Notas iniciais
Amores, me desculpem pela demora em postar, mas aqui está o capítulo.

Sabe aqueles dias em que você sente – no fundo sabe – que tudo vai dar realmente errado?

É, eu estava tendo um desses dias.

Começou de madrugada com aquele pesadelo – que até agora eu não sabia o significado – depois, vem aquele cachorro pulguento vindo de sei lá onde e por último, o mesmo cachorro teve a incrivelmente idiota ideia de nos treinar. Obviamente queria dar uma de Obi Wan pra cima de mim e da Barbie.

Claro que Lucio concordou. Ele não era burro ao ponto de perder a oportunidade de me ver apanhando. Mas nas palavras de Gabriel, isso significava: Vocês têm que se preparar para o pior. E nas minhas palavras pior queria dizer apanhar. Mas o anjo nem quis me dar ouvidos. Era óbvio que ele sabia das intenções do irmão, mas não fazia nada para detê-lo. E por isso, eu teria que pagar o pato.

Atrás da cozinha ficava um tipo de jardim e foi para lá que nós fomos. Era bastante aberto e claro. A grama era curta e nunca descuidada e as flores ficavam em volta. Tinha rosas, orquídeas, violetas, margaridas e outros tipos. Barbie ficou com os olhos vidrados na variedade. Tinha regadores em pontos estratégicos para que todos os lados fossem bem irrigados.

Paramos perto de uma grande fonte d’água. E lá estava de novo. Lúcifer. As grandes asas pareciam ter sido feitas a mão. O corpo bem esculpido nas pedras parecia ainda não fazer junto sua beleza. Seu rosto parecia me encarar, não só a mim, mas a minha alma.

“Bem, vamos começar.”, Ed anunciou tomando a frente junto com Lucio e Gabriel. Pisquei parecendo me livrar de um tipo de feitiço lançado sobre mim e quando encarei Lucio, ele parecia saber exatamente o que estava acontecendo comigo e não gostava nada.

Eu e Barbie ficamos em pé, os encarando. Parecia que, mesmo sentindo um tipo de incomodo com a presença de Ed, não ligava tanto quanto ligou para a de Kris. Em vez de mexer na cruz pendurada em seu pescoço, ela estava mexendo na ponta de sua blusa azul escrita Salve a natureza. Ela é nossa amiga. E atrás tinha um desenho de flores.

Totalmente Barbie.

“Vamos lhe ensinar como se defenderem sozinhas, caso estejamos ocupados, ou estejam sozinhas e foram pegas de surpresa.”, Lucio disse parecendo se referir apenas a mim.

“Por que essa palhaçada toda?”, eu perguntei de mal humor.

“Imagine você, cara a cara com Colin. Sua faca já foi usada e perdida, nós ficamos para trás lhe dando cobertura e seu irmão está a poucos metros de você. Tudo que te impede é Colin. O que você faz?”, Lucio me desafiou estreitando seus olhos escuros.

“Eu o soco e ...”

Minha resposta foi interrompida quando de repente Lucio parou a poucos centímetros de mim. Surpreendida, dei um passo para trás e quando vi, ele não estava mais ali. E tinha um corpo quente – que, por acaso, eu conhecia muito bem – pressionado nas minhas costas.

“Certamente, ele te mataria antes mesmo que seu punho chegasse ao rosto dele.”, Lucio murmurou no meu ouvido e voltou ao seu lugar do lado de Ed.

“Então o que vamos fazer?”, Barbie perguntou preocupada com a cena que tinha acabado de presenciar.

“Vocês vão pensar menos e agir mais por instinto.”, Ed disse.

Ele deveria saber muito bem sobre essa coisa de instinto, mas pena que eu não poderia dizer a mesma coisa de Barbie. Ela nunca deve ter brigado na vida, enquanto eu ainda lembrava da minha primeira.

Foi quando eu tinha treze anos. A primeira vez em que fui de preto á escola. Estava indo tudo muito bem, até que Derek Custen me zoou. Não irei entrar em detalhes sobre o que aconteceu, mas vamos apenas dizer que Derek usou aparelho até os dezesseis anos. Minha mãe foi chamada na diretoria, claro. Foi também a primeira vez que a fui diretoria.

Qualquer mãe estressada daria uma surra no seu filho, mas minha mãe era tão calma e paciente que ás vezes chegava a ser chato e irritante. Quando chegamos em casa, tudo o que ela fez sentar comigo e conversar, com a maior calma do mundo. E uma das frases que ela me disse ficou para sempre na minha cabeça: Você não pode se preocupar com a opinião dos outros, Emi. A vida é assim mesmo. Claro que isso significava: Você não pode socar todo mundo que te chamar de estranha, Emi. O mundo é enorme.

Então, desse dia em diante, nunca mais soquei a boca de ninguém. Mas não posso falar de outras partes do corpo. Mas Lucio deixou bem claro que isso não funcionaria com Colin.

“Então, você está me dizendo que – em outras palavras – se Colin me cercasse, era para eu correr?”, era a única explicação lógica que vinha em minha mente.

“Sim, mas apenas se tiver uma boa dianteira.”, Gabriel disse.

“E se eu não tiver?”, Barbie questionou.

“Então você terá que lutar.”, Ed deu um passo a frente.

“E esse é o motivo inicial de estarmos aqui.”, Lucio e Gabriel também deram mais um passo a frente.

“Quem será a primeira?”, Ed sorriu para nós, mas seus olhos brilhavam para mim.

“Ela”, eu e Barbie dissemos junta, uma apontando para a outra. “Vamos lá, Barbie. Prove o seu valor.”, eu a desafiei.

