Notas iniciais
Amores, me desculpe pela ausência. Mas aos poucos estou voltando. Novo capítulo.

Tinha fogo para todo lado.

Oh, droga! Estava tendo um daqueles pesadelos de novo. Mas esse era diferente daquele que eu sempre tive pela minha vida inteira. Primeiro, eu não estava correndo para um beco sem saída. Oh, não. Eu estava no inferno.

Segundo, não éramos mais minha mãe e eu em um corpo só. Minha mãe estava de um lado e eu no outro. E outro detalhe: Minha mãe estava queimando. E mesmo sabendo que não chegaria a tempo, corri na direção dela como se seus gritos fossem um tipo de imã.

Quando os gritos se cessaram, eu, finalmente, pude aproveitar o conforto do inferno. O calor era acolhedor, como se eu fosse uma filha que não ia para casa a muito tempo.

Então, outros gritos começaram.

Eu olhava em volta e os via. Meus conhecidos, amigos, parentes. Se era aquilo que eu ganharia por ser descendente direta de Lúcifer, eu não queria. Ver todos morrerem na minha frente, desde o mais querido até o mais odiado, era como tirar um enorme pedaço de mim.

Eu não queria aquilo. Queria a minha antiga vida de volta. Tentei correr, mas para todo lugar que eu ia, dava de frente com alguém. Era aquilo que eu merecia?

“Não”, acordei inspirando oxigênio suficiente para que um continente inteiro respirasse. Me sentei na cama passando a mão pela minha trança e enrolando o final dela com os dedos.

Estava suando em bicas, tanto que minha roupa estava literalmente grudada no meu corpo. Olhei para Lucio e suspirei aliviada por vê-lo ainda dormindo.

Precisava de ar. Levantei na ponta dos pés, imitando os movimentos de hoje de manhã; fui ao banheiro e abri a torneira com o objetivo de jogar água no meu rosto.

Quando terminei de secar meu rosto na toalha, me vi no espelho. Meu rosto levemente corado, meus olhos pequenos e sonolentos e meu cabelo perfeitamente arrumado em uma trança.

Sabia que não pegaria em um sono agora, por isso resolvi dar uma volta na colina. Peguei meu robe de seda preto e dei uma última olhada em Lucio e em como ele dormia pacificamente.

Demorou um bom tempo para ele se lembrar e absorver o que havia acontecido hoje de manhã. Ele ficou bem fulo por saber que tinha sido possuído, mas concordou com Gabriel sobre a ajuda profissional e urgente.

Eu e Katy não gostamos nada de como aquilo soava, principalmente Katy que teria que sentir um desconforto o dia todo. Ainda bem que eu não tinha poderes.

Depois de ter 90% de certeza que Lucio dormia, fui até a porta de vidro que dava no topo da colina. Eu tinha sorte que noite de lua cheia, porque lá fora era um verdadeiro breu. Na verdade, nem andei muito e já estava no topo da colina.

Sentada ali com as pernas balançando no nada e o vento batendo no meu rosto, me sentia confortável. O único barulho, que eu ouvia, era a da água batendo nas rochas e minha respiração.

Será que aquele pesadelo tinha alguma coisa a ver com o aviso dado de manhã? Realmente esperava que não. E meu irmão? Já havia se passado quase um mês que ele havia sido sequestrado por Colin. Será que ainda estava vivo?

Hey, Emi. Pensamento positivo.

Senti a pequena marca no meu anti-braço arder um pouco, não o suficiente para doer, mas suficiente para ser desconfortável.

Descendente direta de Lúcifer. Tinha o sangue dele correndo em minha veias. Não me impressionava o fato de eu ter sido atraída por aquele desenho no azulejo do banheiro. Ás vezes penso que se não fosse tão curiosa, talvez ainda tivesse minha vida normal. Ás vezes me questionava se eu queria uma vida normal. Eu já estava feliz antes, de um modo estranho, mas estava.

Suspirei ao mesmo tempo em que o vento mudou de direção trazendo um cheiro novo consigo. O cheiro traduzia as palavras liberdade, sexo e paixão. Era tocante quantos meros segundos eu ficava sozinha.

“Há quanto tempo você está aí, Lucio?”, eu perguntei o encarando por cima do ombro.

Ele me estudou por um momento até que sorriu e veio em minha direção, passando pela pequena campina e se sentando ao meu lado.

“Saí uns dois segundos depois de você.”, ele respondeu contemplando a lua.

Me remexi, desconfortável, enquanto o vento vinha e deixava o cheiro dele mais intoxicante. Lucio notou meu desconforto rápido e me questionou.

“O que houve? Você teve algum pesadelo?”, seus olhos pareciam se fundir com a luz da lua e seu cabelo parecia bem mais negro do que o habitual, sem contar a pele morena.

