Cap. III – Despedaçada

Rukia atravessou os portais da Senkai e assim que entrou na cidade dos shinigamis foi surpreendida por um temporal que caía, relâmpagos cortavam o céu e trovões ecoavam pelos corredores como o grunhido de um monstro irritado. O melhor seria correr para casa ou procurar abrigo no lugar mais próximo, mas a Kuchiki não tinha pressa de chegar a lugar nenhum.

Vagou pelos corredores sinuosos ouvindo o som do vento silvando em seus ouvidos como o chacoalhar da calda de uma cascavel que dava um aviso... No entanto, nem sentia as gotas frias lhe tocarem a pele delicada encharcando o uniforme negro.

Aquela chuva servia para lavar sua alma, no meio daquele caos podia deixar as lágrimas que reprimiu escorrerem da mesma maneira que podia libertar os gritos que haviam sido amarrados. Não queria acreditar que tudo tinha acabado.

Dentro de uma existência relativamente longa, porque ainda era muito jovem para uma shinigami, ela nunca havia sido tão feliz quanto naqueles cinco anos. Depois de tantas provações que a vida a fizera passar tinha achado um bom lugar, o seu lugar.

A Kuchiki caiu ajoelhada em frente a mansão de seu irmão sentindo seus sentidos se apagarem um a um, e no final, perdida nos vãos de sua memória a imagem do Kurosaki apareceu e pouco a pouco foi sumindo... Até desaparecer totalmente, assim como seu último fio de consciência.

Agora estava tudo acabado, ela se casaria com quem seu irmão escolhesse e seu laço com o Kurosaki estava totalmente dilacerado.

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A manhã que se iniciou alguns minutos após o desfalecimento da Kuchiki dentro da mansão foi conturbada. Um dos empregados que saíra para comprar alguns mantimentos a encontrara caída aos pés dos grandes portões.

Depois de ser levada para dentro e ter as vestes trocadas por algumas criadas, a morena foi colocada debaixo do edredom que cobria seu futon. Toda aquela chuva causara febre e compressas estavam sendo feitas na tentativa de baixar a temperatura corporal enquanto algum membro do Yon Bantai não chegava.

- Konnichiwa, Kuchiki-dono. – Disse Isane fazendo uma pequena reverência respeitosa –

- Konnichiwa, Kotetsu fukutaisho. – ele começou a caminhar sendo seguido pela moça – Rukia está em seu quarto.

- O que aconteceu exatamente? Ela foi atacada durante o temporal enquanto voltava para Seireitei?

- Não sei. Ela foi encontrada caída em frente aos portões da mansão por um dos criados, mas não há nenhum hematoma ou algo que indique que foi atacada.

O nobre parou em frente a porta dos aposentos da irmã e abriu a porta, em seguida os criados saíram e a fukutaisho do Yon bantai adentrou o cômodo da nobre.

- Se precisar de algo é só pedir a um dos criados.

- Hai.

Apesar da face serena não demonstrar, Byakuya estava preocupado com a irmã, não entendia o motivo dela ter retornado a Soul Society tão tarde. Não era do feitio da shinigami fazer esse tipo de coisa imprudente.

E o moreno também não quis entrar para acompanhar o tratamento, ver Rukia debilitada sobre aquele futon trazia de volta lembranças que Byakuya não gostaria de reviver. Seria como ver Hisana perecendo sem poder ajudar de novo.

Naquele dia o nobre permaneceu em casa, não conseguiria ir para seu esquadrão enquanto tudo aquilo não se resolvesse. Ficou sentado no jardim olhando as árvores que logo estariam floridas indicando o inicio da primavera.

O Kuchiki não soube exatamente quanto tempo ficou ali, só foi retirado de seus devaneios quando uma das criadas aviou que Kotetsu Isane já havia se retirado e que Rukia já não tinha mais febre e estava somente adormecida devido aos medicamentos.

- Precisa de mais alguma coisa, Kuchiki-sama?

- Iie. Pode voltar aos seus afazeres, se Rukia acordar me avise. Estarei na biblioteca.

- Hai.

O capitão do sexto esquadrão de proteção caminhou até o aposento com calma e quando lá chegou sentou-se a escrivaninha tirando de uma gaveta trancada um porta retrato, o porta retrato com a foto de Hisana.

Desde que começou fazer a corte a capitã do quarto esquadrão, retirou a foto da falecida mulher de um altar, estava pronto para casar novamente e isso significava que algumas lembranças deveriam ser apenas lembranças. Mas não podia livrar-se completamente dela... Havia amado muito a irmã de Rukia.

Foi um tempo tão curto, apenas cinco anos, e no final ela pereceu devido a culpa que sentia. No entanto, Byakuya preferia acreditar que foi melhor assim, Hisana nunca conseguiria parar de sofrer vivendo na opulência enquanto não sabia que tipo de provações sua irmãzinha sofria e mesmo se tivesse vivido o suficiente para encontrá-la nunca conseguiria se recuperar, o pesar já tinha lhe corroído a alma.

