Notas iniciais
Sei que estou á anos luz sem postar, mas agora minha vida está mais normalizada, então poderia reassumir o ritmo dessa fic. Espero que gostem do capítulo e perdoem os erros.

Acordei com o sol batendo em meu rosto. A porta de vidro tinha um lado ruim, afinal. Tateei com as mãos o espaço ao meu lado, procurando a minha companhia noturna, mas encontrando apenas um espaço frio. Rolei na cama para ter certeza da minha solidão.

Lucio realmente não estava mais ali. Deveria ter levantado cedo e muito silencioso para não me acordar. Tinha que aprender esse truque com ele. Sentei na cama passando a mão pelo cabelo e deixando que as lembranças de ontem me invadissem.

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“Tem certeza que quer eu dormindo com você?”, ele me perguntou.

“Claro que sim.”, disse me ajeitando em um dos lados da cama.

Lucio pegou o seu cobertor e seu travesseiro e se deitou ao meu lado na cama, deixando um certo espaço. Mas eu não queria aquele espaço. Esperei que ele terminasse de se ajeitar e me deitei bem mais perto.

Pensei que ele se afastaria, mas fez o contrário. Esticou o braço para que eu pudesse deitar a minha cabeça nele, como um travesseiro. Nos deitamos de lado, de modo que ficássemos como um tipo de concha.

Era tão confortável como o corpo de Lucio se ajustava perfeitamente ao meu. Para terminar, Lucio colocou seu braço em minha cintura me apertando mais contra ele, e sua boca ficou em minha orelha. Engraçado que minha orelha ficou entorpecida com a respiração quente dele nela. E mesmo com as minhas costas pressionadas em seu peito, podia ver que ele não tinha maldade. Aquilo era apenas para o meu conforto.

Ou ele sabia se controlar bem?

“Pode dormir agora”, ele insistiu.

Como eu poderia dormir com aquele Deus Grego agarrado em mim? Mas tinha que cumprir com a minha palavra. Era bastante difícil, mas tinha. A culpa não era minha que o sono não viesse.

Na verdade, era sim.

“Então, você me acha bonita?”, perguntei brincando com os seus dedos que estavam em minha cintura. Como eles eram grandes e morenos. Eu estava levemente corada, mas tinha a esperança dele não perceber a minha vergonha e desconforto.

“Hora de dormir, Emi.”, ele persistiu, rindo.

O riso dele era tão rude e ao mesmo tempo tão leve, e fazia a minha orelha formigar. Senti seu aperto ficando mais possessivo e sua boca mais perto da minha pele.

Tortura total.

“Não fuja do assunto. Não vou dormir enquanto não me responder.”, cruzei meus braços e fiz bico, mesmo sabendo que ele não podia ver.

“Você é teimosa demais. Vou acabar perdendo a paciência e te hipnotizando de novo para que durma.”, mesmo com as palavras duas, Lucio ainda estava rindo.

“Só me responda e eu calo a boca até amanhã”, ofereci e cruzei os dedos ao mesmo tempo que mordia o meu lábio inferior.

Era engraçado o tão pouco que eu mentia para Lucio. Deveria ser porque eu perguntava mais do que respondia. Antigamente era o contrário. Só porque eu usava preto, todos queriam saber mais de mim. Agora eu sabia como as pessoas se sentiam.

“É, eu te acho bonita.”, ele respondeu. “Na verdade, linda.”

O mais engraçado daquela conversa era que estávamos apenas sussurrando. A remota ideia de falar alguma coisa alta estava fora de questão. Não sabia quanto que o sono da Barbie e do anjo era leve.

“Sou mais bonita que Débora?”, insisti.

“Você não disse que calaria a boca e iria dormir se eu respondesse?”, Lucio questionou e eu mostrei os dedos cruzados a ele. “Realmente tenho que tomar cuidado com você.”

“Responda.”, exigi.

“Não sei. Vocês são muito diferentes, algumas poucas características iguais, mas fora isso, nada igual.”, ele respondeu rápido. “Você pode fazer o favor de dormir agora, Emily?”

“A última pergunta.”, Lucio soltou o ar, exasperado. “Por que você e Débora terminaram?”

Antes, Lucio n]ao fazia pausa entre pergunta e resposta, mas nessa última, ele hesitou. Eu sabia que tinha mais do que queria me contar. Teria que saber um dia. Senão fosse pela boca dele, seria de outro jeito. Finalmente, Lucio suspirou e sussurrou rápido e com uma voz melodiosa, me dando uma certa sonolência.

“Ela não queria que trabalhasse como seu guardião com medo que acontecesse a mesma coisa que aconteceu entre a sua mãe e seu pai.”, ele estava falando deles terem se apaixonado.

Era ridículo. Aquilo nunca aconteceria comigo. Primeiro, meu coração não está aberto para o amor. E segundo, era impossível eu e Lucio ficarmos juntos, pelo simples fato de eu não querer cometer o mesmo erro que minha mãe e ser abandonada.

“Débora queria casar, ter filhos comigo. Ela me amava,”, ele continuou dizendo. “Mas eu tinha um trabalho e Peter é meu amigo á muito tempo. Não poderia negar aquilo a ele.”

Meus olhos começaram a pesar, meu corpo estava relaxando e minha mente estava escurecendo. Eu não queria dormir agora. Não no final da história de Lucio e sua ex. Com certeza ele estava fazendo aquela voz diferente de propósito, para me dar sono. E o pior era que estava funcionando.

“Ela me mandou escolher entre ela e o trabalho, então terminamos.”, foi aí que ele sentiu meu estado de quase-sono. Beijou meu rosto e sussurrou mais baixo. “Durma, meu amor. Eu escolhi você.”

