos dos cadernos.
— Você sabe muito bem que não! Eu preciso falar contigo sobre outros assuntos... sobre nós!
— Pois creio que o senhor e eu não temos absolutamente nada a falar fora desta sala!
— Beatriz! Beatriz, espere! — chamou ele, mas a moça saiu precipitada dali, fazendo os saltos baterem firme contra a madeira. — Diabo de menina teimosa! — resmungou ele.
Em outro dia daquela mesma semana, logo após o término da aula dos adultos, Armando aproveitou que os peões haviam saído e trancou a porta da cabana, batendo o sombrero na mesa com irritação.
— Ainda que você não queira, nós precisamos conversar agora mesmo, Betty!
— Sobre o quê, Armando? — ela cruzou os braços, altiva.
— Sobre você! Por acaso você não percebe o que está fazendo nesta sala de aula?
— O que eu estou fazendo? Estou ensinando os peões a ler e a escrever, não é para isso que o senhor me contratou?
— Eu sei que você é uma menina pura e inocente, Betty... Mas os rapazes e os trabalhadores dessa sala são homens da roça, e os hormônios deles são ainda piores que os dos sujeitos da rumba na cidade.
— O que o senhor está querendo dizer com isso, afinal?
— Estou dizendo que estes jovens... quando você se vira de costas para escrever no quadro-negro... — Armando passou a mão pelo pescoço, vermelho de vergonha. — Valha-me Deus, fica até difícil dizer isto para uma moça de família como você!
— Como eles ficam, Armando? Diga de uma vez! — ela provocou, com um sorriso de canto.
— Eles ficam te olhando de um jeito... de um jeito mui malicioso, Betty! Eles não sabem que você é uma menininha inocente por dentro! E com estas roupas que você anda usando...
— O que tem de mais nas minhas roupas? Foi a Camila quem me deu todas elas, são trajes finos da Capital!
— Sim, eu sei que são da Cami! Mas são roupas para passear na praça da cidade grande, e não para dar aulas se inclinando e se virando na frente de um bando de púberes da roça!
— Ah, entendi tudo! — Betty soltou uma risada irônica. — O senhor quer dizer então que, ao invés de os peões ficarem prestando atenção na matéria dos livros, eles ficam prestando atenção nas minhas curvas? É isso?
— Bem... é por aí! — admitiu ele, gaguejando, o ciúme rasgando a sua pose de diretor. — E você sabe perfeitamente bem como eu quero te proteger do mundo. Eu sei que você faz isso sem maldade nenhuma na cabeça.
— Proteger?... Me proteger do quê, Armando?
— Dos hormônios e das segundas intenções desses púberes, Beatriz!
Beatriz não aguentou e soltou uma gargalhada alta de ojojo.
— Não ria, Betty! Eu estou falando mui sério! — esbravejou ele, batendo o pé no cascalho.
— E por que o senhor está tão bravo? Acaso quer dizer que eu estou provocando os homens deliberadamente de propósito, como faz a sua querida professora Karina?
— Não! Deus me livre! Você é doce e inocente demais para fazer uma baixeza dessas, Betty!
— Como uma criança, não é?
— Sim, como uma criança pura... mas o problema real é que, para os olhos daqueles peões, você tem o corpo de uma bela mulher!
— Pena que seja só para os olhos deles, Armando... — sussurrou ela, com uma ponta de amargura que ele não compreendeu.
— O que você disse?
— Se eu sou tão inocente assim nessa história toda, por que o senhor está se preocupando tanto com o que os peões olham ou deixam de olhar?
— Porque eles não têm inocência nenhuma no corpo, Beatriz! — Armando deu um passo à frente, a voz rouca e o olhar fixo no decote dela. — Eles se sentem provocados por cada movimento seu... e eu não vou admitir nenhum engraçadinho cobiçando o que... cobiçando uma moça de família debaixo do meu teto!
— E o que o senhor quer que eu faça, afinal? — desafiou Betty, com os braços cruzados.
— Que evite usar estes vestidos tão justos na sala de aula, Beatriz! — ordenou Armando, o ciúme arranhando a sua voz.
— O quê? Ave maria... Eu não o pensava tão machista, Armandinho!
