Casamento Por Contrato
7 Capítulo 7: O Amigo Dela
Notas iniciais
Por Ravena:
O caminho para o hotel havia sido feito em completo silêncio. Sério, nenhuma palavra havia sido proferida. Subimos para o quarto como se tivéssemos voltando de um velório. Seria até engraçado se a situação não fosse tão séria. E tão tensa. Eu tinha dado meu primeiro beijo o que era completamente normal já que estava casada, mas mesmo assim eu não conseguia aceitar que tinha sido feito com ele. Para os fotógrafos. E que tinha sido tão bom. Não entrava na minha mente e provavelmente nunca entraria.
Assim que sentei na cama meu celular tocou. Número desconhecido, mas que era dali mesmo de Paris. Atendi com o cenho franzido:
–Bon après-midi. (boa tarde).
–Falando em Francês comigo Ravena?
Arregalei os olhos e quase gritei:
–Arauto?
–O próprio. Quer dizer que você vem pra Paris e não vem me visitar?
–Caramba, eu pensei que você tinha mudado para Londres. Todo mundo estava falando isso.
–Boatos falsos, continuo aqui firme e forte. E você casa por contrato e não me conta também? Nossa, magoei.
–Como sabe...?
–E você lá se casaria por conta própria? –Dou risada, o pensamento dele era tão correto que somente uma pessoa amiga minha perceberia.
–Boa. Ah Arauto, você se afastou tanto depois que se mudou. Pensei que tinha se esquecido de mim, de nós.
–O que seu pai usou pra te fazer casar?
–Chantagem. Trigon é Trigon não é?
–Claro. –Eu não estava vendo, mas sabia que ele estava revirando os olhos. –Venha me visitar pequena. Traga seu marido, vamos socializar.
–Passe-me o endereço agora mesmo.
Ele começou á falar enquanto eu anotava o endereço num bloquinho ali perto, na mesa ao lado da cama. Combinamos um jantar naquele mesmo dia e quando eu desliguei estava sorridente, algo raro pra mim. Arauto era um conhecido da escola, da banda, por isso o apelido. Fizemos amizade por acaso e ele era um amigo á parte do grupo. Infelizmente era mais velho que eu, portanto saiu da escola antes e nos separamos quando ele veio tentar a vida em Paris.
–Garfield, temos um jantar pra ir. –Falei do meu quarto, ainda com aquele sorriso no rosto.
–Um jantar? –Meu marido apareceu no quarto. -Onde?
–Um amigo meu de escola, antigo. Mora aqui e nos convidou. –Contei e ele franziu o cenho, como se dissesse “como assim amigo?”.
–Como assim, “amigo”? –Ele colocou em palavras o que eu pensei, o que quase me fez rir. Realmente o telefonema havia me deixado com um bom humor impressionante e eu estava louca para ligar pra Kory e contar a novidade. Claro que uma ligação sairia cara, mas coloque na conta do meu pai, por favor. Afinal, se não fosse por ele eu nunca estaria tão longe de casa.
–Um amigo de escola Garfield. O apelido é Arauto, mas o nome de verdade é Pietro.
–Ah, e esse sorriso enorme na sua cara é devido á ele? –A frase saiu um pouco ácida o que fez com o que o meu cenho franzisse.
–Talvez. E se for?
Sim, a resposta foi um pouco agressiva, mas eu não entendi porque Garfield tinha colocado tanto veneno na frase anterior. Afinal, qual era o problema de eu querer rever um amigo antigo? Só porque estávamos casados por um contrato idiota não queria dizer que ele tinha o direito de interferir nas minhas amizades, que nem eram tantas por sinal.
–Pelo visto você gosta realmente dele. –Gar tinha a expressão impassível, mas eu como boa observadora percebi que talvez ele tenha se magoado um pouco. –Só me avise que hora devemos nos arrumar.
Assenti com a cabeça enquanto ele saía do quarto, deixando a porta bater.
~X~
Terminei de me arrumar e olhei no espelho. Acabei gostando do que vi. Meus cabelos estavam soltos, com aquelas ondas incríveis que tinham desde que Kory resolveu que me daria um upgrade antes do casamento. Vesti uma saia vermelha rodada, uma blusa que mostrava parte da barriga preta e uma jaqueta da mesma cor por cima. O sapato era um salto, também preto, algo básico. Alguns acessórios e maquiagem e eu realmente estava bonita. (aqui ). Eu queria surpreender já que Arauto só conhecia o “cosplay” ambulante. Mas talvez... Apenas talvez... Eu queria que Gar gostasse também. Não, com certeza não.
Saí do quarto com uma bolsa á tiracolo e encontrei Gar que já estava devidamente preparado. Não havíamos nos falado muito desde a conversa no meu quarto, mas o olhar dele de surpresa me deixou feliz. Não sei porque, a idéia de que ele me achava bonita me agradava. Talvez porque eu não tinha muitas pessoas para me achar bonita no passado.
–Realmente ele deve ser um amigo muito querido. –A voz mais uma vez soou ácida e eu o olhei com um sorriso.
–Vamos lá, você vai gostar dele.
–Tenho certeza que vou, Ravena.