“Bem, sim.”, eu respondi voltando o olhar para a lua, querendo evitar seus olhos.

“Quer dividir o peso?”, ele colocou a mão quente por cima da minha me enviando um tipo de arrepio. Lucio, como sempre, interpretou errado e a retirou no mesmos segundo. “Me desculpe. É a força do hábito. Posso ver o seu braço?”

Olhei para ele com o objetivo de lhe dar uma “não”, mas ver toda aquela preocupação em seu olhar, mexia comigo. Estiquei meu braço e arregacei a manga do meu robe para que ele visse apenas uma marca roxa na forma de sua mão e um pequeno arranhão formado por sua unha.

“Não está doendo, sério”, eu garanti pronta para esconder as marcas antes que Lucio se sentisse mais culpado, mas ele me impediu o segurando com cuidado e analisando-o.

Observei sua expressão pensativa enquanto estudava a situação do meu braço. Por fim, ele passou a mão quente por ali e selou com um beijo. No braço.

“Me desculpe realmente, Emi.”, ele voltou a se desculpar. Já era a milésima vez que ele se desculpava.

“Não precisa se desculpar, eu já disse.”, abaixei a manga do robe, tampando o hematoma. “Posso te perguntar uma coisa?”, ainda estava olhando o seu rosto, estudando cada pequena reação. Ele hesitou por um momento, mas depois assentiu. Aí foi a minha hora de hesitar. “Você disse que só lembrava de mim gritando com você. Que parte do grito exata que você se lembra?”

Ele chegou mais perto de mim, colocando apenas nossos braços para nos separar. O cheiro ficou ainda mais inebriante e seus olhos estavam tão lindos a luz da lua que pareciam diamantes negros. Sem contar na boca. Tão perto e ao mesmo tempo, tão longe. Eu não queria vê-la perto da minha. Mas sim, cobrindo-a. Me beijando.

Mas não podíamos. E ele sabia disso melhor do que eu. Tanto que recuou alguns centímetros e virou seu rosto para o nada. Devia ser melhor do que ficar me encarando, praticamente o devorando com os olhos.

“Lembro de você gritando sobre eu ser apenas o seu guardião e o meu trabalho é apenas protegê-la e não me meter em sua vida.”

Então quando ele disse aquilo de Débora, sobre eu querer saber mais da relação deles, era ele mesmo. Bem, se era aquilo que ele queria, quem era eu para ser contra?

“Então, me fale sobre Débora e você.”, me atrevi a pedir.

Lucio pareceu um pouco surpreso pela minha ousadia, mas ele deveria conhecer a pupila que tem. Por um momento achei que ele esperava um pedido meu de desculpas, mas minha curiosidade gritava mais alto do que a educação. Que a minha mãe me perdoasse.

Ele passou a mão pelo cabelo, nervoso, e me encarou meio tenso. Percebi que esse não era um assunto que ele gostava muito de tocar. Mas a culpa era dele de puxar o assunto, mesmo em um momento de raiva.

Agora tinha que aguentar as consequências.

Eu.

“Minha relação com Débora era... complicada”, Lucio disse escolhendo com cuidado as palavras. Por que toda aquela cautela?

“Como assim?”, insisti.

“Ela tem um gênio meio difícil, igual ao seu.”, ele tocou a ponta do meu nariz com o indicador, sorrindo. Não sabia o motivo, mas não gostei de ter sido comparada com ela. “Ela não aceitava o meu trabalho, mesmo sendo igual ao dela. E antes que você me pergunte, ela também é uma demônio guardiã nascida”

“Como ela é? Fisicamente?”

“Hum...”, ele considerou. “Débora é ruiva, olhos verdes, mas não tão lindos quanto os seus. Tem a sua altura mais ou menos. 1, 63 de altura, certo? Mas ela gosta de usar salto.”

“E o sexo com ela? Era bom?”, corei assim que as palavras fugiram da minha boca. Eu poderia ser indelicada, mas nunca fui indiscreta. Os olhos de Lucio se arregalaram com a minha ousadia e por um momento, eu achei que ele não me responderia alegando que eu era muito nova e coisa e tal.

“Era ótimo, no sentido selvagem.”, acho que ele não queria entrar em detalhes. Na verdade, nem eu queria saber. “Mas, e seu relacionamento com Colin?”, ele retruquiu.

Fiquei tensa naquele exato segundo. Não gostava de ouvir o nome daquele desgraçado, só de pensar que já o coloquei debaixo do mesmo teto que eu e minha família, me dava ódio. Os olhos de Lucio se arregalaram por um momento, até que meu ódio se tornou pesar.

“Emily...”, Lucio colocou os braços em meus ombros e me apertou em seu corpo, para que eu me sentisse confortável.

