Casa De Fogo - Hiatus
8 Capítulo 7
Notas iniciais
Capítulo7
Parecia que todas as avós do mundo haviam se rebelado a não serem normais. A minha era mediadora e Samantha era uma lobisomem e ex-pupila de Lucio. Ela parecia uma avó normal. Será que a sua família sabia o que Sam era? Será que o marido dela sabia que estava casado com uma loba?
Me levantei e estiquei minha mão a cumprimentando com um sorriso amigável, depois de ter me engasgado com a água.
“Emily Twist Demon. Atual pupila de Lucio.”
Os olhos de Samantha se arregalaram e ela chegou mais perto de mim, me estudando. Lucio apenas nos observava e ria. A boca de Sam fez um O perfeito e seus olhos brilharam.
“Você é a filha de Peter Vallen?”, ela apontou seu dedo quase esquelético para mim. Antes que eu pudesse responder, ela explodiu de felicidade. “É um orgulho te conhecer.”
Por um momento, fiquei sem graça. Nunca havia conhecido meu pai, mas parecia que todos do mundo sobrenatural me conheciam. O mundo era, realmente, estranho.
Lucio fez menção para que sentássemos (com ele no meio, abraçando tanto a mim, quanto a Sam pelo ombro.”. Era engraçado que eu olhava para Sam e não via uma lobisomem, mas sim, uma idosa com um ótimo estado de espírito.
E além disso, lobisomens envelhecem? Lucio não me deu a remota oportunidade para perguntar. Saiu bombardeando Sam com perguntas.
“Como vai Augusto? E as crianças? Está morando onde? Onde está Augusto?”, coisas desse tipo. Pela menção repetida do nome, deduzi que esse Augusto era, nada mais, nada menos, que o marido de Sam.
“Hey, Lucio.”, eu o freie. “Calma. Parece que faz uns 50 anos que vocês não se vêem.”, eu ri. Mas, ri sozinha.
“Bem...”, Sam começou cortando o meu riso. Eu observei a expressão de cada um e vi que, com a minha brincadeira, havia descoberto algo a mais sobre Lucio.
“Vocês estão de brincadeira com a minha cara, não é?”, eu disse.
Eles não poderiam se conhecer a 50 anos. Lucio aparentava apenas 19. Mas a memória do que Lucio havia dito voltou. Quando um guardião vira um animal, para de envelhecer.
“Na verdade, não.”, Sam me garantiu, enquanto Lucio ficava quieto e encarando o nada. “Não gosto muito de dizer a minha idade, mas quando Lucio foi meu guardião, eu tinha apenas 20 anos.”, ela sorriu com a lembrança de sua juventude. Lucio também sorriu.
“Vinte anos de pura rebeldia. Ela era a minha terceira pupila, no total de sete, com você.”, Lucio me esclareceu. “Parecia que eu estava pré-destinado a ter pupilas rebeldes. Enquanto Gabriel pegava pupilos calmos, que o respeitavam, eu tinha que ficar correndo atrás de minhas pupilas.”
Pelo menos, eu não era a primeira rebelde que ele tinha como pupila. E, nossa, sete pupilas contando comigo, era aguentar rebeldia demais.
“Sabe que um dia eu perguntei aos meus superiores o porque de eu só ter pupilas rebeldes, e sabe o que eles me responderam?”, Lucio nos perguntou rindo da própria piada. “Eles disseram: Você tem o jeito. Na verdade, eu acho que eles queriam dizer que ninguém mais queria.”
“Hey.”, Sam reclamou batendo de leve no braço de Lucio. “Eu não fui tão má assim.”, ela tentou se defender, mas Lucio sempre tinha uma resposta na ponta da língua para tudo.
“Você não era má? Eu que não mal, isso sim. Você ia a festas sem a minha permissão ou supervisão, xingava todos os anjos sem motivo aparente e queria brigar com todo mundo, humano e sobrenatural. Por isso, seus pais me contrataram.”
“Tudo bem.”, Sam revirou os olhos e sorriu malandramente. “Mas, e as suas escapadas com as mulheres? E Débora?” O sorriso de Lucio se dissolveu em uma enorme careta.
Parecia que ter tocado no nome dessa Débora, o havia deixado de mal humor novamente. Ou talvez, devia ter sido o fato de ter tocado no nome de Débora na minha frente. Eu não falava nada, mas estava trabalhando como uma esponja. Absorvia tudo.
“Eu e Débora terminamos a muito tempo.”, Lucio respondeu carrancudo e de má vontade. “E as mulheres que eu saía, era pura diversão.” “Hum, diversão dia sim, dia não.”, Sam riu mais ainda. Tanto por soltar os podres de Lucio, quanto pela careta do próprio.
