Capítulo 4

Gabriel ficou um pouco desconfortável depois de expressar as intenções de seu irmão gêmeo pervertido, mas quando o rubor diminuiu um pouco, se sentou novamente no sofá. Me sentei ao lado dele enquanto a Barbie ia arrumar as malas. Antes que eu abrisse a boca, senti-me sendo observada. Quando olhei por cima dos meus ombros, encontrei Barbie, parada no primeiro degrau da escada, me encarando com seus olhos azuis estreitos.

“Pode fazer suas malas com calma, Barbie. Eu não vou agarrar o seu anjo.”, eu disse sorrindo amarelo.

Ela continuou me encarando por alguns segundos até que desistiu e subiu as escadas. O que tinha sido aquilo? Barbie estava com ciúmes do seu anjo da guarda comigo ? Aquilo era ridículo.

Gabriel era tão dócil que o máximo que eu poderia vê-lo, seria como um irmão mais velho. No momento em que olhei para Gabriel, vi seus olhos focados em algo distante, até que ele piscou e se focou em mim, sorrindo. Percebi que os olhos azuis dele eram, realmente, angelicais. A paz que eu sentia com Barbie não chegava aos pés do sentimento que me enchia com Gabriel. Era algo que me lembrava o sol, um sorriso, rosa , tudo de bom.

“Ela está desconfiada”, Gabriel disse, um pouco mais sério.

“Eu sei. Ninguém confiaria em mim, nem ela. Ainda mais agora que ela e eu sabemos que sou um demônio.”

“Meia-demônio”, ele corrigiu.

“Dá no mesmo”, dei de ombros. “Eu não ligo para isso. Nunca liguei para o que as pessoas pensavam de mim. Vou continuar a mesma.”

Gabriel me estudou por um momento, provavelmente procurando por uma prova que eu estava mentindo. Então ele sorriu.

“Você é a pupila perfeita para Lucio.”, ele declarou. “E tem os olhos do seu pai.”, acrescentou.

“Já me disseram isso antes. E por que você acha que sou perfeita para o seu irmão?”

“Bem,”, ele considerou por um momento. “os dois são teimosos, tem um senso de humor estranho e um estilo sombrio de se vestir.”

Isso me lembrou de algo que havia reparado em Lucio assim que nos conhecemos. Suas roupas pretas. Será que todos os os demônios se vestiam com roupas escuras?

A resposta veio no mesmo momento. Não. Colin nunca se vestiu com roupas escuras. Apenas com cores alegres que destacavam seu cabelo loiro e seus olhos verdes com mel. Mas poderia ter sido parte de seu disfarce. Eu não sabia o que se passava na cabeça de um demônio, mesmo sendo uma.

“Como você sabia o que Lucio estava pensando?”, perguntei vendo Gabriel corar de novo.

“Coisa de irmãos gêmeos. Todos os guardiões nascidos e anjos da guarda que são irmão gêmeos, podem ler os pensamentos um do outro.”, ele observou minha expressão assustada e riu. “Não se preocupe. A gente só mostra o que quer. Também temos nossos segredos.”

Suspirei aliviada e pronta para mais perguntas, mas Lucio chegou com duas malas na mão, as jogando no chão. Em seguida, se jogou no meu lado no sofá, colocando o braço em volta do meu ombro e sorrindo.

“Sentiu a minha falta, querida pupila?”, ele perguntou.

“Sinceramente,”, eu disse tirando o braço dele de meus ombros. “Não”, sorri para ele, irônica.

“Quando eu era um gato, você era mais simpática.”, ele acusou fingindo estar magoado.

“Deve ter sido porque você não falava.”, retruqui.

Ele levantou encarando o irmão e franziu o cenho. Ficaram um bom tempo assim, até que seu olhar oscilou para mim por um curto momento e depois levantou a sobrancelha. Gabriel deu de ombros e Lucio riu, indo em direção a porta. Mas, antes dele sair, o ouvi dizer:

“Impossível. Ou melhor, duvido muito.”

O observei sair pela porta. Que guardião era aquele que deixava a pupila mais sozinha do que sob sua proteção?

“O que você e Lucio estavam conversando?”, perguntei a Gabriel enquanto brincava com uma mecha do meu cabelo preto.

“Ele estava me contando sobre o beijo que deu em você”, Gabriel disse um pouco embaraçado. Corei como nunca havia corado antes.

