Casamento Imperfeito
2 Chapter 02: Estou tudo, menos bem
Notas iniciais

Entretanto, antes que eu pudesse agir conforme meus pensamentos, braços fortes envolveram minha cintura e um par de lábios vermelhos e macios tomaram os meus.
E pela segunda vez, eu me pergunto... como se respira?
...
Sarah
Por um segundo; arregalei os olhos, no outro; continuei sem ação. E pelo canto do olho, vi minha mãe me lançando um olhar mortal como se dissesse silenciosamente: "Corresponda essa merda de beijo senão vou aí dar na sua cara", e eu, que tenho amor próprio, entendi o recado e fechei os olhos, obrigando-me a aproveitar aquela boca se movendo contra a minha, ainda imóvel.
Era quente e molhado, sua língua já passeava pelos cantos da minha boca, acariciando com cuidado. Suas mãos apertavam gentilmente minha cintura e seu corpo estava inclinado em minha direção, fazendo-me ficar com o corpo para trás. Eu não corresponderia nem se o Papa pedisse, mas também não interromperia a troca de salivas no lugar de uma morte lentamente e dolorosamente cruel que provavelmente teria se o fizesse.
Suspirei, esperando que aquela tortura acabasse. E pelo jeito ele percebeu, pois separou os lábios dos meus.
Ouvi palmas e então me lembrei dos milhares de convidados que ainda teria que aturar me desejando 'parabéns'.
Saí dos braços de Klaus, me sentindo sufocada.
— Finalmente casados — minha mãe falou próxima a nós, ao lado dela estava papai. Ela abraçou Klaus, que abriu um sorriso, abraçando-a de volta. Mandei eles cagarem mentalmente enquanto olhava para a cara de chato do meu pai.
E um segundo depois foi tudo muito repentino.
Engasguei com a minha própria saliva, arregalando os olhos.
Abraçando, abraçando, abraçando, era como se minha voz ecoasse dentro de minha cabeça.
Meu pai tá me abraçando...
RODOLPHUS DELENGOR WHITE TÁ ME ABRAÇANDO!!
Ok, mundo, pode parar de fazer ilusões na minha cabeça, ela não merece isso.
— Lembre-se que você tem um nome a zelar, então cuide bem dele, garota... — avisou, sua voz baixa no meu ouvido.
Engoli em seco e assenti positivamente com a cabeça, me separando de seu abraço que era desconfortável. Ele se aproximou de Klaus, que já estava fora do abraço de minha mãe. Ela agora direcionava sua visão para mim.
Elizah – ou mamãe –, veio até mim. Não houve abraços, beijos calorosos ou lágrimas copiosas entre nós duas, apenas nos encaramos em silêncio, como se falássemos com os olhos e era meio que assim.
Pude ver em suas íris um tom de aprovação e eu soube que ela dizia com o seu olhar: "Você fez o certo". Claro, estraguei minha vida e fiz o certo, mãe. Sua mão pousou sobre meu ombro, dando um leve aperto.
— Cuide-se — foi a única coisa que disse antes de sair dali com meu pai.
Fiquei observando os dois se afastarem, um aperto se formando em meu peito, e repeti mentalmente que já devia ter me acostumado com as demonstrações de afeto dos dois.
— Tudo bem? — sussurrou uma voz em meu ouvido, me fazendo dar um pulo de susto. Encarei Klaus ao meu lado e revirei os olhos mentalmente. Repita comigo: em hipótese alguma esquecer que esse ser ama me dar sustos com sua voz maravilhosamente psicótica.
— Claro — respondi, sorrindo falsa, desejando que a cabeça dele explodisse no meio da festa.
— Vem, meus pais e meus irmãos querem nos desejar parabéns — me puxou pela mão.
Cumprimentei todos da sua família, que era constituída por Mikael – pai, Esther – mãe, e os filhos deles, sendo na ordem: Freya, Finn, Elijah, Klaus, Kol e Rebekah.
Eles eram uma família rica – muito rica –, que veio da Inglaterra atrás de uma mulher para Klaus. Sim, estamos em pleno século XXI e isso ainda existe, uma merda, eu sei. Mas não posso dizer nada, pois meus pais também estavam procurando alguém decente pra mim. Bem, vocês já devem saber como o resto se desenvolveu.
