Casa De Fogo - Hiatus
11 Capítulo 10
Notas iniciais
Capítulo 10
“Vou começar com algo leve, tudo bem?”
Eu assenti sem dizer uma palavra. Queria que nada desse errado e o fato de eu ser a cobaia contribuía com isso.
“Olhe em meus olhos e tente ao máximo não desviar o olhar.”, Lucio me orientou.
Olhei naqueles lindos olhos negros vendo como eles se acentuavam bem a pele morena de Lucio. Vi os cílios longos de dar inveja. Percebi como os olhos eram brilhantes e penetrantes. Na verdade, eu não tinha vontade nenhuma de desviar o olhar. Apenas queria me afundar mais e mais neles, como se fossem a única coisa que eu precisasse além de água, oxigênio e comida.
Foi então que aconteceu.
Foi como se todos os membros do meu corpo tivessem sido desligados e eu fosse uma marionete guiada por Lucio. O seus olhos nunca ficaram tão negros como agora. Me sentia perdida em seu olhar, mas me achava na minha cabeça, que, por acaso, era a única parte que eu conseguia controlar do corpo.
“Levante a sua mão esquerda.”, foi o primeiro comendo de Lucio.
Eu até tentei segurar a minha mão, mas como havia dito antes, era como se eu fosse uma mera marionete. Minha mão se levantou, tremendo por causa do esforço que eu fazia para que o comando não fosse atendido.
Esforço a toa.
“Diga: Eu acredito em fadas”, Lucio ordenou rindo.
Que porcaria era aquela? Esse demônio desgraçado estava zoando com a minha cara? Ah, não. Eu não iria dizer aquilo nem morta. Mas já estava sentindo minha boca começando a se abrir e falar as palavras...
“Eu acredito em fadas”, eu disse, mas me xingando mentalmente.
Não estava gostando mais dessa brincadeira. Pena que não poderia dizer a mesma coisa de Lucio. Ele estava se divertindo como nunca e não tinha como eu dizer para ele parar. Então, enquanto Lucio pensava no seu próximo comando, uma ideia me ocorreu.
Deixei que todo o meu sentimento de tristeza (e raiva) viessem a tona. Obviamente Lucio os sentiu e bufou por eu ter estragado a sua diversão.
“Tudo bem, Emi. Vou acabar com isso”, ele prometeu. “Mas antes, um último comando”
Não sei porque, mas não havia gostado nada daquilo. Um tremor passou por mim e eu tinha certeza que Lucio viu, mas ignorou.
“Me beije”, ele ordenou e então começou a aproximar seus lábios do meu.
Uma parte de mim (com certeza a hipnotizada), queria aquilo mais do que tudo, mas a outra ( a consciente) gritava para que eu me afastasse o mais rápido possível. Um tipo de desespero e tensão pairaram sobre mim e então, tão rápido que veio, o poder de Lucio perdeu o efeito em mim. Ele não pareceu notar, porque continuou a se aproximar, mas eu (sempre esperta) dei um salto para trás me livrando a tempo do beijo.
“Vá com calma, cawboy”, eu disse rindo.
Antes que pudesse ver a reação de Lucio ao meu “desperta” comecei a andar (e respirar) de novo. Passei a mão pelo cabelo enquanto ouvia os passos de Lucio se aproximando rápidos e precisos.
“Como você saiu do meu encanto?”, ele perguntou. Não precisava nem olhá-lo para ver sua expressão confusa. Um sorriso travesso cresceu nos meus lábios.
“Deve ser o seu desespero. Você estava tão concentrado em me beijar que nem sentiu.”, eu ri.
“Eu, eu não estava desesperado para te beijar”, ele disse andando ao meu lado. Nós já estávamos em frente a subida da colina.
“Eu não disse que você estava desesperado para me beijar, e sim que eu estava desesperada para não te beijar”, expliquei, mas no segundo seguinte me arrependi.
Lucio ficou com o rosto magoado. Era melhor eu ser dura e dizer a verdade do que mentir para fazê-lo se sentir... mais metido.
“Nosso beijo foi tão ruim assim?”, Lucio perguntou quando estávamos começando a subir a maldita colina.
“Não foi tão ruim assim”, eu respondi e no segundo seguinte, mordi meu lábio.
Droga!
Vi o rosto de Lucio ficar, não triste, nem magoado, mas sim pensativo. De certo modo, eu menti. Mas não porque o beijo tivesse sido ruim. Porque foi o melhor beijo de toda a minha vida. Pelo amor de Deus. O que estava acontecendo comigo? Resolvi, tanto por mim, quando por Lucio, que estava na hora de mudar de assunto.