“Tudo bem.”, ela deu um passo a frente, ao mesmo tempo em que Gabriel. Aquilo seria uma grande covardia. Não no sentido que Gabriel era mais forte, mas que ele pegaria leve com Barbie enquanto Lucio e Ed me estiraçariam. “O que eu faço?”

“Siga seus instintos, Barbie.”, eu murmurei e no segundo seguinte, Barbie começou a correr para longe de nós.

Na verdade, isso não me impressionou muito. Eu ficaria realmente de boca aberta se ela voasse para cima de seu anjo. Também não me surpreendi com a velocidade de Gabriel. Ele e Lucio deveriam ter mais ou menos a mesma força e velocidade.

Em um momento, Gabriel estava ali, parado, vendo Barbie seguir os instintos naturais e no outro, ele estava em pé na frente dela. Barbie trombou de cara no peito dele. Pensei que teria mais. Uma briga ou algo do tipo, mas tudo que Gabriel fez a Katy foi lhe dar um sorriso de parar o coração.

Era esperar demais de um anjo.

“Sua vez, Emi.”, Ed disse ao mesmo tempo em que Lucio dava um passo a frente. “Quero que siga os seus instintos, sejam lá o que estiverem falando.”

Iria perguntar se podia escrever o meu testamento, mas percebi que não era hora de piadas. Mas sim, hora de seguir o instinto. E foi exatamente o que eu fiz.

Corri, mas não para fugir de Lucio, mas sim, na direção dele e com os punhos fechados, pronta para acabar com aquela teoria de não socar, mas sim, fugir. Quando cheguei remotamente perto de meu guardião, ele não estava mais ali.

Simplesmente havia sumido. Mas eu sabia exatamente onde ele estava. E antes que me pegasse por trás de novo, me abaixei e tentei derrubá-lo com a minha perna, mas ele se desviou a tempo, se afastando.

E foi apenas naquele momento que meus instintos gritaram para eu correr. Antes que eu tivesse a péssima – e idiota – ideia de me levantar, lembrei do que Gabriel disse: Corra apenas se tiver uma boa dianteira. E era óbvio que eu não tinha uma boa dianteira.

Ainda querendo seguir o que meu corpo pedia, comecei a engatinhar para longe. Sorte que estava de calça, senão meus joelhos sairiam totalmente ferrados. Não me atrevi a olhar para trás com medo que Lucio aparecesse na minha frente.

Engatinhei apenas mais um pouco, até que finalmente senti que era hora de levantar e enfrentar Lucio de cabeça erguida. Ainda engatinhando, peguei impulso com uma das mãos e comecei a levantar. Depois de quase cair – duas vezes – consegui firmar meus pés no chão.

Foi aí que fui derrubada de cara na grama por Lucio. E acabei descobrindo outra coisa sobre demônios em geral. Eles adoram derrubar as pessoas de cara em alguma coisa. Colin havia me deixado de cara na neve, agora Lucio me derrubou na grama.

Virei meu rosto a tempo para que apenas minha bochecha fosse atingida pela grama. Lucio se sentou em minhas costas, com cuidado para não me machucar com seu peso, e segurou meu pulso ao mesmo tempo em que começou a torcer o meu braço.

Filho da mãe. Bati minha mão livre no chão em forma de protesto, depois comecei a me remexer. Mas nada disso fez com que ele soltasse o meu braço, ou parasse de torcê-lo. Apenas serviu para que ele tivesse certeza que estava funcionando.

“Pega arrego, Emi.”, ele sussurrou no meu ouvido. Até que seu hálito fresco fez com que a dor diminuísse um pouco, mas não fez nada com o meu modo de pensar. Emily Twist Demon nunca desisti.

“Nunca”, eu resmunguei ao mesmo tempo em que ele torcia mais um pouco o meu braço. Um gemido de dor saiu dos meus lábios, mas nada a mais. Lucio esperou mais alguns segundos até que teve a absoluta certeza que eu não desistiria.

“Essa é a minha pupila.”, ele disse enquanto me soltava e se levantava.

Virei de barriga para cima e o sol fraco bateu em meu rosto. Era ruim sentir o gosto da derrota, ainda mais quando você perde para a pessoa que quer provar o seu valor. Lucio esticou a mão e me ajudou a levantar, claro que pegando em meu braço bom.

“Hey, foi muito legal.”, Barbie disse enquanto eu tirava a terra e poeira da minha calça. “Acho que esse é um momento inesquecível. Polly tomando uma surra. Deveria ter filmado. Eu iria ganhar bilhões. Ou o Oscar. Será que pode fazer de novo?”

Eu ignorei todas as palavras de Barbie, porque apenas de ter tomado uma surra e quase ter comido grama, pelo menos, eu não saí correndo na primeira oportunidade que me deram.

“Vocês foram bem, mas precisam melhorar se querem derrotar Colin.”, Ed nos cumprimentou e sorriu.

“Que bom!”, eu disse sorrindo para Lucio de modo travesso que ele já conhecia muito bem. “porque eu quero uma revanche.”

Lucio se aproximou de mim também sorrindo e cobriu meus míseros 1,63 metros de altura com seus 1,80. Como se altura me intimidasse.

Barbie começar a bater palmas e quicar, literalmente, no lugar. Ed e Gabriel também pareceram interessados em assistir a revanche.

Lucio e eu nos encaramos quase sem piscar. Ele olhando em meus olhos verdes e eu em seus olhos pretos, tentando encontrar a resposta de cada movimento, mas apenas seguidos pelos instintos.

“Pode vir.”, Lucio levantou sua sobrancelha e se preparou novamente para o meu ataque.

Quanto a mim?

Parti para cima dele.

Notas finais
Comentem o que estão achando, flores.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.