Casa de Boneca
8 Good Brothers
Era segunda-feira mas não havia aula nem para Melanie e nem para Arthur. A última semana havia exaurido todas as forças de Melanie com tantas provas e trabalhos, e acordar numa segunda de manhã e não ter que se preocupar com a perua escolar buzinando na frente de casa chegava a ser tristonho. Era entediante não ter mais a agitação escolar e nenhum dos dois sabia suas notas ainda, para saber se estariam, ou não, de recuperação.
Arthur estava apoiado na mesa mexendo no celular enquanto mordiscava bolachas recheadas e Melanie estava sentada logo a sua frente na mesa, tentando fazer com que os cereais coloridos – os mesmo que comia quando tinha 12 anos – não parecerem tão entediantes quanto o resto da casa.
– O que foi? – Arthur perguntou levantando o olhar do celular para ela.
– Nada – Melanie deu de ombros colocando uma colher de cereal na boca. Ela mastigou devagar enquanto eles ainda se encaravam – Que foi!? – perguntou por fim, ainda com a boca cheia.
– Você parece um esquilinho comendo – ele sorriu e abaixou a cabeça antes de um biscoito passar por cima dela, quase o acertando na testa.
A mãe abriu a porta e o biscoito acabou batendo em sua barriga deixando um círculo marrom no vestido rosa florido. Ela olhou os dois franzindo a testa e eles apenas sorriram como se não houvessem feito absolutamente nada.
– Podem me explicar? – ela falou trazendo os papéis com seus boletins em mãos.
– A Mel quem jogou! – Arthur disse levantando as mãos em sinal de inocência.
Melanie abriu a boca num pequeno “O” mostrando indignação e apontou para o meio irmão enquanto olhava para a mãe.
– Ele me comparou com um esquilo comendo! – ela disse elevando a voz fazendo a mãe rir. Ana lhe passou a mão pelos cabelos escuros e se sentou ao lado deles na mesa.
– Ele tem razão, minha doce criança – disse mordiscando um dos biscoitos sorrindo enquanto Melanie batia a testa na mesa, num ato teatral de desistência. Isso fez com que os outros a mesa rissem – Peguei o boletim de vocês – ela disse entregando uma folha para cada um, que os meninos logo tiveram que trocar. Melanie fez um careta enquanto Arthur fazia um bico estranho.
– Passei. Como sempre, com notas perfeitas – ela fez uma tosse de mentira tirando uma falsa poeira dos ombros enquanto se gabava.
– Eu não acredito... – Arthur olhava para o papel abismado, o que fez a meia irmã arquear as sobrancelhas – EU PASSEI! – ele gritou saltando da cadeira, fazendo esta cair para trás. Ele correu pela casa com os braços abertos como uma criança faria, gritando e comemorando a vitória – CHUPA! EU PASSEI! – ele parou ao lado de Melanie entregando-o para que ela olhasse.
– Garoto, olha o vocabulário! – Ana lhe deu um tapinha no braço enquanto revirava os olhos. Ela sempre dizia que ele parecia o pai, e Melanie nunca disse nada em oposição. Arthur realmente não tinha nada da personalidade da mãe. Ana era calma, paciente e reservada enquanto Arthur era agitado e estava sempre se mostrando por ai.
– Agora – Melanie disse o puxando pela manga da camiseta fazendo-o parar com sua comemoração — , é hora de você estudar para um vestibular, mocinho – Arthur assentiu. Era difícil que fizesse isso, mas o fez.
– E alguém inteligente vai me ajudar – ele olhou para ela dando uma piscadela – Não é? — Melanie revirou os olhos mas concordou em ajudar o meio irmão com seus estudos.
* * *
Melanie estava sentada no jardim da frente arrancando algumas folhas da grama com os dedos os melando de verde quando Arthur sentou ao seu lado olhando para as casas vizinhas também.
– Toma. Obrigado – ele estava lhe entregando três notas de 100 reais para ela – Entregue pro seu namorado. Agradeça por mim – Arthur abaixou a cabeça com certo rubor nas faces pálidas.
– E o juros? – ela brincou sorrindo e ele sorriu também.
– Mel... Sei que agi como um idiota nos últimos anos mas... Sei lá. Acho que ainda podemos tentar agir como irmãos normais mesmo sendo só meio irmãos. Eu gosto de você – ele disse beliscando a bochecha dela – Você é pequena, bochechuda, nervosinha e fofinha, principalmente quando misturamos o nervosinha e o fofinha, isso te deixa ainda mais fofa. Mas também é madura como eu nunca fui e nem sou – ele confessou.
Melanie sentiu as bochechas corarem e abaixou a cabeça, escondendo o rosto nos joelhos e abraçando o próprio corpo, como uma pequena tartaruga se encolhendo ao mexerem nela.
– Você é um irmão legal também – assumiu sentindo as bochechas esquentarem tanto que teve medo de que começasse uma combustão espontânea em seu corpo. Ela sentiu Arthur rir suavemente ao seu lado mas não levantou a cabeça, nem mesmo quando a mão dele começou a acariciar seus cabelos. Ele desceu a mão enrolando os cachinhos dela entre os dedos.
Ele se levantou batendo a grama de suas calças jeans escuras, totalmente coladas ao corpo. Houve uma época em que Melanie cogitou perguntar se ele era gay mas não o fez, até porque, uma semana depois ele estava agarrado com uma garota no portão da escola.
– Mel? – ele a chamou fazendo com que ela levantasse o rosto para olhá-lo – Você também é uma irmã legal – e depois disso se virou entrando em casa.
Melanie se levantou indo até a janela de Bruno e tacando algumas pedrinhas, como sempre fazia. Isso o irritava mas ela preferia o irritar do que bater na porta. Sua mãe poderia abrir, ou seu pai, ou então um de seus irmãos. Se fosse Paula, a irmã mais nova, ela não ligaria. Paula era uma criança adorável. Mas Lucas, o mais velho, era detestavelmente chato e irritante. Em sua maioria, a mãe de Bruno também era um doce, embora o pai lhe desse medo.
Bruno abriu a janela, quase sendo acertado por uma das pedrinhas e olhou feio pra ela.
– Eu queria saber onde diabos você arranja tantos cascalhos – ele disse com um meio sorriso.
– Você está ocupado? – ela perguntou cruzando as mãos nas costas, balançando o corpo para frente e para trás, como uma criança pidona.
– Ahn... – ele olhou parar trás e depois para ela – Não, por quê? – ele se apoiou na janela ainda a olhando. Os cabelos estavam bagunçados e a camiseta amassada.
– Eu te acordei ou alguma garota fez esse servicinho? – ela perguntou apontando a camiseta dele. Ele ficava charmoso de azul celeste.
– Na verdade, eu estava tentando concertar o meu computador quando acabei fazendo ele explodir e não ligar mais – ele declarou tristonho e ela soltou um pequeno riso.
– Vou fazer curso de informática e depois a faculdade de engenharia mecânica – ela disse engrossando a voz, o imitando. Bruno mostrou a língua para ela.
– O que você quer afinal de contas? – perguntou passando a mão pelos cabelos – Uma benção do mais novo padre!? – perguntou relembrando a brincadeira que fizera com ela no parque no final de semana anterior.
– Não, idiota! – ela balançou a cabeça sorrindo – Eu, você, shopping, em meia hora.
– Fazer o que? – ele perguntou fechando parte da janela.
– Qualquer coisa. Quem sabe não arranjamos uma garota para você. Ela pode ser uma freira fora do padrão, por exemplo, senhor padre – ela disse dando as costas enquanto um riso suave brotava de Bruno.
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