Cartas à Você
11 A Bailarina
Notas iniciais
A bailarina encantava não apenas por seus volteios vertiginosos, mas
principalmente por seu olhar de calma, o sossego de um bailar sincrônico
em gestos simétricos.
Matematicamente falando, a bailarina era perfeita. Altura, peso, velocidade
de giro. Esteticamente, nem tanto. (Boatos davam conta de que ela usava
óculos) Mas em simpatia, ela era o arquétipo platônico. Apesar de se
considerar, em verdade, uma boa atriz.
Ó riqueza do possível! Ó promessa dos devaneios! A bailarina ansiava
por holofotes de infindas cores e aplausos de miríades de devotos.
Mas a bailarina sofria com seus pesadelos, e seus rodopios não ocultavam seus temores. Vívidas imagens que assolavam seu repouso, ofertando noites insones. Pois a bailarina sonhava com um amor, e ela temia justamente o amar.
Os sonhos da bailarina eram povoados de príncipes encantados que chegavam em cavalos alados, ou locomotivas vaporosas, em caravanas no deserto, e beijavam os seus pezinhos fabulosos, ou mordiam seus dedinhos fascinantes. Homens inebriados por seu bailado
e seu perfume.
Em seus pesadelos, homens sorridentes adentravam seus aposentos, deitavam-se em sua cama, miravam-se em seu espelho, banhavam-se em sua banheira esmaltada, e gozavam em seus lençóis com motivos florais.
Sentia formigamentos de línguas no céu de sua boca, e mordidas na pontinha da orelha, e abraços sufocantes de ardores invasivos, e implora pela sanidade e pelo conforto da solidão.
Não que a bailarina tivesse um coração gelado, ou que sua sólida solidão não passasse de frieza, mas a sua vida de rodopios exigia a constante expectativa da sempre temida felicidade.
Pois os problemas da bailarina se resumem em que ela não tem problemas. Matematicamente perfeita, esteticamente aceitável, platonicamente simpática.
A bailarina sente os olhares de seus admiradores, imagina seus vultos observadores nas frestas da janela, insinuante nas penumbras, com punhais de prata, invasivos com conselhos de boa saúde e bom viver.
Demasiadamente humana, portanto contraditória, a bailarina odeia porque ama, e esconde em seus seios uma ponta de flecha envenenada, destinada esta aos lábios afoitos de algum pretendente. E seu ódio é a fervura de seu amor. E a crueldade da separação é completada no dia seguinte, pelo sadomasoquismo da reconciliação.
Acompanhada por bichanos felpudos e seus olhares em faíscas, uma vez que lhe aborrece a presença humana, fechada em seus aposentos em mil rodopios de melodias soturnas de vultos solitários e auto-piedosos.
Rodopios e saltos no escuro, sua pele de seda nas pernas de bailarina, nos flexíveis dedos de bailarina, no perfume floral de bailarina.
Mas a bailarina vislumbrava vultos em volta dos cortinados, sólidos punhos no soprar dos ventos noturnos, chamados ao silvar dos comboios, e seu coração se constrange num sufocar de soluços.
Está deitada, insone em lágrimas, e sabe que seu medo é maior que o seu desejo, que seu ódio é maior que seu amor, e desviando a atenção dos olhares de seus felinos, nota no rasgo do cortinado onde surgem seus vestidos entre dedos, suas sapatilhas entre dentes e seus dedinhos entre beijos.
Uma risada, uma língua sinuosa lambendo falanges, mordiscando,devorando, dedo a dedo mastigado, devorado. Em soluços, em orgasmos, se afoga, em rubro pesadelo, a bailarina
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