— Eu não sou machista coisa nenhuma, Betty! Estou pensando no seu bem!
— Estes jovens da roça são mui respeitosos comigo, não me faltam com o respeito em nada e tampouco eu fico prestando atenção no que eles fazem ou deixam de fazer! — ela rebateu, com os olhos de café faiscando. — E quer saber de uma coisa? Não creio que eles façam nada pior do que você e o Mário Calderón faziam quando eram adolescentes, que ficavam por aí se agarrando e se esfregando com as filhas dos fazendeiros vizinhos por trás dos galpões! Pensa que eu não via, Armando? Todo o mundo nesta fazenda via as suas safadezas! Não me venha pregar moral e falar mal desses rapazes agora!
Sem dar tempo para respostas, Beatriz deu as costas e saiu batendo a porta da cabana, deixando Armando plantado no meio da sala, bufando de raiva e sem entender por que havia recriminado a menina daquele jeito tão bruto. Quem era ele, o maior predador da região, para criticar aqueles garotos por sentirem-se atraídos pelas belas formas de uma mulher? Mas que mulher? Que bobagem! Beatriz era apenas uma menina pura... Não era qualquer uma, claro, e ele fez mui bem em tentar defender a honra dela. Mas o tiro havia saído pela culatra.
Betty foi andando com passos firmes e cheia de raiva até a casa dos funcionários nos fundos.
— Quem ele pensa que é para falar mal daqueles jovens tão educados? — resmungou ela para si mesma, pisando fundo na terra batida. — Quem não te conhece que te compre, Armando Mendoza! Esqueça esse homem de uma vez, Beatriz Aurora! Esse sujeito não é para o seu bico! Ele gosta dessas mulheres atiradas da rumba, dessas professorinhas de calça colada... Ele só te vê como a mesma criança feia de quem todo o mundo tirava sarro no pátio, para poder pagar de príncipe salvador e protetor! E para quê? Pensa que tem o direito de mandar nas minhas vontades? Me vê como uma menininha indefesa e não quer que nenhum outro homem me olhe de outra forma... Por que tanto incômodo, caubói?
— Falando sozinha pelos cantos, minha filha? — a voz mansa de Dona Júlia a despertou.
— Que susto, mamãe! — Betty colocou a mão no peito, forçando um riso de ojojo.
— Minha filha estava distraída com os seus pensamentos?
— Estava apenas pensando no planejamento das próximas aulas da escolinha, mamãe.
— Fico mui triste de ver você tendo que dormir neste sofá velho da sala... — lamentou a mãe, ajeitando o xale nos ombros frágeis. — O seu pai precisa arrumar um tempo urgente entre os balanços para reformar o telhado do seu antigo quarto. Você devia estar acomodada lá em cima, no quarto de hóspedes da casa principal, não era? O antigo quarto da Camila... Era tão lindo quando vocês duas eram crianças.
— Continua exatamente igual, mamãe, a Dona Margarida não mudou nada na decoração colonial daquele quarto!
— Sabe, Beatriz... eu senti muitas saudades suas nesses cinco anos em que você ficou na Capital.
— Eu também senti muitas saudades de casa, mamãe — disse Betty, aninhando-se no colo dela por um instante.
— Mas eu fiquei mui feliz e orgulhosa de ver você estudando Administração e Finanças em Bogotá. Só me sinto mui mal que agora, depois de formada, você tenha que dormir nesta casa velha de empregado e neste sofá malcheiroso por causa da reforma...
— Não se preocupe com isso, mamãe, não seja por isso! Não é tão ruim assim, eu aguento o tranco.
Dona Júlia semicerrou os olhos, fitando o rosto de porcelana da filha com o faro aguçado de mãe.
— Aconteceu alguma coisa errada lá no casarão dos Mendoza, Beatriz? Não me olhe com essa cara de paisagem, que eu te conheço desde o berço!
— Não, mamãe... imagina! Não aconteceu nada de errado.
— Eles te trataram bem na mesa do almoço?
— Como sempre, mamãe. O Seu Roberto e a Dona Margarida me tratam como se eu fosse uma sobrinha querida da família.
— E o Armandinho? Como ele se portou?
— Bem... como ele sempre se porta. Até me convidou formalmente para ser a professora de reforço das crianças da escolinha dos peões.