“Sabe...”, eu comecei. “Eu estava pensando em algo sobre o que aconteceu na praça”
Olhei para Lucio esperando algum tipo de reação, mas tudo que recebi foi um grande e belo nada. Ele não estava me dando bola, mas isso não me deteria.
“Por que eu sou tão famosa? Ou melhor, por que meu pai é tão famoso e respeitado?”, perguntei observando a sua reação. Por um momento ele continuou do mesmo jeito frio, mas no segundo em que sentiu que eu estava realmente interessada, me encarou.
“Seu pai e o pai de Katy são descendentes diretos das duas criaturas mais importantes do mundo sobrenatural e espiritual: Miguel e Lúcifer. O sangue deles é raro, fazendo, tanto você quanto Katy especiais. Entendeu?”
“Você está dizendo que, além de eu ser meia-demônio e prima de Barbie, sou descente direta de Lúcifer?”
“É, basicamente isso”, Lucio deu de ombros.
“Wow”, resolvi continuar com a jogada de manter Lucio distraído até em casa. “Então, me diga. Sou a sétima pupila rebelde. Você já trabalhou com que criaturas?”
A princípio pensei que Lucio não cairia nesse interesse falso, mas seus olhos brilharam de entusiasmo. Caiu como um peixinho.
“Minha primeira pupila foi uma vampira, depois uma vidente, depois Sam, outra lobisomem, outra vampira, uma profeta e agora você.”, ele sorriu para mim.
Tive vontade de perguntar se ele beijava todas as suas pupilas, mas aí eu traria novamente o assunto do beijo a tona. Queria perguntar sobre suas namoradas, sobre Débora. Como ela era, porque terminaram, coisas do tipo.
Você a amava?
Mas, envés, resolvi continuar no mesmo assunto, sem tocar em assuntos muitos íntimos.
“Todas mulheres?”, eu perguntei.
“Sim, todas meninas.”
“Hum”, acabaram-se as minhas ideias.
Meu rosto se iluminou em um sorriso quando comecei a ver a casa. Ainda estava longe, mas, pelo menos, eu conseguia enxergá-la.
“Por que você não pergunta logo, Emi?”, Lucio soou irritado e quando o olhei, vi que estava realmente irritado.
“O quê?”, meus olhos se arregalaram. Esse cara tinha bipolaridade?
“Não arregale esse olhos verdes para mim, Emil. Sei que você quer saber sobre Débora”, ele parecia realmente fulo.
“Ah, é isso?” eu disse me aliviando. Parei na frente dele para que prestasse bastante atenção no que iria dizer. “Olha só, Lucio. Eu não vou me meter na sua vida pessoal, tanto quanto quero que você não se meta na minha. Compreende?”
“Claro que sim, mas eu sou seu guardião. Você tem que entender isso também, Emily.”, Lucio disse suavizando a sua expressão. Aquela foi a minha hora de ficar fula.
“Como meu guardião, seu trabalho é cuidar de mim e me proteger dos perigos da minha nova vida. Mas isso não incluí se meter na minha vida pessoal.”, já estávamos em frente a casa e eu tinha certeza que Barbie e seu anjo poderiam me ouvir berrando com Lucio.
“Enquanto eu for seu guardião”, ele segurou meu anti-braço com força a ponto de começar a me machucar. “você vai me respeitar, está ouvindo?”
“Está me machucando, Lucio”, eu senti que se ele apertasse só mais um pouco, quebraria.
“Eu perguntei se você me escutou”, não parecia a voz de Lucio, a dor era tão insuportável que, sem que eu percebesse, uma lágrima caiu dos meus olhos.
Assim assim que senti que viriam mais lágrimas a seguir. O medo de que Lucio me visse chorando tomou conta de mim e não demorei muito para ele próprio sentir isso.
“Me desculpe, Emi.”, Lucio disse meio confuso e passando a mão pelo cabelo.
Mas eu não queria ouvir.
Mais rápido que de costume, eu abri a porta e, literalmente, me joguei para dentro da casa. Lucio esticou a mão para mim e andou na minha direção ao mesmo tempo que eu me arrastava pelos cotovelos pela sala, sem tirar os olhos dele.