Depois de falar com todos eles, exibindo sorrisos falsos a Hayley – mulher do Elijah –, uma ruiva que é a do Finn e o restante de pessoas que havia naquela desgraça, fui cumprimentar o restante dos convidados – que eram muitos. Não foi nem metade daquela gente com quem falei, pois minha mãe devia ter convidado a América inteira e metade da Europa. De qualquer modo, agradeci a todos que consegui pelos parabéns, com meu marido ao alcance, que também agradecia. Nem preciso falar que os padrinhos foram Rebekah e Kol, e Freya e Elijah, não é?
Eu poderia até escolher alguém que não fosse daquela família para serem os padrinhos, mas resolvi deixar esse papel para Klaus, já que nunca fui de ter amigos ou pessoas merecedoras da minha amizade. No final, acabou sendo eles.
A festa acontecia no grande jardim da mansão Mikaelson, que foi onde teve todo o casório. E bem, não estou nem um pouco ansiosa para dançar com qualquer pessoa. Na verdade, o que eu quero é apenas tirar esse enorme vestido do corpo, encontrar uma cama e tirar uma boa noite de sono, e, é claro, acordar no dia seguinte como se tudo fosse um pesadelo básico.
Fiquei imaginando tudo isso enquanto bebia um pouco do champanhe com gosto de lágrimas.
A sorte nunca esteve ao meu lado, é a realidade da vida. Por isso mesmo tive que dançar não só com meu pai, mas também com Klaus. Estava prestes a dançar com Mikael, mas fui salva por algum deus que teve pena de mim.
— Está na hora dos nossos recém-casados e todos os voluntários fazerem seus discursos! — ou não.
Bati minha mão na testa; havia esquecido esse enorme detalhe na minha vida, e realmente não fiz nenhum discurso para que eu dissesse lá em cima.
Mas que merda você, hein, Sarah.
— Está tudo bem? — era Mikael perguntando, a qual eu respondi com um simples sim.
— Quer que eu vá primeiro? — perguntou Klaus, aparecendo do inferno porque eu realmente não sabia de que canto ele tinha surgido.
Apenas assenti e ele sorriu em resposta, depositando um beijo carinhoso na minha bochecha antes de ir até o palco.
Inspirei o ar e depois soltei. Me despedi educadamente do pai dele e fui em direção das cadeiras. Sentei na primeira fila, tentando pensar em algo pra falar quando fosse minha vez.
— Espero que tenha algo que preste no seu discurso — disse minha mãe, sentada bem ao lado. Olhei-a de esgoela, pois nem ao menos tinha reparado sua chegada repentina até que se pronunciou. Hoje tô a própria Dora Aventureira: cega.
Antes que eu a respondesse, outra voz se fez, e com essa voz, se foi minha vontade de responder minha mãe; então apenas me contentei em olhar para o palco minuciosamente.
— Bom, primeiramente, boa noite a todos! — começou, o microfone sobre a boca. — Hoje foi um dia muito importante na minha vida, para começo — riu. — Estou casado há apenas algumas horas, mas posso dizer que estas foram as melhores de minha vida! — sua visão parou em mim, me encarando intensamente e então fechou os olhos, soltando um longo suspiro. Depois eu sou a falsa. — Oh, sim, definitivamente foram… — abriu-os novamente. — Sabe, não dá para dizer exatamente como me sinto, talvez muito apaixonado, meio idiota, mas ainda assim, completo. Completo por ter Sarah ao meu lado, como minha mulher, finalmente. Completo por nossas famílias aceitarem nossa união. — mas o quê? — E… e completo por podermos compartilhar o nosso amor com nossos amigos neste dia incrível — meu Deus do céu. — Não sabe como me sinto feliz, pois agora poderemos formar uma família, ter filhos, um lar, como nós sempre sonhamos. — para de mentir, seu filho da puta do caralho. — Espero que daqui para frente só seja felicidades, porque eu realmente amo você — muitos levantaram e bateram palmas, assovios tomaram conta do lugar e eu tenho certeza que ouvi Kol gritar algum insulto; porém, continuei ali, sentada, olhando silenciosamente para ele, que sorria. Senti tanta raiva naquele momento, mas tanta, que pude sentir meus olhos arderem com lágrimas; elas não eram de felicidade ou boas emoções. Era puro ódio. As liberei – mesmo me odiando –, porque não sabia do que seria capaz de fazer se não tirasse pelo menos metade da raiva que começava a sentir de toda aquela fachada. — Bem, agora vou deixá-la falar, não quero deixar sua maquiagem mais borrada do que está — brincou e muitos riram, e eu senti mais raiva. Senti-me humilhada, como se tivesse nua e indefesa no meio daqueles seres.