“Olha quem fala. A mulher que desistiu da imortalidade.”, Lucio retruquiu com o sorriso debochado de volta ao seu rosto.
“O que tem de errado em ser humana?”, ela perguntou séria.
“Nada.”, Lucio se explicou rápido, mas rindo. “É que eu nunca a havia imaginado como humana. E muito menos desistindo dos poderes.”
“Grande coisa se transformar em lobo. A rapidez e os sentidos aguçados? Não sinto falta. E, além disso, desisti de ser mortal por um bom motivo.”
“Ah, sei.”, Lucio revirou os olhos, debochando mais ainda. “Amor.”
Foi nesse momento que meu voto de silêncio se acabou. Como uma pessoa, em sã consciência, desistia da imortalidade por amor? O amor que se ferrasse.
“Como você desistiu da imortalidade?”, eu perguntei.
Acho que de tanto eu ter ficado quieta, eles haviam se esquecido que eu estava ali, escutando tudo. Sam e Lucio olharam para mim, como os pais olham para a filha de cinco anos que queria saber de onde vem os bebês. Era óbvio que Lucio não iria me contar, mas eu tinha Sam.
“Querida, tem muitos modos de deixar de ser imortal.”, ela começou a me explicar, ignorando o olhar de censura de Lucio. “Depende da espécie.”
Por um momento, pensei que Lucio achava que eu usaria isto para desistir da minha imortalidade. Se é que eu tinha.
“Na espécie de Lucio e Gabriel.”, Sam continuou me explicando. “é só parar de se transformar em animais.”, aquilo eu já sabia. “Na minha espécie é um pouco mais complicado.”, Lucio bufou. “Tudo bem. É muito mais complicado.”, ela se corrigiu.
Estava na cara que Lucio preferia pular aquele assunto, mas como ele mesmo havia dito antes, todas as pupilas dele eram rebeldes. Inclusive eu.
“Além de ser complicado, é irreversível.”, Sam disse usando um tom sábio de voz. “Por isso, temos que ter certeza absoluta disto.”, aquilo não estava parecendo mais um aviso. “Não podemos fazer sozinhos.”
"Precisam de um de outra espécie.”, Lucio disse também com um tom sério. “Espécia inimiga.”
“Vampiro.”, eu disse. A resposta era tão óbvia que dizê-la em voa alta parecia burrice.
“Eles não são tão nossos inimigos assim.”, era engraçado como ela ainda se incluía no grupo dos lobisomens. “Mas, voltando ao assunto, precisamos de um vampiro e depois é fácil.”
“E como.”, Lucio confirmou. “Ainda mais no seu caso.” Sam ignorou o comentário de Lucio e continuou falando como se não tivesse sido interrompida.
“No caso do lobisomem, um vampiro o morde e o veneno tira a imortalidade, como se matasse o seu lobo interior.”
“E no caso do vampiro?”, eu perguntei.
“É a mesma coisa, mas envés de morder, o lobisomem apenas o arranha.”, Lucio disse com uma voz entediada.
Mesmo depois dessa aula rápida sobre deixar de ser imortal, eu ainda não via motivos para que Sam tivesse desistido. Pelo entusiasmo que ela falava de sua vida antiga, parecia que ela gostava de ser loba e imortal. Mas desistir por amor? Ela não poderia tê-lo transformado em um lobisomem também?
“Mas, por que você desistiu?”, eu perguntei.
“Como Lucio disse, amor.”, Sam sorriu e suas mãos foram para a barriga. Então, a resposta brilhou em minha mente. Ela não poderia engravidar sendo lobisomem.
“Você queria um filho.”, eu disse sorrindo.
“Mas, não foi só isso. Eu tive um motivo maior para desistir de imortalidade.”, ela olhou para o lado e seu sorriso aumentou ainda mais. “Ele”
Eu acompanhei seu olhar e vi um idoso vindo sorrindo em nossa direção. Pele pálida, magro, mas nem tanto quanto Sam, 1,70 de altura mais ou menos, cabelos tão grisalhos quanto os de Sam e olhos mel. Sem que me dissessem eu soube quem era. Augusto.
“Então você queria envelhecer junto com ele?”, eu sussurrei enquanto Augusto ainda não havia chegado muito perto.
“Mais do que isso.”, Sam disse, sem desviar o olhar de Augusto.
Eu não entendia mais nada. Ela queria envelhece com ele. Ponto. Queria ter filhos. Ponto. O que mais poeria ter? As últimas palavras de Lucio antes de Augusto chegar onde estávamos, esclareceu todas as minhas perguntas.
“Ele era um vampiro.”
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