“Me desculpe de verdade, Emi.”, ele tentou de novo. “Eu não sei o que me deu. É como se não fosse eu mesmo”
Ele poderia tentar quantas vezes quisesse, mas uma vez que o medo entrou em mim, era difícil tirá-lo. Mesmo com as desculpas de Lucio, continuei me arrastando para longe dele. Eu sabia que se ele quisesse me alcançar, eu já estaria perdida.
“Não me encosta”, eu berrei, mas ele continuou se aproximando. “Gabriel, Katy”, gritei na esperança que, se eles estivessem dormindo, acordassem. Mas para minha sorte, eles já estavam acordados.
Nem um segundos depois que eu chamei Gabriel, ele estava ao meu lado, agachado. Um pouco depois, Barbie chegou até mim. Seu olhar ia de Lucio para mim, confusa. Lucio parou de andar e ficou me encarando.
Vocês devem estar se perguntando o porque de eu estar fugindo de Lucio. Era porque, mesmo ele estando pedindo desculpas, tinha algo no olhar dele, uma fúria, que eu não reconhecia. E mesmo eu já tendo deixado Lucio fulo antes, nunca tinha visto aquilo antes. Era como se ele não fosse o mesmo. Na verdade, eu conseguia sentir aquilo e não demorou para Gabriel e Katy sentirem também.
“Não é Lucio”, Katy disse e tremeu. “É algo ruim, furioso, que está dentro dele”
Minha vontade era de dizer: Sério, Barbie? Eu nem havia notado isso. Mas fui interrompida por Gabriel. Sem sair do lugar, o anjo começou a dizer umas palavras estranhas. Então eu vi os olhos de Lucio ficando com um tom de vermelho sangue que eu conheceria em qualquer lugar. Logo a seguir veio a risada que faziam todos os meus pêlos da nuca se arrepiarem.
“Quem é você?”, Gabriel perguntou, se levantando.
Barbie me ajudou a levantar. Distraidamente passei a mão pelo meu braço sentindo como ele estava sensível. Mas quando olhei tinha apenas um simples arranhão.
“Prefiro não em apresentar”, a criatura disse através de Lucio. “Apenas tenho um simples recado de Colin”
“Manda aquele filho da mãe pra...”, eu comecei, mas fui interrompida por um olhar de Barbie. Isso, e por um chute na canela.
“Colin pediu para dizer que isso é só o começo e que o pior estar por vir.”, ele sorriu de modo assustador. “Eu mesmo vou me encarregar para que tudo piore. Principalmente para a pequena mestiça.”, ele piscou para mim e eu tremi.
E antes que eu ou a criatura no corpo de Lucio disséssemos mais alguma coisa, Gabriel voltou a dizer aquelas palavras estranhas. Lucio, ou melhor, a criatura, começou a se contorcer até que um tipo de luz saiu dos olhos e da boca dele. Então, Lucio estava no chão.
Eu e Gabriel olhamos para Barbie esperando um tipo de confirmação de que a barra estava realmente limpa. Barbie ficou em silêncio por um momento, conferindo, então assentiu.
Nós corremos para Lucio que ainda estava caído no chão. Pelo menos ele estava respirando. Coloquei minha coxa como travesseiro para Lucio, enquanto acariciava seus cabelos negros (e os meus que se soltaram do rabo de cavalo e se fundiram), nervosa.
Gabriel apenas fechou seus olhos, talvez tentando se comunicar com Lucio e ficou em silêncio. Barbie segurou-lhe a mão, a de Lucio, e também fechou os olhos. Depois de breves segundos ouvimos um gemido de dor vindo de Lucio. Soltamos o ar, aliviados, quando ele abriu os olhos e eles estavam negros, quer dizer, normais.
“Mas que droga aconteceu?”, Lucio perguntou, enquanto colocava suas mãos nas têmporas e massageava.
“Também quero entender isso.”, Barbie disse.
“É obvio, Barbie.”, eu disse. “Foi um aviso para todos nós, mas principalmente para mim.” “Você realmente não se lembra de nada?”, Gabriel perguntou.
“Só de Emi berrando comigo aqui na porta de casa. Depois é branco total.”, Lucio disse.
“Isso está ficando pior a cada segundo”, Barbie disse.
“Ele sabe onde nós estamos”, eu resmunguei.
“Vamos precisar de ajuda profissional”, Gabriel afirmou. “Urgente.”
Nesse ponto, Lucio já havia voltado a dormir. E o desejo de chutar o traseiro de Colin aumentou consideravelmente.
Fale com o autor