— Sei... — murmurou Dona Júlia.
A senhora balançou a cabeça de forma pensativa. Ela não sabia exatamente o que era, mas o seu coração sentia que a filha estava escondendo um segredo mui grande sobre o herdeiro dos patrões.
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Durante os dias que se seguiram, Armando tentava falar com ela, mas Betty saía antes ou deixava-o falando sozinho, de modo que não havia maneira.
—Maldita seja! Menina teimosa! Já expliquei, mas não entende e vêm todos os dias com uma dessas roupas provocativas, não entende o perigo que corre com estas roupas! Os outros não sabem que é uma menina ainda! Ai, Beatriz com você aqui vai me deixar com cabelos brancos! Já sei o que vou fazer! Vou buscá-la para vir à escola e vai ser obrigada a falar comigo!
Armando vai até a casa dos Pinzón, mas Betty não está mais.
—Não acredito que Betty não esteja!
—Duvida de mim, don Armando?
—Não, claro que não. Quis dizer que, vim buscar Betty para irmos juntos à escola e...
—A menina escapou!
—É...
—Ela é assim! Sempre foi e agora está pior! Não para quieta! E agora com esta idade fica ainda pior!
—Será, Seu Hermes?
(Hermes falava como se tivesse conhecimento sobre o assunto, sendo eu Betty era sua primeira e única filha, no máximo havia tido algum contato com as tias Pinzón quando eram tão jovens quanto ele e adolescentes. Mas ele era assim, se via como conhecedor de tudo, principalmente em relação a sua filha Betty)
Armando, no entanto, sabia a verdade, que não era só coisa de adolescente. Betty estava chateada com ele, só não entendia porquê. (Ciúmes, Armandinho.) Sabia que não estava certo ao deixar-se levar por seus impulsos carnais, fazendo com Karina ali na sala de aula e que Betty deve ter ficado chocada, mas não entendia que isto provocasse tanta raiva em Betty, já que era só uma menina e não tinham nada, se fosse Marcela entenderia que ficasse assim. Mesmo assim, continuou ouvindo o que Hermes dizia, mas com a cabeça longe.
Lembrança da Infância:
— Seu Hermes! Olha o que eu fiz! Consegui selar o garanhão sozinho! — gritava o pequeno Armandito, orgulhoso, mostrando as mãozinhas sujas de poeira e feno.
— Sim, Armandito! Estou vendo! — sorria o velho Hermes, batendo no ombro do menino com carinho. — Você fez o nó perfeito, meu rapaz! Bom menino, Armandito!
— Vou ser o melhor arriero dessas bandas, igualzinho ao senhor! — prometia o garoto, de olhos brilhando.
— Que bobagem, menino... Você vai ser é o dono disso tudo aqui! Mas fico feliz que goste da nossa lida. Vá brincar com a Camila e com a pequena Betty antes que o sol mude de curso.
De volta ao Presente:
— Mas isto faz tempo... — suspirou Armando, despertando da lembrança.
— Sempre quis fazer as coisas como o senhor fazia!
— E faz mui melhor hoje em dia, patrãozinho! A verdade nua e crua é que, se houvesse aquele tradicional concurso de melhor peão e montaria das redondezas hoje em dia, você ganharia o troféu com total facilidade, Armandito! Nenhum desses peões de Quindío teria chance de te enfrentar em uma competição dessas.
Armando sorriu, deixando-se iludir por um breve segundo pela vaidade de peão chucro, e o Seu Hermes viu exatamente o mesmo brilho de menino inocente nascer no olhar do herdeiro. Por um milésimo de segundo, na simplicidade daquela varanda, o contador esqueceu-se das divisões de classes.
— Mas... mas que bobagem é essa que eu estou falando aqui?! — Hermes travou a língua de suetão, a fidalguia caindo por terra ao lembrar-se de quem estava na sua frente. — O senhor não precisa de prêmios de peão e muito menos de dinheiro de recompensa de vilarejo... o senhor é o nosso patrãozinho rico! Peço-lhe o mais sincero perdão por esta minha falta de respeito e de modos, Seu Armando.