Minha mãe repreendeu-me com o olhar – obviamente – por eu estar chorando, mas como resposta levantei, limpando com as costas dos dedos as lágrimas, nem me importando com as manchas pretas que ficaram neles. Andei até o palco, como se fosse superior ao mundo, como se fosse melhor do que eles, mas sabia que não era. A única coisa que me diferenciava deles naquele momento, era que por dentro eu estava um lixo.
Contei até dez.
Segurei meu vestido com as mãos para subir as escadas de três degraus sem que ele atrapalhasse e quando já estava no último, uma mão se estendeu para mim. Respirei fundo, aceitando-a, e subi o único degrau restante. Seus braços já conhecidos me envolveram e seus lábios encontraram os meus para um beijo calmo. Não correspondi, não o afastei, apenas esperei de olhos fechados.
Quando se separou de mim, sussurrou em meu ouvido:
— Consegue fazer isso?
Olhei bem no meio da sua cara, com uma vontade imensa de lhe dar um soco que com certeza quebraria seu nariz, porém, era melhor achar a paciência que nunca existiu na minha vida e me conter.
— Mas é claro que consigo, Mikaelson — praticamente cuspi as palavras.
Empurrei-o para o lado indelicadamente. Ora, essa...
Fiquei no meio do palco e alguém chegou correndo e me entregou o microfone, saindo do mesmo jeito que entrou. Encarei os convidados; todos estavam ali, desde minha prima drogada ao anão ricaço que meu pai fazia negócios.
Soltei um leve pigarro. Ok, vamos lá, só pegue a base de qualquer merda da sua mente e invente.
— Olá, olá, espero que estejam gostando da festa que foi organizada com tanta dedicação pela minha mãe e... estejam se divertindo, é claro. — ri de nervoso, resolvendo continuar antes que o discurso na minha cabeça apagasse e minha voz sumisse. — Bem, como Klaus disse, hoje é um dia muito importante. Para nós dois, pelo menos. — suspirei. — Estamos juntos de corpo e alma, com a benção de Deus e de todos aqueles que amamos. — engraçado que nem cristã eu sou. Mas foco, Sarah, foco. — Uma união muito bonita, que me fez borrar a maquiagem, e olha que não é fácil uma coisa dessas acontecer... — brinquei, mesmo sabendo que aquilo não tinha a mínima de graça possível. Eu só quero chorar em posição fetal. — Enfim, não sou muito boa com palavras e nem vou dizer algo estilo Shakespeare que tocará o coração de vocês ou uma frase que marcará a história. A única coisa que digo é: corra atrás da sua felicidade, independentemente dela ser impossível ou não. Não fique parado, não sinta medo, faça o que quer, não o que os outros querem. Não deixe seus maiores sonhos se tornarem uma coisa inalcançável em sua vida — aquilo era tudo que eu queria fazer desde o começo. — Sei que isso não tem muito sentido com o fato de eu ter casado, mas é algo do tipo. Klaus é minha felicidade, meu maior sonho e eu pude alcançá-lo... e olha onde estamos? Com as escovas unidas. Isso não é incrível? Pensem nisso, quando estiverem sóbrios, claro. — menti, menti o mais descaradamente possível. — Obrigada pela atenção. — terminei e saí dali. Ouvi palmas, mas não liguei. Depois daquilo, eu não queria saber de mais nada. O restante da tarde passou com eu me sentindo mais apática do que geralmente era.
Quando vi, já estava saindo do jatinho particular que Klaus tinha com malas e tudo. Deixei-o me levar para onde quer que fosse e fiquei contemplando pela janela do táxi as ruas movimentadas de New York.
Ah sim, minha lua-de-mel seria aqui, na cidade que nunca dorme.
