Casa de Boneca

7 The Friend's Crush


Notas iniciais
Gente... Um capitulo sem divisões ! Novidade ! Nem eu sabia que conseguia fazer isso ! Shaushau. Perdão pela pequena demora.

Melanie estava sentada na grama comendo uvas com Bruno ao seu lado. Ele pouco se importava com as frutas do piquenique mas Melanie parecia estar com fome.
O vento soprava trazendo o cabelo para frente, o qual ela afastava pacientemente. Se não estivesse sentada o vestido curto azul também estaria voando.
Ela estremeceu passando as mãos nos braços.
– Está com frio? — Bruno perguntou se deitando do lado dela sobre a toalha lilás com flores brancas. Se a mãe descobrisse que estava usando no gramado do parque certamente arrancaria sua cabeça.
– Não. É só o vento — ela voltou a cutucar uma uva com a unha tirando a fina casca por diversão.

Bruno a olhava curioso. Ela se mantivera silenciosa a semana inteira – desde que saíra com o namorado universitário, totalmente desconhecido por todos – e nunca lhe dizia a razão. Por mais que ele perguntasse, de forma gentil, suplicante e algumas vezes, desesperada, ela nunca respondia nada além de “Nada demais, só estou um pouco cansada”. Isso o irritava algumas vezes, e em outras o fazia pensar se estava invadindo a privacidade da menina. Não sabia ao certo.

– Melanie, eu a vi voltando com Arthur naquela noite. Na noite em que saiu com seu namorado – ele confessou soltando a última palavra como se fosse algo pegajoso e nojento, digno de repugnância – Por que voltou com ele?

Melanie revirou os olhos colocando a uva na boca e mastigando pacientemente, como se não quisesse responder à pergunta.

– Já disse. Ele me viu saindo e foi atrás depois – ela pegou outra uva tirando novamente a pequena e fina pele que cobria a parte mole e aquosa da fruta.

Eu observei da janela o tempo todo esperando você voltar sã e salva e não o vi sai, ele quis dizer mas ela acharia que ele era um stalker maníaco que observava cada movimento que ela realizava ou deixava de realizar.

Não que ele não o fizesse. Há muito observava a vizinha, doce e delicada com seu toque de molecagem nas ações, a garota que parecia uma nova branca de neve totalmente rebelde do século XXI com seus jeans apertados e regatas cavadas e largadas, ou seus vestidos curtos e coloridos, seus coturnos que usava em dias de chuva e as sapatilhas com laço que usava na primavera. Não que São Paulo tivesse estações extremamente reguladas...

Bruno aprendeu a amar domingos e a adorar acordar cedo neles. Ele abria a cortina apenas o suficiente para ver Melanie sair em seus vestidos chiques e delicados, saltos altos e cabelo arrumado, indo para a igreja com a família. Observava até ela sumir estacionamento adentro com seu doce rebolado fazendo o vestido balançar suavemente. Por sorte ela nunca olhava para cima para perceber que ele estava lá.

Bruno suspirou aceitando a mentira pela quarta ou quinta vez. Talvez a sexta. Não gostava quando ela mentia. E o pior era saber quando ela mentia.

Você está mentindo. Você morde o lábio e fica com os olhos inquietos toda vez que mente, quis declarar mas não o fez. Seria novamente um comportamento estranho reparar no que ela fazia quando mentia. Ao menos ele achou que seria.

– Bruno... – ela chamou depois de mastigar a uva – Você acha que meu pai vai expulsar Arthur depois de seu aniversário de 18 anos? – perguntou esfregando um polegar no outro, tirando as cutículas com as unhas.

– Por que faria isso? – perguntou se apoiando nos cotovelos para olhá-la melhor. Seus olhos estavam ainda mais azuis, brilhando intensamente. Parecia um relâmpago em meio ao céu noturno.