— Imagina, Seu Hermes! O senhor não me deve perdão nenhum, não foi falta de respeito alguma! Nós estávamos apenas recordando os bons tempos — Armando tentou acalmá-lo, estendendo a mão.
— Não... me perdoe. Eu me excedi na prosa — o contador recuou um passo, o semblante ficando tenso e amedrontado ao lembrar-se repentinamente das conversas sombrias que tivera com o velho Júlio Valência no escritório, quando o patriarca rival o ameaçou de ruína se a Betty não cumprisse o acordo.
— Há algum problema sério acontecendo por aqui, Seu Hermes? O senhor mudou de cor de repente — Armando franziu a testa, preocupado.
— Não... não há problema nenhum, Arman... digo, Seu Armando. Está tudo nos conformes.
— Seu Hermes, por favor...
— Eu sei perfeitamente bem qual é o meu lugar nesta fazenda, Seu Armando, e o senhor deveria lembrar do seu — o contador firmou a voz, a distância de empregado voltando como uma muralha de pedra.
— Mas o meu pai, o Seu Roberto, nunca se incomodou com a nossa proximidade...
— O seu pai é um excelente homem, um fidalgo de bom coração... mas ele não é o único fazendeiro poderoso que manda nesta região, Seu Armando. Há outras forças no jogo.
— O que o senhor está querendo dizer com isso, Seu Hermes? Que forças?
— É melhor que deixemos as coisas exatamente como estão, Senhor Mendoza. Eu não quero arrumar problemas para a sua fidalguia, e muito menos para a segurança da minha família.
Armando ficou ainda mais confuso e com uma pulga atrás da orelha após aquela conversa emigmática com o contador. Havia um mistério no ar que ele não conseguia decifrar.
— Mas não se preocupe com as minhas bobagens de velho, Seu Armando! O senhor já tem coisas importantes demais com que se preocupar nesta vida. Tem a gerência da fazenda, a produção do café, a colheita do algodão e... logo, logo, o seu grande casamento de sociedade.
Armando fez cara de poucos amigos na mesma hora, o estômago revirando ao ouvir a palavra "casamento".
— Eu sei muito bem que o senhor não queria se casar agora, vou te confessar uma coisa de homem para homem: quase nenhum dos rapazes quer o altar de livre vontade na juventude! — riu Hermes, tentando descontrair o clima pesado. — Quem é o solteirão que quer abrir mão de uma vida livre, cheia de belas senhoritas da cidade, jogos de bar, bebidas e noites de farra na rumba para se prender a um compromisso de fidelidade? Nenhum!
Armando assentiu silenciosamente com a cabeça, o peito apertado.
— Mas chega uma hora na vida de todo homem em que ele tem que assentar cabeça, assumir as responsabilidades do sobrenome... E quando a gente encontra a mulher certa, a fêmea que nos completa por inteiro como a minha Júlia... — Hermes puxou um relicário antigo do bolso e mostrou a imagem com orgulho. — Veja... esta era a Júlia na juventude. Não era uma verdadeira beleza de Quindío?
— A Dona Júlia continua sendo uma senhora mui bonita, Seu Hermes, com todo o respeito — elogiou Armando, olhando a foto.
— Sim, ela é... mas você sabe muito bem como é o frescor e o encanto da juventude. Por isso, aproveite as suas últimas semanas de solteiro, Senhor Mendoza! A Senhorita Marcela Valência também é uma moça mui bonita, de boa linhagem perante a sociedade. Logo, o senhor verá que, apesar de ter que abrir mão de algumas liberdades da gandaia, o casamento valerá a pena no final! — disse o contador, dando dois tapas amigáveis nas cores de Armando, sorrindo aberto.
Mas Armando Mendoza não achou graça nenhuma naquela conversa. Ele montou em seu garanhão negro com o semblante fechado, sabendo muito bem o motivo real pelo qual estava sendo arrastado até aquele altar com os Valência: para salvar o seu pai da falência e proteger as terras da Fazenda Laços. A Marcela até lhe atraía fisicamente nas noites de desejo, sim, ele não ia negar... mas sexo era uma moeda barata que ele podia conseguir com qualquer outra filha de fazendeiro rico ou com as mundanas da rumba na cidade grande. O que faltava no seu peito era outra coisa.
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