Notas iniciais
Desculpem por tanto tempo sem postar, mas aqi está mais um capítulo.

Capítulo 6

No dia seguinte aconteceu a única coisa que eu denominava como “impossível”.

Eu acordei cedo.

Olhei para o relógio em cima do criado-mudo, ao lado da cama, e ali marcavam sete e vinte da manhã. Quando, em sã consciência e em circunstâncias normais, eu acordaria nessa hora?

Nunca.

Rolei na cama até chegar na poder e poder olhar para Lucio. Ele estava tão acabado quanto eu achei que estaria. Ele havia forrado sua cama no chão, como havia prometido, e antes dele sair do banheiro, eu já tinha me deitado e dormido.

Me levantei na ponta do pé, o mais silenciosa possível , e me arrastei até o banheiro. Estava tão enérgica que nem parecia que eu tinha dormido uma hora apenas. E já que estava vivendo uma nova vida, não me faria mal hábitos novos.

Saí do banheiro com uma roupa de ginástica que eu pensei que nunca usaria e com o cabelo preso. Olhei novamente para Lucio para ter certeza que estava dormindo e que não me seguiria. Ele estava exatamente como na primeira vez que o vi. A coberta estava cobrindo apenas parte do corpo, o seu cabelo negro estava jogado em seu rosto levemente corado por causa do calor. E Lucio estava completamente vestido.

Calça e blusa de manga azul escuro. Mesmo sendo de um pano leve, deveria esquentar muito. Me perguntei se era algum tipo de uniforme de guardião. Imaginei Lucio na praia de calça e blusa de manga. Wow. Balancei a cabeça para expulsar a fantasia e saí do quarto me questionando o porque de eu ter corado.

Passei no quarto de Barbie e do anjo, mas a porta estava fechada. Com certeza eu não brincaria com a sorte e tentaria abrir a porta. E se ela rangesse? Eu estaria ferrada.

Desci as escadas mais cuidadosa que nunca. Meu Deus! Tudo isso para fazer algo que eu nunca gostava. Quando meus pés tocaram no chão da sala, deixei escapar um suspiro de alívio e então caminhei despreocupada até a porta...

Então Lucio apareceu do nada na minha frente.

Eu dei um pulo para trás e deixei um grito escapar, mas ele foi baixo demais para alguém escutá-lo. Meu coração estava disparado e minha respiração rápida e difícil.

Lucio, mesmo com parte do cabelo liso colado na testa por causo do suor, estava com a expressão estranha que significava: Aonde a senhorita pensa que vai? Os braços cruzados no peito e os olhos negros fixos nos meus esperando a resposta, mas o que eu disse foi:

“Bom dia, Lucio.”, e sorri amarelo.

Ele continuou me encarando e olhando as minhas roupas. Sinceramente, eu odiava quando os outros me estudavam e não diziam nada. Era realmente irritante.

“Vou dar uma volta por aí. Volto antes do almoço.”, comecei a andar em direção a porta, mas assim que lhe dei as costas, Lucio me segurou pelo ante braço e me virou para ele.

“Você não vai sozinha.”, ele disse com a voz um pouco mais rouca que o habitual. Deveria ser o fato dele não ter falado nada mais do isso hoje.

Eu iria começar a discutir que não era criança e que poderia me cuidar sozinha, mas seu olhar duro e seu aperto firme me calaram. Tudo o que eu fiz foi me soltar e me jogar no sofá com um enorme bico e os braços cruzados. Lucio sorriu com a minha atitude não-rebelde.

“Não vou demorar.”, ele disse e no segundo seguinte não estava mais ali.

Ás vezes, me perguntava como ele fazia aquilo. Kris também tinha essa mania de sumir e aparecer do nada. Eu ainda não havia decidido era legal ou irritante. Provavelmente irritante.

Realmente Lucio não demorou. Em dois minutos já estávamos descendo ladeira a baixo, literalmente. O que havia na cabeça de Lucio na hora de comprar uma casa no alto de uma colina deserta?

Em falar na cabeça oca de Lucio, lá estava novamente uma camiseta preta colada em seu corpo, destacando todos seus músculos. Uma calça específica para corrida larga o suficiente para que ele pudesse se mover sem problemas. Tênis para corrida e um casaco por cima por causa do frio do fim de inverno.

Eu poderia até arriscar dizer que ele corria por aqui quando estava de férias? Será que ele tirava férias? Pelo seu humor hoje de manhã e pelo seu cansaço, provavelmente não.

Assim que terminamos de descer a bandida ladeira, seguimos uma rua reta. Não sabia ao certo íamos, mas pelo fato de eu ter olhado para frente e para trás e não ter visto nada, deduzi que era longe. Por um momento vi que a ideia de sair para correr com Lucio foi uma enorme burrice. E também me passou uma remota ideia de Lucio estar fazendo isso por maldade.

Maldade, porque Lucio que estava guiando. Eu estava um pouco atrás dele vendo apenas se não tropeçava em nada que faria Lucio rir. Eu assistia seu ritmo constante, sem perder o passo. Ou o rebolado.

Finalmente, quando minhas pernas estavam bastante doloridas e eu estava ao ponto de pedir arrego, avistei uma praça a poucos metros. Acelerei meu passo, passando Lucio, e corri em direção a um banco de madeira na praça.

Aproveitei que o banco estava vazio e me joguei nele. Enquanto eu massageava minhas pernas, Lucio se aproximou de mim sorrindo. Só pelo brilho dos seus olhos, eu pude ver a maldade estampada em sua mente. Ele parou em frente a mim e riu um pouco. Eu franzi minhas sobrancelha para ele, de raiva.