Eu não queria conforto. Queria meu irmão, minha mãe. Minha vida. Vocês podem me chamar de reclamona, mas aquele vazio, aquela culpa, era indescritível. Tomava conta de repente e com força. Todas as vezes que eu pensava no meu irmão ou na minha antiga vida, abaixando as guardas, um tipo de buraco se abriu no meu peito. E saber que tudo aquilo era culpa minha, piorava a situação.

“Nada de culpa, Emi. Apenas força e determinação.”, Lucio repetia no meu ouvido enquanto aconchegava meu corpo no seu e colocava minha cabeça em seu peito me fazendo ouvir seu coração.

Era impossível não sentir dor, evitá-la. Parecia que Lucio não entendia aquilo. E poderia ter evitado aquela situação se eu tivesse ignorado Colin, mas não. Tinha que ter dado atenção.

Agora queria chutar o traseiro dele.

“Sabe qual é a pior parte?”, eu disse em voz alta ainda ouvindo com atenção as batidas do seu coração. Senti seu queixo no topo da minha cabeça, negando. “Não saber quem eu sou de verdade.”

Lucio me segurou pelos ombros, me obrigando a encará-lo, enquanto seus olhos pareciam gravar cada parte do meu rosto. Mesmo com o semblante sério, eu sabia que ele queria.

Me beijar.

Mas ao mesmo tempo, sabia que não era o momento certo. Seria como se ele estivesse abusando do meu momento frágil – como se eu ligasse.

“Você é Emily Twist Demon. Filha de Elizabeth Cristina Twist e Peter Vallen Demon, irmã de Koren Twist Doutran. Você é uma menina inteligente, bonita, curiosa e um pouco teimosa.”, sorri com o último comentário. “Mas sempre será a minha pupila número 1”

“É aí que está.”, persistindo no assunto e vi os olhos se revirando. As vezes, minha persistência era um verdadeiro saco. “Pessoas que nunca vi na minha vida sabem mais do meu pai do que eu. Nunca realmente conheci minha mãe. Quando fui entendê-la melhor, ela já estava morta. E meu irmão? Não nos dávamos bem e quando começamos a entender um o lado do outro, ele é raptado. E por quem? Nem mais, nem menos que meu ex-namorado demônio do mal. E eu nem sei o motivo.”

Estava respirando com dificuldade por causa da emoção de ter soltado, finalmente, aquele peso. Não aguentava carregar aquele fardo sozinha e só de ter desabafado, me sentia mais leve.

Por um momento, Lucio apenas me encarou, vendo cada emoção que passava no meu rosto. Desde a mais simples, até a mais complexa. Então, percebi seu rosto se aproximando do meu, enquanto sentia meus olhos fechando. O silêncio queimava em meu ouvido, o vento parecia frio demais para aquele momento. A água do mar abaixo de nós parecia não pertencer mais aquele cenário. Tudo que importava era Lucio e eu.

O braço dele que estava nos meus ombros, desceu, deslizando pelas minhas costas até chegar a minha cintura, fazendo com que meu corpo se encaixasse perfeitamente no seu. Éramos como peças de um único quebra cabeça e a imagem formada era o nosso beijo.

Como se eu não comandasse mais o meu corpo, minha mão deslizaram por entre seu cabelo escuro, entrelaçando mechas entre meus dedos. Estava contando os segundos para ter aqueles lábios mexendo contra o meu. Sentir o seu corpo quente pressionando contra o meu e sentir o seu cheiro sexual era a pior de todas as torturas e o melhor conforto. Então, foi quando nossas testas se tocaram que a verdade pulsou em minha mente.

Lucio estava fazendo aquilo para me confortar. Era o dever dele me proteger, até de mim mesma. Se fosse desse jeito, eu não queria. Comecei a me afastar, antes que aquele feitiço de sedução me pegasse de jeito e me arrependesse depois.

“Por favor, Lucio. Não.”, soltei minha mão de seu cabelo e deixei meus braços caírem, mortos ao lado do meu corpo.

Achei que ele não havia entendido e estava pronta para repetir, até que Lucio suspirou, se afastando. Era tão difícil para ele quanto para mim. Ele encarou o nada por um momento e quando voltou a me olhar, estava com a expressão de negócios, ou melhor, de guardião.

“Está na hora de dormir.”, ele disse.

“Não quero dormir.”, disse com medo que as imagens voltassem em minha mente e tremendo involuntariamente. Então, uma ideia me ocorreu. “Dormi comigo na cama está noite?”

Era ousado, eu sabia, mas era a única saída. Ele ficou em silêncio por um tempo, enquanto outros tipos de imagens vinham na minha cabeça.

É, essas mesmas.

Um segundo se sucedeu , até que um sorriso travesso surgiu em seu rosto.

“Seria uma honra.”

Notas finais
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