- Byakuya. – uma voz delicada o fez levantar os olhos – Vim ver como estava, sabia que o estado da Rukia lhe deixaria abalado.

A calma Retsu começou a caminhar em direção ao futuro marido, sabia o que ele tinha nas mãos e não se importava, os anos que tinha vivido a mais que ele lhe ensinaram que certas coisas apesar de superadas, jamais seriam esquecidas.

Quando chegou perto o suficiente para pegar o retrato, o fez, sentindo que o shinigami ficara sem graça.

- A semelhança entre as duas é mesmo incrível, pena que ela não conseguiu reencontrar Rukia para pedir perdão. Talvez assim a alma dela tivesse se aquietado.

- Retsu... Eu...

- Eu não me importo, Byakuya. Você amou muito Hisana e mesmo a morte não mudará isso, sempre se lembrará dela e eu não poderia lhe pedir para esquecer uma pessoa que contribuiu tanto para formar o homem que é hoje.

Um sorriso singelo surgiu nos lábios da mulher de cabelos longos e negros. Ela recolocou o retrato na gaveta e fechou-a.

- Rukia acordou, quer vê-lo.

- Obrigado, Retsu.

- De nada, Byakuya.

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O líder do clã Kuchiki entrou no quarto e encontrou a irmã mais nova sentada olhando para janela. Caminhou até ela e sentou-se a maneira japonesa ao lado do futon.

- Disseram que queria falar comigo, Rukia.

- Hai, nii-sama. Gostaria que pedisse uma audiência com Yamamoto Soutaisho para mim, é sobre a situação na Terra.

- O que aconteceu? Foi isso que a trouxe de volta tão tarde?

- Sim, Ichigo desistiu de se tornar capitão. Cumpri as ordens que me foram dadas no caso disso acontecer e voltei imediatamente.

- O Kurosaki desistiu do cargo? Mas o que aconteceu? Foi tão difícil convencê-lo a esperar um pouco mais...

- Os humanos são muito volúveis nii-sama, talvez seja melhor assim, ele ainda está vivo... Não acho que seja bom para a evolução dele abandonar sua vida humana.

- Isso é verdade, algum dia ele poderia se arrepender. Parece então que o cargo de capitão ficará vago durante mais algum tempo. Vou fazer o que me pediu, mas agora descanse.

Quando o moreno começava a se levantar, a voz da convalescente chamou-lhe a atenção.

- E Nii-sama...

- O que foi? – ele virou o rosto para ela –

- Sobre o que conversamos, eu aceito, quando decidir quem acha melhor pode me avisar.

- Sobre o casamento? Tem certeza? Eu não quero que tome alguma decisão precipitada.

- Quem melhor poderia escolher um marido para mim do que meu nii-sama? – ela sorriu –

- Tudo bem, Rukia, mas o importante agora é você descansar. Isso pode ser resolvido depois.

O Kuchiki saiu e Rukia teve certeza de que não tinha mais volta. Agora era olhar para frente e enterrar o passado no fundo de seu coração. Não se permitiria mais chorar.

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Byakuya estivera pensando muito no que faria em relação a irmã. Alguns nomes haviam circulado em sua cabeça, mas nenhum parecia bom o suficiente. Apesar de todos nobres seriam desconhecidos da pequena. Não queria simplesmente casá-la, queria que ela tivesse uma vida agradável e feliz.

Depois de muitas décadas pensando, o plano não era novo, ele encontrou o shinigami que seria perfeito para irmã: Abarai Renji, seu ex-fukutaisho. Ele não era um nobre, o que poderia causar certo alvoroço no conselho da família, mas o fato de ser um capitão era uma boa coisa.

Renji e Rukia viveram juntos em Rukongai, tinham uma grande cumplicidade e amizade, sem contar que o Kuchiki já havia notado alguns olhares diferentes que o ruivo dava a irmã. Ninguém seria melhor para ela. O Abarai seria capaz de entendê-la e protegê-la.

- Byakuya-sama. – uma voz veio da porta do escritório –

- Entre, Renji. – disse o moreno em seu típico tom seco –

- Como está Rukia? Posso vê-la?

- Gostaria de lhe falar antes! – ele olhava enquanto Renji se sentava –

- O que está acontecendo?

- Como sabe, um capitão deve se resguardar e ter uma imagem impecável.

- Eu sei. – disse o Abarai sem saber o que estava acontecendo –

- E nada melhor para manter uma boa imagem do que um casamento, a constituição de uma família. Você ainda é jovem, mas deve pensar nisso.

- Não estou entendo onde quer chegar, Byakuya-sama.

- Eu sei de todo seu passado com Rukia em Rukongai. Vocês foram muito amigos e isso deve ter ajudado-os a sobreviver, e imagino eu que você nutra sentimentos por ela.

- Eu gosto muito da Rukia... Mas ainda...

- Quero que se case com Rukia.

Aquela frase quase fez o capitão do quinto esquadrão cair para o lado. Ele tinha mesmo ouvido o que Byakuya lhe dissera? O líder do clã Kuchiki acabara de lhe oferecer a mão de sua irmã Rukia em casamento?

