Casamento Por Contrato
8 Capítulo 8: Então é Natal...
Notas iniciais
Por Ravena:
Acordei no outro dia parecendo que um caminhão tinha passado sobre mim. Sem brincadeira. Eu não saí do quarto desde que tive aquela mini discussão com o Garfield e não estava nem aí se ele teve que dormir no sofá. Mas agora eu teria que o encarar de uma forma ou de outra. E não estava com paciência então tinha grandes riscos de eu estourar como no dia anterior, só que de um jeito menos bonito. Muito menos bonito.
Fui para o banheiro, tomei um banho rápido. Alisei meus cabelos púrpura, trancei eles rapidamente. Vesti uma blusa preta meio transparente, uma calça jeans preta, coloquei um brinco e um colar simples, uma bota de salto da mesma cor das roupas e peguei meu fone. Saí do quarto já com ele ligado ao celular que estava no cós da minha calça.
–Aonde você vai? –Garfield perguntou assim que me viu e eu apenas o olhei com um olhar de “quem é você na fila do pão?”. Quem era ele pra saber aonde eu ia ou deixava de ir? Eu ainda estava irritada com as insinuações do dia anterior, isso colaborava para eu não querer responder.
–Fique tranquilo, não vou te trair.
Dizendo isso passei pela porta do quarto ligando Darkest Part ao ouvido. Peguei um táxi e fui parar perto da Torre Eiffel onde comecei a passear ali perto. Com os fones de ouvido em uma altura exorbitante, eu apenas observava as pessoas. No meio delas eu era apenas mais uma turista. Não era uma garota com um casamento por contrato, nem nada do tipo. Eu estava me lixando se os jornais me apontassem sozinha por aí. Eu precisava de um tempo pra ser apenas Ravena, o que eu quero e não o que os outros esperam de mim.
Paris estava toda cheia de luzinhas e foi isso que me fez lembrar que era véspera de Natal. Suspirei. Nunca foi uma ocasião muito importante pra mim, mas eu sempre recebia ligações da minha família materna e os meus melhores Natais eu passei com eles, quando Trigon deixava. Os de casa eram mecânicos demais então eu nunca participava. Não conseguia sentar numa mesa silenciosa e que assim permanecia para cumprir uma data que ninguém naquela casa sabia o real significado.
Garfield simplesmente não parava de me ligar. Comecei a rejeitar ligações adoidado. Então começou aquela enxurrada de SMS. Não entendia porque isso. Não estávamos casados de verdade, não havia porque se preocupar comigo afinal. Era até bom pra ele também, afinal comigo longe, ele poderia ser apenas Garfield Logan, solteiro novamente. Embora a ideia de ele sair dando em cima de meninas alheias me revirava o estômago.
Sentei num banco ali perto ainda com a música sobre os ouvidos quando olhei alguém se sentando ao meu lado. Era um rapaz bonito, parecia ter mais ou menos a minha idade, loiro de olhos azuis profundos e covinhas lindas.
Ele pareceu me cumprimentar, o que me fez tirar os fones e dizer:
–Bonne journée. (bom dia).
–Bonne journéé. Tourist? (Bom dia. Turista?)
–Oui. (Sim)
–Estados Unidos? –Ele falou na minha língua e eu sorrio com isso. O sotaque francês dele era pouco o que me faz sorrir ainda mais. Eu sabia que os franceses não gostavam muito de americanos. Também não gostavam muito que falássemos inglês na terra natal deles, então ver uma pessoa falando inglês era reconfortante e era francês falando inglês o que deixava a coisa ainda melhor e mais surpreendente.
–Acertou.
–Seu francês é muito bom, tive dificuldade em pegar de onde era.
–Você é daqui não é?
–Basicamente. Meu nome é Carlos. Você é...?
–Ravena. –Estendo a mão pra ele que a segura com firmeza. –Prazer em conhecer.
–É meu. –O sorriso que ele deu foi muito lindo, cheio de dentes e covinhas e eu sorri minimamente com isso, olhando direto para o chão e depois pra ele. –Veio aqui a passeio mesmo?
–Na verdade ela está na lua de mel. –Uma voz rouca soou atrás de mim que fez as nós dois pular. Garfield Logan estava ao nosso lado e eu levei um susto maior que a semana. Arregalei os olhos e depois os cerrei como se perguntasse o que ele estava fazendo ali. –Então meu amor, não vai me apresentar seu novo amigo?
