Casamento a Moda Antiga
4 Acordar
Cap. IV – Acordar
O sol começava a despontar no horizonte quando o jovem Kurosaki Ichigo abriu os olhos num reflexo involuntário, seu pai estava prestes a acertá-lo com uma voadora.
- GOOOD MORNINGGGGGG, ICHIGOOOOOOO!!
Só que o morango foi muito mais rápido e conseguiu levantar antes e derrubar o pai no chão, deixando-o com uma cara de tacho sem precedentes. O que raios era aquilo? Que falta de respeito! Será que ele se esquecera que... O que mesmo?
O jovem Kurosaki procurava em sua mente o motivo daquela invasão poder ser tão comprometedora, no entanto, não se lembrava.
- Ficou maluco, foi?? Como você entra no meu quarto assim??? – esbravejou o rapaz –
- Bom reflexo, filho! Eu te treinei bem... Ah... Tenho tanto orgulho!!! – o homem começava a fazer uma cara de choro –
- Saí dessa, seu velho! – o futuro médico levanta-se e vai até seu guarda-roupa a procura de algo para vestir –
- O que um velho pai pode esperar de um filho ingrato se não a ingratidão??
- Yare, yare... Agora vaza, vai! Eu quero trocar de roupa, tenho que ir para a faculdade!
Enquanto Isshin saí choroso em busca da pequena foto que tinha da esposa na sala para reclamar da frieza de seus filhos, Ichigo bate na porta de seu armário e espera algo, como se precisasse de autorização para abrir a porta.
Que estranho!?
O rapaz chacoalha a cabeça pensando que andava estudando demais, e assim abre a porta encontrando tudo como sempre. Suas roupas estavam penduradas nos cabides e dobradas sobre o chão do lugar. Sem prestar atenção nas peças que pegava, o Kurosaki vestiu-se, mas não desceu imediatamente para tomar café.
Era estranho, mas aquele lugar parecia diferente de alguma maneira que ele não sabia explicar. Tudo estava nos seus devidos lugares, mas ele sentia que tinha alguma coisa que não se encaixava, algo faltava...
O morango caminhou de um lado para o outro, sentou-se na cama, na cadeira, apoiou-se no parapeito da janela e nada! Fechando os olhos ele começou a recapitular os capítulos de sua vida. Era um estudante de medicina de vinte anos, morava perto do campus de sua faculdade – mas tinha ido passar o fim de semana com a família -, tinha uma namorada chamada Inoue, um amigo que viajara para Tókio, Ishida Uryuu, outro que tinha ido para o Ocidente, Chado, suas irmãs logo entrariam na faculdade, seu pai era um solteirão...
Céus! O que tinha de errado com ele naquele dia? Tudo estava como sempre esteve e ele tinha a impressão de que estava esquecendo alguma coisa!
Certo... Talvez fosse alguma coisa no dia anterior, o que tinha feito mesmo?
Ah, claro! Tinha visto filme com os amigos até tarde, Inoue comera umas coisas estranhas durante o filme, o pai ficara corujando e envergonhando-o, eles foram embora, ficou um pouco com a namorada que acabou por ir embora... E foi dormir.
- Ahhhhhhh!! – o ruivo bagunçou os cabelos – Já chega! Estou estudando demais!
Sem mais paciência, desceu as escadas, pegou qualquer coisa para comer e saiu com uma cara de poucos amigos pior que a habitual. Tinha que buscar Inoue para que ela não se atrasasse para a faculdade, esperava mesmo que hoje não aparecesse nenhum espírito chato atazanando-lhe as idéias.
Entrou em seu carro sem prestar atenção nas coisas a sua volta. Caso contrário teria visto o céu azul como poucas vezes se tinha a oportunidade de observar, ou o ventinho gostoso que fazia as folhas das árvores farfalharem. No entanto, a cabeça do Kurosaki estava confusa demais... Aquela sensação chata de que alguma coisa estava errada não lhe saia da cabeça.
Estava tão distraído que não notou o azul anil que tomava conta do céu sem nuvens, ou mesmo a brisa quente que não era natural daquela época do ano... O cérebro do Kurosaki trabalhava inconscientemente a procura do que estava errado.
Seus pensamentos voaram para tão longe que Inoue teve de tirá-lo de seus devaneios.
- Ichi-kun?? – a ruiva passava a mão na frente dos olhos dele – Ichi-kun?
- Hã? – o ruivo deu um pulo – Inoue?? Quando você entrou?
- ela riu – Às vezes você fica tão longe, Ichi-kun! Bom dia...
- Hum... Bom dia. – disse ele ligando o carro – Então, passou mal hoje?
- Não, não... Só uma dor de cabeça chata! E você? Como passou a noite?
- Bem... Eu acho... – dizia o homem enquanto dirigia pelas ruas do centro – Acordei meio cismado hoje...
- Cismado? O que foi?
