Notas iniciais
Essa é mais uma carta recuperada. Nomes fictícios. Espero que gostem.

É noite de lua, ainda cresce. O vento sopra fresco e pacato, enxotando as poucas nuvens no céu azeviche; penso em você.

Que tempo é este? É tempo de acordar, e tempo de bom viver. Oh! Bela Alva, menina bela, ainda tenho dúvidas, brotam como água na nascente da cabeceira mais alta e escorrem como sangue que jorra da ferida aberta, tomando forma, disformando...

Romântico, peremptoriamente não o sou. Sem utopias e desejos distantes, procuro o palpável nauquela que muitas vezes caminha a meu lado.

Que tempo é este? De contradições, de silêncio com as palavras; resta-me, com o último, as letras escritas para expressão do que inibes em mim. Falo da incapacidade de lhe falar; o que acontece? Ora, deixo para depois o que quero viver agora. Existe um entrave sabes qual é? Sim, sabemos. Tão perto de teus lábios e quando ao seu encontro me presto, encontro o adiamento do presente. "Deixa para depois", penso.

Não sofro, tenho vergonha e menosprezo tal sentimento. Gosto do inanimado pela sua inação, no entando, sinto-te dentro de mim remexendo meus ânimos; me revitalizas, pois vida é movimento.

Hoje sinto-me tranquilo; a conformidade também traz tranquilidade. Já não mais faço esforços para entender, é energia desperdiçada. Em muito as situações me parecem claras, as palavras tão certas, o desenrolar dos fatos previsíveis e basta uma nova aurora para que todas desapareçam e as inconstâncias prevaleçam. Esvazio minha mente, não penso, muito menos premedito as situações e assim as frustrações desaparecem, vive-se melhor. Exigimos muito das circunstâncias, da vida em si e não nos doamos a elas.

Não espero e não quero muito do outro e ergo com minha vontade de potência o pouco que me cabe; um legado.

Concebo, depois de muito, uma Fernanda mais simples e acessível, o que me agrada e faz aproximar-me. É certo que em meio à tantos dons e atributos que a diferem do comum consideravelmente, há aquela com fraquezas e medos, um ser que ama e sofre, deficiente muitas vezes, mas de potencial imensurável, digna de admiração pela forma como conduz vidas análogas e tua própria. Muito me vi em ti. Sou Fernanda.

Somos todos insuficientes e deficientes, buscando no outro parte (s), o complemento que nos falta, o que torna as relações jogos de interesse.

Lendo, relendo teus poemas, traçando paralelos com o quanto te mostras para um pouco do mundo com palavras escolhidas ou só sentidas, "escrutinando as vilas de teu sossego", idealizo uma mão estendida, ora com apalma voltada para cima em sentido de doação, ora esta mesma em ação de alcançar algo. Enxergo a mão estendida, mão que tento alcançar e não a encontro. O que nos resta? A mim o onírico; sim. nos sonhos flue de maneira mais simples.

Não gosto de sentir tais coisas; sinto. É arriscado mostrar-se desta maneira, fica-se vulnerável. Mas e daí?! Jogo com as situações, acredito na dualidade desta e a desgraça não é completa quando tiramos algo dela. Como necessariamente sempre tiramos, logo, a concepção de "desgraça completa" é um sofisma.

Gosto de tê-la por perto, nem sempre escolhemos a maneira. És harmonia e paz que me traz. Existem forças paralelas que regem a cada um e que com frequência anulam nossas próprias e nos esterilizam, inibem nossas ações; mas não precisa ser sempre assim.

O que pretendo com esta? Não muito; comunicar-me contigo, colocar-te em sintonia com a frequência que rege este quadro vivido, quadro pintado, borrado. Entenda, é um diálogo de alma que proponho, acima da medíocre palavra frágil, que quado expurgada de nossas bocas, tomam formas deturpadas na "realidade". Quando o contato fixa-se na alma, precede e antecipa a matéria, se faz límpida então as chances de compreensão do sentimento — essência e não nos prestam ao "erro" do engano, o mais novo engano, que é uma constante.

Começar sempre cansa, por tal não busco. Chega dos enganos, é tempo de dar continuidade, perpretar o já plantado, deixa-se levar pelo fluxo que encaminha ao "fim" inevitável.

Nos dizemos amar o outro e comumente o que vejo são surtos de carência egoística do tido amado. Amar é instigar o crescimento do outro com liberdade. Possuimos arraigados intintos de auto-preservação e todo e qualquer sentimento que nos floresça, permeado por este instinto. O interesse próprio em certo sentido, e, de maneira particular, a auto-preservação, governa toda a conduta humana. Mas se chego a tal conclusão, também, em contraponto afirmo que pode sim ser esta uma verdade suplantável.

Por sermos seres instáveis, também nosso amor ao outro é turbulento e inquietador; a falta de saúde espiritual e os infortúnios podem ser atribuídos, geralmente, ao excessivo amor de algo que está sujeito a muitas variações. "Todas as coisas excelentes são tão difíceis como raras", dizia Spinoza e é assim para com o amor "ideal": difícil não porque está longe, mas sim pela incompreensão e ignorância por parte daqueles que se prestam a sentí-lo em si e no outro; raro por ser difícil.

Por fim poderia definí-la em uma máxima: "És tão complexa que beira à simplicidade".

Esta é então um manifesto aquela que como num atropelo entrara em minha vida, que aprendi a gostar com todas peculiaridades de uma persona única, d' uma relação que transcende as barreiras da vida, tomando proporções para a eternidade.

Falo-te porque te amo.

Notas finais
Para quem gostou, comente. Para quem não gostou, comente também. E até a próxima. Beijinhos