~X~
–Você acha que pode me perseguir por aí sempre que der na telha? Garfield Logan, o que deu em você? –Estávamos no nosso quarto de hotel enquanto eu lutava para não gritar ou para não tacar algo nele, mas estava sendo extremamente difícil. –Você rastreou meu celular, isso chega a ser assustador.
–Você não atendeu as minhas ligações e nem as minhas mensagens, você poderia não estar bem.
–É claro que eu estava bem! Eu só queria sair um pouco do mesmo ambiente que o cara que me acusou de estar tendo um caso com o meu amigo como se eu fosse uma qualquer!
–Eu não usei essas palavras!
–Você não precisou!
–E você já não estava toda sorriso com outro rapaz?
O tapa estalado que soou o fez arregalar os olhos. Na verdade, os meus também se arregalaram enquanto o olhar se desviava lentamente para minhas mãos. Não acreditava que tinha feito aquilo. Eu não era uma pessoa violenta, nunca tinha levantado a mão para ninguém em toda a minha vida. Não era meu instinto, mas ainda assim aconteceu sem eu nem perceber. Juro que não pensei na ação, quando eu vi minha mão simplesmente tinha ido de encontro á sua face.
–Não queria ter feito isso. –Dei dois passos pra trás enquanto ele levava a mão onde minha mão tinha encontrado a pele. –Mas é inaceitável as acusações que está fazendo contra mim. Não sou sua boneca, não sou sua posse, não pode simplesmente me acusar dessa forma, contra os meus princípios e contra quem eu sou e esperar que eu não reaja. Nunca tinha beijado ninguém até o momento em que seus lábios encontraram os meus e isso sempre foi muito importante pra mim. Muito. Nunca me acuse desse tipo de coisa. É muito mais ofensivo do que pode imaginar.
Minha fala saiu de forma educada enquanto eu virava as costas e mais uma vez dirigia-me para o meu quarto. Assim que a porta se fechou atrás de mim, eu a tranquei e peguei meu telefone. Não importava o quanto à ligação sairia cara. Precisava conversar com alguém. Minhas mãos tremiam enquanto eu discava.
–Rae?
–Oi Kory. –A voz dela era reconfortante. Queria tanto que ela estivesse perto de mim. Queria tanto poder conversar com ela pessoalmente porque muito provavelmente eu ficaria muito mais calma.
–O que aconteceu?
–Eu dei um tapa no meu marido. –Suspirei enquanto a ouvia arfar no telefone. –A propósito, feliz véspera de Natal.
~x~
Minha melhor amiga ficou realmente surpresa quando eu contei que tinha agredido alguém porque ela sabia que eu era contra qualquer tipo de violência. Sem contar que eu me casara há alguns dias e meu casamento já estava o caos. Literalmente o caos. Eu sabia que isso iria acontecer e odiava Trigon por aquilo. Ele me colocou naquilo, ele me prendeu a Garfield. E agora não conseguíamos sequer ficar no mesmo cômodo. Eu estava observando pela janela a cidade escurecer enquanto eu continuava trancada no quarto. Em pleno dia vinte e quatro de Dezembro.
Já tinha tomado um banho e resolvi que passar a virada do Natal lendo um livro. Abri minha mala em busca de algum livro quando ouvi batidas na porta. Franzi a testa. Minha raiva estava passando pouco á pouco de forma que apesar de ser tentador o deixar bater na porta até a mão cair, eu não o fiz. Fechei a mala e fui até a porta, a abrindo.
Deparei-me com o resto do nosso quarto de hotel completamente escuro e Garfield com um sorriso malandro no rosto. Minha testa continuou franzida principalmente quando ele segurou minha mão delicadamente e me puxou pra fora do quarto, pra dentro da escuridão.
–Por que está tão escuro?
–Você já vai saber. –E então percebi que ele tinha um pequeno controle na mão. Assim que apertou um pequeno botão luzes começaram á acender e meus olhos se arregalaram, brilhando conforme pequenas luzes de Natal se acendiam. Elas estavam espalhadas por todo o resto do quarto de hotel. Meu queixo caiu. Uma árvore de Natal branca com decoração em vermelha chamava minha atenção. E também a mesa com duas velas, duas cadeiras, pratos e lugar para dois. Estava simplesmente lindo.
–Garfield... O que...?
–É meu pedido de desculpas. –Ele coçou a nuca, me olhando meio envergonhado. –Eu sinto muito por tudo isso. Realmente eu não tenho o direito de te perseguir ou desconfiar de você, principalmente porque agora que estou te conhecendo. E não tenho o direito de tratar você como se fosse minha posse, te impedindo de conversar e fazendo insinuações. –Sorri ironicamente como se dissesse “E percebeu agora gênio?”, mas deixei que continuasse. –E você é minha esposa. E é Natal. Não quero passar uma data dessas brigado com você.