- Sei lá... Parece que alguma está fora do normal, é como se essa não fosse a minha realidade. Você entende? – Ichigo olhou para a noiva –
- Hum... Eu também acordei com uma impressão estranha, mas acho que foram as biritas de ontem... – ela soltou uma risadinha sem graça –
- Deve ser só estresse mesmo... Afinal, que realidade seria a minha se não essa?
- Com certeza! Eu vivo dizendo que você tem que estudar um pouco menos, mas você ouve por acaso?
Ichigo dirigiu até o campus onde Inoue tinha aula e a deixou lá, ela iria embora sozinha já que ele tinha aula até de noite. Despediram-se com um beijo delicado e a moça foi toda alegre encontrar as amigas.
O morango apenas ligou o carro e seguiu para o outro lado da cidade, tinha algum tempo até o inicio de suas aulas, aproveitando isso, o rapaz parou em uma cafeteria para comer alguma coisa, tinha saído de casa com pressa demais.
Procurou uma vaga e depois de estacionar caminhou vagarosamente até o estabelecimento, sempre olhando para o chão e mantendo as mãos nos bolsos... Era como se procurasse na calçada de concreto o rastro do caminho que deveria seguir...
Faltava alguma coisa...
Quando já estava parado na porta da pequena lojinha ouviu o som de um grito sombrio de dor, olhou assustado para os lados procurando o emissor daquele som horrível, mas parecia que mais ninguém tinha ouvido aquele som perturbante.
Era como se a alma de alguém estivesse sendo rasgada pela mais profunda dor que um ser humano poderia sentir. Uma sensação estranha correu-lhe a entranhas como se precisasse fazer alguma coisa... Algo que ele não sabia o que era... De novo.
Aquele som o deixava paralisado, o que demônios era aquilo??
- Hey! Desocupa a moita garoto! – um homem que queria entrar na cafeteria começava a empurrá-lo –
- Hã? – o ruivo deu um passo para fora e ficou olhando para o horizonte – Que som foi aquele...?
Sem pensar, o rapaz começou a caminhar na direção do parque, do parque de seu passado triste... Não sabia bem o motivo, precisava só pensar. E quando o Kurosaki achava que aquele dia não podia ficar mais louco, um grande gato preto pulou em sua frente e ficou encarando-o, por um instante, ele teve certeza de que aquele bicho pensava racionalmente e que esperava algo de si.
Foi um susto e tanto... Mas antes que pudesse tentar alguma coisa o bicho desapareceu. Ichigo caminhou até a margem do rio e sentou-se ali numa tentativa de fazer aquilo parecer real.
Por mais estranho que pudesse soar, era como se aquela realidade não fosse real.
E tinha mais, muito mais... Aquele beijo com Inoue havia sido tão frio, não era como tocar os lábios... Que lábios? Estavam juntos a muitos anos, nenhum dos dois tinha tido outros namorados... Sempre foi Inoue... Sempre...
Então porque seu coração não parecia querer aceitar tal verdade imutável? Até ontem estava satisfeito com sua noiva, não estava? O dia anterior... O dia antes desse... O dia que veio muito antes...
Por que suas lembranças pareciam tão superficiais? Eram acontecimentos vazios... Mas não eram até ontem! Não é? Tudo aquilo era piração de sua cabeça, não fazia sentido o que estava acontecendo!
O simples fato de acordar tinha desencadeado aquela loucura...
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Soul Society, gabinete do Comandante Yamamoto Genryuusai Shikegun.
Kuchiki Rukia entrou no grande gabinete amparada por Renji que logo após saiu deixando-a a sós com o Comandante. A morena baixou o corpo fazendo a reverencia ao comandante dos treze esquadrões.
- Obrigada por me conceder uma conferência tão repentinamente, Yamamoto Soutaisho.
- Kuchiki Rukia... – o velho capitão abriu um dos olhos – Fui informado que tem algo muito sério para me reportar.
- Hai. Estou aqui para comunicar formalmente a desistência de Kurosaki Ichigo, o representante shinigami, do cargo de capitão e da função de representante. Todas as medidas foram tomadas, as memórias foram apagadas, o amuleto confiscado e Urahara Kisuke foi instruído devidamente.
- Hum... Isso é inesperado. Kurosaki Ichigo abdicou de seus poderes para viver como um simples humano? Tem certeza do que está dizendo?
- Hai, comandante! O Kurosaki optou viver apenas como um simples humano... Não sei o que ocasionou tal ação, mas não é realmente tão inesperado. Apesar de um grande poder espiritual, ele não passa de um humano e nosso modo de vida deve tê-lo levado a enxergar que se abandonasse a vida que tinha, não poderia voltar atrás.
Rukia usava um tom firme, não queria deixar espaço para buracos que poderiam ser usados contra ela. Não era momento de errar.
- Correto, Kuchiki Rukia... O tempo para nós é algo insignificante, enquanto para os humanos é valioso devido a suas efêmeras existências. No entanto, talvez fosse melhor dar mais um tempo para que ele reconsiderasse.