Não é como se eu nunca tivesse vindo a NY, já vim umas muitas vezes.
Chegamos ao hotel que ficaríamos e eu esperei desgastada a recepcionista praticamente subir em cima do balcão de mármore pra dar melhor em cima do Klaus. Se eu me importava? Não, só queria dormir logo.
— Amor, não sei se você reparou, mas estou com pressa então me dê a chave e depois você e esse aqui — apontei Klaus. —, podem se comer à vontade.
Klaus me olhou assustado e a mulher corou, irritada. Ela entregou a chave com uma cara de desgosto para a mão dele. Vi o rapaz que carregava as malas passar com aquele carrinho com a cara vermelha e risonha.
Pegamos o elevador e percebi que estávamos indo para a cobertura. Ainda bem.
Espera…
Hoje… hoje é a noite de núpcias...
Remexi-me desconfortável naquele elevador enorme, e olhei para Klaus. Dei uma passada em seu corpo, e tudo bem, ele era... charmoso.
Mas o fato é que não darei nada a este ser. Absolutamente nada.
Quase bati a cabeça no metal do elevador para ver se minha vida tinha algum sentido. Se eu ia fazer sexo com Klaus ou não era o de menos, tudo que eu queria chorar, espernear e receber algo que não seja material, talvez carinho ou sei lá, tô tão cansada.
O elevador enfim abriu, o cara do carrinho passando primeiro com as nossas malas, para irmos atrás dele.
Klaus abriu a porta e nós entramos. Dei uma gorjeta para o garoto que não devia ter nem 20 anos, e ele saiu feliz por aí. Observei um pouco aquele lugar, e tinha que confessar que era uma boa cobertura, mas minha visão e o restante do meu corpo cansado não me fez querer prestar muita atenção para ficar impressionada.
Arrastei meus pés, seguindo Klaus até um quarto, reparando que havia uma cama de casal no centro. Fiz uma careta, já estava até prestes a levar minha mala para outro lugar quando a voz dele se fez:
— Hey, aonde vai? — desabotoava sua blusa social negra, a sobrancelha erguida.
— Ah — disse com desânimo, colocando a mão na boca antes de soltar um longo bocejo. —, estou indo para outro quarto. Não tente me impedir. — bocejei novamente, meus olhos quase se fechando de sono. Nem reparei quando Klaus se aproximou de mim até ficarmos longe um do outro uns 35 centímetros. Perto demais, amorzinho. — Que é? — indaguei.
— Durma aqui, comigo. — pediu, sua mão pousando em meu ombro num afago carinhoso.
— Sem chances, Mikaelson. — tirei sua mão de meu corpo, agora mais desperta que nunca. — Não vai rolar nada entre nós, caso não tenha percebido. Vá atrás da recepcionista ou alguém que te queira na cama, que no caso não me inclui. Boa noite. — agarrei a mala de rodinhas e girei nos calcanhares, mas fui impedida por sua mão em meu antebraço.
Que novela.
— Espere. — olhei pra ele. — Prometo que não farei nada que não queira, só fique aqui comigo.
Sorri, abaixando a cabeça. Virei-me e aproximei-me de sua face, levantando meu rosto até meus olhos pousarem nos seus.
— N-Ã-O! — soletrei e saí dali arrastando minha mala sem esperar uma resposta.
Abri uma porta qualquer, agradecendo que era um quarto com suíte. Depois de trocar de roupa, tirei a maquiagem pesada do casamento e escovei os dentes.
Peguei meu celular e o fone de ouvido na mala, a empurrando para o chão sem cuidado em seguida, fazendo um barulho desagradável e alto.
Quando já estava prestes a deitar, uma voz soou do outro lado da porta:
— Está tudo bem? — perguntou Klaus. Me aproximei da porta só pra certificar de que eu a havia fechado com a chave assim que entrei.
— Está, só foi minha mala no chão — retruquei baixo, mas de forma que ele pudesse ouvir.
Deitei na cama e conectei o fone no celular, colocando uma música do Coldplay.
Enquanto ouvia, deixei minha mente se tornar um breu, meu espírito vagar e meu consciente descansar num mundo de sonhos e uma vida melhor. E eu soube assim que Klaus me perguntou, soube que em meu real estado estou tudo, menos bem.
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