“Vou pegar uma água para você. Ainda temos a volta , não se esqueça.”, ele disse me dando as costas, mas parou por um momento e me encarou por cima do ombro, sério. “Eu sei que sua mão já lhe ensinou isso, mas, por favor, não fale com estranhos.”

“Tudo bem , mãe.”, eu murmurei irritada.

Lucio bufou por causa da minha irritação e foi atrás da água. Parei um pouco de massagear minhas pernas para me recostar no banco e observar a praça.

Mesmo de manhã já tinha crianças ali brincando. Mães corriam atrás de seus filhos mal- criados e brincalhões, enquanto outras apenas observavam. Mas mesmo de longe, as outras mães ficavam preocupadas em deixar seus filhos sozinhos.

Vi o verde do lugar. Árvores para todo lado, onde crianças se aventuravam subindo. Flores que algumas meninas pegavam para fazer brincadeiras. Por um segundo , vi uma criança caindo do balanço e sua mãe vindo acolhê-la. Ela embalou seu filho , beijou o topo de sua cabeça e disse algumas palavras em seu ouvido. Logo a criança já estava pronta para outra.

Por um momento me lembrei de minha mãe. De quando eu caía e não chorava, porque achava que chorar era coisa de perdedor. Minha mãe dizia que era normal chorar, que todos choravam, mas eu não dava ouvidos e me levantava. Mesmo com uma dor infernal no joelho. Era engraçado lembrar de momentos que gastei dando uma de forte. Quantas vezes perdi a oportunidade de passear e rir com minha mãe, por achar que era coisa de criança. E agora ela estava morta.

“Até os fortes choram, Emi.”, ela havia me dito.

E agora vendo quanto tempo eu havia perdido e assistindo aquela cena da mãe abraçando e beijando o filho, me deu uma enorme vontade de chorar. Ou até mesmo de chutar o traseiro de alguém.

De preferência, Colin.

“É lindo, não é?”, uma voz do meu lado disse.

Estava tão distraída com a lembrança da minha infância que nem havia notado a moça sentada ao meu lado. Ou melhor, idosa. Ela deveria estar na faixa dos 70 á 80 anos. Cabelos grisalho, pele morena clara, mas um pouco mucha. Magra e baixa, talvez da minha altura. E olhos castanhos-chocolates acompanhados por um sorriso lindo.

“Sim, claro.”, eu respondi depois de um tempo a encarando. “É lindo.”

“Aqueles ali são meus netos.”, ela apontou para um casal de crianças na faixa dos 9 anos. Um empurrando o outro na grama. Vi como eles sorriam animados e acenavam para sua avó com bastante alegria. Quem dera se minha avó fosse assim. Normal, sem segredos. Ou, até mesmo, sem ser uma vaca. Como aquela velhinha sentada ao meu lado.

“Você sempre vem aqui?”, ela perguntou abrindo sua bolsa e tirando uma sacola de papel. Logo um bando de pássaros se aglomeraram na nossa frente e ela começou a jogar algumas migalhas de pão e biscoito para eles.

“Não. Estou da passagem na casa de um amigo.”

Em falar no Lucio, onde esse desgraçado estava? Ele ficaria fulo comigo se me visse conversando com a velhinha. Mas eu não ligava. Ele não era o meu dono, era meu guardião. Mesmo pensando essas coisas, ainda olhei para os lados para ter certeza que ele não me pegaria de surpresa.

“É uma droga depender dos outros.”, a mulher continuou falando e alimentando os pássaros. “Eu também estou de passeio na casa dos meus filhos. Apenas visitando os netos com meu marido.”, seu sorriso aumento ao falar do marido. Deveria ser amor de verdade. “Em falar nele, o perdi por aqui. Espero que ele me encontre rápido.”, ela olhou em volta procurando seu amado e parou seu olhar no meu. Os olhos brilhando de curiosidade. “E você, minha jovem, tem namorado?”

“Oh, não.”, eu me apressei em responder. “Terminei a pouco tempo e agora estou tirando um tempo para mim.”, eu sorri.

“Que pena.”, ela lamentou. “Mas, me diga se não for muito, por que vocês terminaram?”

Porque ele é um demônio do mal. Essa era a resposta que geralmente eu daria, mas tinha que ser cautelosa e escolher com cuidado as minhas palavras.

“Bem.”, eu comecei. “digamos que ele não era o que eu pensava. E nossa relação ficou bem complicada.”

Ele raptou meu irmão, me bateu e tinha uma forte suspeita que tinha matado minha mãe. Mas, obviamente não iria contar aquilo a pobre velhinha. Ela acharia que eu era maluca e se afastaria de mim.

“Como assim 'complicado'?”, ela insistiu.

“Hum”, comecei, mas fui interrompida por Lucio.

“Aqui está a água e ...”, ele parou analisando a velhinha ao meu lado. “Eu não acredito.”

Primeiro pensei que ele estava falando comigo, então me preparei para sua bronca. Mas no momento em que a velhinha se levantou e o abraçou, vi que tinha nada de normal nela.

“Meu Deus, Sam.”, ele beijou os dois lados de seu rosto e a abraçou tão forte que a levantou. Um sorriso brilhante apareceu em seus lábios. Eu nunca tinha visto aquele sorriso. Era um sorriso amigável, alegre, totalmente diferente.

“Só assim para nós nos encontrarmos, Lucio.”, Sam o respondeu retribuindo o abraço pela cintura e deixando seus um metro e cinquenta em evidência. Lucio viu a confusão em meus olhos se apressou para me explicar.

“Essa é Samantha Tyner”, ele gesticulou para a pequena Samantha e sorriu. “Ela foi minha primeira pupila lobisomem.”

Notas finais
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