Nesse instante, o sangue da shinigami congelou nas veias, caso alguém fosse mandado ao mundo real, sua farça seria descoberta em dois tempos. Contudo, não demonstrou isso, manteve a face serena.
- Eu acho que será uma perda de tempo, se me permite opinar. Eu estava no Mundo Real e a decisão dele foi firme, talvez até mais do que quando ele decidiu ser um shinigami.
- Se é assim não há o que fazer, teremos que encontrar outro capitão...
- Aqui está o amuleto de shinigami substituto. – Rukia entrou-o ao capitão – Agora se me permite, gostaria de me retirar, ainda não estou totalmente recuperada de minha última estadia na Terra.
- Pode sair, Kuchiki.
A morena levantou-se e depois de outra reverência se retirou. Renji estava parado da porta do Ichi Bantai esperando-a para que pudessem seguir para a mansão Kuchiki, ao que parecia, Byakuya havia pedido para que ele a acompanhasse.
O ruivo estava escorado no portão com um dos pés na parede e braços cruzados, mantinha o olhar distante, tanto que não notou a aproximação da pequena Rukia.
- Um capitão tão distraído é um capitão deposto. – zombou a Kuchiki –
- Rukia!?
Renji rapidamente emparelhou seus passos com os da moça, ela parecia totalmente recuperada do acontecimento anterior, mas ele sabia que não era bem assim. A morena estava escondendo o jogo, devia estar se batendo por dentro... Ela não gostava de ser frágil.
O ruivo não precisou raciocinar muito para entender o que tinha realmente acontecido e aquilo lhe agradou mais do que jamais imaginou. Não podia negar que a relação do Kurosaki com sua amiga o incomodava desde a primeira invasão a Sereitei, mas ele achava que era algo relacionado a terem se criado juntos e ele não ter podido fazer grande coisa para ajudá-la... Só que história não era bem essa e só agora depois de muitos anos aquilo que trazia no peito tomava forma.
Não gostava de ver Rukia sofrendo, sentia uma imensa vontade de socar o Kurosaki por isso, mas essa decisão dela abria caminho para ele. Byakuya tinha razão, ninguém seria melhor para a princesinha Kuchiki. Só ele podia entendê-la e tratá-la como ela merecia.
- Rukia...?
- Hum... – a morena virou o rosto para Renji –
- Você permitiu que o Byakuya lhe escolhesse uma marido? – perguntou o ruivo incerto –
- Como sabe disso, Renji? – a pequena mulher parou, seu trejeito agora era mais sério –
- Apenas responda, Rukia. E se sim, conte-me o motivo.
Ela suspirou longamente. Não havia motivos para esconder aquela parte da história de Renji, eram amigos de longa data, ele poderia considerar-se traído se ficasse sabendo de sua decisão por terceiros.
- Sim, eu permiti, Renji. E o motivo é que o nii-sama acha que o casamento é um bom caminho para mim, sem contar que a família Kuchiki necessita de herdeiros.
- Vai se casar só porque eles querem que você ponha no mundo um egomadinho com sobrenome deles! – disse ele indignado –
- Não seja idiota, Renji! – ela deu um tapa na cabeça dele – Eu vou me casar porque acho que é a hora certa e se isso vai agradar ao conselho da família, melhor ainda. Agora será que dá para irmos logo? Você não tem o dia inteiro! Seu esquadrão está a sua espera!
- Se casaria comigo, Rukia?
Os olhos púrpuros arregalaram-se.
O que ela tinha acabado de ouvir? Renji tinha mesmo lhe pedido em casamento?
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Já era noite e Ichigo não tinha saído da margem do rio. Havia passado o dia ali tentando entender o que estava acontecendo consigo mesmo, será que era a proximidade de um possível casamento que estava atormentando-o?
Ele já havia comentado com Inoue sobre o assunto e tudo indicava que seguiriam por esse caminho num futuro próximo... Mas novamente aquela sensação de vazio tomou conta de si. Era como se estivesse sem metade de seu coração...
O Kurosaki foi tirado de seus devaneios por seu celular, era Inoue perguntando o que ele estava fazendo. O rapaz mentiu, disse que estava estudando para uma prova e que naquela noite não poderia dar atenção a ela. Apesar de não gostar do que estava fazendo, era melhor do que ela notar sua distância porque ele sabia que não conseguiria tratá-la como sempre naquele atual estado.
Levantou-se para ir embora, não dava mais para ficar ali e não podia correr o risco de matar aula no dia seguinte também. Estava na reta final de seu curso, não podia colocar tudo a perder.
Era uma noite de belíssima lua cheia, o que chamou a atenção do antigo shinigami substituto... Ele inspirou o ar da brisa fresca que tocou sua pele e fechou os olhos, foi uma dança de sensações que invadiu seu cérebro. A imagem de uma espada impecavelmente branca com a associação de uma figura encoberta por sombras.
A lua cheia nunca lhe pareceu tão nostálgica. Um sorriso. A volta a realidade.
Só podia estar mesmo louco...
Continua...
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