Carter

4 Nego Drama


Chegou em casa pela manhã. Não era surpresa Cassandra já estar acordada, ela parecia dormir menos do que o necessário, sempre com a cara em um novo livro, descobrindo novos termos que ele nem sempre entendia. Nunca lhe diria, mas a inteligência dela o orgulhava.

— Temos visita – disse, colocando a criança em seu colo no chão.

Em passos desengonçados, Marina correu ao encontro da tia que a segurou no colo e ergueu no alto, beijando-a até que a menina se encolhesse inteira.

Se Isaac havia feito alguma coisa direito, era Marina. Fora um acidente, a namorada tinha só dezessete anos quando aconteceu. Ele tinha acabado de completar dezenove. De repente, ele soube que a filha merecia o mundo. Não importava como, mas precisava dar a ela. Nenhum salário era bom o suficiente, mas trabalhar no morro, vendendo todo o tipo de entorpecente, dando ordens aos menores e segurando uma arma empunha algum respeito e dava a ele o dinheiro que precisava. Com quatro anos Marina estudava em uma das melhores escolas, no bairro vizinho, não lhe faltava roupa ou comida, qualquer presente era possível. Mas as coisas não eram fáceis assim.

Naquela noite o problema com Jonas foi o menor dos seus. Era fácil resolver com uma arma na cintura e um punho forte. “Não mexe com a irmã do cara, mano...”, alguns amigos alertaram e ele sabia, por conta do respeito que empunha, que não aconteceria de novo. Daí passou a madrugada fumando com os parceiros e, por volta da manhã, pegou a filha. Era o final de semana que tinha para ficar com ela.

— Tá todo mundo falando da porra do assalto ao posto de conveniência, Still— era o apelido gringo, o jeito com que a maioria o chamava – Isso não pode chegar aos ouvidos da minha mãe e eu nem tiro a razão dela!

— A razão de me chamar de marginal? Sua mãe esquece que eu coloco comida na mesa de vocês. A pensão da Marina está em dia, não está?!

— Pois enfia esta comida e o dinheiro no cu, Still. Eu não posso confiar em você quando tá envolvido em tanta merda! E se a polícia bate na minha casa? Eu não quero criar a minha filha nesse ambiente de merda.

— Tá, tá, me dá a garota.

E enfim estava em casa. Não havia mais um clima de tensão e devia isso a presença de Marina ali. Depois de receber todo o mimo possível, Cassandra a colocou no chão.

— Onde está a tia Maya? – Quis saber.

— Na laje, querida – Cassandra sorria, tirando de suas costas a mochila e deixando-a em cima do sofá. – Pode subir se quiser.

E, sem demora, a menina deslocou-se para a escada estreita.

Isaac tirou a camisa e deixou também sob o sofá. Seguiu também para a escadaria, já que precisava conversar com a irmã mais nova, mas Cassandra o chamou um pouco antes:

— Quer um café?

Com um sorriso médio, concordou.

A laje dava a eles uma visão geral da comunidade. Casas empilhadas uma sob as outras, as crianças correndo ladeira abaixo, as senhoras pretas e suas sacolas de feira cheia de frutas e vegetais. Era o seu lugar favorito no bairro. Lá em cima sentia que ninguém poderia lhe incomodar, como se os problemas não pudessem subir tão alto.

Maya estava sentada numa das cadeiras de praia. Marina já estava em seu colo, um livro aberto em cima de suas pernas gordas. Lia em voz alta alguma coisa sobre bruxos e varinhas, enquanto a filha sorria para as palavras que nem compreendia. Ao vê-lo, a irmã tentou um sorriso.

— Oi...

— Problema resolvido – Isaac não se deu ao trabalho de cumprimentar de volta, abaixando-se à frente das duas, mas olhando apenas para uma delas – Eu não quero você envolvida com esse tipo de coisa. Combinado? Se precisar de alguma coisa, peça para mim!

— Não da no mesmo? – Respondeu, retoricamente, com uma careta.

— Maya... – bronqueou, mas a expressão logo relaxou – Preciso que prometa.

— Eu prometo, Still...

Com um sorriso breve, ele concordou. Seguiu para o muro sem reboco e acendeu um cigarro, a tempo de Cassandra se aproximar. Esperou por alguma bronca, algo como “não deveria fumar na frente da criança”, mas o que veio foi apenas uma caneca cheia de café.

— Tem bolacha na bandeja, caso queira...

Concordou uma vez, e voltou a observar o paraíso de pedras amontoadas. Foi naquela laje, há quase dez anos atrás, que viu uma estrela cadente, quando muito novo. Surpreendeu-se por estrelas cadentes visitarem o morro, mas não perdeu a oportunidade e fez um pedido. Pediu coisas melhores. Pediu uma vida digna. E, como forma de sacanear, a estrela lhe deu uma arma aos quinze anos. Começou furtando caixas de cereal – era a melhor coisa que já havia comido na vida. Soube que não tinha mais volta quando assaltou um ônibus na cidade grande. Estava perdido. Não sabia como encontrar o caminho de volta.

Mas a filha podia comer cereal todos os dias.

Apagou o tabaco e voltou-se ás irmãs sentadas ali. Maya enrolava um dos cachos de Marina no dedo, enquanto a criança inventava uma história como se pudesse ler o livro em suas pernas. Cassandra tomava também uma xícara de café, enrolada num cobertor velho. Talvez a estrela não tenha sido tão sacana assim.

— Ei, podem ficar com ela hoje à tarde? – Perguntou, sentando-se no muro.

— Você pegou a menina pra deixa-la sozinha aqui? – Cassandra arqueava as sobrancelhas, armando-se daquela marra que só ela tinha – Ela veio para ficar com o pai, Isaac.

— Eu tenho uma entrevista de emprego – sorriu, estufando o peito, como se esperasse os parabéns pela boa ação do dia – Lá na cidade, num prédio de bacanas.

Por um momento a laje ficou silenciosa. Isaac não sabia se daria certo, por quanto tempo aceitaria receber ordem de burguês. Mas precisava tentar. Precisava livrar a filha de vê-lo ser algemado e levado para a cadeia. Evitar ser morto, na porta de casa, como o próprio pai. Ser um exemplo melhor para Maya.

— Bom, eu não tenho nada para fazer – Maya sorriu igualmente, encolhendo os ombros – Eu e Marina vamos dançar a tarde todinha!