Ela balançou a cabeça e ele pode reparar que ela estava pensando. Pensando no que falar e como falar. Estralando os dedos e os esticando freneticamente. Sempre fazia isso quando estava nervosa ou ansiosa.

– Meu pai não gosta de Arthur, não o suporta. E com 18 anos, ele tecnicamente já sabe se virar sozinho – as bochechas estavam coradas quando ela se virou para ele – Eu gosto de Arthur apesar de tudo. Ele é quase um irmão e quase se comporta como um.

Bruno sorriu solidário. Ele não gostava de Arthur, mas também não queria ver a amiga melancólica por sua partida.

– Sua mãe não deixaria que Roberto fizesse isso, Mel – ele se levantou e colocou uma mecha do cabelo dela para trás com delicadeza. Seu rosto pálido, as bochechas ruborizadas e os lábios rosados. Seus olhos azuis, não azuis e comuns, mas azuis e brilhantes, unicamente azuis, não existia um azul como aquele em todo o mundo para Bruno.

– Obrigada por me convidar para passear – ela disse desviando o olhar. Bruno lamentou por dentro mas apenas sorriu para ela.

– Não foi nada. Somos amigos afinal, não somos? – ele não gostava do som da palavra amigos, mas soava melhor do que colegas, ou conhecidos, ou completos estranhos. Era o melhor que podia ter. Ao menos por hora – Tem ido para o ateliê? – perguntou querendo desviar o assunto e não torna-lo doce demais e, para ele, torturante.

– Sim. Acabei com um das bonecas essa semana. O nome dela é Yve – respondeu antes mesmo que ele pudesse perguntar. Ela sabia que ele sempre perguntava os nomes – Sabe, fico pensando que elas são uma família perfeita, é infantil, mas penso assim. Fico pensando se não poderia transformar minha família em bonecas para que fossemos perfeitos – declarou tristonha.

Bruno beijou sua testa suavemente – afinal, era tudo que podia fazer, mas desejava mesmo eram seus lábios, os lábios rosados em forma de coração, delicados como de uma criança. A criança que ela era e não sabia, não admitia e odiava. Bruno pegou uma parte da infância de Melanie com ela. A garotinha de oito anos com seus lacinhos no cabelo, vestidinhos de frufru com shorts coloridos por baixo e galochas cor de rosa correndo pela grama do condomínio. Naquela época a odiava. Achava que ela não passava de uma menina metida de narizinho em pé.

– Boatos de que você largou a Becca. Verdadeiros? – ela perguntou desviando o assunto.

– Ah, sim. Ela é muito enjoada – não se parece em nada com você, desejou poder dizer.

– Quando e qual será sua próxima vítima, tigrão? – ele sentiu o rosto ruborizar mas a pele morena disfarçava qualquer rubor leve. Ele não queria nenhuma garota. Já “experimentara” varias. Procurava nelas esquecer Melanie mas nenhuma nunca foi o suficiente.

– Na verdade, estou pensando em virar gay – ele disse com um sorriso de lado fazendo a se dobrar para frente rindo. Isso fez um sorriso real brotar no rosto dele.

– Fique longe do meu namorado – ela disse o empurrando de leve e se deitando na toalha, segurando o vestido para que o vento não o levantasse. Bruno deitou também deixando o braço pender ao lado do corpo encostando as costas de sua mão na dela. Ela não se importou e nem se afastou.

– Hmm... Não sei. Ele parece fazer meu estilo – ela riu lhe dando um pequeno tapinha na lateral de sua coxa.

– Não ouse! – ela sorriu olhando as nuvens, e ele, olhando para dela com o canto do olho.

– Tudo bem. Então vou virar padre – ele disse e o sorriso dela se alargou.

– Pobres freiras... Todas indo para o inferno por culpa de um padre tarado – ela sorriu se virando para ele que retribuiu o gesto.

– Não sou tarado. Sou um “tigrão” – ele disse dando uma piscadela para ela.