Não. Alguma coisa ali estava muito errada. Renji conhecia seu ex-taisho e ele não gostaria de um casamento da irmã com alguém que não fosse um nobre. E ele apesar de ser capitão, não era um nobre.

Sem dizer que a baixinha jamais aceitaria um casamento arranjado. Não era do feitio dela aceitar uma coisa assim. Rukia era uma mulher de personalidade, alguém que possui suas próprias idéias e planos.

- Casamento? Desculpe, acho que compreendi errado o que disse. – disse o ruivo atônito –

- Não entendeu errado. Eu lhe ofereci a mão de Rukia em casamento e caso aceite, consultar-na-emos e se for de seu agrado realiza-se a cerimônia.

- Rukia não aceitaria jamais um casamento arranjado e eu não quero casar com uma mulher por conveniência. Não preciso disso.

- Você a ama, eu vejo a maneira como a olha e também já é um capitão, não teria nada a ganhar com esse casamento. Seria uma união por vontade de ambas as partes. – Byakuya parou para observar o ruivo – Acha que existe um homem melhor que você para ela Renji? Depois de tudo o que passaram juntos, não existe outra pessoa que melhor sirva para vocês do que um ao outro.

- Eu... Eu... Eu vou vê-la se me dá licença de ir até seu quarto. Quero falar com ela antes de qualquer coisa.

- Pode ir, me responda com a cabeça fria depois.

- Com licença.

Renji saiu da sala, um pouco alterado, não acreditava que Byakuya estivesse oferecendo a irmã como um objeto. Era inadmissível uma situação daquela, se não tivesse um bom controle sobre suas emoções com toda certeza iria enfiar a mão na cara do ex chefe.

O ruivo bateu a porta e ouviu uma permissão para entrar. Rukia estava sentada perto da janela em uma cadeira com os ombros cobertos por um haori rosado, a morena olhava o horizonte como quem esperava algo surgir.

- Rukia...

Ela virou o rosto calmamente para o amigo.

- Renji. – um delicado sorriso brotou nos lábios pequenos –

- Pelo jeito já está melhor, está até olhando a paisagem!

- Estou melhor sim, obrigada. Sente-se. – ela indicou uma cadeira as suas costas que o ruivo carregou até perto dela –

- Então, como foi no mundo humano? Quando aquele babaca vem para a prova de capitão?

- Ele não vem, Renji! – disse a pequena com um tom vazio –

- Como assim? Aquela laranja dos infernos fez o que fez falando que se tornaria capitão!

- Eu não sei, apenas respeitei sua vontade. – Rukia voltou o olhar para o amigo – Você me entende, não é?

- Ele terminou com você, Rukia? – o ruivo sabia do envolvimento da Kuchiki com o humano –

- Eu fiz o que era melhor para nós dois, Renji, diga que estou certa, por favor!

- Se ele desistiu de ser um shinigami e terminou com o namoro de vocês... Você fez bem em voltar, mas não foi uma briga boba? Tem certeza de que é definitivo?

- Você não entende, Renji! Diga que eu fiz o certo! Diga que o lugar dele era na Terra e o meu aqui! Eu preciso dessa certeza!

- Eu não estou entendendo... O que você quer dizer?

- Por favor, Renji!!

Os olhos azuis estavam torturados como ele jamais tinha visto. O que raios tinha acontecido na Terra para que Rukia ficasse daquele jeito? A morena estava implorando ajuda, o que não era de seu feitio. Todo aquele orgulho e pose que a shinigami havia sido abandonado.

O Abarai via que a alma estava estilhaçada, não havia mais o que dizer, não havia o que perguntar... Ele já tinha entendido. A shinigami do Juusan Batai tiha aberto mão de seu amor pelo humano para que ele pudesse ter uma vida comum. E isso estava corroendo-a por dentro.

O pequeno coração de Rukia deveria estar agonizando todo em pedacinhos que ela não sabia como juntar. Porque aquela ali não se entregava fácil, mas também depois de entregar-se era tão frágil quanto uma flor que tenta resistir ao inverno sozinha.

Maldito humano! Maldita hora que aquele desgraçado resolveu entrar na vida de sua amiga! Ele não tinha o direito de fazê-la sentir-se daquele jeito... Parecia que a qualquer momento ela se partiria em dois.

- Rukia...

O Abarai não pensou naquele momento, apenas envolveu-a num abraço que tentava mantê-la inteira.

Continua...

Oi, genteee!! Eu sei que não é muito a cara da Rukia todo esse drama, mas tadinha, ela tah sofrendo muito! Então me dêem um desconto... E no próximo capítulo vou mostrar como está a vida do Ichigo na terra.... Muita água ainda vai rolar debaixo dessa ponte e o Abarai-kun vai ser muito necessário a Rukia-chan.

E a Inoue... Bem... Não quero falar daquela pilantrinha!!!

Kiss Kiss, amores!

Riizinha