Ao lado dele descemos para o saguão. Como para os outros deveríamos parecer um casal apaixonado assim que saímos do elevador demos as mãos. Mas isso só durou até pegarmos um táxi e eu dar o endereço. Paramos em frente á um casarão, muito bonito.
Pagamos e agradecemos ao taxista e então eu finalmente toquei a campainha. Ele apareceu logo depois com um sorriso e seu queixo caiu enquanto ele me analisava e eu o analisava. Meu amigo havia aumentado em questão de altura o que era terrível já que eu sou baixinha. Mas fora isso ele continuava o mesmo. Moreno, bonito e com aquele sorriso arrasa corações.
–Eu não acredito que você mudou tanto. –Ele sussurrou pra mim enquanto me abraçava e me erguia do chão.
Por Garfield:
O jantar na casa de Pietro teria sido bem agradável, se não fosse pelo fato dele estar obviamente dando em cima de Ravena. Ou pelo menos tinha uma óbvia tensão entre os dois e até onde eu percebi isso vem desde antes, já que a menção dele a havia feito ficar toda sorridente e ela se arrumara inteira para ver o ex “amigo”.
Podíamos estar casados só por contrato, mas ainda assim eu exigia respeito e tinha que cuidar que aquela mocinha não passasse dos limites. E aquele sorriso lindo que ela exibia ao rapaz já estava me dando nos nervos. Por que ela não sorria assim pra mim? O que diabos ele tinha para libertar uma face dela que eu não conhecia? Ela era minha esposa, eu devia conhecer a garota bem, não é a lógica?
–E você Garfield, o que acha de se unir alguém por contrato? –Ele perguntara a mesa.
Ele sabia do contrato, claro. Provavelmente por isso se achava no direito de tentar roubar a minha esposa. O jeito que ele olhava para ela, passando os olhos pelos cabelos, pelo pescoço, parando nos lábios. Eu conhecia aquele olhar.
–Quando se é ela, não é nenhum sacrifício. –Respondi e ele pareceu não ter gostado muito da minha resposta. Provavelmente esperava que eu afirmasse algo sobre uma amizade entre mim e a roxinha para que tivesse sinal verde para prosseguir no que quer que estivesse pensando em fazer.
Ravena também pareceu surpresa com a resposta e quando olhou para mim vi em seus olhos isso. Ela parecia perguntar “sério?”. Mas realmente até que não era. Quer dizer, ela tinha uma personalidade difícil, mas era uma garota série, interessante, envolvente. Ela colocava apenas uma capa para afastar as pessoas, para que elas não descobrissem o quão incrível a roxinha era. Tarde demais porque eu já descobri.
–Eu imagino. –Arauto deu um sorriso presunçoso. –Na escola eu acho que ninguém a podia imaginar casada. Ela parecia tão...
–Sozinha? –Ravena sugeriu.
–Independente. –Ele corrigiu a olhando e mais uma vez ela deu aquele sorriso sincero e lindo dela. –Sua postura dizia “eu quero, eu posso, eu consigo e eu não preciso de vocês pra nada”. Sempre pensei que esperaria estar no topo dos seus sonhos para casar, para escolher alguém para amar.
–É, eu também. –A voz dela saiu um tanto pesarosa e então eu passei a prestar uma crescente atenção. –Era isso que eu queria afinal. Claro, eu queria casar e ter uma família, mas isso só depois que eu provasse para o meu pai e para o mundo que eu poderia fazer e ser quem eu quisesse sozinha, independente de quem as pessoas acham que eu sou. Agora tive que deixar isso, por enquanto.
Aquela afirmação me abalou. Olhando para os olhos desolados da minha esposa, percebi que aquele casamento destruiu planos, coisas que eram importantes pra ela. Então por que ela aceitara aquilo? Claro, o pai mandou, mas porque ela não disse “não”?
–Kory que deve ter adorado fazer os planos para o casório. –O rapaz desconversou para tirar o clima tenso da mesa e funcionou, mas aquilo ainda estava rodando na minha cabeça. Infelizmente eu tinha outras coisas para me preocupar, por exemplo aquele olhar cobiçoso do rapaz.
~X~
–Você falou tão pouco na jantar. –Ravena dissera quando chegamos ao hotel. Ela tirara os saltos ficando descalça e ainda mais baixinha do que era. –Logo você que entre nós dois é mais falante.
–Sabe aquela sua intimação também vale pra você não é?
–Hã?
–Quando você disse que a traição deve ser discreta.
Ela pareceu entender algo e então me olhou, incrédula:
–Então é isso? Você acha que eu e Arauto temos...
–Eu tenho certeza.
–Que tipo de mulher você acha que eu sou? –A baixinha parecia indignada, enquanto me olhava com um brilho furioso no olhar. –Eu nunca tinha nem beijado até hoje mais cedo, na minha vida. Não vou te trair porque eu não preciso de relacionamentos Garfield Logan. Eu tenho algo chamado caráter que me impede de amar ou ao mesmo pensar amorosamente em outra pessoa enquanto tenho um maldito contrato com você.
Dizendo isso ela entrou no quarto pisando duro, deixando com a porta fechasse sozinha, fazendo um estrondo que me fez estremecer.
Fale com o autor