Aquilo era pessoal (e culpa dele). Se Lucio não tivesse me beijado... Meu corpo tremeu lembrando dos seus lábios macios e quentes sobre os meus. E da sensação do tempo parando. No fundo, eu tinha esperanças que Lucio guardasse segredo. Mas era esperar muito de um demônio.

“Isso?! Ata. Tudo bem.”, tentei parecer indiferente, mas o fato de eu estar corada e parecendo uma pimenta não ajudou muito. “Tem alguma regra que me impede de espancá-lo?”

“Na verdade, não. Mas eu não tentaria a sorte. Lucio é um ótimo lutador. Honestamente, eu e ele lutamos bem, mas Lucio consegue ser ainda melhor.”, aquilo me espantou por um momento. Não via Lucio como um lutador. Um demônio guardião, sim, mas não um grande lutador como Gabriel estava descrevendo.

Antes que eu dissesse isso, Gabriel acrescentou, cauteloso:

“Você poderia reclamar com seu pai e ele tiraria Lucio de perto de você. Lucio não te medo que você faça isso. Ou melhor, não demonstra que tem medo, mas se você falar com seu pai, Lucio é demitido e eu vou ser obrigado a me retirar também.”, ele esperou que eu dissesse alguma coisa ou algum comentário engraçadinho, mas eu estava sem palavras.

Eu, denunciar Lucio para o meu pai desconhecido? Não! Nunca! Mesmo o achando metido a gostosão, ainda era legal e ainda era o meu gato. Tinha vivido minha vida toda com ele, não poderia trocá-lo.

“Não! Claro que eu não vou reclamar. Isso seria...”, minha voz falhou. Tentei explicar a minha reação a mim mesma, mas não consegui. Respirei fundo e tentei de novo. “Não se preocupe, Gabriel.”, disse soando mais calma, mesmo estando em um turbilhão de emoções. “Lucio pode ser um idiota, ás vezes, mas ainda é o meu guardião.”, e esperava que fosse por mais um tempo.

“Que bom ouvir isso.”, Gabriel sorriu aliviado.

“É mesmo”, Lucio disse entrando de novo na casa da Barbie. “Vim pegar a mala de Katerine. As outras já estão no carro.”

Só naquele momento percebi que as malas não estavam mais ali. Então entendi o que Lucio estava fazendo lá fora. Mas também tinha certeza que não demorava tudo isso para guardar três malas no carro.

“Já estou descendo”, Barbie gritou do alto da escada.

Gabriel se levantou e foi ajudá-la. Notei a sua elegância em cada movimento e vi que nem todos os hábitos de gato haviam sido deixados para trás.

A mala de Barbie era rosa choque e era tão grande que eu duvidava que caberia dentro do carro. Mas Lucio conseguiu dar um jeito de colocá-la. Nós estávamos prontos para ir, quando eu e Lucio começamos a discutir.

“Eu vou dirigir” eu disse de braços cruzados e batendo o pé, como as garotas da TV.

“Não vai, não. Já vai começar a amanhecer e você não dormiu. Teve uma noite cheia, Emi. Pare de ser teimosa e entra no carro.”, ele abriu a porta do passageiro para mim e sorriu. “Como eu sou um guardião muito bom, vou deixar que vá na frente comigo.”

Suspirei desistindo e entrei no carro. Gabriel e Katy nos observaram em silêncio e entraram no carro também. Barbie se sentou atrás de Lucio enquanto o anjo ficou atrás de mim. Olhei para Katy por cima dos ombros e a vi encarando Gabriel, encantada.

“Você desconfiava que o mundo tinha segredos tão obscuros?”, perguntei evitando os olhares de Lucio e Gabriel.

Já estávamos na estrada a vinte minutos e o assunto era apenas o que era mito e o que existia. Zumbis, lobisomens e fantasmas existiam. Mas, para a tristeza de Barbie, fadas eram apenas um mito.

“Se vampiros, fantasmas e zumbis existem, eu não duvido de mais nada.”, ela sorriu falando do mesmo jeito que eu quando estava animada.

Sorri também, enquanto Lucio e Gabriel riam. Era estranho saber que eu fazia parte desse mundo sobrenatural e também que tinha muitas coisa que eu não sabia sobre ele.