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Balancei a cabeça enquanto levantava e trocava de roupa. Enquanto penteava o cabelo, comecei a ouvir uns zunidos vindos lá de baixo. E junto com o barulho, um cheiro doce.

Bolinhos de chocolate.

Nesse últimos dias, Gabriel provou ser um ótimo cozinheiro. Tinha mãos de anjo. Só de sentir aquele cheiro, meu estômago roncou. Decidi por deixar o cabelo solto lembrando do que Lucio disse sobre eu ser pouco ousada. Não que eu ligasse, mas decidi e pronto.

Quanto mais eu me aproximava da escada, mais os zunidos ficavam altos. Tanto que quando parei em frente a escadaria, consegui identificar as vozes. Foi fácil ver que tinha uma terceira pessoa com Lucio e Gabriel.

“Hey, Polly”

Estava tão concentrada em descobrir quem estava na cozinha que tomei um susto enorme com a Barbie. Seu rosto estava presunçoso meio escondido pelo cabelo loiro. Estava até que sorriu com o meu susto, mas vi como estava desconfortável. Isso só poderia significar uma coisa:

Criatura sobrenatural.

“Hey, Barbie. Está ouvindo isso?”, fiz silêncio para que ela pudesse escutar as vozes. Ela ficou ao meu lado no começo das escadas e um tremor atingiu seu corpo, fazendo-a recuar um passo e colocar a mão na sua cruz de prata.

“Pior, estou sentindo.”, ela disse.

“Será a ajuda rápida e urgente que Gabriel disse?”, perguntei atiçando minha audição.

“Só vamos descobrir se descermos.”, antes que Barbie terminasse a frase, já estávamos descendo as escadas.

Parecíamos uma manada de elefantes famintos quando vêem um saco de amendoim. Nos empurrávamos e cotovelávamos. E isso não parou quando chegamos a sala. Continuamos correndo até a cozinha, onde quase caímos de cara no chão.

“Aí estão elas.”, Gabriel disse ao nosso visitante.

O visitante em questão era alto, mais alto que Lucio e Gabriel, olhos verdes musgos e cabelos castanhos que caíam pelos ombros. A pele dele era mais clara que a de Lucio, mas tinha um tom de moreno lindo. Ele vestia uma calça e um colete de couro, deixando amostra para quem quisesse ver os seus músculos bem desenhados.

Apenas de todos esses atributos, eu senti um tipo de aversão a ele. Ao contrário de Barbie que abriu um sorriso tímido, mesmo ainda segurando a cruz. E olha que eu nunca tinha aversão a homens bonitos. E digo “homem” porque ele aparentava estar na faixa dos 23 anos.

Ele andou até nós duas com um sorriso de orelha á orelha. Barbie se ajeitou em menos de um segundo enquanto eu continuava o encarando. Vi ao fundo, Lucio e Gabriel se remexendo um pouco desconfortáveis.

“Olá, sou Eduardo Lima. Amigo de Gabriel.”, ele ergueu a mão para Barbie que a apertou com um certo fervor e incomodo.

“Sou Katerine Collen, mas pode me chamar de Katy.”, ás vezes me perguntava se Barbie gostava de falar seu nome em voz alta para que todos soubessem de quem era filha.

“Ou de Barbie.”, eu murmurei. Eduardo tirou os olhos de Barbie e veio em minha direção com o sorriso um pouco forçado.

Ele parou bem na minha frente tentando colocar superioridade a partir da altura. Mas comigo não tinha isso. Fiquei na ponta dos pés para que nossos rostos ficassem mais ou menos na mesma altura, então enruguei o nariz.

“Sinto cheiro de cachorro molhado.”, era óbvio que com a minha pesquisa de campo de ontem, eu sabia o que ele era. Seu rosto se fechou e ficou tão carrancudo quanto o meu.

“E eu sinto cheiro de mestiça.”, ele retruquiu. Ficamos uns segundos nos encarando, sérios, até que caímos na risada. Estiquei minha mão para ele.

“Emily Twist, mas me chame de Emi.”, sorri mais confortável. E até que ele parecia mais confortável também.

“Não gosto de ficar me repetindo, então espero que tenha me escutado quando me apresentei para a anjinha.”, ele , com certeza, era antipático.

“Eu não deveria dar ouvido a lobos, mas ouvi sim, Eduardo.”, passei por ele, indo em direção á mesa e pegando um bolinho recém feito de chocolate. Ignorei todos os olhares na minha direção, principalmente o de Lucio que parecia dizer: Se comporte, Emily.

“Lucio e as pupilas rebeldes.”, Eduardo murmurou indo na mesa e se sentando ao lado de Lucio.

“Não se esqueça que duas dessas pupilas foram da sua espécie, Ed.”, Lucio se defendeu.

E lá estava a minha teoria de novo. Lobos e anjos se davam tão bem quanto vampiro e demônio. Por isso, Ed só citou Gabriel como seu amigo.

Ele era um lobisomem. Um lobisomem bem gato na minha opinião. Barbie não parava de sorrir e o olhar de Gabriel se dividia entre Ed e ela.

“Essa é a nossa ajuda urgente?”, eu perguntei interrompendo Lucio, Ed e Gabriel em uma conversa sobre sei lá o que.

“Algum preconceito?”, Ed perguntou.

Todos os olhares foram para mim, esperando uma das minhas típicas explosões de raiva. Mas não foi dessa vez.

“Não. Apenas questionando para ter certeza.”, respondi sorrindo.

Vi os olhos de Barbie, Lucio e Gabriel se arregalarem. Eu os tinha impressionado e até a mim mesma. Mas, por que quando olhei de novo para Lucio, vi um pouco de decepção?

Notas finais
Comentem, amores!