Confesso que também não queria. Brigar me cansava. E eu já me sentia tão cansada e desconfortável quando morava com meu pai... Não precisava daquilo ali também, no que deveria ser minha lua de mel. Era Natal e meu marido queria comemorar. E, eu me sentia feliz por ele ter feito tudo aquilo pra pedir desculpas.
–Está desculpado. –Sorri pra ele de maneira doce enquanto tirava uma mecha de cabelo violeta do rosto pra observar melhor. –Você que arrumou tudo isso?
–É. Por quê?
–É que está lindo. –Admiti e um sorriso sem graça cruzou seus lábios. Sua mão tomou a minha mais uma vez e me guiou até a cadeira, a puxando para que eu me sentasse. Eu o fiz e ele tomou o seu lugar.
~X~
O serviço de quarto tinha nos fornecido uma ceia completa que estava muito boa, mas tenho que admitir que a melhor parte foi a conversa. Conversamos sobre coisas banais, descontraídas. Sobre as nossas vidas e os detalhes meio que sem importância dela.
–Quando pintou o cabelo? –Foi a pergunta de Garfield. Havíamos acabado de terminar a sobremesa e agora nós dois apenas tomávamos uma taça de vinho.
–Não pintei. –Seus olhos se esbugalharam me fazendo rir. Era incrível como as pessoas ficavam quando eu falava que meu cabelo era violeta naturalmente. –Ao que parece aconteceu algum tipo de experiência com a minha mãe que era bebê, que modificou seus cabelos. Os genes passaram pra mim, os olhos também são naturais.
–Isso é muito interessante. Deve ser por isso que combina tanto com você. –Desviei o olhar, levemente envergonhada, mas logo voltei a encarar o rapaz.
–Devo supor que não seria de bom tom retribuir a pergunta?
–Eu agradeceria se não o fizesse.
–Não o farei. –Não queria deixar ele desconfortável, assim como eu também agradeceria se ele não fizesse certas perguntas. Acho que no momento deveríamos nos conhecer aos poucos. Tudo com cuidado. –Eu não costumo comemorar o Natal, sabe? Geralmente meu pai não deixava eu passar com a família da minha mãe e não gosto de passar lá na mansão. Então eu geralmente passava lendo um livro no meu quarto ou assistindo alguma série.
–Meus pais prezavam muito essa data. Então eu sempre achei importante. Eu geralmente faço uma ceia para todos os funcionários da minha casa para não ter que passar sozinho e é sempre a maior bagunça porque mais do que apenas funcionários, são meus amigos. Desde muitos anos é a primeira vez que faço algo diferente. –Sua mão cobriu a minha por cima da mesa. –Fico feliz que tenha feito algo diferente também. Acho tão importante, queria que também fosse pra você.
–Foi bem melhor do que os outros. –Minha voz abaixou dois tons automaticamente e a surpresa me fez voltá-la ao normal. –Mas passei três vezes com a família da minha mãe e dificilmente você vai conseguir superá-los.
–Aceito o desafio. –Nós dois rimos olhando um para o outro, mas a minha risada foi cortada para um bocejo. Olhamos juntos para o relógio de parede que o hotel tinha e qual foi a nossa surpresa á ver que eram exatamente quatro e quarenta da manhã. Arregalei os olhos e voltei a rir.
–Acho que é hora de dormimos, se quisermos fazer alguma coisa que não seja dormir amanhã. –Comentei e me levantei da cadeira. –Amanhã eu te ajudo á tirar as luzes antes de sairmos, porque nós vamos Gar. Ainda tem muito de Paris pra ver.
Ele saiu da dele para me acompanhar até o quarto, fato que eu muito agradeci intimamente. No momento em que chegamos ao quarto eu me virei pra ele e daquela vez fui eu que tomei sua mãe delicadamente:
–Obrigada mesmo por esse Natal. É mais importante pra mim do que aparenta.
–Disponha sempre. –E antes que eu pudesse piscar ele se inclinou e seus lábios tocaram os meus. Não foi um beijo daquele que tínhamos dado no Jardim de Luxemburgo. Foi mais como um selinho demorado, que eu retribuí sem nem pensar duas vezes. –Feliz Natal Ravena.
–Feliz Natal Gar. — Sorri com as bochechas avermelhadas enquanto entrava no quarto.
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